Por que a colocação pronominal pesa na redação
Colocação pronominal é a posição do pronome oblíquo átono (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) em relação ao verbo. Em texto formal, a escolha mais segura costuma ser: usar próclise quando houver elemento atrativo e usar ênclise quando o verbo iniciar a oração (quando cabível). A meta é soar natural e correto, evitando construções artificiais que chamam atenção mais pela forma do que pela ideia.
Mapa rápido: próclise, ênclise e mesóclise
Próclise (pronome antes do verbo)
É a colocação mais frequente e, em geral, a mais segura na redação quando existe uma palavra/estrutura que “puxa” o pronome para antes do verbo.
Modelo: elemento atrativo + pronome + verbo
Ênclise (pronome depois do verbo)
É comum quando o verbo está no início da oração e não há elemento atrativo antes dele. Em redação, use com naturalidade, sem forçar.
Modelo: verbo + pronome
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Mesóclise (pronome no meio do verbo)
Ocorre com futuro do presente e futuro do pretérito (ex.: dir-se-á, far-me-ia). Em redação, é altamente recomendável evitar por soar artificial e por aumentar o risco de erro de hifenização e flexão. Prefira reescrever com próclise, com outra construção verbal ou com locução verbal.
Próclise com “palavras atrativas”: as mais úteis na redação
Quando uma dessas palavras aparece antes do verbo, a próclise tende a ser a escolha preferencial no texto formal.
1) Negação: “não”, “nunca”, “jamais”
- Preferencial:
Não se podeignorar o problema. - Preferencial: A sociedade
nunca se mobilizade forma homogênea. - Evite:
Não pode-seignorar o problema. (muito cobrado como inadequado em norma-padrão)
2) Advérbios e marcadores como “já”, “talvez”
- Preferencial: O tema
já se tornourecorrente no debate público. - Preferencial:
Talvez se expliqueo fenômeno pela desinformação. - Alternativa correta (menos preferida, dependendo do contexto): O tema já tornou-se recorrente. (pode soar mais rígido; próclise costuma ser mais natural)
3) Pronomes relativos e interrogativos: “que”, “quem”, “onde”, “como”
- Preferencial: Trata-se de um cenário
que se agravacom a omissão estatal. - Preferencial: É preciso discutir
como se financiaa política pública. - Preferencial: A comunidade
onde se viveinfluencia hábitos e expectativas. - Preferencial:
Quem se beneficiadessa lógica raramente assume responsabilidades.
Ênclise sem exageros: quando o verbo inicia a oração
Se a oração começa diretamente pelo verbo e não há elemento atrativo antes dele, a ênclise é uma opção segura.
- Correto e formal:
Observa-seaumento da evasão escolar. - Correto e formal:
Defende-sea ampliação de políticas preventivas. - Correto e formal:
Conclui-seque a medida é insuficiente.
Atenção: se você colocar antes do verbo um elemento atrativo, a próclise passa a ser preferencial.
- Com atrativo:
Não se observamelhora consistente. - Com atrativo: Há fatores
que se repetemem diferentes regiões.
Passo a passo prático para decidir a posição do pronome
Identifique o pronome átono (me, te, se, o, a, lhe etc.) e o verbo a que ele se liga.
Procure um “atrativo” antes do verbo (especialmente:
não,nunca,já,que,quem,onde,como,talvez). Se houver, use próclise.Se não houver atrativo e o verbo iniciar a oração, use ênclise (verbo + pronome).
Se a frase estiver no futuro e você pensar em mesóclise, reescreva: use locução verbal, mude o tempo verbal ou introduza um atrativo natural (sem forçar).
Revise a naturalidade: a melhor escolha é a que mantém o texto formal e fluido, sem “cara de regra decorada”.
Locuções verbais: onde colocar o pronome sem tropeçar
Locução verbal é a combinação de verbo auxiliar + verbo principal (ex.: pode fazer, deve ocorrer, vai aumentar, tem mostrado). A colocação do pronome varia, mas na redação vale priorizar padrões estáveis.
1) Com elemento atrativo antes da locução: próclise antes do auxiliar
- Preferencial:
Não se podenegligenciar a prevenção. - Preferencial: Medidas
que se devemimplementar exigem planejamento. - Preferencial:
Talvez se váreduzir o impacto com fiscalização.
2) Sem atrativo e com início de oração: ênclise no auxiliar (padrão seguro)
- Seguro:
Pode-seafirmar que a desigualdade persiste. - Seguro:
Deve-seconsiderar o papel da escola.
3) Pronome entre auxiliar e principal ou após o principal: use com cautela
Em muitos casos, aparecem construções como pode-se fazer, pode fazer-se, pode fazê-lo. Na redação, para reduzir risco, prefira:
- Com “se”: colocar no auxiliar (
pode-se fazer) ou antes do auxiliar com atrativo (não se pode fazer). - Com “o/a/os/as”: muitas vezes é melhor reescrever para evitar ênclise complexa com hífen e alterações (ex.:
fazê-lo,aplicá-la), a menos que você domine bem a forma.
| Ideia | Alternativas corretas | Escolha preferencial na redação |
|---|---|---|
| Generalização com cautela | Pode-se concluir... / Não se pode concluir... | Não se pode concluir... (próclise com negação) |
| Obrigação/necessidade | Deve-se investir... / Não se deve investir... | Não se deve investir... (próclise com negação) |
Infinitivo e gerúndio: escolhas frequentes e seguras
Infinitivo (fazer, compreender, reduzir)
Com infinitivo, a colocação pode variar. Em redação, a estratégia mais segura é: usar próclise quando houver atrativo e, quando não houver, preferir estruturas que não exijam formas raras.
- Com atrativo: É necessário
não se omitirdiante da violência. - Com atrativo: O objetivo é
como se posicionardiante de dados conflitantes. - Sem atrativo (ok): É necessário
posicionar-secom base em evidências. - Alternativa igualmente correta e muitas vezes mais simples: É necessário
se posicionarcom base em evidências. (muito usada; tende a soar natural)
Gerúndio (fazendo, reduzindo, ampliando)
Com gerúndio, a próclise é comum quando há atrativo; sem atrativo, a ênclise pode aparecer, mas a redação costuma ficar mais limpa com próclise ou reescrita.
- Preferencial: A medida foi implementada,
já se mostrandoinsuficiente. - Preferencial: O projeto avançou,
não se sustentandosem recursos. - Possível, mas menos comum: O projeto avançou, sustentando-se sem recursos. (pode mudar nuance; revise o sentido)
“Se” na redação: três funções que mais aparecem (e como não errar)
O pronome se é recorrente e pode cumprir funções diferentes. Identificar a função ajuda a escolher o verbo e a estrutura com segurança.
1) “Se” reflexivo (alguém faz algo a si mesmo)
O sujeito pratica a ação e a recebe.
- Ex.: O indivíduo
se expõea riscos ao compartilhar dados pessoais. - Teste rápido: dá para substituir por “a si mesmo”? (expõe a si mesmo)
2) “Se” apassivador (voz passiva sintética)
O verbo é transitivo direto e o termo após o verbo funciona como “sujeito paciente” (aquilo que sofre a ação). Em redação, é muito usado para generalizações impessoais com tom formal.
- Ex.:
Divulgam-seinformações falsas com rapidez. (= Informações falsas são divulgadas...) - Ex.:
Buscam-sesoluções de longo prazo. (= Soluções de longo prazo são buscadas...) - Ponto de atenção: o verbo tende a concordar com o termo que vem depois:
divulgam-se informações(plural),divulga-se informação(singular).
3) “Se” índice de indeterminação do sujeito
Ocorre com verbos que não admitem passiva direta (muito comum com verbos transitivos indiretos e intransitivos). A ideia é “não se diz quem”.
- Ex.:
Precisa-sede políticas públicas consistentes. (não há “políticas” como sujeito; a estrutura é impessoal) - Ex.:
Vive-seem um contexto de polarização. (impessoal) - Ponto de atenção: aqui o verbo fica no singular:
precisa-se de,vive-se.
Situações a evitar na redação (por risco de erro ou artificialidade)
- Mesóclise: em vez de
dir-se-á, prefiradirácom reescrita:É possível dizer que...ouDirá a análise que...(melhor ainda:A análise indica que...). - Ênclise forçada após palavra atrativa: evite
não pode-se,que observa-se. Com atrativo, prefiranão se pode,que se observa. - Sequências com muitos pronomes: reescreva para clareza. Ex.: em vez de
pretende-se fazê-lo, considerepretende-se realizar a medida. - Hífen e alterações com “o/a/os/as” sem domínio: formas como
aplicá-la,reduzi-losão corretas, mas aumentam chance de erro. Alternativa segura: repetir o substantivo (aplicar a política,reduzir o problema).
Banco de frases de redação: alternativas corretas e escolha preferencial
| Intenção | Alternativas corretas | Preferencial (mais segura/natural) |
|---|---|---|
| Generalizar com impessoalidade | Observa-se aumento... / Não se observa aumento... | Não se observa... (próclise com negação) |
| Apontar necessidade | Deve-se ampliar... / Não se deve ampliar... | Deve-se ampliar... (ênclise no início) ou Não se deve... (com negação) |
| Introduzir explicação | Há fatores que se relacionam... / Há fatores que relacionam-se... | Há fatores que se relacionam... |
| Expressar cautela | Talvez se explique... / Talvez explique-se... | Talvez se explique... |
| Locução verbal com “se” | Pode-se afirmar... / Não se pode afirmar... | Não se pode afirmar... (com negação) |
| Infinitivo em proposta | É necessário posicionar-se... / É necessário se posicionar... | É necessário se posicionar... (fluido e frequente) |
| Índice de indeterminação | Precisa-se de medidas... / Precisam-se de medidas... | Precisa-se de medidas... (singular) |
| Voz passiva sintética | Divulgam-se notícias... / Divulga-se notícias... | Divulgam-se notícias... (concordância com plural) |
Checklist de revisão (rápido) para não perder pontos
- Há não/nunca/já/que/quem/onde/como/talvez antes do verbo? Use próclise:
não se,que se,talvez se. - A oração começa com verbo e não há atrativo? Use ênclise:
observa-se,defende-se. - É futuro e você pensou em mesóclise? Reescreva.
- Com se, identifique: reflexivo, apassivador ou indeterminação; isso evita estruturas incoerentes.