O que é controle motor (na prática clínica)
Controle motor é a capacidade do sistema nervoso de organizar o movimento para atingir um objetivo funcional com o menor custo possível (energia, tempo, esforço, risco) e com qualidade (precisão, estabilidade, fluidez). Na Fisioterapia Neurológica, a análise do movimento busca responder: o que a pessoa consegue fazer, como ela faz e o que ela precisa “pagar” para conseguir (compensações).
Em vez de olhar apenas “se fez ou não fez”, observamos componentes-chave: alinhamento, dissociação de cinturas (escapular e pélvica), seletividade (capacidade de ativar segmentos específicos sem coativação excessiva), coordenação intersegmentar (timing entre tronco, cintura e membros) e estratégias compensatórias (atalhos para completar a tarefa).
Sinergias motoras: úteis no normal, limitantes no patológico
Sinergias como “atalhos” do sistema motor
Sinergias são padrões coordenados de ativação muscular que simplificam o controle: o cérebro não precisa comandar cada músculo isoladamente o tempo todo. Em tarefas rápidas e automáticas, sinergias podem ser eficientes (por exemplo, estabilizar tronco e escápula enquanto a mão alcança um objeto).
Sinergias anormais e perda de seletividade em condições neurológicas
Em algumas condições neurológicas (ex.: AVC, TCE, lesão medular incompleta, paralisia cerebral), ocorre redução do controle seletivo e aumento de acoplamentos entre articulações/músculos. A pessoa tenta mover um segmento, mas “vem junto” um padrão inteiro (por exemplo, ao tentar elevar o braço, ocorre flexão de cotovelo e elevação do ombro; ao tentar estender o joelho, ocorre extensão em massa com rigidez e pouca adaptação).
Clinicamente, isso aparece como:
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- Movimento em bloco: tronco, cintura e membro se movem juntos, com pouca dissociação.
- Coativação excessiva: agonistas e antagonistas ativam simultaneamente, reduzindo velocidade e precisão.
- Baixa variabilidade adaptativa: a pessoa repete o mesmo padrão mesmo quando a tarefa muda.
- Compensações previsíveis: elevação escapular, inclinação lateral de tronco, rotação pélvica, apoio excessivo no membro não afetado.
Componentes para analisar qualidade e eficiência do movimento
1) Alinhamento e base de suporte
Observe se o corpo está “organizado” para a tarefa: pés bem apoiados, pelve nivelada, tronco com capacidade de estabilizar sem rigidez. Um alinhamento inadequado pode gerar compensações em cadeia (ex.: pelve em retroversão e tronco em cifose durante alcance sentado, levando a elevação escapular e redução de amplitude funcional do ombro).
2) Dissociação de cinturas (escapular e pélvica)
Dissociação é a capacidade de mover cintura escapular e pélvica de forma relativamente independente do tronco e entre si. Em tarefas funcionais, esperamos algum grau de rotação de tronco e ajustes de escápula/pelve para otimizar alcance, transferência e marcha. A falta de dissociação costuma gerar “movimento em bloco” e sobrecarga em segmentos distais.
3) Seletividade (controle motor seletivo)
Seletividade é a capacidade de ativar o que precisa e inibir o que atrapalha. Na prática, pergunte: a pessoa consegue abrir a mão sem elevar o ombro? Consegue estender o joelho sem prender o quadril? Consegue transferir peso sem colapsar o tronco?
4) Coordenação intersegmentar e timing
Movimentos funcionais têm uma sequência típica: estabilização proximal (tronco/cinturas) + mobilidade distal (mão/pé) com ajustes contínuos. Alterações neurológicas podem inverter ou “atrasar” essa sequência (ex.: mão tenta pegar antes de o tronco estar estável; o tronco compensa depois, com inclinação lateral).
5) Estratégias compensatórias (o “como” que mascara o “não consigo”)
Compensações não são “erradas” por si só: podem ser necessárias para independência imediata. O ponto clínico é identificar quando elas são úteis e quando limitam recuperação, aumentam gasto energético, risco de dor/lesão ou impedem o uso do membro acometido.
Como sinergias anormais aparecem em tarefas funcionais
Alcance (sentado ou em pé)
- Sinais comuns: elevação escapular precoce, abdução do braço com flexão de cotovelo “presa”, tronco inclina para o lado do alcance para ganhar distância, punho em flexão e dedos com dificuldade de extensão.
- Leitura clínica: baixa dissociação escápulo-umeral, seletividade reduzida de ombro/cotovelo/punho, controle de tronco insuficiente ou “travado”.
Preensão e manipulação
- Sinais comuns: mão fecha em massa ao tentar segurar, dificuldade de ajustar força (aperta demais ou deixa cair), uso do corpo para “prender” o objeto (contra o tronco/mesa), punho colapsa em flexão.
- Leitura clínica: perda de seletividade intrínseca da mão, coativação, dificuldade de dissociar punho e dedos, dependência de estabilidade proximal inadequada.
Transferência (sentar-levantar, cama-cadeira)
- Sinais comuns: assimetria de carga (evita membro acometido), rotação pélvica para “fugir” do apoio, tronco projeta excessivamente para frente ou para o lado, joelho colapsa em valgo/instabilidade.
- Leitura clínica: fraqueza e/ou controle seletivo reduzido de quadril/joelho/tornozelo, estratégia de estabilidade por rigidez, baixa dissociação pélvica.
Subida de degrau
- Sinais comuns: “puxa” com o membro não acometido, eleva pelve (hip hike) e inclina tronco para compensar fraqueza de abdutores, pé arrasta e faz circundução, apoio instável no tornozelo.
- Leitura clínica: déficit de controle seletivo de flexão de quadril/joelho/dorsiflexão, compensações para limpar o pé e estabilizar a pelve.
Roteiro padronizado de observação por tarefa (início → execução → término)
Use um roteiro fixo para reduzir vieses e facilitar comparação entre sessões. Abaixo, um modelo aplicável a qualquer tarefa (alcance, preensão, transferência, degrau).
Passo a passo
- Defina a tarefa e o critério de sucesso
Ex.: “Alcançar e pegar um copo à frente, a 30 cm, e trazer à boca sem derramar”. - Padronize o contexto
Altura da cadeira/mesa, posição dos pés, distância do objeto, velocidade solicitada, uso ou não de apoio. - Observe o INÍCIO (preparação)
- Alinhamento: pés, pelve, tronco, cabeça.
- Base de suporte e distribuição de peso (simetria).
- Pré-ativação/ajustes posturais: há “travamento” ou instabilidade?
- Posição inicial de escápula, ombro, cotovelo, punho/mão (ou quadril/joelho/tornozelo).
- Observe a EXECUÇÃO (fase principal)
- Sequência e timing: tronco estabiliza antes? há atraso?
- Dissociação: tronco roda? escápula acompanha? pelve dissocia?
- Seletividade: consegue mover a articulação-alvo sem “puxar” o resto?
- Coordenação intersegmentar: movimento é fluido ou em “degraus”?
- Compensações: inclinação de tronco, elevação escapular, circundução, apoio excessivo no lado não acometido.
- Eficiência: esforço visível, pausas, necessidade de múltiplas tentativas.
- Observe o TÉRMINO (finalização e controle excêntrico)
- Consegue desacelerar e posicionar com precisão?
- Há tremor, queda do membro, perda de alinhamento?
- Retorno à posição inicial: mantém controle ou “desaba”?
- Registre em linguagem operacional
Evite “ruim/bom”. Prefira: “elevação escapular inicia antes de 30° de flexão de ombro”; “inclinação lateral de tronco ~15° para alcançar”; “apoio no membro não acometido >70% na fase de levantar”.
Matriz impedimento → estratégia → impacto funcional (modelo simples)
Após observar, organize achados em uma matriz para transformar descrição em raciocínio clínico. A ideia é ligar o que limita (impedimento) ao atalho usado (estratégia) e ao efeito na função (impacto).
| Impedimento provável | Estratégia observada | Impacto funcional | Pista para testar |
|---|---|---|---|
| Fraqueza/baixa ativação de serrátil anterior e trapézio inferior | Elevação escapular e abdução do ombro para alcançar | Alcance curto, dor/fadiga cervical, baixa precisão | Teste: alcance com suporte de escápula/feedback tátil; comparar qualidade |
| Perda de seletividade de extensão de punho e abertura de dedos | Preensão em massa + uso do tronco para “prender” objeto | Dificuldade em soltar, manipulação lenta, derruba objetos | Teste: variar tamanho/textura; avaliar se extensão de punho melhora abertura |
| Fraqueza de abdutores de quadril e controle pélvico | Inclinação de tronco para o lado de apoio (Trendelenburg compensatório) | Marcha/degau instável, maior gasto energético | Teste: step-up com apoio manual na pelve; observar redução da inclinação |
| Controle seletivo reduzido de flexão de quadril/joelho e dorsiflexão | Circundução e elevação pélvica para limpar o pé | Risco de tropeço, dificuldade em degraus | Teste: aumentar altura do degrau; observar aumento da compensação |
| Assimetria de carga por medo/instabilidade no membro acometido | Transferência com descarga no lado não acometido | Levantar lento, dependência de apoio, menor uso do lado acometido | Teste: balança/feedback visual de carga; comparar tempo e simetria |
Transformando a análise em hipóteses testáveis (para guiar exame e intervenção)
Uma boa análise do movimento gera hipóteses que podem ser confirmadas/refutadas com testes simples. Estruture assim:
Se (impedimento X) estiver contribuindo para (estratégia Y), então ao (modificar condição/teste Z) veremos (mudança observável W).Exemplo 1: Alcance com elevação escapular
- Observação: ao alcançar à frente, eleva ombro e inclina tronco.
- Hipótese: falta de controle escapular e estabilidade proximal leva a compensação para ganhar amplitude.
- Teste (manipulação): reduzir demanda postural (sentado com encosto) e fornecer feedback tátil para depressão/rotação superior adequada da escápula.
- Predição: diminui elevação escapular e melhora trajetória do braço; alcance fica mais direto.
- Como isso guia intervenção: priorizar treino de alcance com foco em escápula/tronco (dosagem e progressão), antes de aumentar distância/altura do alvo.
Exemplo 2: Preensão lenta com punho em flexão
- Observação: para segurar, flexiona punho e fecha dedos em massa; para soltar, demora.
- Hipótese: extensão de punho insuficiente reduz abertura e controle fino dos dedos (acoplamento punho-dedos).
- Teste: posicionar punho em leve extensão (órtese temporária ou suporte manual) e repetir tarefa com objetos de diferentes diâmetros.
- Predição: melhora abertura e liberação; reduz necessidade de usar o tronco para estabilizar o objeto.
- Como isso guia intervenção: treino orientado à tarefa com ênfase em extensão de punho + abertura/soltura graduada (tamanho, peso, velocidade).
Exemplo 3: Sentar-levantar com descarga no lado não acometido
- Observação: desloca tronco para o lado não acometido e empurra com esse membro.
- Hipótese: assimetria por fraqueza/instabilidade no membro acometido e/ou baixa confiança.
- Teste: usar feedback de simetria (marcas no chão, balança, espelho) e ajustar altura do assento para reduzir demanda; repetir.
- Predição: com menor demanda e feedback, aumenta carga no membro acometido e melhora controle do joelho/pelve.
- Como isso guia intervenção: progressão de transferências com critérios (simetria mínima, controle de joelho) antes de reduzir altura e retirar feedback.
Exemplo 4: Subida de degrau com circundução
- Observação: para subir, faz circundução e eleva pelve para limpar o pé.
- Hipótese: déficit de dorsiflexão e flexão de joelho no balanço, com seletividade reduzida.
- Teste: diminuir altura do degrau e/ou usar alvo visual para elevar joelho; comparar com e sem apoio leve (corrimão).
- Predição: em degrau menor e com pista de flexão de joelho, reduz circundução; em degrau maior, compensação aumenta.
- Como isso guia intervenção: treinar step-up com altura graduada e foco em sequência (flexão de quadril/joelho + dorsiflexão), monitorando compensações como critério de progressão.
Checklist rápido para registro clínico (por tarefa)
- Tarefa: __________ (contexto padronizado: altura, distância, apoio)
- Qualidade: alinhamento (___), dissociação (___), seletividade (___), coordenação/timing (___)
- Compensações principais: __________
- Matriz: impedimento provável → estratégia → impacto
- Hipótese testável: Se ___ então ao ___ veremos ___
- Próximo passo no exame: quais testes específicos confirmarão/refutarão a hipótese?
- Alvo inicial de intervenção: qual componente, em qual tarefa, com qual critério de sucesso?