Por que a comunicação é uma intervenção clínica
Na fisioterapia esportiva, comunicação não é “atualização de status”: é uma ferramenta para reduzir ruído entre reabilitação e treino, evitar decisões contraditórias e acelerar o retorno com segurança. Um alinhamento bem feito define o que está liberado, o que está limitado e como todos vão medir a resposta do corpo ao estímulo. O objetivo é que treinador e atleta consigam agir no dia a dia sem depender de interpretações subjetivas (“acho que dá”, “parece melhor”).
Três princípios para comunicação objetiva
- Especificidade: trocar “pode treinar leve” por parâmetros (intensidade, volume, tipo de estímulo, restrições).
- Mensurabilidade: incluir como medir resposta (dor, rigidez, desempenho, sinais de alerta) e quando reavaliar.
- Coerência: o treino precisa refletir a fase atual da reabilitação; a reabilitação precisa considerar o calendário e as demandas do esporte.
Modelo de comunicação em duas camadas: treinador vs atleta
1) O que o treinador precisa saber (essencial e acionável)
O treinador toma decisões de sessão (exercícios, intensidade, volume, progressões). Para isso, ele precisa de informações curtas, padronizadas e com limites claros:
- Limitações atuais: o que está restrito e por quê (ex.: “evitar desacelerações máximas” em vez de “evitar impacto”).
- Estímulos permitidos: o que pode ser treinado sem piorar o quadro (ex.: “corrida contínua em zona leve/moderada” ou “técnica sem mudança brusca de direção”).
- Intensidades: faixas objetivas (RPE, % de esforço, velocidade, carga relativa) e teto do dia.
- Volumes: duração, número de séries/repetições, distância, número de sprints, número de saltos, etc.
- Sinais de alerta: critérios de parar/reduzir (ex.: aumento de dor durante, piora no dia seguinte, instabilidade, edema).
- Próximos marcos: o que precisa acontecer para progredir (ex.: “se tolerar 2 sessões sem piora, liberar progressão X”).
2) O que o atleta precisa saber (clareza para adesão)
O atleta precisa de instruções que facilitem execução e autocontrole. Uma estrutura simples funciona bem:
- O que fazer: tarefas objetivas (treino, exercícios, ajustes de rotina).
- Por que fazer: explicação curta conectando ação e objetivo (“isso prepara o tendão para tolerar…”).
- Como medir resposta: o que observar e registrar (dor, rigidez, confiança, desempenho, recuperação).
Passo a passo prático: como alinhar em 10 minutos
Passo 1 — Defina o “status do dia” em 1 frase
Use um resumo que qualquer pessoa entenda e que já indique direção:
- “Hoje estamos em fase de exposição controlada a corrida, sem sprints e sem mudanças bruscas de direção.”
- “Hoje o foco é manter condicionamento sem agravar sintomas; força de membros inferiores liberada com ajustes.”
Passo 2 — Liste 3 itens: liberado, limitado, proibido (temporariamente)
Evite listas longas. Três itens por coluna costumam ser suficientes para orientar a sessão.
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| Liberado | Limitado | Evitar por enquanto |
|---|---|---|
| Bike 30–40 min RPE 4–6 | Agachamento até amplitude confortável | Sprints máximos |
| Força de tronco e membros superiores | Saltos baixos (até X contatos) | Mudanças de direção em alta velocidade |
| Técnica específica sem dor | Corrida contínua até X min | Pliometria alta/queda de altura |
Passo 3 — Coloque parâmetros (intensidade e volume) com um “teto”
Transforme “leve/moderado” em números. Exemplos de parâmetros úteis:
- RPE (0–10): “até RPE 6”.
- Duração: “máximo 40 min”.
- Contagem: “até 12 acelerações submáximas”.
- Carga: “até 3 séries de 6–8 reps com técnica perfeita; parar 2 reps antes da falha”.
Passo 4 — Defina sinais de alerta e o que fazer se aparecerem
Não basta listar sinais; é preciso dizer a ação imediata. Exemplo de regra simples:
- Durante a sessão: se dor ultrapassar o limite combinado ou alterar padrão de movimento, reduzir intensidade/volume na hora.
- Após (até 24h): se houver piora clara no dia seguinte (dor/rigidez/edema), a próxima sessão volta um passo na progressão.
Passo 5 — Combine o próximo marco e a data de revisão
Marcos evitam “progredir por ansiedade”. Exemplo:
- “Se completar 2 treinos com os parâmetros acima sem piora no dia seguinte, liberar progressão de volume em 10–15%.”
- “Revisão em 7 dias com feedback do treinador sobre tolerância e qualidade técnica.”
Exemplos de mensagens padronizadas (copiar e colar)
Mensagem curta para o treinador (WhatsApp/Telegram)
[ATLETA]: Nome | [DATA] | [FOCO]: manter treino sem agravar sintomas (fase: exposição controlada)
LIBERADO: (1) bike 30–40min RPE 4–6; (2) força MMSS + core; (3) técnica específica sem dor
LIMITADO: (1) corrida contínua até 20min RPE ≤6; (2) agachamento até amplitude confortável; (3) saltos baixos até 20 contatos
EVITAR: sprints máximos; mudanças de direção em alta velocidade; pliometria alta
TETO DO DIA: RPE geral ≤7, sem “pico” de intensidade
ALERTA: dor crescente + alteração técnica / edema / instabilidade → reduzir na hora e me avisar
PRÓXIMO MARCO: se 2 sessões sem piora em 24h, aumentar corrida +10–15% e incluir acelerações submáximas
REVISÃO: dd/mmMensagem curta para o atleta (orientação diária)
Hoje você vai:
1) Fazer corrida contínua 20 min (RPE 5–6) + bike 15 min leve
2) Fazer os exercícios A/B (3x/semana) com técnica perfeita
Por quê: isso mantém condicionamento e aumenta tolerância do tecido sem “picos” de carga.
Como medir resposta:
- Durante: dor até X/10 e sem mancar/compensar
- Depois: amanhã cedo comparar rigidez/dor com hoje (igual ou melhor = ok)
- Se piorar claramente em 24h: me avise e reduza 20–30% do volume na próxima sessãoExemplo de relatório curto (1 página) para acompanhamento semanal
Um relatório semanal simples ajuda a equipe a enxergar tendência (melhora/estagnação/piora) sem excesso de texto.
| Campo | Preenchimento (exemplo) |
|---|---|
| Status atual | Exposição controlada; tolera corrida contínua moderada; ainda sensível a aceleração forte |
| Objetivo da semana | Manter consistência + aumentar volume aeróbio sem piora em 24h |
| Liberado | Força geral; corrida contínua até 25 min RPE ≤6; técnica sem COD rápido |
| Restrições | Sem sprints máximos; sem COD em alta; limitar saltos a 20–30 contatos |
| Parâmetros | 2–3 sessões corrida/semana; progressão 10–15% se sem piora; teto RPE geral ≤7 |
| Sinais de alerta | Edema, instabilidade, dor crescente com queda de técnica, piora no dia seguinte |
| Marcos para progressão | 2 sessões sem piora em 24h + execução técnica estável → incluir acelerações submáximas |
| O que preciso do treinador | Feedback sobre: qualidade técnica, picos de intensidade, resposta no dia seguinte |
Estratégias de tomada de decisão compartilhada (fisioterapeuta + treinador + atleta)
1) Combine “o que é sucesso” e “o que é falha” antes do treino
Decisão compartilhada funciona quando os critérios são definidos previamente. Use um mini-contrato verbal:
- Sucesso: “terminar a sessão dentro do teto de RPE, sem piora no dia seguinte e sem queda de técnica.”
- Falha: “precisar compensar, dor subir progressivamente, ou acordar pior no dia seguinte.”
2) Use opções A/B/C para o treinador ajustar na hora
Em vez de uma prescrição única, ofereça alternativas equivalentes (mesmo objetivo, menor risco). Exemplo:
- Plano A: corrida contínua + técnica.
- Plano B (se houver desconforto): elíptico/bike no mesmo tempo-alvo + técnica reduzida.
- Plano C (se houver sinal de alerta): apenas condicionamento sem impacto + mobilidade/controle leve.
3) Faça perguntas que evitam “sim/não” e revelam risco
Para o atleta:
- “O que você mudou no treino/rotina desde a última sessão?”
- “Em que parte do treino você sentiu que precisou se proteger?”
- “Como foi o dia seguinte (manhã) em comparação ao dia anterior?”
Para o treinador:
- “Teve pico de intensidade não planejado (competição, jogo, desafio)?”
- “A técnica caiu em qual momento (início/meio/fim)?”
- “Qual ajuste você faria se tivesse que repetir a sessão amanhã?”
4) Mantenha um “dicionário comum” (termos que todos entendem igual)
Defina termos para reduzir interpretações:
- Leve/moderado/forte = faixas de RPE combinadas.
- Sem dor = “sem aumento progressivo e sem alterar movimento”, não “zero sensação”.
- Piora = piora no dia seguinte ou perda de função, não apenas desconforto momentâneo.
Checklist rápido para coerência entre reabilitação e treino
- O treinador recebeu limitações + liberados + teto em uma mensagem curta?
- O atleta sabe o que fazer hoje e como medir se foi adequado?
- Existe um plano B se houver desconforto durante a sessão?
- Os sinais de alerta têm ação definida (reduzir/parar/avisar)?
- Há um marco claro para progressão e uma data de revisão?