O que muda quando há restrições
Em muitos problemas de contagem, não basta “aplicar uma fórmula”: existe uma condição que proíbe certas configurações (sem repetição, sem adjacências, com posições fixas, com pelo menos um elemento de um tipo etc.). A estratégia é transformar a restrição em um plano de contagem organizado, escolhendo uma destas abordagens (ou combinando mais de uma):
- Contagem direta por casos: dividir em situações mutuamente exclusivas e somar.
- Método do complemento: contar o total sem restrição e subtrair o que é proibido.
- Fixação de posições: reservar posições para certos elementos e contar o restante.
- Construção por blocos: quando elementos devem ficar juntos, tratá-los como uma “unidade”.
Como organizar uma solução (roteiro)
- 1) Declare o universo: o que seria contado sem restrição? (tamanho do conjunto de possibilidades).
- 2) Traduza a restrição em linguagem de contagem: “não pode repetir”, “não pode ser adjacente”, “tem que estar na posição i”, “pelo menos um” etc.
- 3) Escolha a estratégia: casos, complemento, posições, blocos (ou combinação).
- 4) Defina variáveis e casos: descreva cada caso com clareza (ex.: quantidade de letras, quantidade de dígitos, posição do elemento).
- 5) Garanta exclusividade: casos não podem se sobrepor.
- 6) Garanta cobertura: a união dos casos deve ser exatamente o universo permitido.
Contagem direta por casos (somar situações)
Use quando a restrição naturalmente cria categorias: “exatamente dois”, “no máximo k”, “começa com vogal ou consoante”, “tem 0, 1 ou 2 repetições” etc. A soma funciona porque os casos são disjuntos.
Exemplo 1: seleção com condições (pelo menos um / exatamente dois / no máximo k)
Uma turma tem 5 alunos do grupo A e 7 do grupo B. Quantas comissões de 4 pessoas podem ser formadas com:
- (a) pelo menos 1 do grupo A
- (b) exatamente 2 do grupo A
- (c) no máximo 2 do grupo A
(b) Exatamente 2 do grupo A (caso único):
- Escolher 2 de A:
C(5,2) - Escolher 2 de B:
C(7,2) - Total:
C(5,2)·C(7,2)
(c) No máximo 2 do grupo A (casos disjuntos: 0, 1 ou 2 de A):
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- 0 de A e 4 de B:
C(5,0)·C(7,4) - 1 de A e 3 de B:
C(5,1)·C(7,3) - 2 de A e 2 de B:
C(5,2)·C(7,2) - Total:
C(5,0)·C(7,4)+C(5,1)·C(7,3)+C(5,2)·C(7,2)
(a) Pelo menos 1 do grupo A pode ser por casos (1,2,3,4 de A) ou por complemento (ver seção de complemento). Por casos:
- 1 de A e 3 de B:
C(5,1)·C(7,3) - 2 de A e 2 de B:
C(5,2)·C(7,2) - 3 de A e 1 de B:
C(5,3)·C(7,1) - 4 de A e 0 de B:
C(5,4)·C(7,0) - Total: soma dos quatro termos
Método do complemento (total − proibido)
É especialmente eficiente quando “o proibido” é mais simples de contar do que “o permitido”. A estrutura é:
- Total sem restrição
- Menos (casos que violam a regra)
Exemplo 2: comissão com pelo menos um (complemento)
Retomando a comissão de 4 pessoas (5 de A, 7 de B): contar com pelo menos 1 de A.
- Total de comissões de 4 dentre 12:
C(12,4) - Proibido: nenhuma pessoa de A (ou seja, 4 de B):
C(7,4) - Permitido:
C(12,4) − C(7,4)
Observe como o complemento evita somar vários casos quando a restrição é “pelo menos um”.
Exemplo 3: senhas sem repetição (com restrição de repetição)
Considere senhas de 6 caracteres formadas por dígitos (0–9) e letras maiúsculas (26), totalizando 36 símbolos. Quantas senhas têm todos os caracteres distintos?
Passo a passo (contagem direta por posições):
- 1ª posição: 36 opções
- 2ª posição: 35 (não pode repetir a anterior)
- 3ª posição: 34
- …
- 6ª posição: 31
Total: 36·35·34·33·32·31.
Se a pergunta fosse “quantas têm pelo menos uma repetição?”, o complemento seria natural:
- Total sem restrição:
36^6 - Sem repetição:
36·35·34·33·32·31 - Com repetição (pelo menos uma):
36^6 − 36·35·34·33·32·31
Fixação de posições (posições específicas e restrições de lugar)
Quando certos elementos precisam ocupar posições determinadas (ou proibidas), a ideia é “travar” essas posições e contar o restante. Isso reduz o problema a preencher lacunas.
Exemplo 4: permutações com elementos em posições específicas
Quantas permutações dos 8 símbolos {A,B,C,D,E,F,G,H} satisfazem: A na 1ª posição e B na 8ª posição?
Passo a passo:
- Fixe A na posição 1 e B na posição 8 (não há escolha nessas posições).
- Restam 6 símbolos para preencher 6 posições livres.
- Total:
6!
Exemplo 5: posição proibida (derivando casos simples)
Quantas permutações de {1,2,3,4,5} têm o número 1 em uma posição par?
Passo a passo:
- Posições pares disponíveis: 2 e 4 (2 escolhas).
- Escolha a posição do 1:
2maneiras. - Permute os outros 4 números nas 4 posições restantes:
4!maneiras. - Total:
2·4!
Note que aqui a restrição vira uma escolha inicial (posição do elemento) seguida de preenchimento livre.
Construção por blocos (elementos juntos)
Quando a restrição exige que certos elementos fiquem adjacentes, trate o conjunto como um “bloco” temporário. Depois, ajuste pela ordem interna do bloco.
Exemplo 6: dois elementos devem ficar juntos
Quantas permutações de {A,B,C,D,E,F} têm A e B juntos (em qualquer ordem)?
Passo a passo:
- Forme o bloco
(AB)(ainda sem decidir a ordem interna). - Agora há 5 unidades para permutar: o bloco + C, D, E, F.
- Permutações das 5 unidades:
5! - Ordem interna do bloco:
2(AB ou BA). - Total:
2·5!
Exemplo 7: três elementos juntos (com ordem interna)
Quantas permutações de {A,B,C,D,E,F,G} têm A, B e C consecutivos (em qualquer ordem)?
- Bloco
(ABC)+ D, E, F, G: total de 5 unidades. - Arranjos das unidades:
5! - Ordem interna do bloco:
3! - Total:
5!·3!
Adjacências proibidas (evitar vizinhança)
Restrições do tipo “X não pode ficar ao lado de Y” podem ser tratadas por:
- Complemento: total − (casos em que ficam juntos).
- Construção com lacunas: posicionar um grupo e inserir o outro em espaços permitidos (muito útil quando há vários elementos iguais ou muitos proibidos).
Exemplo 8: evitar adjacência usando complemento
Quantas permutações de {A,B,C,D,E,F} têm A e B não adjacentes?
Passo a passo:
- Total de permutações:
6! - Conte as permutações com A e B juntos (bloco):
2·5! - Não adjacentes:
6! − 2·5!
Exemplo 9: sequência binária sem adjacência proibida (lacunas)
Quantas sequências de comprimento 7 com símbolos 0 e 1 têm exatamente 3 uns e nenhum par de uns consecutivos?
Passo a passo (lacunas):
- Para evitar adjacência, coloque primeiro os zeros. Se há 3 uns, então há 4 zeros (porque o comprimento é 7).
- Escreva os 4 zeros:
0 0 0 0. Isso cria 5 lacunas onde uns podem ser inseridos (antes do primeiro zero, entre zeros, e após o último):_ 0 _ 0 _ 0 _ 0 _. - Para não haver uns consecutivos, cada lacuna pode receber no máximo 1 um.
- Escolha 3 lacunas dentre 5 para colocar os uns:
C(5,3).
Total: C(5,3).
Combinando técnicas: casos + posições + complemento
Problemas reais frequentemente pedem uma combinação. O segredo é manter a estrutura: definir universo, definir casos disjuntos, e checar cobertura.
Exemplo 10: senha com condição “exatamente dois dígitos” e sem repetição
Senhas de 5 caracteres usando letras maiúsculas (26) e dígitos (10). Exigir: exatamente 2 dígitos e nenhum caractere se repete. Quantas senhas existem?
Passo a passo:
- 1) Escolha as posições dos 2 dígitos entre 5:
C(5,2). - 2) Preencha as 2 posições de dígitos sem repetição:
10·9. - 3) Preencha as 3 posições de letras sem repetição:
26·25·24. - 4) Multiplique (decisões independentes após fixar posições):
C(5,2)·(10·9)·(26·25·24).
Os casos aqui são implícitos: a escolha das posições garante “exatamente 2 dígitos”; não há sobreposição entre escolhas diferentes de posições, e toda senha válida tem um único conjunto de posições de dígitos, garantindo cobertura.
Checklist de verificação (para evitar erros comuns)
- Casos realmente disjuntos? Se uma configuração puder cair em dois casos, você vai contar em dobro.
- Casos cobrem tudo? Se faltar um caso possível, você subconta.
- Complemento bem definido? O “proibido” deve ser exatamente o conjunto que viola a regra, nem maior nem menor.
- Blocos com ordem interna? Se o bloco pode permutar internamente, multiplique por essa quantidade.
- Fixação de posições antes de preencher: primeiro escolha/garanta as posições restritas, depois conte o preenchimento das lacunas.