Princípios de retorno ao esporte na Fisioterapia Esportiva: progressão, critérios e prontidão

Capítulo 16

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que significa “retornar ao esporte” na prática

Retorno ao esporte (Return to Sport – RTS) não é um evento único (ex.: “liberado”), e sim um processo de progressão planejada em que o praticante volta a cumprir as demandas da modalidade com segurança e desempenho aceitável. Na fisioterapia esportiva, a decisão é baseada em três pilares que precisam caminhar juntos:

  • Função: o corpo consegue executar as tarefas necessárias (saltar, frear, girar, acelerar, arremessar, sustentar posturas, etc.).
  • Tolerância: o corpo aguenta a carga sem piorar (durante e principalmente nas 24–48h seguintes).
  • Desempenho: a execução se aproxima do nível necessário para treinar e competir (qualidade, velocidade, potência, repetição).

Um guia útil é dividir o processo em quatro etapas: retorno à atividaderetorno ao treinoretorno à performanceretorno ao jogo/prova. Em cada etapa, você usa critérios gerais para avançar e indicadores práticos para ajustar a dose.

Indicadores práticos de prontidão (checklist rápido)

1) Dor aceitável e comportamento dos sintomas

  • Durante a sessão: dor leve é aceitável se for estável e não alterar o padrão de movimento. Uma regra prática comum: 0–3/10 pode ser aceitável; ≥4/10 pede ajuste (reduzir volume, intensidade, amplitude ou complexidade).
  • Após a sessão: sem piora nas 24–48h. Piora significa aumento claro de dor, rigidez, inchaço, claudicação, perda de amplitude ou queda de desempenho no dia seguinte.
  • “Sinal amarelo”: dor que aumenta progressivamente ao longo da sessão ou muda o padrão motor (proteção, mancar, evitar carga).

2) Simetria funcional e qualidade de movimento

  • Comparar lado lesionado vs. não lesionado (quando aplicável) em tarefas simples.
  • Meta prática frequente: ≥90% de simetria para avançar para tarefas mais específicas e rápidas; ≥95% quando a demanda é alta (mudança de direção, saltos repetidos, sprints, aterrissagens).
  • Além de números: observar controle (alinhamento, estabilidade, aterrissagem silenciosa, ausência de “valgo”, tronco estável, ritmo).

3) Confiança e prontidão psicológica

  • Perguntas rápidas: “Você confia em fazer esse movimento em velocidade real?” “Você evitaria alguma jogada por medo?”
  • Escala simples (0–10) de confiança para a tarefa-chave do esporte. Meta prática: ≥8/10 para avançar para exposição mais intensa.

4) Capacidade de completar sessões-chave

  • O praticante consegue cumprir 2–3 sessões da etapa atual (com descanso adequado) sem piora 24–48h?
  • Consegue manter desempenho do início ao fim (sem “quebrar” técnica por fadiga)?

5) Tolerância à carga específica da modalidade

  • Não basta “estar forte”: é preciso tolerar o tipo de carga do esporte (impacto, desaceleração, rotação, contato, volume de arremessos, etc.).
  • Progressão por exposição: aumentar gradualmente velocidade, amplitude, imprevisibilidade, fadiga e contexto (com/sem adversário, com/sem bola, com/sem contato).

Etapas do retorno ao esporte com critérios gerais de passagem

Etapa 1 — Retorno à atividade

Objetivo: retomar atividades físicas gerais e tarefas do dia a dia com boa tolerância, preparando o corpo para treinar (sem ainda exigir a “cara” do esporte em alta intensidade).

Exemplos de conteúdo (ajuste ao caso): caminhada rápida, bike, corrida leve contínua, exercícios de força básicos, saltitos leves, deslocamentos simples, técnica em baixa velocidade.

Critérios gerais para avançar:

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  • Dor durante: 0–3/10 e sem piora progressiva.
  • Sem piora 24–48h após sessões.
  • Movimento com qualidade aceitável nas tarefas básicas (agachar, subir/descer degrau, trote leve, apoio unilateral estável).
  • Confiança mínima para iniciar tarefas específicas em baixa intensidade (ex.: ≥6/10).

Etapa 2 — Retorno ao treino

Objetivo: reinserir o praticante no treino com controle de dose e adaptações (redução de volume, intensidade e/ou complexidade), incluindo elementos técnicos do esporte.

Exemplos:

  • Corrida: intervalos leves/moderados, progressão de ritmo, pequenas variações de terreno.
  • Esportes com mudança de direção: deslocamentos planejados (cones), cortes em ângulos menores, acelerações submáximas.
  • Raquete/arremesso: técnica com menor volume, menor velocidade, alvos próximos, pausas maiores.
  • Musculação/cross training: movimentos principais com carga moderada, controle de amplitude e fadiga.

Critérios gerais para avançar:

  • Completar 2–3 sessões de treino adaptado sem piora 24–48h.
  • Simetria funcional em testes simples: ≥90% (quando aplicável) e boa qualidade.
  • Conseguir executar tarefas-chave do esporte em intensidade moderada (ex.: aceleração, salto, arremesso) sem compensações evidentes.
  • Confiança para aumentar velocidade/complexidade: ≥7–8/10.

Etapa 3 — Retorno à performance

Objetivo: aproximar o praticante do nível de desempenho necessário para competir, com alta intensidade, repetição, fadiga e maior imprevisibilidade (ainda com controle do risco).

Exemplos:

  • Sprints e desacelerações mais fortes; mudanças de direção em ângulos maiores; pliometria com maior altura/velocidade.
  • Treinos técnicos em velocidade real; simulações de rally/sets; séries de arremessos com progressão de volume.
  • Treinos com tomada de decisão (reação a estímulos), mas com regras para reduzir caos (ex.: área menor, tempo menor, sem contato).

Critérios gerais para avançar:

  • Sem piora 24–48h após sessões intensas e sem sinais de “ressaca” funcional (rigidez marcante, queda de potência, dor residual relevante).
  • Simetria funcional: ≥95% em testes relevantes e qualidade consistente sob fadiga.
  • Capacidade de completar sessões-chave (as mais parecidas com o jogo/prova) mantendo técnica e desempenho.
  • Confiança alta e ausência de evitamento: ≥8/10.

Etapa 4 — Retorno ao jogo/prova

Objetivo: reinserção na competição com estratégia de minutos/volume e monitoramento de resposta.

Exemplos de controle:

  • Esportes coletivos: retorno com minutagem e funções específicas (ex.: sem jogar 90 min no primeiro jogo; evitar sequência de jogos).
  • Corrida: prova menor antes da principal; estratégia de pace conservador; evitar “all-out” precoce.
  • Raquete: sets reduzidos inicialmente; evitar maratonas de jogos no mesmo dia.

Critérios gerais para entrar em jogo/prova:

  • Concluir 1–2 semanas (ou ciclo equivalente) de treinos em intensidade próxima do real sem piora 24–48h.
  • Testes simples atingindo metas (ver baterias abaixo) e tarefas específicas toleradas.
  • Plano combinado com atleta/treinador: limites claros (minutos, repetições, pausas, aquecimento, sinais de parar).

Passo a passo prático para construir o guia de progressão

Passo 1 — Defina as “tarefas-chave” da modalidade

Escolha 3–5 demandas que mais se relacionam com o retorno seguro. Exemplos:

  • Corrida: impacto repetido, ritmo sustentado, aceleração.
  • Futebol: sprint, desaceleração, corte, chute, contato.
  • Raquete: deslocamento lateral, rotação de tronco, repetição de golpes acima da cabeça (quando aplicável).
  • Musculação/cross training: agachar/levantar, empurrar/puxar, saltar/aterrar, levantar do chão.

Passo 2 — Escolha 2–4 indicadores para monitorar após cada sessão

  • Dor (0–10) durante e após.
  • Rigidez/inchaço no dia seguinte (sim/não; leve/moderado/forte).
  • Qualidade do movimento (melhor/igual/pior).
  • Confiança (0–10) na tarefa-chave.

Regra prática: se houver piora clara em 24–48h, reduza a próxima sessão em 20–40% (volume ou intensidade) e reavalie.

Passo 3 — Progrida uma variável por vez

Para reduzir risco, aumente apenas um componente principal por sessão ou microciclo:

  • Volume (mais repetições, mais minutos, mais séries)
  • Intensidade (mais velocidade, mais carga, mais altura do salto)
  • Complexidade (mais imprevisível, mais tomada de decisão, mais variação)
  • Especificidade (mais parecido com o esporte real)

Passo 4 — Use “portões” (gates) de passagem por etapa

Antes de avançar, confirme: dor aceitável, sem piora 24–48h, simetria funcional mínima, confiança e capacidade de completar sessões-chave. Se um portão falhar, você não “volta ao zero”: ajusta dose e reforça o componente que falhou (tolerância, função ou desempenho).

Baterias simples de testes (sem equipamentos complexos)

A seguir estão exemplos de baterias práticas. A escolha depende da região e do esporte. O objetivo é ter medidas repetíveis e comparáveis ao longo das semanas.

Bateria A — Membro inferior (impacto, corrida, mudanças de direção)

TesteComo fazerO que observarInterpretação prática
Agachamento unilateral para caixa/cadeira (sit-to-stand unilateral)Sentar em uma cadeira/caixa e levantar com uma perna, controlando a descida. 5 repetições por lado.Alinhamento do joelho, estabilidade do tronco, controle na descida, dor.Diferença grande de controle/dor sugere falta de função. Para avançar: execução semelhante entre lados e dor baixa.
Step-down (descida de degrau)Em um degrau baixo, descer tocando o calcanhar no chão e voltar. 6–10 repetições.Valgo dinâmico, queda pélvica, tremor, dor anterior do joelho/tornozelo.Boa qualidade e tolerância indicam prontidão para aumentar complexidade (corrida, saltos leves).
Salto horizontal unipodal (single hop) – opcional se já tolera impactoMarcar no chão e saltar o mais longe possível com uma perna, aterrissando estável. 3 tentativas por lado.Distância, aterrissagem (estável vs. “cai”), dor, confiança.Calcular simetria: (lado lesionado ÷ lado não lesionado) × 100. Meta: ≥90% (treino) e ≥95% (performance/jogo), com aterrissagem controlada.
Saltos repetidos no lugar (10 saltos)10 saltos rápidos e baixos, foco em aterrissagem silenciosa e ritmo.Perda de ritmo, dor crescente, assimetria, fadiga.Se “degrada” antes do final, falta tolerância à repetição; mantenha etapa e ajuste volume.
Corrida progressiva (trote → moderado)5–10 min aumentando gradualmente. Pode ser em rua/quadra.Claudicação, dor, rigidez pós, confiança.Sem piora 24–48h é o principal. Se piora, reduzir dose e reintroduzir progressão mais lenta.

Como interpretar sem “números perfeitos”

  • Se o lado lesionado está próximo do outro, mas a qualidade é ruim (ex.: aterrissagem instável), trate como “ainda não pronto” para aumentar velocidade/caos.
  • Se a qualidade é boa, mas a tolerância falha (piora 24–48h), o problema é dose: reduza volume/intensidade e progrida mais devagar.
  • Se tudo vai bem em teste isolado, mas falha em repetição, falta capacidade sob fadiga: inclua séries mais longas, intervalos menores e simulações progressivas.

Bateria B — Ombro/cotovelo (arremesso, raquete, overhead)

TesteComo fazerO que observarInterpretação prática
Flexão de braço (push-up) – variação adequadaEscolher variação (parede, joelhos, padrão). Fazer 8–15 repetições.Dor, assimetria, escápula “alando”, perda de controle no final.Boa tolerância e controle sugerem base para aumentar volume de golpes/arremessos.
Prancha lateral (side plank)Manter 20–45s por lado.Compensações, dor no ombro, tremor excessivo.Diferença grande entre lados pode indicar déficit de estabilidade proximal relevante para gestos overhead.
Elevação do braço acima da cabeça com carga leve (garrafa/halter leve)10–15 repetições em ritmo controlado.Arco doloroso, compensação do tronco, “encolher” ombro.Se dor aumenta com repetição, reduzir volume e trabalhar tolerância antes de voltar a séries longas de golpes.
Teste de repetição específica (simulação)Ex.: 20–40 golpes leves (raquete) ou arremessos leves em alvo próximo, com pausas.Dor durante, fadiga, piora 24–48h, queda de precisão.Se completa sem piora 24–48h, progrida volume/velocidade gradualmente.

Exemplos de progressões prontas (modelos) para adaptar

Modelo 1 — Corrida (retorno progressivo simples)

Objetivo: sair de caminhada/trote para corrida contínua e depois estímulos mais rápidos.

  • Etapa 1 (atividade): 1 min trote + 1–2 min caminhada, repetir 6–10x. Critério: dor ≤3/10 e sem piora 24–48h.
  • Etapa 2 (treino): corrida contínua leve 15–30 min, 2–3x/semana. Critério: completar 2–3 sessões sem piora e com técnica estável.
  • Etapa 3 (performance): inserir 6–10 acelerações de 10–20s em ritmo moderado/forte, com recuperação completa. Critério: sem piora 24–48h e boa simetria/controle em saltos simples (se aplicável).
  • Etapa 4 (prova): simular parte da prova (ex.: 60–80% do volume) antes de competir; na prova, controlar pace e evitar sprint final se ainda em adaptação.

Modelo 2 — Esporte com mudança de direção (retorno por complexidade)

  • Etapa 1: deslocamentos lineares e laterais em baixa velocidade, paradas suaves.
  • Etapa 2: cortes planejados (cones) 45–60°, aceleração submáxima, pliometria baixa.
  • Etapa 3: cortes 90° e 180°, desaceleração forte, estímulos reativos (comando visual/sonoro), simulação com bola sem contato.
  • Etapa 4: treinos com contato/caos progressivo e minutagem controlada em jogo.

Critérios práticos: simetria ≥90–95% em saltos/hops (quando apropriado), aterrissagem estável, confiança ≥8/10 e ausência de piora 24–48h após sessões intensas.

Modelo 3 — Overhead (raquete/arremesso) por volume e velocidade

  • Etapa 1: técnica lenta, baixo volume (ex.: 3–5 séries de 8–10 repetições), foco em controle e ausência de dor tardia.
  • Etapa 2: aumentar volume total semanal (ex.: +10–20%) mantendo velocidade moderada.
  • Etapa 3: aumentar velocidade e inserir sequências mais longas (simular pontos/sets), monitorando precisão e fadiga.
  • Etapa 4: retorno a jogos com limite de sets/tempo e dias de recuperação planejados.

Regras de decisão rápida (ajuste de dose)

SituaçãoO que significaAjuste prático
Dor ≤3/10 durante e igual ou melhor no dia seguinteTolerância adequadaManter ou progredir 5–15% (uma variável)
Dor aumenta ao longo da sessão ou altera técnicaDose/complexidade alta demaisReduzir intensidade/complexidade na hora; manter volume menor na próxima sessão
Piora 24–48h (dor, rigidez, inchaço, queda de função)Recuperação insuficiente para a cargaReduzir 20–40% do volume ou intensidade; inserir dia extra de recuperação; retestar
Teste isolado bom, mas falha em repetição/fadigaCapacidade específica insuficienteAdicionar blocos de repetição progressiva e simulações; progredir mais lentamente
Boa função e tolerância, mas baixa confiançaProntidão psicológica incompletaExposição graduada, tarefas previsíveis → reativas, metas pequenas, reforço de controle

Registro simples para acompanhar prontidão (modelo)

Data: ____  Etapa: (Atividade / Treino / Performance / Jogo)  Modalidade: ____
Sessão-chave do dia: __________________________
Dor durante (0-10): ____   Dor 24h: ____   Dor 48h: ____
Rigidez/inchaço 24h: (não / leve / mod / forte)
Qualidade do movimento: (melhor / igual / pior)
Confiança (0-10) na tarefa-chave: ____
Conseguiu completar a sessão? (sim/não)  Observações: __________
Decisão: (manter / progredir / regredir dose)  Próximo ajuste: ____

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao decidir avançar uma etapa no retorno ao esporte, qual conjunto de critérios melhor reflete os “portões” de passagem recomendados?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O avanço de etapa deve confirmar dor aceitável e estabilidade dos sintomas (sem piora 24–48h), simetria funcional e qualidade de movimento, confiança/prontidão psicológica e capacidade de sustentar sessões-chave sem queda técnica.

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