Contas a Receber no Fluxo de Caixa na Prática: prazos, inadimplência e políticas de cobrança

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que são Contas a Receber (CAR) e por que integrar ao fluxo

Contas a receber é o controle de tudo o que a empresa já vendeu (ou faturou) e ainda não entrou no caixa. Na prática, o CAR funciona como uma “agenda de entradas futuras” com responsáveis (clientes/canais), prazos e status. Integrar o CAR ao fluxo de caixa significa que cada recebimento previsto no CAR deve virar uma entrada projetada na data correta (considerando regras do meio de pagamento) e, quando pago, deve ser baixado como realizado.

O ponto crítico é que a data da venda raramente é a data do dinheiro na conta. Cartão tem repasse, boleto tem compensação, PIX pode ser imediato ou agendado, e ainda existe inadimplência e renegociação. Por isso, o CAR precisa registrar datas e regras que permitam projetar com precisão.

Modelo prático de controle de Contas a Receber (campos essenciais)

Você pode controlar em planilha ou sistema, mas os campos abaixo são os que permitem integrar com o fluxo e tomar decisão. Use uma linha por parcela (não por venda), porque o caixa entra por parcela.

Campos recomendados (linha por parcela)

  • ID do título (ex.: 2026-00123-01): identifica a parcela e evita confusão em renegociações.
  • Data da venda: quando a venda ocorreu.
  • Cliente: nome e, se útil, CNPJ/CPF.
  • Canal: balcão, WhatsApp, e-commerce, marketplace, etc.
  • Documento: NF, pedido, contrato, OS.
  • Parcela: 1/3, 2/3…
  • Valor bruto: valor original da parcela.
  • Descontos: desconto comercial (concedido na venda) e/ou desconto por antecipação/pagamento.
  • Juros/multa: previstos para atraso (quando aplicável) e/ou juros negociados em acordo.
  • Valor líquido esperado: bruto − descontos + juros/multa (quando aplicável).
  • Forma de recebimento: PIX, boleto, cartão crédito/débito, transferência, dinheiro, link de pagamento, etc.
  • Data de vencimento: data combinada com o cliente (obrigatória para cobrança).
  • Data prevista de entrada no caixa: data em que o dinheiro deve cair na conta (pode ser diferente do vencimento, especialmente em cartão e boleto).
  • Status: Aberto, Previsto, Pago, Atrasado, Em negociação, Renegociado, Cancelado/Estornado.
  • Data de pagamento (quando ocorrer) e valor recebido.
  • Conta bancária de entrada: onde entrou (ajuda na conferência e na gestão de saldo por conta).
  • Observações: promessa de pagamento, contato feito, acordo, motivo do atraso.

Exemplo de tabela (estrutura mínima)

IDVendaClienteParcelaVenc.FormaPrev. entradaValor líq.Status
2026-0045-0105/01Cliente A1/215/01Boleto16/01R$ 1.000Aberto
2026-0045-0205/01Cliente A2/215/02Boleto16/02R$ 1.000Aberto
2026-0046-0106/01Cliente B1/106/01PIX06/01R$ 350Pago
2026-0047-0107/01Cliente C1/107/01Cartão crédito06/02R$ 1.425Previsto

Note que no cartão crédito a “data prevista de entrada” pode ser bem depois da venda e até do vencimento (se houver), por causa do repasse.

Passo a passo: como montar o CAR integrado ao fluxo

Passo 1) Defina a regra: uma linha por parcela e uma data de entrada no caixa

Para integrar com o fluxo, a regra mais importante é: cada linha do CAR deve gerar uma entrada prevista no fluxo na data em que o dinheiro deve cair. Se você registrar apenas o vencimento, o fluxo ficará otimista (especialmente em cartão e boleto).

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Passo 2) Cadastre as regras por forma de recebimento

Crie uma pequena tabela de regras (pode ser uma aba na planilha) para transformar “vencimento/venda” em “data prevista de entrada”. Exemplos práticos:

  • PIX imediato: entrada no mesmo dia do pagamento.
  • PIX agendado: entrada na data agendada (se o cliente realmente executar; trate como “Previsto” e monitore).
  • Boleto: entrada geralmente em D+1 (dia útil seguinte) após o pagamento; se o vencimento cair em fim de semana/feriado, o pagamento pode ocorrer no próximo dia útil.
  • Cartão débito: repasse típico em D+1 a D+2 (varia por adquirente/conta).
  • Cartão crédito: repasse por parcela (ex.: 30 dias após a venda, ou calendário fixo de repasse semanal/mensal). Se houver antecipação, muda a data e há custo.
  • Marketplace: repasse conforme política (ex.: D+14, D+30, ou após entrega/aceite), com possíveis retenções/chargebacks.

Se você não souber a regra exata, comece com a prática observada (média real) e ajuste conforme os repasses acontecerem.

Passo 3) Registre a venda e já “quebre” em parcelas

No momento da venda (ou faturamento), registre:

  • Cliente, canal, documento, valor total.
  • Forma de recebimento e número de parcelas.
  • Vencimentos (se houver) e a regra de repasse.

Em seguida, crie as linhas de parcelas. Exemplo: venda de R$ 3.000 em 3x no cartão crédito. Você terá 3 linhas com valores e datas previstas de repasse (uma por mês, ou conforme calendário do adquirente).

Passo 4) Calcule o valor líquido esperado (taxas, descontos e juros)

Para o fluxo, o que importa é o valor que entra. Então, sempre que possível, registre o líquido esperado:

  • Cartão: valor da parcela − taxa (MDR) − aluguel/serviço se for rateado (opcional) − antecipação (se houver).
  • Marketplace: valor − comissão − frete cobrado − retenções previstas.
  • Boleto: valor − tarifa do boleto (se aplicável).

Se você preferir separar taxas em outra linha no fluxo, mantenha o bruto no CAR e crie uma regra para lançar as taxas como saída na data do repasse. O importante é ser consistente.

Passo 5) Gere as entradas projetadas no fluxo a partir do CAR

Integração prática (mesmo em planilha):

  • Filtre no CAR os títulos com Status = Aberto/Previsto.
  • Use a Data prevista de entrada como data da entrada projetada.
  • Use Valor líquido esperado como valor.
  • Descrição sugerida: Recebimento - Cliente X - Parcela 2/3 - ID 2026-0045-02.

Assim, o fluxo “enxerga” o futuro com base em títulos reais, não em estimativas genéricas.

Passo 6) Baixa (quando paga) e tratamento de atrasos

Quando o pagamento acontecer:

  • Atualize Status = Pago, preencha Data de pagamento e Valor recebido.
  • Se o valor recebido for diferente do esperado (desconto, juros, taxa maior), ajuste o valor recebido e registre o motivo em observações.
  • Se passou do vencimento e não pagou, mude para Status = Atrasado e inicie a régua de cobrança.

Uma regra simples: título pago sai da projeção e vira realizado; título atrasado continua aparecendo como risco e deve ter nova data prevista apenas quando houver evidência (promessa, acordo, agendamento).

Como projetar recebimentos por meio de pagamento (casos comuns)

Cartão: prazos de repasse e parcelamento

No cartão, o cliente “paga” hoje, mas a empresa recebe conforme o contrato com a adquirente. Para projetar corretamente:

  • Venda à vista no crédito: normalmente repasse em D+30 (ou calendário fixo). Registre a venda hoje, mas a data prevista de entrada no CAR deve ser a do repasse.
  • Venda parcelada: cada parcela tem seu próprio repasse. Crie uma linha por parcela com a data prevista de repasse de cada uma.
  • Antecipação: se você antecipar, substitua as datas futuras por uma data mais próxima e registre o custo (desconto) para não superestimar o caixa.

Exemplo (simplificado): venda R$ 1.500 em 3x, taxa total estimada R$ 75. Você pode registrar 3 parcelas de R$ 500 e líquido R$ 475 cada, com repasses em 30/60/90 dias (ou conforme calendário).

Boleto: vencimento não é entrada

Para boleto, o vencimento é a data limite para o cliente pagar, mas o dinheiro costuma cair depois:

  • Se o cliente paga no vencimento: entrada em D+1 (dia útil).
  • Se paga após vencimento: entrada em D+1 do dia do pagamento, e pode haver juros/multa (se você aplicar).

Na projeção, use a data prevista de entrada como vencimento + 1 dia útil (regra inicial). Se sua experiência mostrar D+2, ajuste.

PIX: imediato x agendado

  • PIX imediato: a data prevista de entrada é o próprio dia do pagamento (muitas vezes o mesmo dia da venda).
  • PIX agendado: registre o título com vencimento na data combinada e data prevista de entrada na data do agendamento. Se o cliente costuma falhar no agendamento, trate como risco: mantenha status “Previsto” e revise no dia.

Indicadores práticos para acompanhar (e como calcular)

1) Prazo Médio de Recebimento (PMR)

Mostra em quantos dias, em média, você transforma vendas em dinheiro no caixa. Uma forma prática baseada em títulos pagos:

PMR (dias) = soma( (data_recebimento - data_venda) * valor_recebido ) / soma(valor_recebido)

Use um período (ex.: últimos 30/60/90 dias) e compare por canal (cartão, boleto, PIX) para enxergar onde o dinheiro “demora”.

2) Taxa de atraso

Ajuda a medir inadimplência operacional (atraso) antes de virar perda.

Taxa de atraso (%) = valor em atraso / valor total a vencer no período

Você pode calcular por “foto” (hoje) ou por mês (títulos que venceram no mês e não foram pagos até a data de corte).

3) Concentração por cliente e por canal

Mostra risco de dependência e risco de caixa.

  • Concentração por cliente: % do total a receber (ou recebido) que vem do Top 1, Top 3, Top 5 clientes.
  • Concentração por canal: % do total a receber por cartão, boleto, PIX, marketplace.

Exemplo de leitura: “Top 3 clientes representam 55% do a receber do mês” indica que um atraso pontual pode derrubar o caixa.

4) Aging (envelhecimento) do contas a receber

Classifique o saldo em aberto por faixas de atraso:

  • A vencer
  • 1–7 dias em atraso
  • 8–15 dias
  • 16–30 dias
  • 31–60 dias
  • > 60 dias

Esse quadro orienta a cobrança: quanto mais velho, mais firme deve ser a ação e maior a chance de renegociação ou perda.

Políticas de cobrança e negociação (operacional, simples e aplicável)

Princípios para cobrar sem perder o cliente

  • Rapidez: atrasos pequenos viram grandes se ninguém agir.
  • Clareza: informe valor, vencimento, meios de pagamento e como enviar comprovante.
  • Registro: toda tentativa de contato deve ficar anotada (data, canal, resposta).
  • Consistência: use uma régua padrão; evita “esquecer” clientes e reduz constrangimento.

Régua simples de cobrança (exemplo pronto)

  • D-2 (2 dias antes do vencimento): lembrete amigável com valor, vencimento e link/QR/linha digitável.
  • D0 (dia do vencimento): mensagem curta confirmando vencimento e canais de pagamento.
  • D+1: aviso de vencimento + oferecer ajuda (2ª via, PIX, cartão, etc.).
  • D+3: contato mais direto + perguntar previsão de pagamento (data).
  • D+7: proposta de acordo (entrada + parcelas) ou desconto condicionado a pagamento imediato (se fizer sentido).
  • D+15: escalonamento (ligação, responsável financeiro, suspensão de novas vendas a prazo, conforme política).

Adapte o tom ao seu público. O objetivo é obter uma data e um compromisso, não apenas “cobrar”.

Modelos curtos de comunicação (para usar e adaptar)

Lembrete antes do vencimento: “Olá, [Nome]. Passando para lembrar que a parcela [x/y] de R$ [valor] vence em [data]. Se precisar de 2ª via/PIX, me avise que envio agora.”

Pós-vencimento (D+1): “Olá, [Nome]. Identificamos que o pagamento de R$ [valor] com vencimento em [data] ainda não consta. Posso reenviar o boleto/PIX? Consegue me confirmar uma previsão de pagamento?”

Proposta de acordo: “Para regularizar, podemos fazer: entrada de R$ [x] hoje e o restante em [n] parcelas a partir de [data]. Se preferir, também consigo gerar um PIX para pagamento à vista.”

Negociação: opções comuns e quando usar

  • Prorrogação de vencimento: útil quando o cliente tem data certa de caixa. Evite prorrogar sem nova data definida.
  • Parcelamento do atraso: transforma um título vencido em novos títulos com vencimentos futuros.
  • Desconto para pagamento imediato: pode ser melhor do que “esperar” e comprometer seu caixa, desde que calculado.
  • Juros/multa: aplicável quando previsto e quando a relação comercial comporta. Use com critério para não aumentar a chance de calote.

Como refletir renegociações na projeção (sem bagunçar o controle)

Regra de ouro: não apague o passado; crie um evento de renegociação

Quando um título entra em acordo, o erro comum é editar o vencimento original e “fingir” que nunca atrasou. Isso distorce indicadores e dificulta cobrança. O método prático:

  • Mantenha o título original com status Renegociado (ou Cancelado por acordo), com observação do acordo.
  • Crie novos títulos (novas linhas) para as parcelas do acordo, com novos vencimentos e novas datas previstas de entrada.
  • Se houver entrada no acordo (pagamento imediato), registre como um novo título com vencimento/entrada no dia.

Exemplo: título de R$ 1.000 vencido, renegociado em entrada + 2 parcelas

Antes: ID 2026-0045-01, venc. 15/01, valor R$ 1.000, status Atrasado.

Acordo em 25/01: entrada R$ 200 (PIX hoje) + 2x de R$ 420 (inclui juros de R$ 40 no total).

Como lançar:

  • Atualize o título original: status Renegociado, observação “Acordo em 25/01: entrada 200 + 2x 420”.
  • Crie novos títulos:
    • ID 2026-0045-A1: venc. 25/01, forma PIX, prev. entrada 25/01, valor líq. R$ 200, status Previsto/Pago.
    • ID 2026-0045-A2: venc. 10/02, forma boleto/PIX, prev. entrada conforme regra, valor líq. R$ 420, status Aberto.
    • ID 2026-0045-A3: venc. 10/03, forma boleto/PIX, prev. entrada conforme regra, valor líq. R$ 420, status Aberto.

Na projeção do fluxo, o título original deixa de “prometer” entrada (porque foi renegociado) e os novos títulos passam a compor as entradas futuras nas datas corretas.

Quando a renegociação envolve troca de meio de pagamento

Se o cliente troca boleto por cartão (ou vice-versa), ajuste a data prevista de entrada conforme a nova regra. Exemplo: acordo em cartão pode empurrar o caixa para o calendário de repasse, então o fluxo precisa refletir isso para não criar falsa sensação de liquidez.

Checklist de rotina (para manter o CAR confiável)

  • Diariamente (ou na frequência definida): registrar novas vendas a prazo e quebrar em parcelas.
  • Atualizar status: pagos, atrasados, em negociação.
  • Revisar títulos com vencimento nos próximos 7 dias (prevenção de atraso).
  • Rodar a régua de cobrança dos atrasados e registrar contatos.
  • Revisar renegociações: título original marcado como renegociado + novos títulos criados.
  • Atualizar regras de repasse quando perceber diferença recorrente entre previsto e realizado.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao integrar Contas a Receber (CAR) ao fluxo de caixa, qual prática evita que a projeção fique otimista, especialmente em boleto e cartão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A data da venda ou do vencimento pode ser diferente da data em que o dinheiro entra (repasse do cartão, compensação do boleto, etc.). Por isso, o CAR deve ter uma linha por parcela e uma data prevista de entrada no caixa para alimentar o fluxo com projeções realistas.

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Contas a Pagar no Fluxo de Caixa na Prática: vencimentos, prioridades e negociação com fornecedores

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