Conflitos e Reclamações no Balcão de Farmácia: Comunicação Não Violenta e Limites de Segurança

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que são conflitos e reclamações no balcão (e por que acontecem)

Conflitos no balcão de farmácia surgem quando a expectativa do cliente (tempo, disponibilidade, preço, resultado) não é atendida e ele interpreta a situação como injusta, desrespeitosa ou sem solução. Reclamações podem ser legítimas (ex.: atraso real, informação divergente, falha de processo) ou reações emocionais a limitações do serviço (ex.: falta de estoque, regras de venda, exigência de receita). O objetivo do atendente não é “vencer a discussão”, e sim reduzir tensão, manter segurança, preservar a relação e encaminhar para soluções permitidas.

Comunicação Não Violenta (CNV) aplicada ao balcão

A CNV é uma forma de comunicação que reduz confronto e aumenta cooperação. No balcão, ela funciona como um roteiro mental em quatro partes: observação (o que aconteceu, sem julgamento), sentimento (o impacto emocional percebido), necessidade (o que a pessoa busca: rapidez, clareza, justiça, alívio) e pedido (próximo passo concreto e possível).

Tradução prática para frases de balcão

  • Observação (fato): “Eu entendi que o senhor está aguardando há 20 minutos.”
  • Validação (impacto): “Imagino como isso é frustrante, ainda mais com pressa.”
  • Necessidade (o que importa): “O senhor precisa resolver isso hoje e com segurança, certo?”
  • Pedido/ação (próximo passo): “Posso verificar o status agora e te dar um prazo real, ou ver uma alternativa disponível?”

Princípios de desescalonamento (redução de tensão)

1) Escuta ativa com controle do ambiente

  • Mantenha voz baixa e ritmo lento; evite interromper.
  • Se houver fila, proponha deslocar para um ponto lateral do balcão para preservar privacidade e reduzir “plateia”.
  • Use perguntas curtas e objetivas para entender o problema: “O que aconteceu?”, “Qual foi a informação que recebeu?”, “Qual solução seria aceitável para você?”

2) Validação sem assumir culpa indevida

Validar é reconhecer a experiência do cliente, não admitir erro automaticamente. Evite frases que soem como deboche (“calma”, “isso não é nada”) e prefira reconhecer o incômodo.

  • Evite: “Não tem o que fazer.”
  • Prefira: “Eu entendo que isso atrapalha. Vou te explicar o que consigo fazer agora.”

3) Foco em soluções e escolhas

Conflitos pioram quando o cliente sente que perdeu controle. Ofereça opções reais e permitidas, com prazos e condições claras. Se não houver solução imediata, ofereça próximos passos (ex.: previsão, reserva, encomenda, contato quando chegar).

4) Linguagem neutra e limites firmes

Se houver agressividade, mantenha neutralidade e estabeleça limites: “Eu quero te ajudar, mas preciso que a gente converse sem ofensas.” Limite não é ameaça; é condição para continuar o atendimento com segurança.

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Passo a passo prático: protocolo de atendimento em reclamações

Passo 1 — Pausar e avaliar risco

  • Observe sinais de escalada: voz muito alta, xingamentos, gestos bruscos, invasão do espaço, ameaça, tentativa de entrar na área restrita.
  • Se houver risco imediato, priorize segurança (ver seção “Limites de segurança”).

Passo 2 — Repetir o problema com suas palavras (alinhamento)

Use uma frase de espelhamento: “Então, o que aconteceu foi X e o senhor precisa de Y hoje. É isso?” Isso reduz mal-entendidos e mostra que você ouviu.

Passo 3 — Explicar o que é possível (com transparência)

  • Explique regras e limitações de forma simples, sem “juridiquês”.
  • Evite justificar demais; justificativas longas soam como desculpas.
  • Se houver política interna (troca, reserva, encomenda), cite o procedimento e o motivo operacional.

Passo 4 — Oferecer alternativas permitidas

Apresente 2 a 3 opções concretas. Exemplo de estrutura: “Eu consigo fazer A agora, ou B até tal horário, ou C com tal condição.”

Passo 5 — Confirmar a escolha e registrar o combinado

  • Repita o que foi acordado: produto, quantidade, prazo, valor, forma de contato.
  • Se houver fila, finalize com objetividade e agradeça a colaboração: “Obrigado por aguardar, vou acompanhar isso e te retorno até X.”

Como lidar com situações comuns

Atrasos (fila, manipulação, entrega, sistema)

Objetivo: reduzir sensação de descaso e dar previsibilidade.

  • Frase útil: “Hoje estamos com maior movimento e isso aumentou o tempo. Eu consigo te dar um prazo real agora.”
  • Ações: checar status no sistema; informar tempo estimado; oferecer retirada posterior; sugerir horário de menor movimento; se for entrega, confirmar endereço/contato e janela de entrega.
  • Evite: prometer prazo “otimista” para encerrar conversa. Prazo quebrado aumenta conflito.

Falta de estoque

Objetivo: mostrar esforço, oferecer caminhos e evitar orientação clínica.

  • Frase útil: “No momento esse item está sem estoque aqui. Posso verificar previsão de chegada e opções de disponibilidade.”
  • Alternativas permitidas: encomenda/reserva conforme política; verificar outras apresentações do mesmo produto (ex.: tamanho/quantidade) quando aplicável; sugerir que o cliente converse com o farmacêutico se estiver buscando substituição terapêutica; indicar que pode retornar com a receita para avaliar disponibilidade quando chegar.
  • Cuidado: não sugerir troca de princípio ativo, dose ou indicação por conta própria. Quando o cliente pedir “um parecido”, encaminhe ao farmacêutico.

Preços (diferença de etiqueta, aumento, comparação com concorrente)

Objetivo: manter transparência e evitar confronto sobre “justiça” do preço.

  • Frase útil: “Eu entendo a surpresa. Vou conferir o preço no sistema e ver se há alguma condição aplicável (programa, desconto, apresentação).”
  • Ações: conferir código/etiqueta; checar validade de promoção; explicar diferença entre apresentações (quantidade, concentração, marca); oferecer opção de menor custo dentro do que a loja pode vender, sem orientar troca terapêutica.
  • Se houver divergência: siga o procedimento interno (ex.: chamar responsável para validar preço/etiqueta e corrigir exposição).

Negativa de venda quando aplicável (regras, receita, restrições)

Objetivo: negar com respeito, clareza e segurança, reduzindo sensação de acusação.

  • Estrutura de fala: (1) reconhecer necessidade, (2) informar regra, (3) oferecer próximo passo.
  • Exemplo: “Eu entendo que você precisa desse medicamento hoje. Para vender, a legislação exige receita/retensão (conforme o caso). O que eu posso fazer é chamar o farmacêutico para orientar o melhor encaminhamento e verificar como proceder com a documentação.”
  • Evite: “Não vendo e pronto.” / “Você quer comprar errado.”
  • Se o cliente insistir: repita a regra sem entrar em debate moral: “Eu não consigo liberar sem cumprir o procedimento. Posso chamar o responsável para explicar também.”

Frustrações gerais (cliente nervoso, ofensas, ironias)

Objetivo: não personalizar e não revidar.

  • Técnica do disco riscado (repetição calma): repita a mensagem central com variações curtas: “Eu quero te ajudar. Para isso, preciso que a gente converse sem ofensas.”
  • Redirecionamento: “Vamos focar no que resolve: você prefere esperar X minutos ou retornar em Y horário?”
  • Se houver humilhação pública: convide para um local mais reservado e mantenha postura neutra.

Frases-modelo (para treinar)

SituaçãoFrase recomendadaO que evitar
Cliente grita por demora“Eu entendo a pressa. Vou verificar agora e te passar um prazo real.”“Se não quiser esperar, vá embora.”
Sem estoque“No momento não temos aqui. Posso ver previsão e alternativas de disponibilidade.”“Acabou, não tem.”
Preço alto“Vamos conferir no sistema e ver se existe alguma condição aplicável.”“É esse preço mesmo, não reclame.”
Negativa de venda“Para vender, preciso seguir o procedimento. Posso chamar o farmacêutico/responsável.”“Você não tem cara de quem usa isso.”
Ofensas“Eu vou continuar o atendimento quando a gente conseguir conversar com respeito.”Discutir, ironizar, elevar o tom

Limites de segurança: quando chamar responsável e quando encerrar

Quando chamar o responsável/farmacêutico imediatamente

  • Cliente exige exceção a regra de venda, retenção de documento ou procedimento que você não pode autorizar.
  • Ameaça de reclamação formal com exigência de “falar com o gerente” ou questionamento de política da loja.
  • Suspeita de fraude (receita suspeita, tentativa de compra irregular, insistência incomum).
  • Conflito escalando apesar das tentativas de desescalonamento.
  • Qualquer situação em que você se sinta inseguro para decidir ou comunicar.

Quando encerrar o atendimento (limite final)

Encerrar é uma medida de proteção. Deve ser feito com linguagem objetiva, sem provocação, e com registro do ocorrido.

  • Ofensas persistentes após aviso claro.
  • Ameaças (explícitas ou veladas) à equipe ou à loja.
  • Comportamento físico agressivo: bater no balcão, arremessar objetos, tentar acessar área restrita, aproximar-se de forma intimidatória.
  • Cliente sob efeito evidente de substâncias com comportamento imprevisível.

Como encerrar com postura profissional (roteiro)

  • 1) Aviso: “Eu quero te atender, mas preciso que pare com as ofensas.”
  • 2) Condição: “Se continuar, vou chamar o responsável e encerrar o atendimento.”
  • 3) Ação: chame o responsável/segurança conforme protocolo interno.
  • 4) Encerramento: “Neste momento não vou continuar o atendimento. Quando estiver mais tranquilo, podemos retomar com o responsável.”

Registro de incidentes: como documentar sem julgamento

Registrar incidentes ajuda a proteger a equipe, identificar falhas de processo e embasar medidas internas. O registro deve ser factual, curto e sem adjetivos.

O que registrar (checklist)

  • Data e horário.
  • Local (balcão, caixa, corredor).
  • Descrição objetiva do ocorrido (falas relevantes entre aspas, se necessário).
  • Motivo inicial (atraso, estoque, preço, negativa de venda).
  • Ações tomadas (checagem, oferta de alternativas, chamada do responsável).
  • Desfecho (atendimento concluído, cliente saiu, necessidade de apoio).
  • Testemunhas (equipe presente).

Exemplo de registro (modelo)

Data/Hora: 12/01 - 18:40  Local: Balcão 02  Motivo: falta de estoque (produto X)  Relato: Cliente solicitou produto X. Informado que não havia estoque. Cliente elevou o tom e proferiu ofensas (“...”). Foi oferecida verificação de previsão e encomenda. Cliente recusou e continuou ofensas. Responsável foi acionado às 18:45. Atendimento encerrado às 18:48 por manutenção da agressividade verbal. Equipe presente: A, B.

Boas práticas para prevenir conflitos antes que comecem

  • Antecipar informação: se houver demora previsível, avise no início (“Hoje o tempo estimado está em X minutos”).
  • Transparência visual: manter etiquetas e promoções atualizadas reduz discussões de preço.
  • Frases de transição: “Vou verificar e já volto com uma resposta.” Evita sensação de abandono.
  • Evitar promessas vagas: troque “já já” por “em até 5 minutos eu retorno com a confirmação”.
  • Alinhamento interno: equipe deve usar a mesma orientação sobre reserva, encomenda e trocas para não gerar contradições.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante uma reclamação no balcão, qual abordagem está mais alinhada à Comunicação Não Violenta (CNV) e ao foco em reduzir tensão e encaminhar soluções permitidas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A CNV no balcão segue um roteiro: observar o ocorrido sem julgamento, validar o impacto, compreender a necessidade e fazer um pedido/ação concreta. Isso ajuda a desescalar e direcionar para soluções permitidas, sem “vencer a discussão”.

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