O que é concordância nominal (e por que ela afeta a coerência)
Concordância nominal é o ajuste de gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural) entre os termos de um sintagma nominal: o núcleo (geralmente um substantivo) e os termos que o determinam ou qualificam (artigos, pronomes, numerais, adjetivos, locuções adjetivas) e, em muitos casos, os predicativos ligados por verbo de ligação. Em redação dissertativa, concordar bem não é “enfeite”: evita ambiguidades e sustenta a coerência, porque deixa claro quem está sendo caracterizado e como.
Sequência prática: do núcleo aos predicativos
1) Encontre o núcleo do sintagma nominal
O núcleo é a palavra que nomeia o ser/ideia principal do grupo nominal. Em geral, é um substantivo.
Exemplo: “As principais políticas públicas efetivas…” → núcleo: políticas (substantivo).
Exemplo: “Este tipo de medida…” → núcleo do sintagma “este tipo”: tipo. (A expressão “de medida” é complemento, não muda a concordância de “este”.)
2) Ajuste os adjuntos adnominais ao núcleo
Adjuntos adnominais (artigos, pronomes, numerais e adjetivos que acompanham o substantivo) devem concordar com o núcleo.
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“Essas propostas urgentes” (fem. plural).
“Um argumento consistente” (masc. singular).
“Duas medidas estruturais” (fem. plural).
Atenção a núcleos coletivos e palavras-guia: em “a maioria dos estudantes”, o núcleo é “maioria” (singular), mas o sentido pode puxar o plural em alguns contextos. Na concordância nominal, o que manda é o núcleo do sintagma em que o adjetivo está inserido: “a maioria favorável”, “os estudantes favoráveis”.
3) Verifique os predicativos (do sujeito e do objeto)
Predicativo é o termo que atribui característica por meio de verbo de ligação (ser, estar, parecer, permanecer etc.) ou que qualifica um termo após certos verbos (considerar, julgar, tornar etc.). Ele também concorda com o termo a que se refere.
Predicativo do sujeito: “As políticas públicas são essenciais.” → “essenciais” concorda com “políticas públicas”.
Predicativo do objeto: “O texto considera essas medidas insuficientes.” → “insuficientes” concorda com “medidas”.
Adjetivo com mais de um substantivo: regras úteis na redação
1) Adjetivo posposto (depois dos substantivos)
Quando o adjetivo vem depois de dois ou mais substantivos, há duas soluções frequentes:
Concordância no plural (mais comum e segura): “educação e saúde públicas”.
Concordância com o mais próximo (possível, mas pode soar ambígua em textos formais): “educação e saúde pública”.
Recomendação para dissertação: prefira o plural para evitar leitura de que o adjetivo vale apenas para o último termo.
2) Adjetivo anteposto (antes dos substantivos)
Quando o adjetivo vem antes de dois ou mais substantivos, a tendência é concordar com o mais próximo.
“Urgente reforma e investimento são necessários.” (adjetivo “urgente” ligado ao primeiro núcleo mais próximo).
Se a intenção é qualificar ambos com clareza, reescreva:
“Reforma e investimento urgentes são necessários.”
“É necessária uma reforma urgente e um investimento urgente.”
3) Substantivos de gêneros diferentes
Se os substantivos têm gêneros diferentes e o adjetivo se refere a ambos, use o masculino plural (regra geral).
“A desigualdade e o preconceito estruturais persistem.”
“A lei e o regulamento vigentes…”
Expressões do tipo “é proibido/é necessário/é bom”: com e sem artigo
Essas construções são muito usadas em tese e proposta de intervenção (“é necessário…”, “é proibido…”). A concordância varia conforme haja artigo (ou outro determinante) antes do substantivo.
1) Sem artigo: forma invariável (neutra)
Quando o substantivo aparece sem artigo, a expressão tende a ficar invariável (no masculino singular).
“É proibido entrada de menores.”
“É necessário investimento em saneamento.”
“É bom debate público qualificado.”
Uso em redação: essa forma é comum em avisos e também pode aparecer em dissertação, mas cuide da naturalidade: muitas vezes fica mais claro inserir artigo e concordar.
2) Com artigo/determinante: concordância obrigatória
Com artigo (ou pronome, numeral etc.), o adjetivo concorda com o substantivo.
“É proibida a entrada de menores.”
“É necessário o investimento em saneamento.”
“É necessária uma reforma tributária.”
“É boa a ampliação do acesso à cultura.”
3) Passo a passo para decidir rápido
Passo 1: há artigo/determinante antes do substantivo? (o/a/os/as; um/uma; este/essa; aquela; etc.)
Passo 2: se não houver, use a forma invariável: “é proibido/necessário/bom”.
Passo 3: se houver, faça o adjetivo concordar: “é proibida a…”, “é necessário o…”, “é boa a…”.
Concordância com pronomes de tratamento
Pronomes de tratamento costumam exigir verbo na 3ª pessoa, mas aqui o foco é a concordância nominal em predicativos e adjetivos que se referem à pessoa tratada. Em geral, concorda-se com o sexo/gênero da pessoa a quem se fala, especialmente em predicativos e particípios/adjetivos.
“Vossa Excelência está ciente dos impactos.” (para homem)
“Vossa Excelência está ciente dos impactos.” (para mulher também é comum manter “ciente”, por ser uniforme; mas em adjetivos variáveis, ajuste)
“Vossa Excelência está convencida de que a medida é insuficiente.” (para mulher)
“Vossa Senhoria foi informada sobre os dados.” (para mulher)
“Vossa Alteza parece preocupada com a repercussão.” (para mulher)
Observação prática: em redações escolares e vestibulares, pronomes de tratamento formais raramente aparecem; a regra é útil para cartas formais, ofícios e citações em textos argumentativos que mencionem autoridades.
Armadilhas comuns (com exemplos em argumentos dissertativos)
1) “Meio” x “Meia”
Meio pode ser advérbio (= “um pouco”), e aí é invariável. Meia é numeral (= “metade”) e concorda com o substantivo.
Advérbio (invariável): “A proposta é meio vaga e pouco operacional.”
Numeral (concorda): “Metade”: “A pesquisa indica meia verdade estatística quando se omite o recorte social.”
Outro exemplo numeral: “Foram necessárias meias medidas, mas elas não resolveram o problema.”
2) “Anexo” x “Anexa”
Anexo funciona como adjetivo e concorda com o substantivo a que se refere.
“Segue anexa a tabela com os indicadores.”
“Seguem anexos os gráficos que sustentam o argumento.”
Em redação dissertativa, a palavra aparece mais em contextos formais (relatórios, cartas). Se usar, mantenha a concordância para não comprometer a credibilidade do texto.
3) “Obrigado” x “Obrigada”
Quando usado como forma de agradecimento, obrigado é adjetivo e concorda com quem fala.
“Como autora do relatório, digo: obrigada pela atenção aos dados.”
“Como relator, registro: obrigado pela leitura criteriosa.”
Em dissertações, normalmente não se agradece ao leitor; a regra é útil em textos de apoio, apresentações e comunicações formais.
4) “Bastante” x “Bastantes”
Bastante pode ser advérbio (= “muito”), invariável; ou adjetivo/pronome (= “suficiente(s)”, “muitos(as)”), variável.
Advérbio (invariável): “O argumento está bastante consistente, mas precisa de dados.”
Adjetivo (concorda): “Há bastantes evidências de que a medida reduz desigualdades.”
Adjetivo (sentido de suficiente): “Não há provas bastantes para generalizar o resultado.”
Checklist de revisão rápida (para evitar incoerências)
Localizei o núcleo de cada sintagma nominal importante?
Artigos, pronomes, numerais e adjetivos estão no mesmo gênero e número do núcleo?
Predicativos (do sujeito/objeto) concordam com o termo que caracterizam?
Quando há dois substantivos, escolhi uma concordância que não gere ambiguidade (preferência pelo plural)?
Em “é proibido/necessário/bom”, verifiquei se há artigo antes do substantivo?
Revisei as armadilhas: meio, anexo, obrigado, bastante?
Exercício guiado (reescrita para concordância e clareza)
Versão com problemas: “É necessária investimentos em educação e saúde pública, pois a maioria dos jovens estão meio desassistidos e há bastante políticas ineficaz.”
Passo a passo de ajuste:
1) “É necessária investimentos”: há substantivo “investimentos” no plural; com determinante implícito? Melhor inserir artigo e concordar: “São necessários os investimentos…” ou “É necessário investimento…” (singular genérico).
2) “educação e saúde pública”: dois substantivos; adjetivo posposto. Preferir plural: “educação e saúde públicas”.
3) “meio desassistidos”: “meio” advérbio, invariável; ok. Conferir concordância de “desassistidos” com “jovens” (plural); ok.
4) “bastante políticas ineficaz”: “políticas” plural; “bastantes” (adjetivo) e “ineficazes” (plural): “há bastantes políticas ineficazes”.
Versão revisada (mais coerente): “São necessários os investimentos em educação e saúde públicas, pois muitos jovens estão meio desassistidos e há bastantes políticas ineficazes.”