O que muda no caixa quando você cria despesas fixas
Contratar pessoas, assinar sistemas, fechar um aluguel maior ou assumir um contrato de terceirização recorrente tem um efeito específico no fluxo de caixa: você transforma uma decisão pontual em uma obrigação mensal. Diferente de um gasto variável (que pode cair quando as vendas caem), a despesa fixa “começa a vencer” todo mês, inclusive em meses fracos. Por isso, a pergunta prática não é “eu consigo pagar este mês?”, e sim “eu consigo pagar em meses ruins, sem consumir minha reserva e sem atrasar outras obrigações?”.
Neste capítulo, você vai aprender a testar a capacidade de assumir despesas fixas (folha, benefícios, sistemas, aluguel e serviços terceirizados), simular o impacto mensal com encargos, considerar sazonalidade e reservas, e aplicar um método objetivo de decisão: custo fixo máximo suportável, ponto de equilíbrio de caixa e critérios para contratar.
Mapa das despesas fixas mais comuns (e o que entra no cálculo)
1) Folha de pagamento (custo total, não só salário)
Para decisão de contratação, use sempre o custo total mensal do colaborador, incluindo itens que não aparecem no salário líquido. A composição varia por regime e país, mas o raciocínio é sempre: salário + encargos + benefícios + provisões + custos indiretos.
- Salário base (mensal).
- Encargos (percentual sobre a folha, conforme regime).
- Benefícios (vale transporte, alimentação, plano de saúde, etc.).
- Provisões (ex.: 13º e férias rateados mensalmente, se aplicável).
- Custos indiretos (uniforme, EPI, treinamento, exames, recrutamento, equipamento, licenças de software por usuário).
2) Sistemas e assinaturas
Inclua mensalidades, usuários adicionais, taxas por transação e reajustes. Muitos sistemas “baratos” viram custo relevante quando o time cresce.
3) Aluguel e ocupação
Além do aluguel, considere condomínio, IPTU (ou equivalente), seguro, manutenção, internet, energia mínima e reajustes anuais. Se houver luvas, reforma ou caução, trate como saída pontual e planeje o impacto no mês.
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4) Serviços terceirizados recorrentes
Contabilidade, limpeza, segurança, agência de marketing, TI, motoboy fixo, manutenção, consultorias mensais. Avalie reajustes e multas de rescisão.
Passo a passo: como simular se o caixa suporta uma nova despesa fixa
Passo 1 — Defina o “pacote” da decisão
Especifique exatamente o que está sendo assumido, com data de início e duração mínima:
- Contratação: cargo, salário, benefícios, regime, data de início.
- Sistema: plano, número de usuários, taxa variável, fidelidade.
- Aluguel: valor, encargos, reajuste, custos de mudança/reforma.
- Terceirização: escopo, SLA, valor, reajuste, multa.
Passo 2 — Calcule o custo fixo mensal “all-in”
Transforme a decisão em um número mensal comparável. Use uma planilha simples:
Custo fixo mensal all-in = (Salário + Encargos + Benefícios + Provisões) + Custos indiretos recorrentesPara sistemas/terceiros/aluguel:
Custo fixo mensal all-in = Mensalidade + Itens obrigatórios + Rateio de custos inevitáveis (ex.: internet extra, licenças por usuário)Se houver custos pontuais (recrutamento, equipamento, reforma), registre como saída no mês previsto e não “dilua” sem critério; o caixa sente o pico.
Passo 3 — Monte 3 cenários de meses (forte, normal, fraco)
Para não depender de um único mês, simule pelo menos:
- Mês forte: vendas acima da média.
- Mês normal: média recente.
- Mês fraco: vale sazonal ou pior mês dos últimos 12 meses.
O objetivo é testar a contratação/despesa fixa no mês fraco, porque é nele que o risco de atraso aparece.
Passo 4 — Aplique o “teste de estresse” com reserva
Defina uma regra de reserva mínima (ex.: manter um saldo mínimo operacional e uma reserva de segurança). Em seguida, verifique se a nova despesa fixa cabe sem violar essa regra.
Um teste prático:
- Escolha o mês fraco como referência.
- Some a nova despesa fixa ao conjunto de despesas fixas atuais.
- Verifique se o caixa projetado do mês fraco ainda termina acima do saldo mínimo + reserva.
Se o resultado ficar abaixo, a decisão está “comprando risco” e precisa de alternativa (temporário, comissionamento, terceirização ou escalonamento).
Passo 5 — Inclua encargos e efeitos colaterais (o que costuma ser esquecido)
Antes de decidir, revise esta lista de “pegadinhas” que aumentam o custo real:
- Encargos e provisões que não aparecem no salário.
- Benefícios que crescem com o time (plano de saúde, VR/VA).
- Equipamentos (computador, celular, ferramentas).
- Licenças por usuário (CRM, gestão, e-mail, atendimento).
- Espaço físico (mais mesas, energia, internet, estacionamento).
- Gestão: tempo do dono/gestor para treinar e acompanhar (custo de oportunidade).
Método de decisão: três números que evitam contratações insustentáveis
1) Custo fixo máximo suportável (CFMS)
O CFMS é um teto: quanto de despesa fixa total a empresa pode carregar sem entrar em aperto nos meses fracos.
Uma forma prática de calcular:
- Escolha o mês fraco (ou uma média dos 2–3 piores meses).
- Defina o saldo mínimo + reserva que você não quer violar.
- Estime quanto sobra para despesas fixas depois de pagar o que é inevitável e variável.
Modelo de raciocínio (adaptável à sua planilha):
CFMS ≈ Entradas do mês fraco - (Saídas variáveis inevitáveis + compromissos já contratados) - (saldo mínimo + reserva)Se a soma das despesas fixas atuais + nova despesa ultrapassar o CFMS, a decisão não é sustentável sem aumentar entradas, reduzir outras saídas fixas ou reforçar reserva.
2) Ponto de equilíbrio de caixa (PEC)
O PEC é o nível de entradas mensais necessário para pagar as saídas e ainda respeitar o saldo mínimo. Ele traduz “quanto preciso vender/receber” para não consumir caixa.
Modelo simples:
PEC ≈ Despesas fixas + Saídas variáveis médias + (meta de reserva/saldo mínimo do mês)Use o PEC para responder: “com a nova despesa fixa, meu PEC sobe quanto?” Se o PEC ficar acima do que você costuma receber em meses fracos, o risco é alto.
3) Folga de caixa (margem de segurança)
Folga de caixa é a diferença entre o que entra e o que precisa sair, considerando reserva. Uma regra prática é exigir uma folga mínima antes de assumir fixos novos (por exemplo, a nova despesa não pode consumir mais do que X% da folga do mês fraco).
Exemplo de regra interna:
- “A nova despesa fixa só é aprovada se, no mês fraco, ainda sobrar pelo menos 2x o valor dela acima do saldo mínimo + reserva.”
Critérios para contratar: capacidade, substituição ou produtividade
1) Contratar para aumento de capacidade (crescimento)
Use quando há demanda consistente e gargalo real (vendas perdidas, fila, atraso, queda de qualidade). Critérios objetivos:
- Prova de demanda: pedidos recusados, backlog, agenda lotada por semanas, ruptura recorrente de atendimento.
- Capacidade atual no limite: horas extras frequentes, prazos estourando, reclamações aumentando.
- Retorno mensurável: a contratação aumenta entregas/vendas ou reduz perdas em valor maior que o custo total.
Teste prático: estime quantas unidades/serviços a mais serão entregues por mês e qual a margem de contribuição disso. Compare com o custo mensal all-in.
2) Contratar para substituição (continuidade)
Use quando alguém saiu ou vai sair e a operação não pode parar. Aqui o foco é reduzir risco operacional:
- Função crítica: sem a pessoa, a empresa não entrega ou não fatura.
- Tempo de rampa: quanto tempo até o substituto produzir (impacto no caixa durante treinamento).
- Plano de transição: sobreposição de 2 pessoas por um período (custo temporário maior).
Na simulação, inclua o período de sobreposição e a queda de produtividade no início.
3) Contratar para produtividade (fazer mais com o mesmo volume)
Use quando o objetivo é reduzir retrabalho, acelerar ciclo, diminuir erros, melhorar conversão ou reduzir custos variáveis. Critérios:
- Indicador claro: tempo por tarefa, taxa de erro, conversão, cancelamentos, devoluções.
- Economia comprovável: redução de perdas/custos que pague a contratação.
- Alternativas avaliadas: automação, melhoria de processo, treinamento.
Exemplo: contratar alguém para financeiro/operacional pode reduzir multas/juros, melhorar cobrança e diminuir atrasos; isso precisa aparecer como ganho de caixa (menos saídas por multas e mais entradas no prazo).
Exemplo prático de simulação mensal (com encargos, sazonalidade e reserva)
Suponha que você quer contratar um assistente operacional.
| Item | Valor mensal |
|---|---|
| Salário | R$ 2.200 |
| Encargos (estimativa) | R$ 1.100 |
| Benefícios | R$ 500 |
| Provisões (rateio) | R$ 300 |
| Licenças/sistemas por usuário | R$ 120 |
| Custo fixo mensal all-in | R$ 4.220 |
Agora teste no mês fraco:
- Entradas esperadas no mês fraco: R$ 80.000
- Saídas variáveis inevitáveis (insumos, fretes, comissões, taxas): R$ 35.000
- Despesas fixas atuais: R$ 38.000
- Saldo mínimo + reserva exigida: R$ 8.000
Sem contratar:
Folga = 80.000 - 35.000 - 38.000 - 8.000 = -1.000Já está apertado no mês fraco. Com a contratação:
Folga nova = -1.000 - 4.220 = -5.220Nesse cenário, a contratação aumenta um déficit que já existia. A decisão só faria sentido se viesse acompanhada de: (1) aumento de entradas no mês fraco, (2) redução de outras despesas fixas, (3) redução de saídas variáveis, (4) reforço de reserva para atravessar o vale sazonal, ou (5) alternativa de contratação menos fixa.
Alternativas quando o caixa não suporta (sem travar o crescimento)
1) Temporários e contratos por prazo
Indicado para picos sazonais, projetos e cobertura de férias/afastamentos. Vantagens: reduz compromisso de longo prazo e permite testar demanda. Como aplicar:
- Defina período (ex.: 60–90 dias) e meta de entrega.
- Simule o custo apenas nos meses do contrato.
- Planeje o desligamento/encerramento sem depender de “boa vontade do caixa”.
2) Comissionamento e remuneração variável
Transforma parte do custo em variável, alinhado ao faturamento/resultado. Útil para vendas e funções com métrica clara. Boas práticas:
- Defina gatilhos (ex.: comissão paga apenas sobre recebimento, ou sobre margem, não só sobre venda).
- Estabeleça teto e piso para evitar distorções.
- Simule o custo em mês forte e fraco para garantir que não “explode” no pico.
3) Terceirização (serviço recorrente com escopo controlado)
Boa para funções especializadas ou quando você precisa de capacidade sem gestão direta. Atenção: terceirização pode virar “fixo disfarçado”. Checklist:
- Escopo fechado e SLA claro.
- Reajuste e multa de rescisão mapeados.
- Plano B (troca de fornecedor) sem parar a operação.
4) Escalonamento (contratar em etapas)
Em vez de contratar “o time completo”, crie degraus de crescimento:
- Degrau 1: meio período, júnior, ou terceirizado parcial.
- Degrau 2: efetivação/tempo integral quando o mês fraco sustentar.
- Degrau 3: segunda contratação apenas após bater metas de capacidade/receita por 2–3 ciclos.
Como regra prática, vincule cada degrau a um indicador de caixa (ex.: manter folga positiva no mês fraco por X meses) e a um indicador operacional (ex.: fila, prazo, taxa de conversão).
Checklist de aprovação: decisão sustentável em 10 perguntas
- Qual é o custo mensal all-in (inclui encargos, benefícios, provisões e licenças)?
- Existe custo pontual de entrada (equipamento, recrutamento, reforma)? Em que mês sai do caixa?
- No mês fraco, o caixa termina acima do saldo mínimo + reserva depois da nova despesa?
- O PEC (ponto de equilíbrio de caixa) sobe para um nível que você já atingiu em meses fracos?
- Essa despesa fixa substitui alguma outra (redução de custo em outro lugar) ou só soma?
- É contratação por capacidade, substituição ou produtividade? Qual indicador prova a necessidade?
- Qual é o tempo de rampa até a pessoa/serviço gerar resultado?
- Se a demanda cair 20%, você consegue reduzir custo (variabilizar) ou ficará travado?
- Existe alternativa menos fixa (temporário, variável, terceirização, escalonamento) que atende 80% da necessidade?
- Qual é o gatilho objetivo para avançar (ou recuar) na decisão no próximo ciclo?