Corte, preparação de bordas e ajuste de encaixes em estruturas metálicas leves

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que a preparação de peças define o alinhamento

Em estruturas metálicas leves (tubos, cantoneiras e perfis finos), o alinhamento final não depende apenas do esquadro e do gabarito: ele começa no corte e na preparação das bordas. Um corte fora de esquadro, uma rebarba “levantando” a peça, carepa/óxido na região de solda ou folgas inconsistentes criam erros cumulativos. O resultado típico é um quadro que “fecha” em uma diagonal e “abre” na outra, ou que parece alinhado na bancada, mas empena ao pontear.

O objetivo desta etapa é deixar as peças com: (1) extremidades com ângulo correto, (2) faces de contato planas e sem rebarbas, (3) região de solda limpa, (4) chanfros quando necessários, e (5) folgas controladas para que a montagem a seco fique estável e repetível.

Sequência recomendada de trabalho (para evitar retrabalho)

1) Cortar

Realize os cortes conforme o plano, priorizando repetibilidade (mesmo método e referência para peças iguais). Em perfis leves, pequenas variações de 1–2 mm já aparecem em diagonais e esquadros.

2) Identificar peças imediatamente

Assim que cortar, marque cada peça com identificação simples (ex.: L1, L2 para longarinas; T1, T2 para travessas; “A” e “B” para lados). Isso evita misturar peças semelhantes com comprimentos quase iguais.

3) Conferir comprimentos e ângulos

Antes de qualquer preparação fina, confira se as peças estão dentro da tolerância do projeto. Se houver diferença, corrija agora, quando ainda não há chanfro e a borda está “bruta”.

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4) Separar por lados e conjuntos

Separe as peças em pares (lado esquerdo/direito; superior/inferior). Isso ajuda a manter simetria e reduz a chance de montar uma peça “mais curta” no lado errado.

5) Montar a seco (sem ponteamento)

Monte o conjunto com esquadros/gabaritos e verifique encaixes, folgas e diagonais. Só depois disso avance para ponteamento. A montagem a seco é onde você descobre se o alinhamento é alcançável com ajustes simples.

Esquadrejamento do corte: como garantir extremidades “a 90°” (ou no ângulo previsto)

Um corte “torto” cria contato parcial entre as peças. Ao apertar com sargento, a peça tende a girar; ao soldar, o cordão “puxa” e o erro aumenta.

Como identificar corte fora de esquadro

  • Teste de encosto: encoste duas peças cortadas “iguais” ponta com ponta. Se houver abertura em um lado, o corte não está perpendicular.
  • Verificação com esquadro: apoie o esquadro na face do perfil e observe se há luz entre o esquadro e a extremidade cortada.
  • Diagonais na montagem a seco: se as diagonais variam e você já conferiu medidas, suspeite de ângulos de corte.

Correção prática (sem comprometer a geometria)

Use correções pequenas e controladas. O objetivo é “trazer” o ângulo, não encurtar demais.

  • Lixadeira/esmerilhadeira: para tirar material em pontos específicos. Trabalhe em passes curtos, conferindo frequentemente.
  • Lima: para ajuste fino, principalmente em tubos de parede fina e encaixes que exigem contato uniforme.

Dica de controle: marque com caneta a face a ser corrigida e faça 2–3 passes; depois confira novamente. Evite “corrigir no olho” por longos períodos.

Remoção de rebarbas: o que atrapalha no encaixe e no alinhamento

Rebarbas e “lábios” de corte impedem que a peça assente totalmente na bancada ou no gabarito. Mesmo uma rebarba pequena pode criar um ponto de apoio que muda o ângulo do conjunto.

Passo a passo para desbaste de rebarbas

  1. Inspecione com o dedo (com cuidado) e visualmente: procure bordas levantadas, cantos “afiados” e respingos de corte.

  2. Quebre a quina: faça um chanfro leve (apenas para tirar a aresta viva) com lixadeira ou lima. Não é chanfragem de solda; é apenas remoção de rebarba.

  3. Garanta face de apoio plana: se a rebarba estiver na face que encosta na outra peça, remova até o contato ficar uniforme.

Erro comum: remover rebarba só “por fora” e esquecer a parte interna do tubo/perfil, que pode impedir encaixes e interferir em gabaritos.

Limpeza de carepas e óxidos na região de solda

Carepa, tinta, oxidação e sujeira na região de solda prejudicam a fusão e aumentam a chance de porosidade. Além disso, uma superfície irregular pode alterar a folga real entre as peças, afetando o posicionamento durante o ponteamento.

Onde limpar

  • Na linha de solda: limpe uma faixa ao redor da junta (dos dois lados), suficiente para o cordão e para o retorno do calor.
  • Nas faces de contato: se a junta for de topo ou meia-esquadria, limpe onde haverá encosto direto.

Como limpar (método prático)

  • Escova de aço/disco apropriado: para remover óxido superficial e carepa leve.
  • Lixamento: para expor metal limpo quando houver oxidação mais forte ou tinta.
  • Desengraxe: quando houver óleo/graxa, limpe antes do lixamento para não “espalhar” contaminantes.

Critério visual: metal com aspecto uniforme, sem pontos escuros soltos, sem película brilhante de óleo e sem tinta na zona de solda.

Chanfragem quando necessária: quando fazer e como controlar

Em estruturas leves, muitas juntas são de filete (canto) e não exigem chanfro. A chanfragem é indicada quando você precisa de maior penetração em juntas de topo, quando a espessura pede preparo de borda, ou quando o projeto exige cordão com maior seção.

Quando considerar chanfrar

  • Junta de topo com necessidade de penetração e acesso ao fundo da junta.
  • Espessura maior (comparada ao restante do conjunto) onde um filete superficial não atende.
  • Reparo/correção em que será necessário refazer solda com melhor acesso.

Passo a passo de chanfragem controlada

  1. Defina o tipo de chanfro: em geral, chanfro simples em uma borda ou em ambas, conforme acesso e necessidade.

  2. Marque a área: uma linha guia ajuda a manter regularidade e evita “comer” demais.

  3. Desbaste em passes: faça passes leves com esmerilhadeira, mantendo ângulo constante.

  4. Conferência do encaixe: junte as peças e verifique se a raiz e a folga estão coerentes com o processo de solda previsto.

Atenção: chanfrar demais em perfil leve enfraquece a borda e aumenta a chance de deformação no ponteamento. O chanfro deve ser o mínimo necessário para atender a solda.

Controle de folgas: como evitar “puxar” o quadro no ponteamento

Folga é o espaço entre peças na junta. Em estruturas leves, folgas variáveis fazem o conjunto “andar” quando aquecido: onde há mais abertura, o cordão tende a preencher mais e contrair mais, puxando o alinhamento.

Boas práticas para folga consistente

  • Padronize o encaixe: se a junta é de topo, mantenha a mesma folga ao longo de toda a união.
  • Evite contato em um ponto só: contato pontual cria alavanca e muda o ângulo ao apertar.
  • Use calços/limitadores quando necessário: para repetir a mesma folga em várias peças iguais.

Diagnóstico rápido na montagem a seco

  • Folga “abre e fecha” ao apertar: indica corte fora de esquadro, rebarba ou empeno local.
  • Folga grande em uma ponta e zero na outra: indica diferença de comprimento, ângulo errado ou peça invertida (lado trocado).

Como identificar e corrigir pequenas diferenças de comprimento e ângulo

Diferenças pequenas são comuns após o corte, especialmente em lotes de peças. O segredo é corrigir sem “inventar” novas referências e sem alterar a geometria do conjunto.

Diferença de comprimento (peça ligeiramente maior)

Sintoma: a peça “não entra” no gabarito, força o esquadro, ou a diagonal fica maior do lado da peça longa.

Correção:

  1. Confirme a referência: meça novamente usando o mesmo ponto de referência do projeto (sempre na mesma face).

  2. Marque o excesso: marque o quanto precisa remover e em qual extremidade (preferencialmente na extremidade que não afeta furações/encaixes futuros).

  3. Remova pouco por vez: use esmerilhadeira/lixadeira para tirar material gradualmente, mantendo o corte em esquadro.

  4. Reconfira e repita: ajuste até a peça assentar sem forçar.

Evite: “compensar” a peça longa abrindo folga na junta. Isso transfere o problema para o ponteamento e para as diagonais.

Diferença de comprimento (peça ligeiramente menor)

Sintoma: aparece uma folga excessiva em uma junta, ou o conjunto perde simetria.

Como agir:

  • Se houver peça par: verifique se a peça curta foi trocada de lado com outra (identificação ajuda aqui).
  • Se a folga ficar fora do aceitável: o mais correto é recortar a peça. Evite “esticar” com ponteamento, pois o calor e a contração tendem a piorar o desalinhamento.
  • Se a diferença for mínima e o projeto permitir: redistribua a folga de forma controlada (com calços) para não concentrar abertura em um único ponto.

Diferença de ângulo (meia-esquadria ou cortes angulados)

Sintoma: as faces encostam em um lado e abrem no outro, mesmo com comprimentos corretos.

Correção com lixadeira/esmerilhadeira:

  1. Identifique o lado alto: feche a junta e observe onde encosta primeiro.

  2. Marque a área de contato: essa é a região a ser removida.

  3. Desbaste em microajustes: poucos passes e nova conferência. O objetivo é fazer a junta encostar por igual.

Correção com lima (ajuste fino): útil quando a junta já está quase perfeita e você quer evitar remover material demais.

Montagem a seco: checklist antes do ponteamento

Antes de qualquer ponto de solda, a montagem a seco deve “parar” no lugar certo sem esforço excessivo.

  • Peças identificadas e posicionadas: lados corretos e orientação correta.
  • Comprimentos conferidos: pares iguais realmente iguais.
  • Extremidades esquadrejadas: sem luz evidente no esquadro.
  • Sem rebarbas nas faces de apoio: peça assenta plana.
  • Região de solda limpa: sem carepa/óxido/tinta na faixa de solda.
  • Folgas consistentes: juntas repetíveis, sem “abrir/fechar” ao prender.
  • Diagonais coerentes: se for um quadro, as diagonais devem ficar próximas; se não ficam, volte para corte/ângulo/encaixe antes de pontear.

Exemplo prático: preparando um quadro retangular de tubo leve

Cenário

Você tem 2 longarinas e 2 travessas cortadas. Na montagem a seco, uma diagonal fica maior e uma junta apresenta abertura em um canto.

Diagnóstico e correção

  1. Verifique identificação e lados: confirme que as duas longarinas são o par e as duas travessas são o par.

  2. Compare comprimentos do par: se uma longarina for 1 mm maior, ajuste essa peça (não “forçe” no gabarito).

  3. Cheque esquadro do corte no canto com abertura: encoste o esquadro na extremidade. Se houver luz, corrija o ângulo com desbaste leve.

  4. Remova rebarba na face de contato: rebarba pode simular “ângulo errado”. Faça a limpeza e teste novamente.

  5. Limpe a zona de solda: deixe pronto para ponteamento sem precisar mexer depois (mexer após alinhar costuma deslocar).

  6. Remonte a seco e reconfira diagonais: só avance quando o conjunto estiver estável e repetível.

Ferramentas de ajuste e quando usar cada uma

FerramentaMelhor usoCuidados
LixadeiraRemoção leve e rápida de rebarbas e pequenos ajustesEvitar arredondar cantos que precisam encostar planos
EsmerilhadeiraCorreções de ângulo e remoção de excesso de comprimentoTrabalhar em passes curtos; conferir frequentemente para não encurtar demais
LimaAcabamento fino em encaixes e correções pequenasManter a lima plana para não criar “barriga” na face
Escova de aço/disco de limpezaRemover óxido/carepa e preparar região de soldaNão “polir” contaminante; limpar até metal consistente

Rotina prática resumida (para repetir em qualquer estrutura leve)

1. Cortar as peças do conjunto 2. Identificar cada peça (lado e posição) 3. Conferir comprimentos e ângulos 4. Corrigir excessos (comprimento/ângulo) com desbaste controlado 5. Remover rebarbas internas e externas 6. Limpar carepa/óxidos/tinta na zona de solda 7. Chanfrar somente quando necessário e de forma mínima 8. Separar por lados/conjuntos e montar a seco 9. Verificar encaixes, folgas e diagonais 10. Somente então seguir para ponteamento

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a montagem a seco de um quadro com tubos leves, você percebe que a folga da junta “abre e fecha” ao apertar com o sargento. Qual é a interpretação mais adequada e a ação recomendada antes do ponteamento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Folga que varia ao prender costuma apontar corte fora de esquadro, rebarba ou empeno, que desestabilizam o encaixe. A correção deve ser feita antes do ponteamento, com ajustes pequenos e conferência frequente, para evitar “puxar” o alinhamento.

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Conferência de esquadro em quadros e molduras metálicas usando esquadros e linhas de referência

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