Comissionamento e testes em sistemas de placas solares antes da conexão

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

O que é comissionamento e por que ele é obrigatório antes da conexão

Comissionamento é o conjunto de inspeções, medições e testes que confirmam que o sistema fotovoltaico foi instalado conforme o projeto, está eletricamente íntegro e pode ser energizado com segurança. Na prática, ele serve para: (1) detectar falhas de montagem (conector mal crimpado, cabo invertido, torque insuficiente), (2) validar proteções e seccionamentos, (3) registrar evidências técnicas (valores medidos, fotos, números de série) para liberar o sistema para solicitação de acesso/conexão junto à concessionária.

O comissionamento deve ser executado antes da primeira energização completa e, idealmente, em duas etapas: (a) testes com o lado CC desenergizado/isolado do inversor e (b) testes com o lado CA preparado, seguido de energização controlada.

Ferramentas e instrumentos típicos

  • Torquímetro (com escala compatível com bornes e conectores utilizados).
  • Multímetro True RMS (com pontas adequadas e categoria de medição compatível).
  • Alicate amperímetro CC (para Isc quando aplicável, com faixa adequada).
  • Megômetro (teste de isolação, tensão de ensaio conforme o sistema).
  • Terrômetro ou instrumento para continuidade/baixa resistência (quando aplicável).
  • Etiquetas/identificação de strings, câmera/celular para registro fotográfico.
  • Planilha ou formulário de relatório de comissionamento.

Procedimento de comissionamento: sequência recomendada

1) Preparação e condições de teste

  • Confirme que o projeto “as built” (como instalado) está disponível: diagrama unifilar, identificação de strings, localização de DPS, seccionadoras e disjuntores.
  • Garanta que o inversor esteja desligado e isolado (CC e CA abertos) para medições iniciais.
  • Registre condições ambientais relevantes para medições de Voc/Isc: irradiância aproximada, céu limpo/nublado, horário e temperatura (mesmo que estimadas). Isso ajuda a interpretar variações.

2) Inspeção visual mecânica (checklist prático)

  • Módulos: sem trincas, sem vidro danificado, sem pontos de esmagamento em moldura, sem sombreamento permanente não previsto.
  • Estruturas: fixações completas, sem folgas, sem corrosão aparente, alinhamento e espaçamentos corretos.
  • Cabos: sem abrasão, sem esmagamento por presilhas, sem contato com bordas cortantes, sem “barrigas” que acumulem água, raio de curvatura respeitado.
  • Conectores: todos do mesmo padrão compatível, totalmente encaixados, sem travas quebradas, sem sinais de aquecimento.
  • Caixas e eletrodutos: tampas fechadas, prensa-cabos adequados, vedação íntegra, identificação visível.
  • Identificação: strings, polaridade, seccionadoras e proteções identificadas conforme o projeto.

3) Inspeção visual elétrica (organização e conformidade)

  • Quadros CC/CA (quando existirem): barramentos organizados, condutores com terminação correta, sem fios “soltos” ou cobre exposto fora do borne.
  • Separação física e roteamento: cabos CC e CA organizados e fixados, evitando interferências e pontos de aquecimento.
  • Verifique se os dispositivos instalados correspondem ao projeto: seccionamento, DPS, disjuntores, DR (quando aplicável), e se as correntes/tensões nominais são compatíveis.

4) Torqueamento (aperto controlado) e registro

Falhas por mau contato são comuns e podem gerar aquecimento e desligamentos. O torqueamento deve seguir o valor do fabricante do borne/dispositivo (não “no tato”).

  • Aplicar torquímetro em: bornes do inversor (CC e CA), barramentos de quadros, disjuntores, seccionadoras, DPS, barramento de terra e conectores que prevejam torque (quando aplicável).
  • Marcar com tinta/lacre de torque (quando adotado) para evidenciar que o aperto foi realizado.
  • Registrar no relatório: ponto torqueado, torque aplicado (N·m) e referência (manual do fabricante).

5) Verificação de polaridade por string (antes de conectar ao inversor)

Objetivo: garantir que o positivo e o negativo de cada string estão corretos e identificados. Inversão de polaridade pode danificar equipamentos ou acionar proteções.

Passo a passo:

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  • Com a string desconectada do inversor (ou com seccionadora CC aberta), meça a tensão CC entre os condutores da string com multímetro.
  • Confirme o sinal: a leitura deve ser positiva quando a ponta vermelha estiver no condutor identificado como “+”.
  • Se a leitura estiver negativa, há inversão de polaridade (corrigir identificação/conexões antes de prosseguir).
  • Registre no relatório: string ID, polaridade verificada (OK/NOK) e Voc medido (se já estiver medindo Voc).

6) Continuidade do aterramento (equipotencialização)

Objetivo: confirmar que todas as partes metálicas e carcaças estão interligadas ao condutor de proteção (PE) e ao barramento de terra conforme o projeto, reduzindo risco de choque e melhorando desempenho de proteção contra surtos.

Passo a passo (método prático):

  • Selecione pontos representativos: estrutura metálica, moldura de módulos (quando aplicável), carcaça do inversor, quadro(s) e barramento de terra.
  • Meça continuidade/baixa resistência entre cada ponto e o barramento de terra/PE.
  • Critério típico: resistência baixa e consistente entre pontos (valores exatos dependem do método e do instrumento; o importante é detectar descontinuidades, conexões intermitentes e pontos “abertos”).
  • Se houver leitura instável ou alta em um trecho, inspecione: terminais, oxidação, fixação mecânica, arruelas de contato, e reaperto.

7) Medições de Voc e Isc por string (quando aplicável)

Essas medições ajudam a detectar string com módulo faltando, conexão ruim, polaridade invertida, sombreamento inesperado ou erro de roteamento. Em muitos comissionamentos, mede-se Voc de todas as strings e Isc apenas quando o procedimento e o instrumento permitirem com segurança.

7.1 Voc (tensão de circuito aberto)

Passo a passo:

  • Desconecte a string do inversor/MPPT (ou mantenha seccionadora CC aberta) para garantir circuito aberto.
  • Meça a tensão CC nos terminais da string.
  • Compare com o valor esperado: aproximadamente a soma das tensões de circuito aberto dos módulos na condição do momento (temperatura influencia bastante).

Tolerâncias práticas: strings idênticas (mesmo número de módulos e mesma orientação) devem apresentar Voc muito próximas entre si. Diferenças pequenas podem ocorrer por temperatura e irradiância; diferenças relevantes entre strings “iguais” indicam investigação (módulo a menos, conector mal encaixado, string errada no MPPT, etc.).

7.2 Isc (corrente de curto-circuito)

Observação: Isc envolve curto-circuito controlado e deve ser feito apenas com procedimento e instrumento adequados (alicate amperímetro CC apropriado ou método recomendado pelo fabricante). Se não for aplicável ao seu procedimento, registre “não realizado” e justifique.

Passo a passo (visão geral):

  • Garanta que o método de medição não danifique conectores e não gere arco elétrico.
  • Meça a corrente de cada string em condições semelhantes (mesmo período e irradiância).
  • Compare strings equivalentes: correntes devem ser próximas; divergências indicam sombreamento, sujeira, falha de conexão ou módulo defeituoso.

8) Teste de isolação (megagem) do lado CC

Objetivo: verificar se há fuga para terra por dano de cabo, umidade em caixas, conector comprometido ou isolamento degradado. Esse teste é um dos mais importantes para evitar falhas intermitentes e desligamentos por baixa isolação.

Passo a passo (estrutura típica):

  • Desconecte as strings do inversor e isole eletronicamente equipamentos sensíveis conforme orientação do fabricante.
  • Realize o teste de isolação entre: (a) condutor positivo e terra (PE) e (b) condutor negativo e terra (PE). Em alguns procedimentos, também se avalia o conjunto (+ e - juntos) contra terra.
  • Selecione a tensão de ensaio do megômetro conforme o nível de tensão do sistema e recomendação do fabricante/inversor.
  • Registre o valor de resistência de isolação obtido para cada string/ramal.

Critérios práticos: o valor mínimo aceitável deve seguir a especificação do fabricante do inversor e/ou procedimento do projeto. Como regra de campo, o importante é: (1) estar acima do mínimo exigido e (2) ser consistente entre strings semelhantes. Uma string com isolação significativamente menor que as demais deve ser inspecionada (caixas, conectores, cabos, pontos de fixação).

9) Verificação de DPS e seccionamento

Objetivo: confirmar que os dispositivos de proteção contra surtos (DPS) e as seccionadoras estão corretamente instalados, conectados e operacionais.

Checklist de DPS:

  • Confirme o tipo e a classe conforme projeto (CC e/ou CA) e a tensão nominal compatível.
  • Verifique indicador visual do DPS (quando existir): deve estar em condição “OK”.
  • Verifique conexão ao terra: condutor curto, bem fixado e com terminação adequada (comprimento excessivo reduz eficácia).
  • Confirme proteção associada (fusível/disjuntor de backup quando previsto).

Checklist de seccionamento:

  • Seccionadora CC: manobra suave, identificação clara, capacidade compatível, instalada em local acessível.
  • Seccionamento CA: disjuntor/seccionadora de saída do inversor identificado e com capacidade compatível.
  • Teste funcional: com o sistema ainda não energizado, acione e confirme posições e travas (quando houver).

10) Validação das proteções no lado CA

Objetivo: garantir que o circuito CA do inversor até o ponto de conexão interno está correto e que as proteções atuam como esperado.

  • Verifique aperto/torque dos bornes CA e do disjuntor de interligação.
  • Confirme tensão e sequência (monofásico/bi/trifásico conforme o sistema) antes de permitir sincronismo do inversor.
  • Verifique continuidade do PE entre inversor e barramento de terra do quadro.
  • Confirme ajuste/curva e corrente nominal dos disjuntores conforme projeto.
  • Quando houver DR/RCD no circuito: validar compatibilidade com inversor e realizar teste funcional (botão de teste) conforme procedimento do fabricante e do projeto.

Sequência segura de energização (primeira partida controlada)

A energização deve seguir uma ordem que reduza risco de falhas e facilite diagnóstico. A sequência exata pode variar por fabricante, mas uma prática comum é:

  1. Com tudo verificado e registrado, mantenha a seccionadora CC aberta e o disjuntor CA aberto.
  2. Energize primeiro o lado CA (feche o disjuntor CA do inversor) para alimentar eletrônica/controle quando aplicável e permitir que o inversor “enxergue” a rede (sem ainda receber CC).
  3. Em seguida, feche a seccionadora CC (ou conecte as strings/MPPT conforme procedimento), observando se o inversor inicia sem alarmes.
  4. Acompanhe no display/app: tensão CC por MPPT, corrente, potência, status de rede, e eventuais códigos de falha.
  5. Realize uma inspeção rápida pós-energização: ruídos anormais, cheiro de aquecimento, pontos de aquecimento em conexões (se houver termovisor, usar), e estabilidade de geração.

Se ocorrer falha: desligue seguindo ordem segura (abrir CC e depois CA, conforme orientação do fabricante) e retorne ao checklist de medições (polaridade, isolação, Voc/Isc, torque e conexões).

Como preencher um relatório de comissionamento (modelo prático)

O relatório deve permitir rastreabilidade completa: o que foi testado, com qual instrumento, quais resultados, quais tolerâncias/aceites e quais evidências. Abaixo, um modelo de seções e campos.

1) Identificação do sistema

  • Cliente/local: endereço, unidade consumidora.
  • Data e responsável técnico: nome, função, registro (quando aplicável).
  • Configuração: potência instalada (kWp), quantidade de módulos, quantidade de inversores, quantidade de MPPT, número de strings.

2) Lista de equipamentos e números de série

ItemFabricante/ModeloQuantidadeNº de sérieLocal/Observação
MódulosFaixa/ListaEx.: telhado A
InversorMPPT 1/2/…
DPS CCQuadro CC
DPS CAQuadro CA

Dica prática: para módulos, registre ao menos a faixa de números de série por string/área, ou anexe planilha com todos os SN.

3) Checklist de inspeção visual (mecânica e elétrica)

Use itens “OK/NOK/NA” e um campo de observações. Exemplo de tabela:

ItemStatusObservaçõesFoto (ID)
Conectores totalmente encaixados e travadosOKF01
Cabos sem abrasão e bem fixadosOKF02
Quadro CC organizado e identificadoNOKFalta etiqueta String 3F03

4) Registro de torqueamento

PontoTorque especificadoTorque aplicadoStatusObservações
Borne CC inversor MPPT1 (+/-)Conforme manualOKMarcado com tinta
Barramento PE do quadroConforme manualOK

5) Resultados elétricos por string (Voc/Isc/isolação)

StringQtd. módulosVoc (V)Isc (A)Isolação +/PEIsolação -/PEAceiteObservações
S1OKCondição: céu parcialmente nublado
S2NOKIsolação menor que mínimo do fabricante

Como definir tolerâncias aceitáveis no relatório:

  • Voc: comparar com valor esperado e, principalmente, com strings equivalentes. Defina no relatório um critério do tipo “strings equivalentes devem estar dentro de uma faixa de variação definida pelo procedimento do projeto” e registre a justificativa quando a irradiância/temperatura variar.
  • Isc: comparar strings equivalentes medidas em condições semelhantes; registrar se houve sombreamento momentâneo.
  • Isolação: registrar o mínimo exigido pelo fabricante/projeto e marcar OK/NOK com base nesse mínimo.

6) Verificação de DPS, seccionamento e proteções CA

  • DPS CC: indicador OK, conexões e aterramento verificados, foto do indicador.
  • DPS CA: indicador OK, conexões e aterramento verificados, foto do indicador.
  • Seccionadora CC: manobra OK, identificação OK.
  • Disjuntor CA do inversor: corrente nominal e curva conforme projeto, torque verificado.
  • DR (se aplicável): teste funcional realizado e registrado (data/hora).

7) Registros fotográficos (evidência)

Padronize IDs de fotos e descreva o que cada uma comprova. Exemplo:

  • F01: visão geral do campo fotovoltaico.
  • F02: roteamento e fixação de cabos CC.
  • F03: quadro CC com DPS e seccionadora (indicador do DPS visível).
  • F04: bornes do inversor (CC/CA) após torqueamento (marcação visível).
  • F05: identificação de strings e etiquetas de segurança.

Critérios para liberar o sistema para solicitação de acesso/conexão

Antes de liberar o sistema para a etapa de solicitação de acesso/conexão (ou para a vistoria), o comissionamento deve atender, no mínimo:

  • Inspeção visual mecânica e elétrica: todos os itens críticos em status OK (ou pendências não críticas tratadas e registradas).
  • Torqueamento: pontos críticos registrados e conformes.
  • Polaridade: todas as strings verificadas e OK.
  • Continuidade de aterramento: sem descontinuidades; interligações confirmadas.
  • Voc por string: valores coerentes com o arranjo e consistentes entre strings equivalentes.
  • Isc (quando realizado): valores consistentes entre strings equivalentes e sem indícios de falha.
  • Isolação: acima do mínimo exigido pelo fabricante/projeto, sem alarmes de isolação no inversor.
  • DPS e seccionamento: instalados, identificados, indicadores OK e conexões ao terra verificadas.
  • Proteções CA: disjuntores/DR (se aplicável) verificados e funcionais; tensão de rede compatível para operação do inversor.
  • Relatório completo: resultados, tolerâncias/mínimos adotados, fotos e números de série anexados.

Quando algum item estiver NOK, registre a não conformidade, a ação corretiva executada e repita o teste correspondente, anexando o novo resultado e evidência fotográfica quando fizer sentido.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na primeira partida controlada de um sistema fotovoltaico, qual sequência de energização ajuda a reduzir riscos e facilitar o diagnóstico de falhas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A prática recomendada é energizar primeiro o lado CA para o inversor reconhecer a rede e só depois fechar o CC, permitindo uma energização mais controlada e com melhor rastreabilidade de alarmes e falhas.

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Conexão de sistema fotovoltaico à rede: documentação, inspeções e operação

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