Como uma decisão vira ação: do pedido ao processo administrativo municipal

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que significa “uma decisão virar ação” na prefeitura

No dia a dia municipal, uma ideia, pedido ou necessidade só vira entrega concreta quando entra num fluxo organizado: alguém formaliza a demanda, a prefeitura registra, analisa, autoriza, executa e deixa tudo documentado. Esse caminho é o processo administrativo: uma “pasta” (física ou digital) que reúne documentos, responsáveis, prazos e decisões para que a ação seja rastreável, auditável e pagável.

Na prática, o processo administrativo serve para responder três perguntas simples: o que será feito, por que será feito e como será feito (incluindo custo, fornecedor/execução, prazos e quem autorizou).

O fluxo operacional completo (da demanda ao encerramento)

Abaixo está um roteiro típico, com variações conforme o assunto (compra, serviço, obra, resposta ao cidadão, convênio etc.).

1) Demanda (cidadão ou gestor)

A demanda pode nascer de: pedido do cidadão (ouvidoria, protocolo, requerimento), necessidade apontada por uma unidade (posto de saúde, escola), determinação interna, fiscalização, vistoria, ou ocorrência (ex.: equipamento quebrado).

  • Exemplo: a coordenação de uma unidade de saúde solicita luvas e seringas porque o estoque está baixo.
  • Exemplo: um cidadão protocola requerimento pedindo poda de árvore em via pública.

2) Triagem (entender e classificar)

Nesta etapa a prefeitura organiza o pedido antes de “virar processo”: verifica se está completo, se é competência municipal, se há urgência, qual setor deve tratar e qual tipo de procedimento será necessário (compra, contratação, manutenção, resposta administrativa).

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Checklist prático de triagem:

  • O pedido tem identificação (quem pediu, contato, unidade)?
  • Tem descrição objetiva do problema/necessidade?
  • local, quantidade, prazo desejado?
  • É caso de risco (saúde, segurança, interrupção de serviço essencial)?
  • Já existe contrato/ata vigente que resolve (ex.: manutenção já contratada)?

3) Abertura do processo administrativo

Quando a triagem confirma que a prefeitura precisa agir, abre-se o processo. Isso significa: gerar um número, registrar o assunto, anexar documentos iniciais e indicar a unidade responsável pela condução.

Documentos típicos de abertura:

  • Requisição (pedido interno formal) ou requerimento do cidadão.
  • Relato do problema, fotos, laudos simples, e-mails, planilhas de consumo, quando existirem.
  • Despacho inicial indicando “encaminhe-se para análise técnica” ou setor responsável.

4) Análise técnica (o “como fazer” do ponto de vista operacional)

A área técnica define a solução adequada e descreve o que precisa ser comprado/contratado/feito. Aqui se evita “comprar errado” ou contratar serviço mal definido.

Saídas comuns da análise técnica:

  • Especificação do item/serviço (marca não, características sim).
  • Quantidade e unidade de medida.
  • Critérios mínimos de qualidade.
  • Prazo de entrega/execução e local.
  • Justificativa simples: por que é necessário e qual o impacto se não fizer.

5) Parecer jurídico (quando necessário)

Nem todo processo precisa de jurídico, mas ele costuma entrar quando há contratação, minuta de contrato, dúvidas sobre o caminho correto, riscos, sanções, prorrogações, ou situações sensíveis. O jurídico não “faz a compra”; ele orienta se o procedimento está adequado e se os documentos essenciais estão presentes.

Em linguagem simples, o parecer jurídico responde: “dá para fazer desse jeito?” e “o processo está bem montado para evitar problema depois?”

6) Estimativa de custo (quanto vai custar)

Antes de autorizar, a prefeitura precisa ter uma noção realista do valor. Isso evita iniciar algo sem orçamento e ajuda a escolher o procedimento adequado.

Formas comuns de estimar custo:

  • Cotação com fornecedores (orçamentos).
  • Pesquisa em contratos/atas anteriores do próprio município.
  • Referências de preços praticados em compras públicas semelhantes (quando aplicável).

Boa prática: registrar no processo como a estimativa foi feita e anexar as evidências (prints, e-mails, propostas).

7) Autorização (decisão formal para seguir)

Com demanda clara, solução técnica e custo estimado, a chefia competente autoriza. Essa autorização pode ser um despacho no processo, indicando: “autorizo prosseguir com a contratação/compra” e, quando necessário, “autorizo a reserva de dotação”.

Autorização não é “pagar”; é liberar o andamento para contratar/emitir pedidos e comprometer orçamento dentro das regras.

8) Execução (entrega do bem/serviço)

É quando a ação acontece: o material chega, o serviço é realizado, a manutenção é feita, ou a resposta ao cidadão é emitida e enviada.

Para execução bem controlada, entram documentos operacionais como ordem de serviço, recebimento, relatórios e registros de fiscalização.

9) Registro e encerramento (deixar rastreável e finalizar)

Depois de executado, o processo precisa mostrar: o que foi entregue, quem conferiu, se ficou dentro do combinado e como foi pago (quando houver pagamento). Encerrar é “fechar a pasta” com tudo organizado, para consulta futura e prestação de contas.

Documentos e termos comuns (sem juridiquês)

Requisição (pedido interno formal)

É o documento que uma unidade usa para pedir algo à administração: compra, serviço, manutenção, reposição. Deve trazer: o que precisa, quantidade, justificativa, urgência, local de entrega e responsável.

Exemplo de campos:

  • Item: luva de procedimento (tamanho P/M/G)
  • Quantidade: 200 caixas
  • Justificativa: reposição de estoque para atendimento
  • Prazo: 10 dias
  • Local: Unidade de Saúde X

Termo de referência (TR) básico

É um “roteiro do que será contratado/comprado”. Mesmo simples, ajuda a evitar retrabalho. Um TR básico costuma incluir:

  • Objeto: descrição clara do que será adquirido/contratado.
  • Necessidade: por que é importante.
  • Especificação: requisitos mínimos (qualidade, dimensões, compatibilidade).
  • Prazo e local: onde e quando entregar/executar.
  • Critério de aceitação: como a prefeitura vai conferir se está correto.

Exemplo (manutenção): “serviço de manutenção corretiva em ar-condicionado 24.000 BTUs, incluindo diagnóstico, troca de capacitor se necessário, limpeza e testes, com garantia mínima de 90 dias”.

Cotação (pesquisa de preços)

É a coleta de valores para estimar custo e embasar a contratação/compra. Deve ser comparável: mesma especificação, mesma unidade, mesmas condições (prazo, frete, garantia).

Boa prática: registrar pelo menos 3 referências quando possível e justificar quando não for.

Empenho (explicação simplificada)

Empenho é o “compromisso formal do orçamento” para aquela despesa. Em termos simples: é quando a prefeitura separa oficialmente o dinheiro daquela dotação para pagar aquele fornecedor/objeto, evitando que o gasto fique “sem cobertura”.

Na rotina, o empenho costuma acontecer antes da entrega/pagamento, após a autorização e definição do fornecedor/contrato.

Ordem de serviço (OS)

É o documento que autoriza o início de um serviço. Diz o que fazer, onde, prazo, responsável pela fiscalização e condições. Ajuda a evitar “começou sem autorização” e organiza a cobrança do resultado.

Atesto (confirmação de que foi entregue/feito)

Atesto é a confirmação, por servidor responsável, de que o material chegou conforme pedido ou que o serviço foi executado conforme combinado. Sem atesto, o pagamento fica inseguro, porque não há prova de entrega adequada.

Exemplos de atesto:

  • “Recebi 200 caixas de luvas, conforme nota fiscal nº X, em 15/03, em condições adequadas.”
  • “Serviço de manutenção concluído, equipamento testado e funcionando.”

Pagamento

É a etapa financeira após o atesto e conferências. Normalmente envolve: nota fiscal, conferência de dados, regularidade exigida, e autorização de pagamento. O processo deve mostrar o vínculo entre o que foi pedido, o que foi entregue e o que foi pago.

Passo a passo prático 1: compra de materiais para uma unidade de saúde

Cenário: a unidade precisa repor materiais de consumo (ex.: luvas, seringas, gaze).

Etapas com documentos

  • Demanda: responsável da unidade envia requisição com itens, quantidades e justificativa (consumo médio e estoque atual).
  • Triagem: setor responsável verifica se há ata/contrato vigente para fornecimento. Se houver, usa o instrumento existente; se não houver, segue para compra.
  • Abertura do processo: protocolo registra o processo e anexa requisição, controle de estoque e justificativa.
  • Análise técnica: área técnica define especificações mínimas (tamanho, material, esterilização, embalagem, validade) e critérios de aceitação (ex.: prazo de validade mínimo).
  • Estimativa de custo: pesquisa de preços com cotações comparáveis; anexar evidências.
  • Autorização: despacho autorizando a compra e encaminhamento para providências de contratação e orçamento.
  • Empenho: setor financeiro emite o empenho para reservar orçamento.
  • Execução: fornecedor entrega no local indicado; conferência física (quantidade, integridade, validade).
  • Atesto: servidor responsável atesta recebimento conforme.
  • Pagamento: após atesto e conferências, pagamento é processado e registrado no processo.
  • Encerramento: anexar comprovantes (nota fiscal, atesto, registro de entrega) e finalizar.

Erros comuns e como evitar

  • Pedido genérico: “comprar luvas” sem especificar tamanhos e requisitos. Solução: TR básico com especificação mínima.
  • Quantidade sem base: pedir “no achismo”. Solução: anexar consumo médio e estoque.
  • Recebimento sem conferência: depois aparece item vencido ou incompleto. Solução: checklist de recebimento e atesto detalhado.

Passo a passo prático 2: contratação de manutenção (ex.: ar-condicionado de escola ou unidade)

Cenário: equipamento parou, impactando atendimento/aulas.

Etapas com documentos

  • Demanda: unidade abre solicitação com descrição do defeito, patrimônio do equipamento, local e urgência.
  • Triagem: verificar se existe contrato de manutenção vigente. Se existir, acionar conforme contrato e registrar no processo. Se não, abrir processo para contratação pontual.
  • Abertura do processo: anexar solicitação, fotos, número de patrimônio e histórico de manutenção (se houver).
  • Análise técnica: definir escopo: diagnóstico, peças possíveis, limpeza, testes, garantia, prazo máximo para conclusão.
  • TR básico: incluir condições de atendimento (prazo para visita técnica), critérios de aceitação (equipamento funcionando por X horas em teste), e garantia.
  • Estimativa de custo: cotações; se houver visita técnica paga, isso deve estar previsto e justificado.
  • Parecer jurídico (quando necessário): se houver minuta de contrato, prorrogação, ou dúvida sobre o formato da contratação.
  • Autorização + empenho: autorizar e reservar orçamento.
  • Ordem de serviço: emitir OS com data de início, local, responsável por acompanhar e prazo.
  • Execução e fiscalização: acompanhar visita, troca de peças, testes.
  • Atesto: confirmar funcionamento e recebimento de relatório de serviço (o que foi feito, peças trocadas, garantia).
  • Pagamento: após atesto e nota fiscal.

Checklist de fiscalização simples

  • O serviço foi feito no equipamento correto (patrimônio)?
  • Houve troca de peça? Qual? Foi entregue a peça antiga (quando aplicável)?
  • Foi realizado teste e registrado resultado?
  • Garantia foi informada por escrito?

Passo a passo prático 3: resposta a requerimento do cidadão

Cenário: cidadão protocola pedido (ex.: poda de árvore, tapa-buraco, iluminação, informação sobre serviço).

Etapas com documentos

  • Demanda: requerimento entra por protocolo/ouvidoria com identificação, endereço, descrição e, se possível, fotos.
  • Triagem: classificar: é solicitação de serviço? denúncia? pedido de informação? verificar se é competência municipal e se faltam dados (endereço incompleto, ponto de referência).
  • Abertura do processo: registrar o processo e anexar o requerimento e evidências.
  • Análise técnica: vistoria quando necessário. Produzir relatório simples: situação encontrada, risco, recomendação (executar, indeferir com motivo, programar).
  • Parecer jurídico (quando necessário): casos com conflito, responsabilidade civil, indeferimento sensível, ou quando a resposta envolve interpretação normativa.
  • Estimativa de custo (se houver execução): se a resposta for “vamos executar” e exigir compra/contratação, abrir ou vincular a um processo de execução (ex.: contratação de poda, compra de luminária).
  • Autorização: despacho autorizando a execução ou aprovando a resposta administrativa.
  • Execução: equipe realiza o serviço (ou agenda) e registra data, equipe e material usado; ou emite resposta formal ao cidadão.
  • Registro e encerramento: anexar comprovantes (relatório de execução, fotos do antes/depois quando possível, cópia da resposta enviada) e encerrar.

Modelo de resposta clara (estrutura)

  • O que foi solicitado: resumir em 1–2 linhas.
  • O que a prefeitura fez: vistoria em data X / encaminhamento para equipe / inclusão em programação.
  • Resultado: executado em data X, ou previsto para data aproximada, ou indeferido com motivo objetivo.
  • Canal para acompanhamento: número do protocolo/processo.

Como conectar processos quando uma demanda “vira” compra/contratação

Muitas demandas começam como solicitação (ex.: cidadão pede iluminação; unidade pede manutenção) e depois exigem compra/contratação. Uma prática organizada é:

  • Manter o processo original com a demanda e a análise.
  • Abrir um processo específico de compra/contratação quando necessário.
  • Fazer referência cruzada: “Processo de compra nº X atende à demanda do Processo nº Y”.

Isso evita misturar documentos diferentes e facilita acompanhar prazos e responsabilidades.

Mapa rápido: em que etapa cada documento costuma aparecer

EtapaDocumentos mais comunsObjetivo prático
DemandaRequisição / Requerimento do cidadãoFormalizar o pedido e o motivo
TriagemChecklist, despacho de encaminhamentoDefinir responsável e caminho
AberturaCapa do processo, anexos iniciaisDar número, assunto e rastreabilidade
Análise técnicaRelatório técnico, especificaçãoDefinir solução e requisitos
Definição do objetoTermo de referência básicoDescrever claramente o que será comprado/contratado
Estimativa de custoCotações, pesquisas, memórias de cálculoPrever valor e embasar decisão
AutorizaçãoDespacho autorizativoLiberar prosseguimento e compromissos
OrçamentoEmpenhoReservar orçamento para pagar
ExecuçãoOrdem de serviço, registros de entregaIniciar e acompanhar a entrega/serviço
ConferênciaAtestoConfirmar que foi entregue corretamente
PagamentoNota fiscal, autorização de pagamentoQuitar a despesa com segurança
EncerramentoJuntada final, comprovantesFechar o processo completo

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um processo administrativo municipal, qual é o objetivo prático do atesto antes do pagamento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O atesto é a confirmação formal de que o material chegou ou o serviço foi executado conforme o pedido. Sem essa comprovação, o pagamento fica inseguro por não haver evidência de entrega adequada.

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