O que é controle social no SUAS (no município)
Controle social é a participação organizada da sociedade na definição, acompanhamento e fiscalização da política de Assistência Social. No SUAS, ele acontece principalmente por meio do Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS) e das Conferências de Assistência Social, com presença e voz de usuários, trabalhadores, entidades e gestão. Na prática, controle social significa: decidir prioridades, acompanhar se o que foi planejado está sendo executado, verificar se os recursos estão sendo usados conforme as regras e se os serviços ofertados têm qualidade e respeitam direitos.
No nível local, controle social não é “opinião informal” nem “fiscalização punitiva”: é um componente da gestão pública democrática, com regras, atas, deliberações e instrumentos de transparência.
Como se organiza o controle social no município
1) Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS)
O CMAS é a instância permanente e deliberativa do controle social na Assistência Social. Ele funciona com base em lei municipal e regimento interno, reúne representantes do governo e da sociedade civil e delibera sobre temas centrais da política no município.
- Composição paritária: em regra, metade governo e metade sociedade civil (usuários, trabalhadores e entidades/organizações). A forma exata deve estar na lei local e no regimento.
- Reuniões: ordinárias (calendário fixo) e extraordinárias (quando necessário), com pauta, quórum e atas.
- Comissões: grupos menores para aprofundar temas (ex.: orçamento e fundo, normas e acompanhamento, rede socioassistencial, acompanhamento de deliberações).
2) Conferências Municipais de Assistência Social
As conferências são espaços periódicos e ampliados de participação social para avaliar a política e propor diretrizes. Mobilizam usuários, trabalhadores, entidades e gestão, e produzem propostas que orientam decisões do conselho e prioridades locais.
- Etapas: preparação (mobilização e diagnóstico), realização (debates e votação de propostas), sistematização (relatório final), acompanhamento (monitorar o que foi encaminhado).
- Resultados: propostas e, quando previsto, eleição de delegados para etapas seguintes.
3) Participação de usuários e trabalhadores
Usuários e trabalhadores não participam apenas “como convidados”. A participação se materializa em assentos no conselho, presença nas conferências, audiências e consultas públicas, além de espaços de escuta e devolutiva no território (reuniões comunitárias, fóruns, grupos de usuários, encontros com trabalhadores).
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Para que a participação seja real, é importante garantir: acessibilidade (horário, transporte, linguagem clara), informação prévia, respeito à fala e registro das contribuições.
Atribuições centrais do CMAS na prática
Deliberação e normatização local
Deliberar é decidir formalmente, por meio de resoluções e registros em ata, sobre temas que orientam a política municipal. Exemplos de decisões típicas do CMAS incluem: aprovar instrumentos de gestão quando exigido, pactuar prioridades, estabelecer critérios e normas complementares locais (quando cabível) e definir diretrizes para a rede socioassistencial.
Acompanhamento do Fundo Municipal de Assistência Social
O CMAS acompanha a movimentação e a execução do Fundo Municipal: planejamento de uso, execução, saldos, reprogramações e compatibilidade com as deliberações e com as finalidades da Assistência Social. O foco é verificar se o recurso está sendo aplicado com aderência às normas e às prioridades pactuadas.
O que o conselho costuma analisar: demonstrativos de execução, relatórios financeiros, extratos e conciliações, justificativas de reprogramação, compatibilidade entre despesas e ações/serviços, e evidências de que a execução atende ao interesse público.
Monitoramento da rede socioassistencial
Monitorar a rede significa acompanhar se os serviços, programas, projetos e benefícios estão sendo ofertados conforme padrões de qualidade, com cobertura adequada e sem barreiras de acesso. O CMAS pode solicitar informações, realizar visitas técnicas (quando previsto), promover reuniões com unidades e entidades e acompanhar indicadores e evidências de funcionamento.
Exemplos de pontos de atenção: filas e tempo de espera, interrupções de oferta, rotatividade de equipe, acessibilidade, horários incompatíveis com o público, ausência de registro e acompanhamento, fragilidades de referência/contrarreferência, e articulação insuficiente com outras políticas quando necessário.
Fiscalização da qualidade da oferta e defesa de direitos
Fiscalizar, no controle social, é verificar conformidade e qualidade: se a oferta respeita direitos, se há acolhimento adequado, se não há discriminação, se os fluxos são claros e se as unidades e entidades cumprem requisitos. A fiscalização também envolve acompanhar denúncias e demandas da população, encaminhando-as de forma responsável (com registro, sigilo quando necessário e devolutiva).
Como preparar informações para reuniões do CMAS (passo a passo)
Passo 1: Ler a pauta e identificar decisões x informes
Separe o que é deliberação (precisa de voto/resolução) do que é informe (apenas ciência). Isso evita reuniões longas e sem encaminhamento.
Passo 2: Montar um “pacote de reunião” (1 a 3 páginas por tema)
Para cada item de pauta, prepare um resumo objetivo com:
- Contexto: por que o tema está na pauta agora.
- Base normativa local: lei/regimento/resolução municipal relacionada (quando houver).
- Dados essenciais: números e evidências (sem excesso).
- Risco/impacto: o que acontece se aprovar/não aprovar.
- Proposta de encaminhamento: texto sugerido de deliberação ou próximos passos.
Passo 3: Anexar evidências mínimas (sem “encher” o processo)
Inclua anexos apenas do que sustenta a decisão: demonstrativos, tabelas, notas técnicas, ofícios, relatórios sintéticos, e registros de escuta quando relevantes.
Passo 4: Preparar linguagem acessível para conselheiros e público
Evite siglas sem explicação e termos técnicos sem tradução. Quando houver termos financeiros, apresente exemplos simples (ex.: “valor empenhado”, “pago”, “saldo”).
Passo 5: Garantir tempo de análise prévia
Envie materiais com antecedência (conforme regimento). Quando o tema for complexo (orçamento, reprogramação, credenciamento), proponha reunião de comissão antes da plenária.
Modelo rápido de ficha de pauta (para copiar e adaptar)
Tema: ____________________________ Tipo: ( ) Deliberação ( ) Informe ( ) Encaminhamento
Objetivo da reunião: _________________________________________________
Resumo (5 linhas): _________________________________________________
Dados-chave (3 a 5 itens):
- _________________________________________________________________
- _________________________________________________________________
Proposta de decisão/encaminhamento (texto sugerido):
_______________________________________________________________
Anexos: ( ) Demonstrativo ( ) Nota técnica ( ) Ofício ( ) Relatório
Responsável pela apresentação: __________________ Prazo: ____________Relatórios de gestão e prestação de contas: como apoiar o controle social
Relatórios de gestão e prestação de contas são instrumentos que permitem ao CMAS acompanhar resultados, execução e qualidade. Para fortalecer o controle social, a gestão deve apresentar informações consistentes, comparáveis e verificáveis.
Checklist prático para um relatório útil ao CMAS
- O que foi planejado x o que foi feito: metas e entregas, com justificativas para desvios.
- Execução financeira: quadro simples com dotação, empenhado, liquidado/pago e saldo por ação.
- Oferta e cobertura: quantidade de atendimentos/ações por unidade/território (sem expor dados pessoais).
- Qualidade: evidências de funcionamento (ex.: horários, equipe mínima, acessibilidade, registros, fluxos).
- Demandas e reclamações: principais temas, providências adotadas e prazos.
- Riscos e gargalos: problemas críticos e plano de enfrentamento.
- Deliberações do CMAS: o que foi cumprido, o que está em andamento e o que está pendente.
Tabela exemplo: acompanhamento de deliberações do CMAS
| Deliberação/Resolução | Data | Responsável | Status | Evidência | Próximo passo | Prazo |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Ex.: Resolução nº XX (tema) | dd/mm/aaaa | Gestão/Unidade/Comissão | Em andamento | Relatório/Ofício/Registro | Reunião técnica + ajuste | dd/mm/aaaa |
Devolutivas à população: transparência que gera participação
Devolutiva é quando o poder público e o controle social retornam à população o que foi discutido, decidido e encaminhado. Isso reduz desinformação, amplia confiança e qualifica a participação.
Formatos práticos de devolutiva (no nível local)
- Boletim do CMAS: 1 página com decisões, encaminhamentos e prazos (linguagem simples).
- Painel de acompanhamento: quadro público (site/portal e mural físico) com deliberações e status.
- Reuniões territoriais: encontros periódicos para apresentar prioridades e ouvir demandas.
- Audiência pública temática: quando houver mudanças relevantes (ex.: reorganização de oferta, prioridades de uso do fundo).
Passo a passo para uma devolutiva simples após reunião do CMAS
Selecionar 3 a 7 pontos mais relevantes (decisões e encaminhamentos).
Traduzir para linguagem cidadã: o que muda para o usuário, onde buscar informação, prazos.
Publicar em até 7 dias: resumo + link/consulta da ata quando disponível.
Abrir canal de retorno: e-mail/telefone/ouvidoria e data da próxima reunião.
Levar respostas na reunião seguinte: consolidar dúvidas recebidas e encaminhar providências.
Participação qualificada: como incluir usuários e trabalhadores de forma efetiva
Barreiras comuns e como enfrentar
- Informação difícil → usar resumos, glossário local e apresentações curtas com exemplos.
- Horário e deslocamento → alternar horários, prever acessibilidade e apoio logístico quando possível.
- Reuniões longas e sem decisão → pautas objetivas, tempo de fala, encaminhamentos claros.
- Medo de retaliação → reforçar regras de respeito, canais formais e proteção de dados pessoais.
- Participação simbólica → garantir voto, registro em ata e retorno sobre o que foi feito.
Roteiro de escuta para levar demandas ao conselho
Quando usuários e trabalhadores trazem problemas do cotidiano, o CMAS pode transformar isso em pauta com base em perguntas simples:
- O que aconteceu? (descrição objetiva)
- Onde e quando? (unidade/território/período)
- Quem foi afetado? (perfil, sem identificação nominal)
- Qual direito/qualidade foi impactado? (acesso, continuidade, acolhimento, informação)
- Que providência já foi tentada? (gestão/unidade/ouvidoria)
- Que evidência existe? (registro, protocolo, fotos do ambiente quando cabível, relatos)
Fluxo prático para tratar demandas, denúncias e recomendações no CMAS
Para evitar informalidade e garantir resposta, o CMAS pode adotar um fluxo padronizado (ajustado ao regimento e à lei local):
Recebimento: registrar demanda (data, tema, origem, resumo) e classificar (informação, reclamação, denúncia, sugestão).
Análise inicial: verificar se é competência do CMAS e se há necessidade de sigilo.
Encaminhamento: solicitar informações à gestão/unidade/entidade com prazo definido; ou encaminhar ao órgão competente quando não for atribuição do CMAS.
Discussão em comissão: quando exigir aprofundamento (visita, reunião técnica, análise documental).
Deliberação: registrar decisão (recomendação, solicitação, cronograma de adequação, monitoramento).
Devolutiva: responder ao demandante e publicar síntese (sem dados pessoais), quando cabível.
Monitoramento: acompanhar cumprimento e registrar evidências.
Boas práticas de transparência para fortalecer o controle social
- Calendário anual de reuniões do CMAS e comissões, com pautas e documentos de apoio.
- Atas e resoluções organizadas e fáceis de localizar (por tema e data).
- Quadro de execução do fundo em formato simples e atualizado periodicamente.
- Relatórios sintéticos com indicadores essenciais e recortes territoriais.
- Registro de participação: presença, falas, propostas e encaminhamentos, evitando personalização de conflitos.
- Agenda pública de conferências, pré-conferências e escutas territoriais.
Exemplos práticos de pautas e perguntas que qualificam a reunião
Quando o tema é acompanhamento do fundo
- O gasto executado está coerente com as prioridades deliberadas?
- Há saldo elevado? Qual a justificativa e o plano de execução?
- As despesas têm vínculo claro com ações/serviços da Assistência Social?
- O que mudou em relação ao trimestre anterior?
Quando o tema é qualidade da oferta
- Quais unidades/territórios tiveram maior demanda e por quê?
- Há interrupções de atendimento? Quais causas e prazos de regularização?
- Como está o acesso (horário, acolhimento, informação ao usuário)?
- Quais medidas foram tomadas após reclamações recorrentes?
Quando o tema é conferência e participação
- Como garantir presença de usuários (acessibilidade, mobilização, linguagem)?
- Quais dados e diagnósticos locais precisam ser apresentados para debate qualificado?
- Como as propostas serão acompanhadas após a conferência (responsáveis e prazos)?