Conceito e objetivos da hemocultura
Hemocultura é o exame microbiológico destinado a detectar microrganismos viáveis na corrente sanguínea (bacteremia/fungemia) e orientar terapia antimicrobiana por identificação e teste de sensibilidade. A qualidade do resultado depende principalmente de: (1) volume de sangue inoculado, (2) número de amostras (conjuntos) coletadas, (3) momento correto da coleta, e (4) técnica asséptica rigorosa para reduzir contaminação por flora da pele. Contaminação gera falso-positivo, uso desnecessário de antibióticos, aumento de custos e tempo de internação; volume insuficiente e coleta inadequada reduzem sensibilidade diagnóstica.
Indicações comuns (quando a hemocultura costuma ser solicitada)
- Suspeita de sepse, choque séptico, bacteremia ou fungemia.
- Febre sem foco em pacientes graves, imunossuprimidos ou com neutropenia.
- Suspeita de endocardite infecciosa.
- Infecção relacionada a cateter (quando há sinais sistêmicos e/ou sinais no sítio do cateter).
- Pneumonia grave, pielonefrite complicada, meningite (conforme protocolo institucional), osteomielite/infecção osteoarticular com sinais sistêmicos.
- Persistência de febre apesar de antimicrobianos, ou necessidade de documentar clareamento de bacteremia (ex.: Staphylococcus aureus, Candida spp., conforme prescrição).
Número de amostras (conjuntos) e planejamento conforme prescrição
Em hemocultura, o termo conjunto geralmente significa 1 frasco aeróbio + 1 frasco anaeróbio (quando o laboratório utiliza ambos). O número de conjuntos e o intervalo entre eles devem seguir a prescrição e o protocolo local. Recomendações práticas frequentemente adotadas:
- Suspeita de bacteremia/sepse aguda: coletar 2 conjuntos de sítios periféricos distintos, idealmente em sequência (sem necessidade de aguardar pico febril).
- Alta suspeita de endocardite: coletar 3 conjuntos de sítios distintos, antes de iniciar antimicrobianos, conforme prescrição.
- Suspeita de fungemia ou bacteremia persistente: pode haver solicitação de coletas seriadas (ex.: repetir em 24–48 h) para documentar persistência/clareamento.
Princípio-chave: mais importante do que “esperar febre” é coletar antes do antibiótico (quando possível) e garantir volume total adequado distribuído em conjuntos.
Momento de coleta: antes de antimicrobianos e sem “pico febril” como regra
- Preferencial: coletar antes da primeira dose de antimicrobiano ou antes da próxima dose (se já em uso), conforme orientação médica.
- Não é obrigatório aguardar calafrios ou pico febril; atrasar a coleta pode reduzir a utilidade clínica.
- Em suspeita de sepse: priorizar coleta rápida e início de terapia conforme protocolo assistencial, sem comprometer a técnica asséptica.
Preparo do material (checklist operacional)
- Frascos de hemocultura (aeróbio e anaeróbio, ou pediátrico conforme faixa etária/peso).
- Antisséptico para pele conforme protocolo institucional (ex.: clorexidina alcoólica 2% ou povidona-iodo alcoólico, quando indicado).
- Álcool 70% para desinfecção do septo dos frascos.
- Luvas (preferencialmente estéreis para a etapa de punção e manipulação do sítio após antissepsia, conforme protocolo local).
- Seringa e agulha ou dispositivo de coleta (conforme rotina), ou sistema com adaptador para frascos.
- Torniquete, gaze estéril, curativo.
- Etiquetas de identificação e requisição do exame.
- Recipiente para perfurocortantes.
Antes de iniciar: conferir validade e integridade dos frascos (vácuo, tampa/septo íntegros, ausência de trincas, rótulo legível) e planejar os sítios periféricos para evitar múltiplas tentativas.
Antissepsia rigorosa: pele e frasco (fricção e tempo)
1) Antissepsia do septo do frasco
Mesmo frascos novos podem ter contaminação no septo por manuseio. Proceder assim:
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- Friccionar o septo de borracha com álcool 70% (gaze/algodão embebido) com fricção vigorosa.
- Manter fricção por 15–30 segundos (ou conforme protocolo local).
- Deixar secar completamente ao ar antes de inocular (não assoprar, não abanar com luvas).
- Após desinfecção, não tocar no septo.
2) Antissepsia da pele (ponto crítico para reduzir contaminação)
Após selecionar o sítio, realizar antissepsia com técnica padronizada:
- Aplicar antisséptico com fricção (movimentos de vai-e-vem ou circulares do centro para a periferia, conforme protocolo), cobrindo área suficiente para punção e eventual repunção.
- Tempo de fricção: em geral 30 segundos para clorexidina alcoólica 2% (ou conforme protocolo institucional).
- Tempo de secagem: aguardar secagem completa (frequentemente 30 segundos ou mais). A secagem é parte do efeito antimicrobiano.
- Após antissepsia, não palpar novamente o local. Se for indispensável repalpar, usar técnica estéril (ex.: luva estéril) e considerar repetir antissepsia conforme protocolo.
Observação prática: a maior parte das contaminações ocorre por falhas em: fricção insuficiente, não respeitar secagem, repalpação do sítio, ou tocar no septo do frasco após desinfecção.
Volume recomendado por frasco (faixa etária) e impacto na sensibilidade
O volume é o fator isolado mais associado ao aumento da sensibilidade. Sempre seguir a prescrição e o protocolo do laboratório (alguns frascos têm volume máximo recomendado). Referência prática frequentemente utilizada:
| Faixa etária | Volume por conjunto (total) | Distribuição típica |
|---|---|---|
| Neonato | 1–2 mL | 1 frasco pediátrico (ou conforme kit neonatal) |
| Lactente/criança pequena | 2–4 mL | 1 frasco pediátrico (ou dividir se protocolo permitir) |
| Criança | 4–10 mL | 1–2 frascos conforme disponibilidade/prescrição |
| Adolescente/adulto | 20–30 mL por conjunto | 10–15 mL no aeróbio + 10–15 mL no anaeróbio |
Regras práticas:
- Evitar “subvolume” (ex.: 2–3 mL em frasco adulto), pois reduz sensibilidade e pode atrasar positividade.
- Evitar ultrapassar o volume máximo do frasco (risco de falso-negativo por excesso de sangue e diluição inadequada do meio).
- Se o volume total prescrito não for obtido, registrar o volume real e comunicar a equipe médica quando relevante.
Sequência de inoculação (seringa, butterfly e frascos)
A sequência pode variar conforme o método de coleta e o tipo de frasco. Objetivo: reduzir entrada de ar no frasco anaeróbio e manter segurança.
Quando o sangue é coletado com seringa
- Inocular primeiro o frasco anaeróbio (menor exposição ao ar), depois o aeróbio.
- Inocular lentamente, evitando pressão excessiva e aerossolização.
- Homogeneizar suavemente os frascos após inoculação (inversões leves), sem agitar vigorosamente.
Quando o sangue é coletado com butterfly (scalp) e adaptador direto para frascos
- Inocular primeiro o frasco aeróbio (o equipo contém ar), depois o anaeróbio.
- Manter os frascos na posição recomendada pelo fabricante e evitar refluxo.
Importante: sempre seguir a orientação do fabricante do sistema utilizado e do laboratório; registrar no serviço um padrão único para reduzir variabilidade.
Coleta periférica versus coleta por cateter (quando indicada)
Preferência: coleta periférica
Para investigação de bacteremia/sepse, a coleta periférica é preferida por apresentar menor taxa de contaminação e melhor interpretação clínica.
Quando coletar por cateter pode ser indicado
- Suspeita de infecção relacionada a cateter, com necessidade de comparação entre amostras.
- Impossibilidade de acesso periférico após tentativas seguras e justificadas.
- Prescrição específica para coleta simultânea periférica e do cateter (ex.: para avaliação de tempo diferencial de positividade).
Como organizar quando houver suspeita de infecção relacionada a cateter
- Coletar um conjunto periférico e um conjunto do cateter (de lúmen específico, se multilúmen), idealmente em tempos próximos, conforme prescrição.
- Identificar claramente no rótulo e na requisição: “periférico” e “cateter”, e qual lúmen.
- Evitar coletar hemocultura exclusivamente do cateter sem periférica, pois dificulta interpretação e aumenta risco de contaminação.
Atenção: coleta por cateter exige desinfecção rigorosa do hub/conector e respeito ao tempo de contato do antisséptico, conforme protocolo institucional de manipulação de cateter (não detalhado aqui para evitar repetição de capítulo anterior). O ponto central é: só indicar quando houver motivo clínico e sempre com identificação adequada da origem.
Passo a passo prático (protocolo completo)
Etapa 1: conferências e organização
- Confirmar prescrição: número de conjuntos, origem (periférico/cateter), volumes e urgência.
- Identificar o paciente e conferir alergias relevantes (ex.: antissépticos).
- Preparar frascos: checar integridade/validade e rotular após a coleta (para evitar troca), conforme política institucional.
- Higienizar as mãos e organizar campo de trabalho.
Etapa 2: antissepsia do frasco
- Desinfetar septo de cada frasco com álcool 70% (fricção 15–30 s) e deixar secar.
Etapa 3: antissepsia da pele e punção
- Aplicar antisséptico na pele com fricção e respeitar secagem completa.
- Realizar punção e coletar o volume planejado.
- Evitar repalpação do sítio após antissepsia; se ocorrer, considerar repetir antissepsia.
Etapa 4: inoculação e mistura
- Inocular na sequência correta conforme método (seringa: anaeróbio → aeróbio; butterfly: aeróbio → anaeróbio).
- Respeitar volumes por frasco; observar marcações do frasco.
- Homogeneizar suavemente.
Etapa 5: identificação, registro e transporte
- Rotular frascos com: nome, identificador, data/hora, sítio (periférico/cateter e lúmen), profissional coletor.
- Registrar no prontuário: número de conjuntos, volumes aproximados, sítios, intercorrências, antibiótico em uso e horário da última dose (quando disponível).
- Enviar ao laboratório o mais rápido possível; manter em temperatura ambiente, sem refrigeração, salvo orientação do laboratório.
Medidas para minimizar contaminação (boas práticas específicas para hemocultura)
- Dois sítios periféricos distintos quando indicado (reduz interpretação equivocada e aumenta sensibilidade).
- Não coletar hemocultura de acessos periféricos recém-puncionados apenas por conveniência, se houver alternativa periférica adequada (maior risco de contaminação por manipulação).
- Antissepsia com fricção + secagem completa (pele e septo do frasco).
- Evitar repalpação do local após antissepsia.
- Volume adequado e distribuição correta nos frascos.
- Padronizar técnica na unidade (mesmo antisséptico, mesmos tempos, mesma sequência de inoculação) e treinar periodicamente.
- Rotulagem correta da origem (periférico vs cateter) para interpretação microbiológica.
Manejo de intercorrências
Punção difícil (múltiplas tentativas)
- Interromper após número de tentativas definido pelo serviço e acionar profissional mais experiente, quando aplicável.
- Se houver nova tentativa em outro sítio, repetir antissepsia completa no novo local.
- Evitar “aproveitar” um sítio repalpado/contaminado; isso aumenta contaminação.
- Se volume obtido for menor que o prescrito, priorizar completar ao menos um conjunto com volume adequado, registrando o volume real.
Atraso na inoculação (sangue ficou na seringa)
- Ideal: inocular imediatamente após a coleta.
- Se houver atraso inevitável, manter a seringa fechada e em condições seguras, e inocular o quanto antes; registrar o atraso e comunicar o laboratório se o tempo for significativo.
- Não refrigerar sangue em seringa para hemocultura, salvo orientação formal do laboratório.
Frasco danificado, sem vácuo ou com vazamento
- Não utilizar frasco trincado, com tampa comprometida, sem vácuo (não aspira) ou com sinais de vazamento.
- Substituir por frasco íntegro antes da coleta, se identificado previamente.
- Se o dano for percebido após inoculação, isolar o frasco, notificar o laboratório e seguir fluxo institucional de incidente; pode ser necessária recoleta.
Suspeita de contaminação durante o procedimento
- Exemplos: toque no sítio após antissepsia, toque no septo após desinfecção, queda de material estéril.
- Conduta: interromper, substituir materiais necessários, repetir antissepsia e documentar a ocorrência; considerar recoleta em novo sítio.
Critérios de rejeição (quando o laboratório pode recusar ou sinalizar a amostra)
Os critérios variam por instituição; exemplos frequentes:
- Frasco sem identificação ou com identificação divergente.
- Volume inadequado (muito abaixo do mínimo recomendado ou acima do máximo do frasco), quando o laboratório adota rejeição por volume.
- Frasco vencido, danificado, com vazamento ou sem integridade do septo.
- Coleta em recipiente inadequado (ex.: sangue enviado em tubo/seringa para “fazer hemocultura”).
- Tempo/condição de transporte inadequados conforme norma local (ex.: atraso excessivo sem justificativa e sem orientação do laboratório).
Boa prática: antes de enviar, conferir rótulos, volumes aproximados e integridade do frasco; isso reduz recoletas e atrasos diagnósticos.
Pontos críticos de controle (PCC) para qualidade e segurança
- PCC 1: número de conjuntos e sítios conforme prescrição (planejamento antes de puncionar).
- PCC 2: antissepsia do septo do frasco (fricção + secagem; não tocar depois).
- PCC 3: antissepsia da pele (fricção + secagem; não repalpar).
- PCC 4: volume por frasco (marcação visual e registro).
- PCC 5: sequência de inoculação correta conforme método (seringa vs butterfly).
- PCC 6: identificação completa (origem periférica/cateter e lúmen) e envio rápido ao laboratório.
Roteiro de auditoria de contaminação (monitoramento e melhoria contínua)
Indicadores sugeridos
- Taxa de contaminação de hemoculturas (% de frascos/conjuntos com crescimento de contaminantes típicos, conforme definição do laboratório).
- Taxa por unidade/turno/profissional (quando aplicável e com abordagem educativa).
- Percentual de frascos com subvolume (quando o laboratório fornece essa informação).
- Percentual de coletas por cateter sem indicação documentada.
Checklist de observação direta (auditoria de processo)
- Higienização das mãos realizada nos momentos indicados.
- Septo do frasco desinfetado com fricção e tempo adequado; secagem respeitada.
- Pele desinfetada com fricção e tempo adequado; secagem respeitada.
- Ausência de repalpação do sítio após antissepsia (ou repalpação com técnica estéril e conduta adequada).
- Volume coletado compatível com faixa etária e marcação do frasco.
- Sequência de inoculação correta para o método utilizado.
- Rótulo completo (data/hora, sítio, cateter/lúmen quando aplicável).
- Tempo entre coleta e envio ao laboratório dentro do padrão.
Análise de eventos e ações corretivas
- Para cada episódio de contaminação provável: revisar prontuário (origem, número de conjuntos, volumes, antibiótico prévio), revisar técnica (observação/entrevista) e identificar falhas mais prováveis (antissepsia, repalpação, volume, rotulagem).
- Implementar ações: reciclagem dirigida, padronização de antisséptico/tempos, kits de hemocultura, lembretes visuais de volumes e sequência, feedback periódico de indicadores.
- Reauditar após intervenção (ex.: 30–60 dias) para verificar redução da contaminação.