O que são contas a receber (e por que elas mandam no seu caixa)
Contas a receber são todas as vendas já realizadas que ainda não viraram dinheiro disponível no banco ou no caixa. Elas incluem vendas a prazo (boleto, crediário, parcelado), vendas no cartão (que entram dias depois), links de pagamento e até Pix “agendado” (quando o cliente promete pagar depois). O ponto central é: venda não paga não sustenta o negócio. Por isso, o controle deve acompanhar data prevista de entrada, forma de pagamento, taxas e status (a receber, recebido, em atraso, estornado).
Diferença prática: vendido x recebido
- Vendido: data em que você entregou o produto/serviço e gerou a cobrança.
- Recebido: data em que o dinheiro ficou disponível para usar (na conta, no saldo do intermediador, ou em caixa).
- Disponível não é o mesmo que “aprovado”: no cartão, por exemplo, a venda pode estar aprovada hoje, mas o dinheiro entra depois.
Como organizar recebíveis: campos mínimos que você precisa registrar
Você pode controlar em planilha, caderno estruturado ou sistema. O importante é registrar sempre do mesmo jeito. Um modelo simples de cadastro de venda/recebível:
| Campo | Para quê serve | Exemplo |
|---|---|---|
| Cliente | Identificar e cobrar | Maria Silva |
| Data da venda | Controle comercial e de entrega | 10/02 |
| Valor bruto | Quanto foi vendido | R$ 500,00 |
| Forma de pagamento | Define prazo e taxa | Cartão crédito 3x |
| Taxas | Calcular valor líquido | 3,49% + R$ 0,39 |
| Valor líquido esperado | Quanto deve entrar | R$ 482,16 |
| Data(s) prevista(s) de entrada | Previsão de caixa | 15/02, 15/03, 15/04 |
| Status | Acompanhar pendências | A receber |
| Comprovante/ID | Conciliação | NSU/ID do pedido |
Dica prática: se você vende parcelado, registre uma linha por parcela (cada uma com sua data prevista e valor líquido). Isso facilita conciliar com o extrato e enxergar atrasos.
Prazos e particularidades por forma de pagamento
1) Venda à vista (dinheiro)
- Entrada: imediata.
- Risco: falta de registro e “sumir” no dia a dia.
- Como registrar: data da venda = data de recebimento; status = recebido; anexe observação de onde o dinheiro foi guardado/depositado.
2) Pix
- Pix na hora: entrada imediata (quando cai na conta).
- Pix prometido: na prática vira “a receber” até cair.
- Como registrar: se não caiu, registre como a receber com data prevista combinada; quando cair, marque como recebido e registre a data real.
3) Cartão de débito
- Entrada: geralmente em D+1 a D+2 (varia por adquirente/maquininha).
- Taxas: menores que crédito, mas existem.
- Como registrar: data prevista de entrada = prazo do seu contrato/maquininha; valor líquido esperado = bruto − taxas.
4) Cartão de crédito (à vista e parcelado)
- Crédito à vista: costuma entrar em D+30 (pode variar).
- Crédito parcelado: entra em parcelas mensais (ex.: 3 parcelas em 3 meses) ou pode ser antecipado com custo.
- Taxas: MDR (percentual) +, às vezes, tarifa fixa; parcelado costuma ter taxa maior.
- Chargeback/contestação: risco de estorno. Mantenha comprovantes de entrega/serviço.
Regra de ouro: controle o cartão pelo valor líquido por parcela e pela data de repasse (não pela data da venda).
5) Boleto
- Entrada: após o pagamento, a compensação pode levar de 1 a 3 dias úteis (varia).
- Risco: cliente não paga e você só descobre depois.
- Como registrar: data de vencimento como data prevista; após pagamento, ajuste para a data real de crédito em conta.
6) Link de pagamento / intermediadores
- Entrada: depende do intermediador e do método (Pix, cartão, boleto).
- Taxas: podem ser maiores e incluir tarifa por transação.
- Como registrar: guarde o ID da transação e registre o prazo de repasse informado no comprovante/painel.
Passo a passo: registrando vendas à vista e a prazo sem confusão
Passo a passo 1: venda à vista (Pix ou dinheiro)
- 1) Registre a venda com data, cliente, valor bruto e forma de pagamento.
- 2) Se o dinheiro já entrou, marque status = recebido.
- 3) Registre a data real do recebimento (quando caiu no banco/caixa).
- 4) Se houver taxa (ex.: link Pix com tarifa), registre para chegar ao valor líquido.
Passo a passo 2: venda no cartão crédito à vista
- 1) Registre a venda (valor bruto) e a forma “crédito à vista”.
- 2) Calcule o valor líquido esperado (bruto − taxas).
- 3) Defina a data prevista de entrada (ex.: D+30).
- 4) Quando o repasse cair, marque como recebido e registre a data real e o valor efetivo.
Passo a passo 3: venda no cartão crédito parcelado
- 1) Registre a venda e o número de parcelas.
- 2) Crie uma linha por parcela com: valor bruto da parcela, taxa (se aplicável), valor líquido e data prevista.
- 3) Acompanhe mês a mês o que entrou e dê baixa parcela por parcela.
Passo a passo 4: venda no boleto
- 1) Registre a venda como “boleto” com vencimento e valor.
- 2) Status inicial: a receber.
- 3) No dia seguinte ao vencimento, verifique se foi pago.
- 4) Quando compensar, marque como recebido com a data real do crédito.
Conciliação: como conferir se o que você vendeu bate com o que entrou no banco
Conciliação é o processo de comparar seu controle de vendas/recebíveis com o extrato bancário e os relatórios da maquininha/intermediador. Isso evita “furo” de caixa, taxas inesperadas e recebimentos faltando.
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Rotina simples de conciliação (15 a 30 minutos)
- 1) Separe por fonte: banco (extrato), maquininha/adquirente (relatório de repasses), intermediador (relatório de saldo/saques).
- 2) Filtre por período: concilie por semana ou por quinzena (quanto menor o período, mais fácil achar erros).
- 3) Marque no seu controle: para cada entrada no extrato, encontre o recebível correspondente (pelo valor, data prevista e ID/NSU).
- 4) Classifique diferenças:
- Taxa maior que a prevista (ajuste o cadastro da taxa para as próximas vendas).
- Repasse agrupado (várias vendas em um único depósito; some as parcelas para bater).
- Repasse faltando (abrir verificação com adquirente/intermediador).
- Estorno/chargeback (registrar como saída/ajuste e revisar política de venda).
- 5) Atualize status: tudo que entrou vira “recebido”; o que não entrou e já passou da data vira “em atraso”.
Exemplo de conciliação (cartão com repasse agrupado)
Você tem 5 parcelas previstas para cair no dia 15/03 somando R$ 1.240,00 líquidos. No extrato aparece um depósito único de R$ 1.240,00 com descrição “REPASSE ADQUIRENTE”. Na conciliação, você marca as 5 parcelas como recebidas e anota o ID do repasse (quando disponível).
Cobrança simples: como reduzir inadimplência sem desgaste
Cobrança eficiente é previsível e padronizada. O objetivo é lembrar, facilitar o pagamento e registrar acordos. Evite improviso: use mensagens curtas, educadas e com link/chave de pagamento.
Calendário prático de cobrança (sugestão)
- D-2 (2 dias antes do vencimento): lembrete amigável com valor e data.
- D0 (dia do vencimento): reforço com meios de pagamento.
- D+1: mensagem objetiva perguntando se houve algum problema.
- D+3: proposta de acordo (nova data, parcelamento, desconto por pagamento imediato se fizer sentido).
- D+7: última tentativa amigável + aviso de suspensão de novos pedidos/prazos até regularizar.
Modelos de mensagens (copiar e colar)
Lembrete antes do vencimento (D-2):
Olá, [Nome]! Passando para lembrar que o pagamento de R$ [valor] vence em [data]. Se quiser, posso reenviar o link/Pix/boleto por aqui.
No vencimento (D0):
Oi, [Nome]! Hoje é o vencimento de R$ [valor] referente a [pedido/serviço]. Segue novamente o [Pix/link/boleto]: [informação]. Qualquer dúvida, estou à disposição.
Após vencimento (D+1):
Olá, [Nome]. Notei que o pagamento de R$ [valor] com vencimento em [data] ainda não consta como pago. Aconteceu algum imprevisto? Posso ajudar com uma nova data ou reenviar o meio de pagamento.
Proposta de acordo (D+3):
[Nome], para facilitar, podemos ajustar para pagamento em [nova data] ou parcelar em [x] vezes de R$ [valor]. O que fica melhor para você?
Regras simples para acordos (para não virar bagunça)
- Registre tudo: data combinada, valor, forma de pagamento e quem confirmou.
- Troque “promessa” por “data”: acordo sem data vira atraso infinito.
- Não entregue novamente sem regularizar (salvo exceções estratégicas).
- Se parcelar dívida, crie recebíveis novos com datas e status próprios.
Política de crédito básica (para vender a prazo com segurança)
Política de crédito é um conjunto de regras para decidir quem pode pagar depois, quanto e em quais condições. Ela reduz inadimplência e evita que o caixa dependa de promessas.
Critérios simples (comece enxuto)
- Entrada mínima: por exemplo, 30% na contratação e o restante em X dias.
- Limite por cliente: valor máximo em aberto (ex.: até R$ 800,00).
- Prazo máximo: ex.: até 30 dias para primeira compra a prazo.
- Histórico: cliente que atrasou só volta a ter prazo após 2 ou 3 pagamentos em dia.
- Documentação/confirmação: dados completos, endereço, confirmação por mensagem, comprovantes de entrega.
Como aplicar sem travar vendas
- Ofereça alternativas: Pix com desconto pequeno, cartão, ou entrada + saldo.
- Explique como regra do negócio, não como desconfiança: “Para pagamentos a prazo, trabalhamos com entrada e limite em aberto”.
- Se o cliente pedir exceção, transforme em condição: “Consigo, desde que com entrada maior / prazo menor”.
Como calcular o impacto de atrasos no fluxo de caixa
Quando um recebível atrasa, você perde liquidez (dinheiro disponível) e pode ser obrigado a cobrir o buraco com caixa próprio, atraso de contas ou crédito caro. Calcule o impacto com duas perguntas: quanto atrasou e qual custo isso gera.
Cálculo 1: buraco de caixa do período
Buraco de caixa = Recebimentos previstos no período − Recebimentos realizados no período
Exemplo: você previa receber R$ 8.000 na semana, mas entrou R$ 6.500. Buraco = R$ 1.500. Se suas contas a pagar da semana somam R$ 7.200, você já sabe que faltará R$ 700 (7.200 − 6.500) e precisará agir (cobrar, negociar prazos, buscar entrada, etc.).
Cálculo 2: custo do atraso (se você precisar de dinheiro para cobrir)
Se para cobrir o buraco você usa uma linha de crédito/limite com custo mensal, estime:
Custo do atraso ≈ Valor em atraso × taxa mensal × (dias de atraso / 30)
Exemplo: R$ 2.000 atrasados por 15 dias. Taxa do limite: 8% ao mês.
Custo ≈ 2.000 × 0,08 × (15/30) = 2.000 × 0,08 × 0,5 = R$ 80
Esse valor é o “preço” do atraso para o seu caixa (fora o tempo gasto cobrando e o risco de não receber).
Cálculo 3: quanto você precisa vender a mais para compensar um não recebimento
Se uma venda não é recebida, você precisa de vendas extras para cobrir a perda, dependendo da sua margem.
Vendas extras necessárias ≈ Valor perdido / margem de contribuição
Exemplo: você perdeu R$ 1.000 e sua margem é 25% (0,25).
Vendas extras ≈ 1.000 / 0,25 = R$ 4.000
Ou seja: um calote de R$ 1.000 pode exigir R$ 4.000 em novas vendas para “voltar ao zero”.
Checklist operacional: controle diário e semanal de recebíveis
Todo dia (5 a 10 minutos)
- Registrar vendas do dia (à vista e a prazo) com forma, taxas e datas previstas.
- Conferir se entrou Pix prometido e dar baixa.
- Marcar vencimentos do dia como “recebido” ou “pendente”.
Toda semana (15 a 30 minutos)
- Conciliar extrato bancário x repasses de cartão/intermediadores.
- Listar recebíveis em atraso e disparar cobrança conforme calendário.
- Revisar próximos 7 e 15 dias de entradas previstas para antecipar falta de caixa.