Por que comunicação e registros são parte do cuidado pós-operatório
No pós-operatório, a equipe toma decisões com base no que foi observado, medido, comunicado e registrado. Registros de enfermagem bem feitos reduzem omissões, sustentam a continuidade do cuidado entre turnos e embasam o escalonamento oportuno de intercorrências. A comunicação estruturada (ex.: SBAR) diminui ruídos, padroniza prioridades e facilita a tomada de decisão multiprofissional.
Princípios de um registro objetivo e completo
- Objetividade: descreva fatos observáveis e mensuráveis (valores, horários, volumes, localização, aspecto). Evite termos vagos como “bem”, “regular”, “melhor”.
- Completude com foco: registre o essencial para o acompanhamento seriado: o que foi avaliado, o que mudou, o que foi feito e qual foi a resposta.
- Rastreabilidade: inclua data/hora, identificação do profissional, local (SRPA/enfermaria), e relação temporal entre evento–intervenção–reavaliação.
- Coerência: dados devem “conversar” entre si (ex.: débito de dreno compatível com curativo; balanço hídrico compatível com diurese e infusões).
- Padronização: use escalas e campos fixos (dor, sedação, náusea, risco) para permitir comparação entre avaliações.
- Segurança legal e ética: sem rasuras; correções conforme norma institucional; sem julgamentos, ironias ou atribuição de culpa; registre orientações dadas e compreensão do paciente/família quando pertinente.
O que registrar no acompanhamento pós-operatório (sem omissões)
Avaliações seriadas: como documentar a evolução
O valor do registro está na série (tendência) e não apenas no dado isolado. Estruture cada avaliação com: horário → achados → interpretação clínica de enfermagem (quando aplicável) → conduta → reavaliação.
Exemplo de frase objetiva: “14:00 – Paciente alerta, orientado, refere dor 7/10 em incisão ao mobilizar. Administrado analgésico conforme prescrição às 14:05. Reavaliado 14:35: dor 3/10, sem náuseas, tolerou mudança de decúbito.”
Escalas essenciais (dor e sedação): registro padronizado
Registre sempre escala utilizada, pontuação, contexto (repouso/movimento) e resposta após intervenção.
- Dor: use escala numérica (0–10) ou outra adotada pela instituição. Registre local, tipo (pontada/queimação), fator desencadeante, e impacto funcional (tosse, deambulação, respiração profunda).
- Sedação: registre a escala institucional (ex.: RASS ou Ramsay). Importante para segurança quando há opioides/sedativos: pontuação, nível de responsividade e necessidade de reavaliação mais frequente.
Modelo de registro curto: “Dor EN 6/10 ao tossir; 2/10 em repouso. Sedação RASS -1 (sonolento, desperta ao chamado).”
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Débito de drenos: como registrar para permitir decisão clínica
Para cada dreno, registre separadamente:
- Tipo e localização (ex.: sucção/gravidade; lado; sítio).
- Volume por período (mL/turno e/ou mL/h quando indicado).
- Aspecto (serossanguinolento, hemático, bilioso, purulento), presença de coágulos, odor.
- Condições do sistema (compressão/sucção mantida, conexões íntegras, fixação, permeabilidade).
- Condutas (esvaziado, mensurado, reestabelecida sucção, comunicado).
Exemplo: “Dreno JP abdome D: 60 mL/12h, serossanguinolento, sem coágulos; sucção mantida, fixação íntegra; esvaziado e mensurado às 07:00 e 13:00.”
Curativos: registro orientado a achados e conduta
Mesmo quando não há troca, registre inspeção e integridade. Estruture por: local → condição do curativo → pele ao redor → exsudato → conduta.
Exemplo: “Curativo incisão infraumbilical limpo, seco e oclusivo; bordas aderidas; halo de exsudato seroso ~1 cm sem progressão desde 08:00; pele perilesional íntegra; mantido e reforçado com gaze.”
Balanço hídrico: registro que permita auditoria e tomada de decisão
O balanço deve ser fechável (entradas e saídas somam e batem com horários). Registre:
- Entradas: VO (quando mensurável), EV (soro, medicações em volume, hemoderivados), nutrição enteral/parenteral.
- Saídas: diurese, vômitos, evacuações líquidas (quando mensurável), drenos, aspiração gástrica, perdas estimadas conforme protocolo.
- Parciais por horário e total do turno, com saldo.
Dica prática: sempre que houver um volume “fora do padrão” (ex.: diurese muito baixa/alta, drenagem abrupta), registre junto o contexto (medicação, mobilização, troca de bolsa, obstrução suspeita) e a ação tomada.
Intercorrências e resposta às intervenções: como escrever com clareza
Intercorrência deve ser registrada como uma sequência lógica:
- O que aconteceu (sinal/sintoma/dado mensurável e horário).
- O que foi avaliado (checagens realizadas, escala aplicada, inspeções).
- O que foi feito (intervenções de enfermagem e medidas conforme prescrição/protocolo).
- Quem foi comunicado (médico, anestesista, fisioterapia, enfermeiro responsável) e quando.
- Qual foi a resposta (reavaliação com tempo definido).
Exemplo de intercorrência (formato SOAP simplificado):
S: 16:20 – Refere tontura ao sentar, náusea leve. Dor 4/10. O: PA 90/58, FC 108, pele fria, dreno 20 mL/1h serossanguinolento, curativo sem aumento de exsudato. A: Intolerância ortostática/hipotensão. P: Reposicionado em decúbito, elevadas MMII, ofertado O2 conforme protocolo institucional se indicado, reavaliado SV em 5 min, comunicado enfermeiro e médico às 16:25. Reavaliação 16:35 – PA 102/66, FC 96, náusea 0/10, mantém vigilância e orientado levantar com auxílio.Comunicação com a equipe multiprofissional: SBAR na prática
Estrutura SBAR (Situação, Background, Avaliação, Recomendação)
SBAR é um padrão para ligações, chamadas e solicitações presenciais, especialmente útil quando há mudança clínica, necessidade de prescrição/conduta ou risco de deterioração.
| Elemento | O que dizer | Exemplo objetivo |
|---|---|---|
| S Situação | Quem é o paciente e o problema atual | “Paciente no PO de colecistectomia, com queda de PA e taquicardia agora.” |
| B Background | Contexto relevante (tempo de PO, comorbidades, dispositivos, medicações recentes) | “PO 6h, em uso de analgesia com opioide, dreno JP em FID, sem alergias registradas.” |
| A Avaliação | Dados objetivos e sua leitura de enfermagem | “PA 88/54 repetida, FC 112, pele fria, diurese 20 mL nas últimas 2h, dreno 80 mL/2h serossanguinolento.” |
| R Recomendação | O que você precisa agora (avaliar, prescrever, vir ao leito, exames) | “Solicito avaliação imediata no leito e orientação de conduta; posso iniciar protocolo institucional de reposição/monitorização?” |
Passo a passo para uma chamada SBAR eficiente
- Prepare-se antes de ligar: tenha em mãos identificação, procedimento, tempo de PO, últimos sinais vitais seriados, dor/sedação, balanço hídrico, débito de drenos e medicações recentes.
- Comece com a Situação em uma frase: problema + gravidade + tempo (“agora”, “há 30 min”).
- Informe o Background apenas relevante: evite narrativas longas; foque no que muda conduta.
- Entregue a Avaliação com números: inclua tendências (“caiu de 110/70 para 88/54”).
- Faça uma Recomendação clara: “avaliar agora”, “prescrever antiemético”, “rever analgesia”, “solicitar gasometria”, conforme necessidade e protocolos.
- Feche com confirmação: repita a conduta combinada e o prazo (“então, o senhor virá em até 10 min; manterei monitorização a cada 5 min”).
Passagem de plantão no pós-operatório: como reduzir perdas de informação
Elementos mínimos de uma passagem segura
Use um roteiro fixo (checklist) e mantenha a passagem orientada por risco. Itens essenciais:
- Identificação e contexto: procedimento, tempo de PO, restrições (dieta, mobilização), precauções.
- Estado atual e tendências: sinais vitais seriados relevantes, dor e sedação com escala e resposta às últimas intervenções.
- Dispositivos: acessos, drenos (volume/aspecto/última mensuração), curativos (condição), cateteres/sondas (quando houver).
- Balanço hídrico do turno: entradas/saídas, saldo, eventos (vômito, diurese baixa, drenagem aumentada).
- Intercorrências: o que ocorreu, o que foi feito, quem foi comunicado e pendências.
- Plano para o próximo turno: horários críticos (medicações, reavaliações), metas (deambulação assistida, controle de dor), exames/consultas aguardadas.
Modelo de checklist de passagem de plantão (copiável)
PASSAGEM DE PLANTÃO – PÓS-OPERATÓRIO (checklist) 1) Identificação: nome/leito, procedimento, PO (horas/dias). 2) Risco atual: principais preocupações do turno (ex.: sangramento, depressão respiratória, NVPO, hipotensão). 3) Dor e sedação: escala, último valor, intervenção e resposta. 4) Sinais vitais: tendência e horários de maior alteração. 5) Dispositivos: acessos (tipo/local), drenos (tipo/local, mL/turno, aspecto), curativos (condição), outros. 6) Balanço hídrico: entradas, saídas, saldo, eventos relevantes. 7) Intercorrências: resumo em 2–3 linhas + condutas + pendências. 8) Plano do próximo turno: reavaliações programadas, metas e comunicações necessárias.Critérios de escalonamento: quando e como acionar rapidamente
Escalonar é comunicar precocemente sinais de deterioração ou falha terapêutica. Use critérios institucionais (ex.: MEWS/NEWS quando adotados) e, na ausência, padronize gatilhos de comunicação baseados em mudança e tendência.
Gatilhos práticos para escalonamento (exemplos)
- Mudança aguda do nível de consciência ou sedação além do esperado para o esquema analgésico.
- Dor desproporcional ou refratária após intervenções previstas, especialmente se associada a sinais autonômicos (sudorese, palidez) ou alteração funcional importante.
- Alterações hemodinâmicas persistentes ou progressivas apesar de medidas iniciais e reavaliação seriada.
- Aumento abrupto do débito de dreno ou mudança relevante do aspecto (ex.: mais hemático, presença de coágulos, odor fétido), principalmente com sinais sistêmicos.
- Sangramento em curativo com progressão rápida ou saturação repetida em curto intervalo.
- Oligúria persistente ou queda importante da diurese associada a sinais clínicos.
- Vômitos persistentes com risco de aspiração, incapacidade de manter via oral quando necessária, ou falha de antieméticos prescritos.
- Febre/hipotermia com sinais associados e piora do estado geral.
Como registrar o escalonamento: “Comunicado Dr(a). X às 18:10 via telefone, SBAR realizado, conduta: coletar exames conforme solicitação, manter monitorização a cada 15 min, reavaliar dor/sedação em 30 min.”
Modelos de evolução de enfermagem (prontos para adaptar)
Modelo 1 – Evolução focada em sistemas (curta e seriada)
Data/Hora: ____ Identificação/PO: ____ Geral: alerta/orientado, queixa principal: ____ Dor: escala ____ = __/10 (repouso/movimento), intervenção: ____, resposta em ____ min: ____ Sedação: escala ____ = ____ Dispositivos: acesso ____ (permeável/sem sinais locais); dreno ____: ____ mL/turno, aspecto ____, sistema íntegro; curativo ____: ____ Balanço hídrico (turno): entradas ____ mL / saídas ____ mL / saldo ____ mL Intercorrências: ____ Comunicações: ____ (quem/horário/conduta) Plano: reavaliar ____ em ____; manter ____; pendências ____.Modelo 2 – Evolução por Problema/Intervenção/Resposta (PIR)
P (Problema): Dor moderada ao mobilizar (EN 6/10) + sedação leve (RASS -1). I (Intervenções): Analgesia conforme prescrição às 10:10; medidas não farmacológicas (posicionamento, orientação de respiração); monitorização de sedação e FR conforme protocolo. R (Resposta): 10:40 – Dor EN 3/10, RASS 0, sem náuseas, tolerou sentar à beira do leito com auxílio.Modelo 3 – Registro de intercorrência com reavaliação obrigatória
Evento (hora): ____ Achados objetivos: ____ Ação imediata: ____ Comunicação: ____ (SBAR) Conduta recebida: ____ Reavaliação (hora): ____ (dados) Situação atual: ____ Próximos passos: ____.Checklists práticos para reduzir omissões (uso no turno)
Checklist de registro por turno (pós-operatório)
- Registrar dor (escala + contexto) e reavaliação pós-intervenção
- Registrar sedação (escala) quando em uso de opioides/sedativos
- Registrar sinais vitais com tendência (pelo menos 2 pontos no turno quando aplicável)
- Registrar curativo: condição + exsudato + conduta
- Registrar drenos: volume por período + aspecto + integridade do sistema
- Fechar balanço hídrico: entradas/saídas/saldo + eventos relevantes
- Registrar intercorrências em sequência (evento→ação→resposta)
- Registrar comunicações e condutas acordadas (quem/horário)
- Registrar pendências e plano do próximo período
Checklist “antes de chamar o médico” (para SBAR completo)
- Identificação do paciente, procedimento e tempo de PO
- Últimos sinais vitais e tendência (com horários)
- Dor e sedação (escala e valores)
- Balanço hídrico do turno e diurese recente
- Débito de drenos (últimas horas) e aspecto
- Condição do curativo e presença de sangramento
- Medicações recentes relacionadas ao evento (analgésicos/antieméticos/fluídos)
- O que você precisa (avaliação no leito, prescrição, exame, ajuste de conduta)
Indicadores essenciais de enfermagem no acompanhamento pós-operatório
Indicadores ajudam a monitorar qualidade e segurança do cuidado, identificar falhas de processo e orientar melhorias. Devem ser mensuráveis, comparáveis e ligados a ações de enfermagem.
Indicadores de processo (o que foi feito e registrado)
- Adesão ao registro de dor com reavaliação: % de pacientes com dor registrada + reavaliação em tempo definido após intervenção.
- Adesão ao registro de sedação em pacientes com opioides/sedativos: % com escala documentada no turno.
- Completude do balanço hídrico: % de turnos com entradas/saídas/saldo fechados e assinados.
- Registro de débito de drenos por período: % com volume e aspecto documentados conforme protocolo.
- Passagem de plantão com checklist: % de plantões com checklist preenchido/validado.
Indicadores de resultado (o que aconteceu com o paciente)
- Controle de dor adequado: % de pacientes com dor ≤ meta definida (ex.: ≤3/10) após intervenção.
- Eventos adversos relacionados à sedação/analgesia: taxa de episódios de sedação excessiva documentada e necessidade de intervenção.
- Intercorrências pós-operatórias com escalonamento oportuno: tempo entre detecção e comunicação/conduta registrada.
- Integridade de registros em auditoria: taxa de não conformidades (campos críticos ausentes: horário, reavaliação, volumes, condutas).
Como coletar e usar indicadores no dia a dia (passo a passo)
- Defina campos críticos no prontuário (dor, sedação, drenos, curativo, balanço, intercorrências).
- Padronize metas e tempos (ex.: reavaliar dor em 30–60 min conforme via/medicação e protocolo).
- Audite amostras pequenas semanalmente (ex.: 10 prontuários/semana) com checklist de conformidade.
- Devolva o resultado à equipe com foco em processo (“faltou reavaliação”) e não em culpabilização.
- Implemente correções simples (campos obrigatórios, lembretes no posto, modelos de evolução) e reavalie o indicador.
Erros comuns de registro e como corrigir
- Erro: “Paciente bem, sem queixas.” Correção: “Refere dor EN 0/10 em repouso; sem náuseas; curativo limpo e seco; dreno 15 mL/6h seroso; SV estáveis no período.”
- Erro: registrar intervenção sem reavaliação. Correção: sempre incluir “reavaliado em…” com dado objetivo.
- Erro: volumes sem período (“dreno 100 mL”). Correção: “100 mL/12h” ou “40 mL/2h” + horário da mensuração.
- Erro: não registrar comunicação. Correção: “Comunicado enfermeiro/médico às __:__ via __; conduta: __.”
- Erro: termos subjetivos (“curativo feio”, “paciente agitado”). Correção: descrever achados (“curativo com exsudato purulento amarelado, odor fétido”; “RASS +2, tenta retirar acesso”).