Por que a comunicação na triagem muda desfechos
Na triagem, a comunicação com a equipe precisa transformar dados em ação: quem é o paciente, qual é o risco, o que mudou e o que precisa agora. A passagem de caso deve ser curta, padronizada e orientada a decisões (priorização, escalonamento e alocação de recursos). Comunicação “boa” na triagem não é detalhista: é objetiva, completa no essencial e com pedido claro.
Estrutura recomendada: SBAR (ou equivalente) aplicado à triagem
O SBAR organiza a mensagem para reduzir ruído e omissões. Em triagem, ele deve caber em 20–60 segundos quando o risco é alto.
| Elemento | Objetivo na triagem | O que não pode faltar |
|---|---|---|
| S (Situação) | Declarar o problema e o nível de urgência | Identificação + queixa principal + risco/gravidade + onde está o paciente |
| B (Background) | Contexto mínimo relevante | Início/tempo de evolução, comorbidades-chave, alergias, uso de anticoagulante, gestação quando aplicável |
| A (Avaliação) | O que você encontrou e por que preocupa | Achados críticos, tendência (piorou/melhorou), resposta a medidas iniciais, hipóteses de risco |
| R (Recomendação) | Pedido explícito e próximo passo | O que você precisa agora, em quanto tempo, e qual plano imediato (ex.: sala, monitorização, equipe) |
Checklist de qualidade da mensagem (antes de falar)
- Uma frase de abertura com risco e pedido: “Preciso de avaliação imediata”.
- Três dados que sustentam a gravidade (não uma lista longa).
- Um pedido com prazo: “agora”, “em 5 minutos”, “assim que liberar”.
- Confirmação de entendimento: “Você confirma que vem agora?”
Passo a passo prático: passagem de caso na triagem (roteiro de 60 segundos)
1) Prepare a mensagem em 10 segundos
- Defina o nível de prioridade e o motivo (o que pode acontecer se atrasar).
- Escolha 3 achados mais relevantes (sinais, sintomas, evolução, risco).
- Defina o pedido (avaliar, prescrever, acionar equipe, liberar sala, iniciar protocolo).
2) Entregue o SBAR em voz clara e direta
- Comece com quem, onde e urgência.
- Evite justificativas longas; use frases curtas.
- Se houver risco imediato, diga explicitamente: “alto risco de deterioração”.
3) Feche com pedido e confirmação
- Peça ação com prazo.
- Confirme entendimento e combine próximo contato: “Se não vier em X minutos, vou escalonar”.
4) Registre a comunicação
- Registre hora, para quem foi comunicado, conteúdo essencial (risco/achados) e conduta acordada.
- Se não houve resposta, registre tentativas e escalonamento.
Frases-modelo (scripts) para acionar a equipe com objetividade
Acionamento do médico (risco alto / prioridade imediata)
Modelo SBAR curto:
S: “Doutor(a), aqui é a enfermagem da triagem. Tenho um paciente na sala X com prioridade alta e preciso de avaliação imediata.” B: “Início há 30 minutos, sem melhora; comorbidade relevante: [ex.: cardiopatia/anticoagulante].” A: “Está com [3 achados críticos], e houve piora desde a chegada.” R: “Preciso que venha agora para avaliar e definir conduta; posso encaminhar para sala de emergência?”Variações úteis (pedido explícito):
- “Preciso de prescrição de monitorização/oxigênio/acesso venoso e avaliação em até 5 minutos.”
- “Estou preocupada(o) com deterioração rápida; você consegue vir agora ou devo acionar a equipe de resposta rápida?”
- “O paciente não pode permanecer na sala de espera; preciso de leito/sala para observação imediata.”
Acionamento da liderança (enfermeiro responsável/coordenação) para priorização e recursos
“Preciso de apoio para priorização de fluxo: tenho um paciente de alto risco na triagem e não há sala disponível. Solicito liberação imediata de espaço e apoio de equipe para monitorização/transferência.”- “Tenho dois pacientes de prioridade alta simultâneos; preciso redistribuir equipe e definir qual sala será usada primeiro.”
- “Solicito reforço na triagem/acolhimento porque a demanda está comprometendo reavaliações e escalonamentos.”
Acionamento da Equipe de Resposta Rápida (ou equivalente)
Use linguagem de gatilho: “deterioração”, “instabilidade”, “risco iminente”.
- Ouça o áudio com a tela desligada
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“Acionando resposta rápida na triagem/sala X: paciente com sinais de deterioração aguda, com [achados críticos]. Preciso de avaliação e suporte imediato. Já iniciei medidas básicas e estou monitorizando.”Se o serviço usa critério formal de acionamento, inclua: “Atende critério de resposta rápida por [critério local]”.
Como comunicar priorização (quando há múltiplos pacientes)
Priorizar é uma decisão compartilhada quando impacta fluxo e recursos. A comunicação deve explicitar risco e consequência do atraso, sem comparar pacientes de forma subjetiva.
Frases-modelo para priorização
- “Entre os pacientes aguardando, este tem maior risco de deterioração nas próximas horas por [motivo objetivo]. Solicito que seja atendido antes dos demais.”
- “Este paciente precisa sair da sala de espera agora; o atraso aumenta risco de descompensação. Proponho encaminhar para [local] e manter monitorização.”
- “Tenho mudança clínica desde a triagem inicial; reclassifiquei prioridade e preciso reordenar a fila.”
Mini-roteiro para reunião rápida de priorização (30–45 segundos)
- Quem: “Paciente A, leito/sala X.”
- Risco: “Maior risco por [achado].”
- Impacto: “Se atrasar, pode evoluir para [evento].”
- Proposta: “Sugiro atendimento em até [tempo] e alocação de [recurso].”
Escalonamento: quando e como subir o nível de resposta
Escalonar é uma habilidade de segurança: quando a resposta esperada não ocorre, quando há piora, ou quando o risco excede a capacidade do local atual (triagem/sala de espera). O escalonamento deve ser progressivo e registrado.
Gatilhos práticos para escalonar (sem repetir avaliação clínica)
- Tempo-resposta excedido: pedido de avaliação/conduta não atendido no prazo definido.
- Mudança: piora percebida pela equipe/paciente/família ou novo achado relevante.
- Incerteza com alto risco: quadro não explicado, mas com sinais de possível deterioração.
- Capacidade do setor: necessidade de monitorização/recursos indisponíveis na área atual.
Passo a passo de escalonamento (modelo operacional)
- Passo 1: Recontato com o profissional acionado, reforçando prazo e risco: “Estou recontatando porque houve [mudança] e preciso de resposta em X minutos.”
- Passo 2: Acionar liderança para desbloquear recursos e priorizar atendimento.
- Passo 3: Acionar equipe de resposta rápida (ou médico plantonista de retaguarda), se houver risco de deterioração ou ausência de resposta.
- Passo 4: Documentar linha do tempo (quem, quando, o que foi dito, o que foi acordado).
Comunicar incerteza com segurança (sem “achar” e sem omitir preocupação)
Na triagem, é comum não haver diagnóstico definido. A comunicação segura não exige certeza; exige clareza sobre a preocupação, evidências observadas e necessidade imediata. Evite frases vagas (“não estou gostando”) sem dados; prefira “preocupação + motivo + pedido”.
Estrutura “Preocupação – Mudança – Necessidade”
- O que preocupa: “Estou preocupada(o) com risco de deterioração.”
- O que mudou: “Desde a chegada, houve [mudança objetiva ou relato consistente].”
- O que precisa agora: “Preciso de avaliação em até X minutos e definição de local/monitorização.”
Frases-modelo para incerteza
- “Não tenho diagnóstico fechado, mas os achados sugerem alto risco. Minha preocupação é [evento]. Preciso de avaliação agora.”
- “O quadro é atípico, porém houve mudança rápida. Preciso que reavalie para decidir se permanece aqui ou vai para área monitorizada.”
- “Mesmo com sinais vitais sem grande alteração, o paciente refere piora importante e apresenta [achado]. Isso muda a prioridade; preciso de conduta.”
Registro da comunicação: como documentar de forma útil e defensável
O registro deve permitir reconstruir a decisão e o fluxo. Use linguagem objetiva, sem julgamentos, e inclua o resultado do contato.
Modelo de registro (copiar e adaptar)
Data/hora: __/__/__ __:__ Situação: Paciente em triagem/sala __, prioridade __. Achados relevantes: [3 achados]. Evolução: [piorou/manteve/melhorou] desde __:__. Comunicação: SBAR realizado com Dr(a). __ (CRM/identificação) às __:__. Pedido: avaliação em até __ min / encaminhar para __ / prescrição de __. Resposta/conduta acordada: __. Se sem resposta: nova tentativa às __:__; escalonado para __ às __:__. Profissional que registrou: __ (COREN/identificação).O que evitar no registro
- Termos subjetivos sem base (“paciente dramático”, “exagerando”).
- “Médico não quis vir” sem descrever fatos; prefira: “Sem retorno após contato às __:__; recontato às __:__; escalonado às __:__.”
- Mensagens longas com dados irrelevantes para a decisão imediata.
Exemplos completos de SBAR em cenários de triagem
Cenário 1: piora na sala de espera após triagem inicial
S: “Dr(a)., triagem. Paciente na sala de espera, reclassificado para prioridade alta por piora. Preciso de avaliação em até 5 minutos.” B: “Chegou há 40 minutos; queixa principal persistente; comorbidade relevante: [ex.: diabetes/anticoagulante].” A: “Desde a triagem, houve piora do estado geral e novo achado [ex.: confusão/dispneia intensa]. Estou preocupado com deterioração.” R: “Solicito avaliação imediata e encaminhamento para área monitorizada. Posso iniciar medidas e preparar acesso enquanto você se desloca?”Cenário 2: necessidade de recurso (sem sala disponível)
S: “Enfermeiro(a) responsável, triagem. Tenho paciente de alto risco sem local seguro para aguardar.” B: “Demanda elevada e salas ocupadas.” A: “Risco de deterioração se permanecer na sala de espera; precisa de monitorização e reavaliação frequente.” R: “Solicito liberação de sala/leito e apoio de técnico para monitorização e transporte agora.”Cenário 3: incerteza diagnóstica, mas alto risco percebido
S: “Dr(a)., triagem. Preciso de avaliação prioritária; quadro indefinido, mas com sinais de alto risco.” B: “Início recente; sem história clara; fatores de risco: [ex.: idade avançada/comorbidades].” A: “Achados que preocupam: [3 achados]. Evolução: piora desde a chegada. Não consigo descartar condição grave.” R: “Peço avaliação imediata e definição de conduta e local. Se não for possível em 5 minutos, vou acionar liderança/resposta rápida.”