O que são ocorrências, recusas e situações de risco no controle de acesso
No contexto de portaria e controle de acesso, ocorrência é qualquer evento fora do padrão que exige registro e, muitas vezes, ação imediata (ex.: discussão, tentativa de entrada sem autorização, extravio de encomenda). Recusa é a negativa formal de acesso/atendimento quando os requisitos não são atendidos (ex.: visitante sem autorização, documento inconsistente). Situação de risco é a ocorrência com potencial de dano a pessoas, patrimônio ou à operação (ex.: tentativa de forçar entrada, suspeita de golpe, emergência médica).
Este capítulo foca em protocolos práticos para lidar com incidentes comuns, com escalonamento (quem chamar e quando), preservação de evidências (registros, horários, imagens) e redação objetiva de relatório.
Princípios operacionais: segurança, legalidade e rastreabilidade
- Segurança primeiro: priorize integridade física. Se houver ameaça, não “negocie” risco.
- Menor intervenção necessária: aplique a medida mínima para controlar a situação (ex.: manter portões fechados, interromper atendimento, acionar apoio).
- Rastreabilidade: tudo que foge do padrão deve deixar trilha: horário, nomes, documentos, placas, imagens, áudios internos (quando houver), testemunhas e ações tomadas.
- Separar fato de opinião: registre o que foi visto/dito/feito, sem adjetivos ou suposições.
- Escalonamento claro: defina previamente contatos e gatilhos (síndico/gestor, segurança, supervisão, manutenção, SAMU, Polícia, Bombeiros).
Fluxo base de resposta a incidentes (modelo aplicável à maioria dos casos)
1) Identificar e classificar
Classifique rapidamente em uma destas categorias:
- Administrativa: divergência de cadastro, autorização ausente, documento inconsistente sem ameaça.
- Conflito: discussão, agressividade verbal, recusa contestada.
- Fraude/golpe: pressão por exceção, urgência artificial, dados inconsistentes, “ordens” por telefone sem validação.
- Risco físico: tentativa de forçar entrada, ameaça, dano ao patrimônio, invasão.
- Emergência: médica, incêndio, vazamento, acidente.
2) Controlar o ambiente
- Mantenha barreiras físicas (portões/portas) conforme procedimento local.
- Evite aglomeração: se possível, mantenha o solicitante em área externa/anteparo seguro.
- Não exponha dados de moradores/empresa (ramais, nomes completos, rotinas).
3) Acionar escalonamento (quem chamar e quando)
Use gatilhos objetivos:
- Supervisão/gestão: quando houver impasse, reincidência, risco reputacional, necessidade de decisão excepcional.
- Segurança/apoio interno: quando houver agressividade, tentativa de aproximação forçada, necessidade de presença adicional.
- Manutenção: dano a portão, fechadura, câmera, iluminação, travas.
- Autoridades: ameaça, invasão, violência, dano intencional, fraude em andamento, recusa em se retirar, emergência médica grave, incêndio.
4) Preservar evidências
- Anote horário exato (início, escalonamentos, término).
- Registre identificação declarada, características (sem juízo), placa/veículo, empresa, telefone informado.
- Garanta que as imagens de CFTV relevantes sejam marcadas para retenção (quando o sistema permitir) e informe o responsável técnico.
- Guarde documentos apresentados apenas conforme regra local (ex.: cópia autorizada), evitando exposição desnecessária.
- Liste testemunhas (colaboradores, moradores, vigilantes) e o que cada uma presenciou.
5) Registrar e comunicar
- Faça registro no livro/sistema de ocorrências com linguagem objetiva.
- Comunique ao responsável (síndico/gestor) com resumo: o que ocorreu + risco + ação tomada + pendências.
Protocolos por tipo de incidente (com passo a passo)
1) Visitante sem autorização
Risco típico: acesso indevido por insistência, confusão de nomes, tentativa de “pegar carona” em autorização antiga.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Passo a passo:
- Confirme a solicitação: nome completo, destino, motivo, horário pretendido.
- Verifique se há autorização válida no sistema/lista do dia.
- Se não houver, informe: “Sem autorização, não posso liberar. Vou solicitar confirmação ao responsável.”
- Tente contato com o responsável pelo destino pelos canais definidos (interfone/ramal/app interno, conforme regra local).
- Se não confirmar: recuse o acesso e registre a tentativa.
- Se houver insistência/agressividade: escale para supervisão/segurança e mantenha barreira física.
Evidências mínimas: horário, nome declarado, destino, tentativas de contato, resposta (ou ausência), comportamento (descrever fatos).
2) Documento inconsistente (divergência, suspeita de falsidade, dados incompatíveis)
Risco típico: fraude de identidade, uso de documento de terceiro, tentativa de burlar cadastro.
Passo a passo:
- Interrompa o processo de liberação e mantenha o solicitante em área controlada.
- Reconfira dados essenciais (nome, foto, validade, integridade física do documento) e compare com o cadastro/convite.
- Se a divergência for simples (ex.: erro de grafia), peça confirmação com o responsável pelo destino.
- Se houver indícios de fraude (foto incompatível, rasura, pressão por exceção): recuse e acione supervisão/segurança.
- Se houver tentativa de evasão ou ameaça: acione autoridades conforme protocolo local.
Preservação: não retenha documento sem amparo do procedimento interno e orientação do responsável; registre exatamente qual foi a inconsistência observada.
3) Discussão na portaria (conflito verbal, elevação de tom, tentativa de intimidação)
Risco típico: escalada para agressão, quebra de rotina, exposição de dados, falha de controle por pressão.
Passo a passo:
- Mantenha postura neutra e reduza estímulos: frases curtas, sem debate.
- Reforce o limite operacional: “Eu entendo, mas preciso seguir o procedimento. Vou chamar o responsável.”
- Acione apoio interno (outro colaborador/segurança) se houver sinais de escalada.
- Evite abrir portas/portões “para conversar melhor”. Converse com barreira física.
- Se houver ameaça, tentativa de invasão ou dano: acione autoridades.
Evidências: horário, falas-chave (entre aspas), ações (bateu no vidro, tentou empurrar portão), nomes de testemunhas.
4) Suspeita de golpe (engenharia social, “urgência”, falso prestador, falso morador, pedido de exceção)
Sinais comuns: pressa excessiva, história dramática, pedido para “só dessa vez”, instrução por telefone de número desconhecido, tentativa de obter informações internas, uso de prints/áudios como “prova”.
Passo a passo:
- Não forneça dados internos (nomes, rotinas, números, localização de câmeras, procedimentos).
- Exija validação pelos canais oficiais (lista autorizada, contato com responsável por canal cadastrado).
- Se houver ligação orientando liberação, desligue e retorne para número oficial/cadastrado (nunca para o número informado na ligação).
- Bloqueie exceções: sem validação, sem acesso.
- Registre detalhes: número de telefone, texto do pedido, nomes citados, placa/veículo.
- Se houver tentativa ativa de invasão/fraude: escale para gestão e, se necessário, autoridades.
5) Tentativa de forçar entrada (empurrar portão, pular catraca, “carona”, arrombamento)
Risco típico: invasão, agressão, dano ao patrimônio.
Passo a passo:
- Não confronte fisicamente se você não for equipe treinada para contenção.
- Acione imediatamente apoio interno/segurança e mantenha barreiras fechadas.
- Se houver risco iminente a pessoas: acione autoridades (Polícia) e, se aplicável, alarme/pânico.
- Oriente pessoas na área a se afastarem do ponto de acesso.
- Preserve a cena: não mexa em objetos danificados até registro (quando seguro).
Evidências: horários, direção de fuga, descrição física objetiva, placa, imagens de câmeras, danos observados (com localização).
6) Extravio de encomenda (não localizada, retirada contestada, divergência de protocolo)
Risco típico: conflito com morador/cliente, acusação indevida, falha de cadeia de custódia.
Passo a passo:
- Interrompa novas entregas/retiradas relacionadas ao item até checagem básica (sem travar a operação inteira).
- Reúna dados: data/hora de recebimento, transportadora, código, nome do recebedor, local de guarda, registro de retirada.
- Verifique imagens do período de recebimento e retirada (ou solicite ao responsável técnico a separação do trecho).
- Se houver assinatura/registro digital, confira consistência (horário, identificação, responsável).
- Comunique gestão imediatamente com um resumo e próximos passos (ex.: “verificar CFTV 14:00–16:00”).
- Se houver indício de furto: acione o procedimento interno e autoridades conforme orientação da gestão.
Preservação: mantenha logs, prints do sistema, comprovantes e lista de pessoas com acesso ao local de guarda.
7) Dano a patrimônio (portão, vidro, catraca, cancela, parede, veículo em área de acesso)
Risco típico: insegurança do perímetro, custos, paralisação operacional.
Passo a passo:
- Garanta segurança do local (isolar área se houver risco de corte/choque/queda).
- Registre imediatamente: o que foi danificado, onde, quando foi percebido, condição antes/depois.
- Acione manutenção e gestão; se houver suspeita de ato intencional, acione segurança e avalie autoridades.
- Se envolver veículo: registre placa, condutor, horário, e preserve imagens.
Evidências: fotos internas (se permitido), imagens de CFTV, relato de testemunhas, sequência temporal do evento.
8) Emergências médicas (mal súbito, queda, desmaio, crise convulsiva)
Objetivo: acionar socorro adequado rapidamente e registrar ações.
Passo a passo:
- Avalie rapidamente: a pessoa responde? respira? há sangramento intenso?
- Acione SAMU (192) ou serviço local definido e informe: endereço completo, ponto de referência, estado da vítima, idade aproximada, consciência/respiração.
- Acione gestão e, se houver, brigada/primeiros socorros internos.
- Mantenha área livre e organize acesso para a equipe médica (portões, elevadores, rota).
- Não ofereça medicamentos. Só realize primeiros socorros se treinado e autorizado.
- Registre horários: início, chamada, chegada do socorro, encaminhamento.
Evidências/registro: fatos observáveis (ex.: “relatou dor no peito”, “caiu ao levantar”), sem diagnóstico.
9) Acionamento de autoridades (Polícia, Bombeiros, Defesa Civil)
Quando acionar:
- Polícia (190): invasão, ameaça, agressão, dano intencional, furto/roubo em andamento, recusa em se retirar com risco, suspeita forte de fraude com tentativa de acesso.
- Bombeiros (193): incêndio, fumaça, vazamento de gás, risco estrutural, resgate.
- Defesa Civil (199) (quando aplicável): risco de desabamento, eventos climáticos severos com impacto estrutural.
Passo a passo:
- Tenha um roteiro pronto com: endereço, ponto de acesso, natureza do evento, número de envolvidos, se há feridos, se há arma (somente se visto/confirmado), melhor rota de entrada.
- Acione gestão em paralelo, sem atrasar o chamado quando houver risco.
- Preserve evidências e mantenha pessoas afastadas.
- Registre: horário do chamado, protocolo (se fornecido), nome/identificação do atendente (se possível), horário de chegada.
Fluxos de escalonamento (modelos prontos)
Escalonamento por gravidade (matriz simples)
| Nível | Exemplos | Ação imediata | Quem chamar |
|---|---|---|---|
| 1 - Administrativa | Sem autorização, divergência simples | Recusar/liberar somente após validação | Responsável do destino + supervisão se impasse |
| 2 - Conflito | Discussão, intimidação, insistência | Manter barreira, reduzir interação | Supervisão + apoio interno/segurança |
| 3 - Fraude/Risco | Suspeita de golpe, tentativa de burlar | Bloquear exceções, preservar evidências | Gestão + segurança; autoridades se tentativa ativa |
| 4 - Emergência | Forçar entrada, agressão, incêndio, mal súbito grave | Proteger pessoas, acionar socorro | Autoridades (190/192/193) + gestão |
Checklist rápido de acionamento (para deixar ao lado do posto)
- Gestão/Supervisão: impasse, reincidência, risco reputacional, necessidade de decisão.
- Segurança/Apoio: agressividade, tentativa de aproximação, suspeita de invasão.
- Manutenção: falha de portão/cancela/câmera/fechadura, dano físico.
- SAMU/Resgate: inconsciência, falta de ar, dor intensa, sangramento, convulsão, queda com trauma.
- Polícia: invasão, ameaça, violência, dano intencional, furto/roubo, fraude em andamento.
- Bombeiros: fogo, fumaça, gás, risco estrutural.
Preservação de evidências: como registrar sem atrapalhar a operação
O que registrar (mínimo viável)
- Tempo: horário de início, eventos-chave, encerramento.
- Identificação: nome declarado, documento apresentado (tipo e final/mascarado), empresa, placa.
- Local: qual acesso/guarita/portão, posição do envolvido.
- Fatos: ações observadas e falas relevantes (curtas e literais).
- Ações tomadas: quem foi acionado, quando, e qual orientação recebida.
- Materiais: número de câmera/ângulo (se conhecido), prints/logs, protocolos de chamada.
Boas práticas com CFTV e registros
- Marque o intervalo de tempo com folga (ex.: 10 minutos antes e 10 depois).
- Evite compartilhar imagens por aplicativos pessoais; siga o canal oficial.
- Não edite vídeos; solicite exportação pelo responsável técnico para manter integridade.
- Se houver livro físico, escreva legível, sem rasuras; se errar, risque com uma linha e assine ao lado (conforme norma interna).
Redação objetiva de relatório de ocorrência (modelo e exemplos)
Estrutura recomendada
- Identificação: data, horário, posto, responsável pelo registro.
- Tipo de ocorrência: recusa de acesso, conflito, suspeita de golpe, dano, extravio, emergência.
- Envolvidos: nomes declarados, empresa, destino, placas (quando houver).
- Narrativa factual: sequência cronológica com fatos observáveis.
- Ações tomadas: validações, contatos, escalonamentos, autoridades acionadas.
- Evidências: câmeras, logs, documentos, testemunhas.
- Status: resolvido, pendente (o que falta e com quem).
Modelo preenchível
Data: __/__/____ Horário início: __:__ Horário fim: __:__ Posto: ________ Registrado por: ________
Tipo: ( ) Recusa de acesso ( ) Conflito ( ) Suspeita de golpe ( ) Dano ( ) Extravio ( ) Emergência
Envolvidos (declaração): Nome: ________ Documento (tipo/final): ________ Empresa: ________ Placa: ________ Destino: ________
Descrição (fatos em ordem):
- __:__ (fato observado)
- __:__ (fato observado)
Ações tomadas:
- Contato com ________ às __:__ (resultado: ________)
- Acionado ________ às __:__ (orientação: ________)
Evidências:
- Câmera(s): ________ Intervalo: __:__ a __:__
- Logs/prints: ________
- Testemunhas: ________
Status/Pendências: ________Exemplo 1 — Visitante sem autorização com insistência
Narrativa objetiva: “Às 09:12, compareceu ao acesso social um indivíduo que se identificou como João Silva, informando visita ao apto 1203. Não constava autorização no sistema. Às 09:14 e 09:16 foram realizadas tentativas de contato com o apto 1203, sem atendimento. Às 09:18 o indivíduo elevou o tom de voz e solicitou liberação ‘apenas para subir e bater na porta’. Foi negado o acesso por ausência de autorização. Às 09:20 foi acionada a supervisão, que orientou manter recusa. O indivíduo deixou o local às 09:23.”
Exemplo 2 — Suspeita de golpe por ligação
Narrativa objetiva: “Às 14:05 foi recebida ligação do número (XX) XXXXX-XXXX solicitando liberação de prestador ‘urgente’ para o setor financeiro, citando nome de gestor. Foi informado que a liberação depende de validação por canal oficial. Às 14:07 foi retornada ligação para o número cadastrado do setor, que negou ter solicitado prestador. Às 14:10 foi orientado bloqueio de qualquer tentativa relacionada e registro do número. Não houve acesso liberado.”
Exemplo 3 — Tentativa de forçar entrada
Narrativa objetiva: “Às 19:42, um indivíduo tentou entrar junto com veículo autorizado, aproximando-se do portão de veículos a pé. Foi orientado a se afastar. Às 19:43 tentou puxar o portão lateral. Às 19:44 foi acionado apoio de segurança e mantidos portões fechados. Às 19:46 o indivíduo se afastou em direção à rua X. Câmera 03 registra o evento entre 19:40 e 19:48.”
Recusa formal: como executar sem abrir brechas
Elementos de uma recusa bem feita
- Motivo objetivo: “ausência de autorização”, “divergência de dados”, “procedimento exige validação”.
- Alternativa segura: “posso tentar contato novamente”, “aguardar retorno do responsável”, “reagendar”.
- Sem exceções improvisadas: exceção só com autorização do nível definido (gestão) e registro.
- Registro imediato: especialmente quando houver insistência, ameaça ou suspeita de golpe.
Mini-roteiro de recusa (para padronizar)
- “No momento, não há autorização válida para entrada.”
- “Vou registrar a tentativa e posso solicitar confirmação ao responsável.”
- “Sem confirmação, não consigo liberar.”
- “Se preferir, pode aguardar do lado de fora enquanto tento contato.”