O que são conflitos e reclamações no balcão (e por que acontecem)
Conflitos no balcão de farmácia surgem quando a expectativa do cliente (tempo, disponibilidade, preço, resultado) não é atendida e ele interpreta a situação como injusta, desrespeitosa ou sem solução. Reclamações podem ser legítimas (ex.: atraso real, informação divergente, falha de processo) ou reações emocionais a limitações do serviço (ex.: falta de estoque, regras de venda, exigência de receita). O objetivo do atendente não é “vencer a discussão”, e sim reduzir tensão, manter segurança, preservar a relação e encaminhar para soluções permitidas.
Comunicação Não Violenta (CNV) aplicada ao balcão
A CNV é uma forma de comunicação que reduz confronto e aumenta cooperação. No balcão, ela funciona como um roteiro mental em quatro partes: observação (o que aconteceu, sem julgamento), sentimento (o impacto emocional percebido), necessidade (o que a pessoa busca: rapidez, clareza, justiça, alívio) e pedido (próximo passo concreto e possível).
Tradução prática para frases de balcão
- Observação (fato): “Eu entendi que o senhor está aguardando há 20 minutos.”
- Validação (impacto): “Imagino como isso é frustrante, ainda mais com pressa.”
- Necessidade (o que importa): “O senhor precisa resolver isso hoje e com segurança, certo?”
- Pedido/ação (próximo passo): “Posso verificar o status agora e te dar um prazo real, ou ver uma alternativa disponível?”
Princípios de desescalonamento (redução de tensão)
1) Escuta ativa com controle do ambiente
- Mantenha voz baixa e ritmo lento; evite interromper.
- Se houver fila, proponha deslocar para um ponto lateral do balcão para preservar privacidade e reduzir “plateia”.
- Use perguntas curtas e objetivas para entender o problema: “O que aconteceu?”, “Qual foi a informação que recebeu?”, “Qual solução seria aceitável para você?”
2) Validação sem assumir culpa indevida
Validar é reconhecer a experiência do cliente, não admitir erro automaticamente. Evite frases que soem como deboche (“calma”, “isso não é nada”) e prefira reconhecer o incômodo.
- Evite: “Não tem o que fazer.”
- Prefira: “Eu entendo que isso atrapalha. Vou te explicar o que consigo fazer agora.”
3) Foco em soluções e escolhas
Conflitos pioram quando o cliente sente que perdeu controle. Ofereça opções reais e permitidas, com prazos e condições claras. Se não houver solução imediata, ofereça próximos passos (ex.: previsão, reserva, encomenda, contato quando chegar).
4) Linguagem neutra e limites firmes
Se houver agressividade, mantenha neutralidade e estabeleça limites: “Eu quero te ajudar, mas preciso que a gente converse sem ofensas.” Limite não é ameaça; é condição para continuar o atendimento com segurança.
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Passo a passo prático: protocolo de atendimento em reclamações
Passo 1 — Pausar e avaliar risco
- Observe sinais de escalada: voz muito alta, xingamentos, gestos bruscos, invasão do espaço, ameaça, tentativa de entrar na área restrita.
- Se houver risco imediato, priorize segurança (ver seção “Limites de segurança”).
Passo 2 — Repetir o problema com suas palavras (alinhamento)
Use uma frase de espelhamento: “Então, o que aconteceu foi X e o senhor precisa de Y hoje. É isso?” Isso reduz mal-entendidos e mostra que você ouviu.
Passo 3 — Explicar o que é possível (com transparência)
- Explique regras e limitações de forma simples, sem “juridiquês”.
- Evite justificar demais; justificativas longas soam como desculpas.
- Se houver política interna (troca, reserva, encomenda), cite o procedimento e o motivo operacional.
Passo 4 — Oferecer alternativas permitidas
Apresente 2 a 3 opções concretas. Exemplo de estrutura: “Eu consigo fazer A agora, ou B até tal horário, ou C com tal condição.”
Passo 5 — Confirmar a escolha e registrar o combinado
- Repita o que foi acordado: produto, quantidade, prazo, valor, forma de contato.
- Se houver fila, finalize com objetividade e agradeça a colaboração: “Obrigado por aguardar, vou acompanhar isso e te retorno até X.”
Como lidar com situações comuns
Atrasos (fila, manipulação, entrega, sistema)
Objetivo: reduzir sensação de descaso e dar previsibilidade.
- Frase útil: “Hoje estamos com maior movimento e isso aumentou o tempo. Eu consigo te dar um prazo real agora.”
- Ações: checar status no sistema; informar tempo estimado; oferecer retirada posterior; sugerir horário de menor movimento; se for entrega, confirmar endereço/contato e janela de entrega.
- Evite: prometer prazo “otimista” para encerrar conversa. Prazo quebrado aumenta conflito.
Falta de estoque
Objetivo: mostrar esforço, oferecer caminhos e evitar orientação clínica.
- Frase útil: “No momento esse item está sem estoque aqui. Posso verificar previsão de chegada e opções de disponibilidade.”
- Alternativas permitidas: encomenda/reserva conforme política; verificar outras apresentações do mesmo produto (ex.: tamanho/quantidade) quando aplicável; sugerir que o cliente converse com o farmacêutico se estiver buscando substituição terapêutica; indicar que pode retornar com a receita para avaliar disponibilidade quando chegar.
- Cuidado: não sugerir troca de princípio ativo, dose ou indicação por conta própria. Quando o cliente pedir “um parecido”, encaminhe ao farmacêutico.
Preços (diferença de etiqueta, aumento, comparação com concorrente)
Objetivo: manter transparência e evitar confronto sobre “justiça” do preço.
- Frase útil: “Eu entendo a surpresa. Vou conferir o preço no sistema e ver se há alguma condição aplicável (programa, desconto, apresentação).”
- Ações: conferir código/etiqueta; checar validade de promoção; explicar diferença entre apresentações (quantidade, concentração, marca); oferecer opção de menor custo dentro do que a loja pode vender, sem orientar troca terapêutica.
- Se houver divergência: siga o procedimento interno (ex.: chamar responsável para validar preço/etiqueta e corrigir exposição).
Negativa de venda quando aplicável (regras, receita, restrições)
Objetivo: negar com respeito, clareza e segurança, reduzindo sensação de acusação.
- Estrutura de fala: (1) reconhecer necessidade, (2) informar regra, (3) oferecer próximo passo.
- Exemplo: “Eu entendo que você precisa desse medicamento hoje. Para vender, a legislação exige receita/retensão (conforme o caso). O que eu posso fazer é chamar o farmacêutico para orientar o melhor encaminhamento e verificar como proceder com a documentação.”
- Evite: “Não vendo e pronto.” / “Você quer comprar errado.”
- Se o cliente insistir: repita a regra sem entrar em debate moral: “Eu não consigo liberar sem cumprir o procedimento. Posso chamar o responsável para explicar também.”
Frustrações gerais (cliente nervoso, ofensas, ironias)
Objetivo: não personalizar e não revidar.
- Técnica do disco riscado (repetição calma): repita a mensagem central com variações curtas: “Eu quero te ajudar. Para isso, preciso que a gente converse sem ofensas.”
- Redirecionamento: “Vamos focar no que resolve: você prefere esperar X minutos ou retornar em Y horário?”
- Se houver humilhação pública: convide para um local mais reservado e mantenha postura neutra.
Frases-modelo (para treinar)
| Situação | Frase recomendada | O que evitar |
|---|---|---|
| Cliente grita por demora | “Eu entendo a pressa. Vou verificar agora e te passar um prazo real.” | “Se não quiser esperar, vá embora.” |
| Sem estoque | “No momento não temos aqui. Posso ver previsão e alternativas de disponibilidade.” | “Acabou, não tem.” |
| Preço alto | “Vamos conferir no sistema e ver se existe alguma condição aplicável.” | “É esse preço mesmo, não reclame.” |
| Negativa de venda | “Para vender, preciso seguir o procedimento. Posso chamar o farmacêutico/responsável.” | “Você não tem cara de quem usa isso.” |
| Ofensas | “Eu vou continuar o atendimento quando a gente conseguir conversar com respeito.” | Discutir, ironizar, elevar o tom |
Limites de segurança: quando chamar responsável e quando encerrar
Quando chamar o responsável/farmacêutico imediatamente
- Cliente exige exceção a regra de venda, retenção de documento ou procedimento que você não pode autorizar.
- Ameaça de reclamação formal com exigência de “falar com o gerente” ou questionamento de política da loja.
- Suspeita de fraude (receita suspeita, tentativa de compra irregular, insistência incomum).
- Conflito escalando apesar das tentativas de desescalonamento.
- Qualquer situação em que você se sinta inseguro para decidir ou comunicar.
Quando encerrar o atendimento (limite final)
Encerrar é uma medida de proteção. Deve ser feito com linguagem objetiva, sem provocação, e com registro do ocorrido.
- Ofensas persistentes após aviso claro.
- Ameaças (explícitas ou veladas) à equipe ou à loja.
- Comportamento físico agressivo: bater no balcão, arremessar objetos, tentar acessar área restrita, aproximar-se de forma intimidatória.
- Cliente sob efeito evidente de substâncias com comportamento imprevisível.
Como encerrar com postura profissional (roteiro)
- 1) Aviso: “Eu quero te atender, mas preciso que pare com as ofensas.”
- 2) Condição: “Se continuar, vou chamar o responsável e encerrar o atendimento.”
- 3) Ação: chame o responsável/segurança conforme protocolo interno.
- 4) Encerramento: “Neste momento não vou continuar o atendimento. Quando estiver mais tranquilo, podemos retomar com o responsável.”
Registro de incidentes: como documentar sem julgamento
Registrar incidentes ajuda a proteger a equipe, identificar falhas de processo e embasar medidas internas. O registro deve ser factual, curto e sem adjetivos.
O que registrar (checklist)
- Data e horário.
- Local (balcão, caixa, corredor).
- Descrição objetiva do ocorrido (falas relevantes entre aspas, se necessário).
- Motivo inicial (atraso, estoque, preço, negativa de venda).
- Ações tomadas (checagem, oferta de alternativas, chamada do responsável).
- Desfecho (atendimento concluído, cliente saiu, necessidade de apoio).
- Testemunhas (equipe presente).
Exemplo de registro (modelo)
Data/Hora: 12/01 - 18:40 Local: Balcão 02 Motivo: falta de estoque (produto X) Relato: Cliente solicitou produto X. Informado que não havia estoque. Cliente elevou o tom e proferiu ofensas (“...”). Foi oferecida verificação de previsão e encomenda. Cliente recusou e continuou ofensas. Responsável foi acionado às 18:45. Atendimento encerrado às 18:48 por manutenção da agressividade verbal. Equipe presente: A, B.Boas práticas para prevenir conflitos antes que comecem
- Antecipar informação: se houver demora previsível, avise no início (“Hoje o tempo estimado está em X minutos”).
- Transparência visual: manter etiquetas e promoções atualizadas reduz discussões de preço.
- Frases de transição: “Vou verificar e já volto com uma resposta.” Evita sensação de abandono.
- Evitar promessas vagas: troque “já já” por “em até 5 minutos eu retorno com a confirmação”.
- Alinhamento interno: equipe deve usar a mesma orientação sobre reserva, encomenda e trocas para não gerar contradições.