Comunicação na Fisioterapia Esportiva: alinhamento com treinador e com o atleta

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Por que a comunicação é uma intervenção clínica

Na fisioterapia esportiva, comunicação não é “atualização de status”: é uma ferramenta para reduzir ruído entre reabilitação e treino, evitar decisões contraditórias e acelerar o retorno com segurança. Um alinhamento bem feito define o que está liberado, o que está limitado e como todos vão medir a resposta do corpo ao estímulo. O objetivo é que treinador e atleta consigam agir no dia a dia sem depender de interpretações subjetivas (“acho que dá”, “parece melhor”).

Três princípios para comunicação objetiva

  • Especificidade: trocar “pode treinar leve” por parâmetros (intensidade, volume, tipo de estímulo, restrições).
  • Mensurabilidade: incluir como medir resposta (dor, rigidez, desempenho, sinais de alerta) e quando reavaliar.
  • Coerência: o treino precisa refletir a fase atual da reabilitação; a reabilitação precisa considerar o calendário e as demandas do esporte.

Modelo de comunicação em duas camadas: treinador vs atleta

1) O que o treinador precisa saber (essencial e acionável)

O treinador toma decisões de sessão (exercícios, intensidade, volume, progressões). Para isso, ele precisa de informações curtas, padronizadas e com limites claros:

  • Limitações atuais: o que está restrito e por quê (ex.: “evitar desacelerações máximas” em vez de “evitar impacto”).
  • Estímulos permitidos: o que pode ser treinado sem piorar o quadro (ex.: “corrida contínua em zona leve/moderada” ou “técnica sem mudança brusca de direção”).
  • Intensidades: faixas objetivas (RPE, % de esforço, velocidade, carga relativa) e teto do dia.
  • Volumes: duração, número de séries/repetições, distância, número de sprints, número de saltos, etc.
  • Sinais de alerta: critérios de parar/reduzir (ex.: aumento de dor durante, piora no dia seguinte, instabilidade, edema).
  • Próximos marcos: o que precisa acontecer para progredir (ex.: “se tolerar 2 sessões sem piora, liberar progressão X”).

2) O que o atleta precisa saber (clareza para adesão)

O atleta precisa de instruções que facilitem execução e autocontrole. Uma estrutura simples funciona bem:

  • O que fazer: tarefas objetivas (treino, exercícios, ajustes de rotina).
  • Por que fazer: explicação curta conectando ação e objetivo (“isso prepara o tendão para tolerar…”).
  • Como medir resposta: o que observar e registrar (dor, rigidez, confiança, desempenho, recuperação).

Passo a passo prático: como alinhar em 10 minutos

Passo 1 — Defina o “status do dia” em 1 frase

Use um resumo que qualquer pessoa entenda e que já indique direção:

  • “Hoje estamos em fase de exposição controlada a corrida, sem sprints e sem mudanças bruscas de direção.”
  • “Hoje o foco é manter condicionamento sem agravar sintomas; força de membros inferiores liberada com ajustes.”

Passo 2 — Liste 3 itens: liberado, limitado, proibido (temporariamente)

Evite listas longas. Três itens por coluna costumam ser suficientes para orientar a sessão.

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LiberadoLimitadoEvitar por enquanto
Bike 30–40 min RPE 4–6Agachamento até amplitude confortávelSprints máximos
Força de tronco e membros superioresSaltos baixos (até X contatos)Mudanças de direção em alta velocidade
Técnica específica sem dorCorrida contínua até X minPliometria alta/queda de altura

Passo 3 — Coloque parâmetros (intensidade e volume) com um “teto”

Transforme “leve/moderado” em números. Exemplos de parâmetros úteis:

  • RPE (0–10): “até RPE 6”.
  • Duração: “máximo 40 min”.
  • Contagem: “até 12 acelerações submáximas”.
  • Carga: “até 3 séries de 6–8 reps com técnica perfeita; parar 2 reps antes da falha”.

Passo 4 — Defina sinais de alerta e o que fazer se aparecerem

Não basta listar sinais; é preciso dizer a ação imediata. Exemplo de regra simples:

  • Durante a sessão: se dor ultrapassar o limite combinado ou alterar padrão de movimento, reduzir intensidade/volume na hora.
  • Após (até 24h): se houver piora clara no dia seguinte (dor/rigidez/edema), a próxima sessão volta um passo na progressão.

Passo 5 — Combine o próximo marco e a data de revisão

Marcos evitam “progredir por ansiedade”. Exemplo:

  • “Se completar 2 treinos com os parâmetros acima sem piora no dia seguinte, liberar progressão de volume em 10–15%.”
  • “Revisão em 7 dias com feedback do treinador sobre tolerância e qualidade técnica.”

Exemplos de mensagens padronizadas (copiar e colar)

Mensagem curta para o treinador (WhatsApp/Telegram)

[ATLETA]: Nome | [DATA] | [FOCO]: manter treino sem agravar sintomas (fase: exposição controlada)
LIBERADO: (1) bike 30–40min RPE 4–6; (2) força MMSS + core; (3) técnica específica sem dor
LIMITADO: (1) corrida contínua até 20min RPE ≤6; (2) agachamento até amplitude confortável; (3) saltos baixos até 20 contatos
EVITAR: sprints máximos; mudanças de direção em alta velocidade; pliometria alta
TETO DO DIA: RPE geral ≤7, sem “pico” de intensidade
ALERTA: dor crescente + alteração técnica / edema / instabilidade → reduzir na hora e me avisar
PRÓXIMO MARCO: se 2 sessões sem piora em 24h, aumentar corrida +10–15% e incluir acelerações submáximas
REVISÃO: dd/mm

Mensagem curta para o atleta (orientação diária)

Hoje você vai:
1) Fazer corrida contínua 20 min (RPE 5–6) + bike 15 min leve
2) Fazer os exercícios A/B (3x/semana) com técnica perfeita

Por quê: isso mantém condicionamento e aumenta tolerância do tecido sem “picos” de carga.

Como medir resposta:
- Durante: dor até X/10 e sem mancar/compensar
- Depois: amanhã cedo comparar rigidez/dor com hoje (igual ou melhor = ok)
- Se piorar claramente em 24h: me avise e reduza 20–30% do volume na próxima sessão

Exemplo de relatório curto (1 página) para acompanhamento semanal

Um relatório semanal simples ajuda a equipe a enxergar tendência (melhora/estagnação/piora) sem excesso de texto.

CampoPreenchimento (exemplo)
Status atualExposição controlada; tolera corrida contínua moderada; ainda sensível a aceleração forte
Objetivo da semanaManter consistência + aumentar volume aeróbio sem piora em 24h
LiberadoForça geral; corrida contínua até 25 min RPE ≤6; técnica sem COD rápido
RestriçõesSem sprints máximos; sem COD em alta; limitar saltos a 20–30 contatos
Parâmetros2–3 sessões corrida/semana; progressão 10–15% se sem piora; teto RPE geral ≤7
Sinais de alertaEdema, instabilidade, dor crescente com queda de técnica, piora no dia seguinte
Marcos para progressão2 sessões sem piora em 24h + execução técnica estável → incluir acelerações submáximas
O que preciso do treinadorFeedback sobre: qualidade técnica, picos de intensidade, resposta no dia seguinte

Estratégias de tomada de decisão compartilhada (fisioterapeuta + treinador + atleta)

1) Combine “o que é sucesso” e “o que é falha” antes do treino

Decisão compartilhada funciona quando os critérios são definidos previamente. Use um mini-contrato verbal:

  • Sucesso: “terminar a sessão dentro do teto de RPE, sem piora no dia seguinte e sem queda de técnica.”
  • Falha: “precisar compensar, dor subir progressivamente, ou acordar pior no dia seguinte.”

2) Use opções A/B/C para o treinador ajustar na hora

Em vez de uma prescrição única, ofereça alternativas equivalentes (mesmo objetivo, menor risco). Exemplo:

  • Plano A: corrida contínua + técnica.
  • Plano B (se houver desconforto): elíptico/bike no mesmo tempo-alvo + técnica reduzida.
  • Plano C (se houver sinal de alerta): apenas condicionamento sem impacto + mobilidade/controle leve.

3) Faça perguntas que evitam “sim/não” e revelam risco

Para o atleta:

  • “O que você mudou no treino/rotina desde a última sessão?”
  • “Em que parte do treino você sentiu que precisou se proteger?”
  • “Como foi o dia seguinte (manhã) em comparação ao dia anterior?”

Para o treinador:

  • “Teve pico de intensidade não planejado (competição, jogo, desafio)?”
  • “A técnica caiu em qual momento (início/meio/fim)?”
  • “Qual ajuste você faria se tivesse que repetir a sessão amanhã?”

4) Mantenha um “dicionário comum” (termos que todos entendem igual)

Defina termos para reduzir interpretações:

  • Leve/moderado/forte = faixas de RPE combinadas.
  • Sem dor = “sem aumento progressivo e sem alterar movimento”, não “zero sensação”.
  • Piora = piora no dia seguinte ou perda de função, não apenas desconforto momentâneo.

Checklist rápido para coerência entre reabilitação e treino

  • O treinador recebeu limitações + liberados + teto em uma mensagem curta?
  • O atleta sabe o que fazer hoje e como medir se foi adequado?
  • Existe um plano B se houver desconforto durante a sessão?
  • Os sinais de alerta têm ação definida (reduzir/parar/avisar)?
  • Há um marco claro para progressão e uma data de revisão?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao alinhar fisioterapeuta, treinador e atleta para orientar o treino durante a reabilitação, qual prática torna a comunicação mais objetiva e reduz interpretações subjetivas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A comunicação clínica deve ser específica, mensurável e coerente: indicar limites claros (liberado/limitado/evitar), parâmetros e teto, como monitorar resposta e o que fazer diante de sinais de alerta, além de marcos para progressão.

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Princípios de retorno ao esporte na Fisioterapia Esportiva: progressão, critérios e prontidão

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