Classificação fiscal e descrição de mercadorias: como reduzir risco de autuações

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que classificação fiscal (NCM/HS) e descrição correta reduzem autuações

A classificação fiscal é o enquadramento da mercadoria em um código padronizado: HS (Harmonized System, base internacional de 6 dígitos) e NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul, normalmente 8 dígitos no Brasil). Esse código influencia diretamente tributos, tratamentos administrativos (ex.: necessidade de anuências), estatísticas e o nível de atenção na fiscalização.

A descrição da mercadoria é o texto que explica o que o produto é, do que é feito e para que serve. Na prática, a Receita e demais órgãos cruzam: código declarado + descrição + documentos + produto físico. Quando há inconsistência, aumentam as chances de canal de conferência, exigências, retificação, multa e recolhimento complementar.

Riscos típicos quando NCM/HS e descrição estão fracos

  • Tributação incorreta: alíquota errada por NCM inadequado ou por descrição que sugere outro produto.
  • Exigência documental: pedido de catálogos, fotos, datasheet, laudos, composição, potência, etc.
  • Reclassificação de ofício: a autoridade altera o código e recalcula tributos, podendo aplicar multa.
  • Tratamento administrativo inesperado: um NCM pode exigir anuência/licença e outro não; erro pode travar o desembaraço.
  • Suspeita de subfaturamento: descrição genérica dificulta justificar preço e especificação.

Como construir uma descrição técnica completa (modelo prático)

Uma boa descrição técnica deve permitir que qualquer pessoa (inclusive fiscal) entenda o produto sem ver a mercadoria. Use uma estrutura fixa e repita em todos os documentos.

Checklist de campos que fortalecem a descrição

  • Nome técnico + nome comercial (se houver).
  • Função/uso: o que faz e para que aplicação.
  • Material e composição: principal e percentuais quando relevante (ex.: 60% algodão/40% poliéster).
  • Características técnicas: potência (W), tensão (V), corrente (A), capacidade (mAh), frequência (Hz), padrão (Wi‑Fi/Bluetooth), etc.
  • Dimensões e peso: unidade, tamanho, volume, gramatura.
  • Modelo/part number/SKU e marca (quando aplicável).
  • Condição: novo/usado (em geral, para revenda, declare novo quando for o caso).
  • Quantidade e unidade: peça, conjunto, par, rolo, caixa; e o que compõe um kit.
  • Composição do kit: itens incluídos (ex.: “1 unidade + 1 cabo USB‑C”).
  • País de origem (quando exigido no documento do fornecedor).

Modelo de descrição (template)

[Produto] [tipo] para [aplicação], [material/composição], [características técnicas principais], [dimensões/peso], marca [X], modelo/PN [Y], novo, acondicionado em [tipo de embalagem], conteúdo do kit: [itens].

Use o template como base e adapte ao tipo de mercadoria. O objetivo é reduzir ambiguidade (o que é? do que é feito? como funciona?).

Passo a passo para chegar em um NCM/HS defensável (sem “chute”)

1) Identifique a natureza do produto (o que ele é de verdade)

Evite classificar pelo nome de marketing. Ex.: “smart gadget” pode ser um transmissor, um sensor, um acessório, um aparelho de telecom, etc. Comece pela função principal e pela tecnologia.

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2) Liste atributos que mudam classificação

Alguns detalhes alteram capítulo/posição: material predominante, presença de motor, se é parte/acessório ou produto completo, se é para uso médico, se tem função de medição, se é têxtil revestido, se é “kit” com itens de naturezas diferentes.

3) Mapeie o HS (6 dígitos) e depois refine para NCM

Trabalhe do geral para o específico. Primeiro, encontre o enquadramento HS mais provável; depois, refine para a NCM correspondente. Se houver dúvida entre duas opções, compare as descrições oficiais e as notas explicativas aplicáveis (quando disponíveis) e veja qual casa melhor com os atributos do seu produto.

4) Verifique se o NCM escolhido traz exigências adicionais

Antes de fechar, confirme se o código costuma estar associado a controles/anuências e se isso faz sentido para o seu produto. Se o seu item parece “sensível” (ex.: eletrônico com rádio, laser, químico, cosmético, médico), redobre a validação.

5) Faça um “teste de consistência” com preço, peso e especificação

Um NCM que descreve um produto robusto, mas com peso muito baixo e preço muito baixo, chama atenção. O inverso também. A coerência entre especificação e valor declarado reduz questionamentos.

6) Documente o racional

Guarde um registro simples do porquê do enquadramento: função, material, datasheet e fotos. Isso ajuda em exigências e em futuras importações do mesmo item.

Evidências que você deve reunir (e como organizar)

Quanto mais técnico o produto, mais importante ter evidências prontas para apresentar rapidamente em caso de exigência.

Pacote mínimo de evidências

  • Catálogo do fabricante (PDF ou link com data).
  • Datasheet/ficha técnica com especificações completas.
  • Fotos reais: frontal, traseira, etiqueta, conectores, embalagem, conteúdo do kit.
  • Manual do usuário (se houver) e certificações/declarações do fabricante (quando aplicável).
  • Composição/material: declaração do fornecedor e, para têxteis, composição percentual.
  • Part number/SKU que apareça nos documentos e na embalagem.

Organização prática (pasta por item)

Crie uma pasta por SKU/modelo com: 01_Datasheet, 02_Catalogo, 03_Fotos, 04_Invoice_Packing, 05_Racional_NCM. Isso reduz tempo de resposta em exigências e evita desencontro de versões.

Validação de consistência: invoice, packing list e produto físico

Um dos gatilhos de fiscalização é a divergência entre documentos e o que chega fisicamente. Faça uma checagem antes do embarque (com o fornecedor) e na chegada (na conferência interna).

Checklist de consistência (antes do embarque)

  • Descrição idêntica (ou compatível) em invoice e packing list: evite um documento “genérico” e outro “detalhado demais” com informação conflitante.
  • Modelo/PN igual em todos os documentos e, idealmente, na etiqueta/embalagem.
  • Quantidade e unidade: “10 boxes” vs “100 pcs” deve estar explicado (ex.: 10 caixas com 10 peças cada).
  • Peso bruto e líquido coerentes com o produto e com a embalagem.
  • Kit: se vende como kit, descreva o conteúdo e mantenha o mesmo padrão nos documentos.
  • Material/composição consistente com o que está no datasheet e no produto.

Checklist de consistência (quando o produto chega)

  • Conferir se o produto físico corresponde ao modelo/PN e às fotos/datasheet arquivados.
  • Verificar etiquetas (tensão, potência, composição têxtil, avisos) e se batem com a descrição.
  • Registrar fotos do lote recebido (amostra representativa) para evidência.

Exemplos de descrições bem feitas (comparando com descrições fracas)

Exemplo 1: Fonte de alimentação (eletrônico)

Descrição fraca: “Power adapter 65W”

Descrição robusta: “Fonte de alimentação AC/DC (adaptador de energia) para notebook, entrada 100–240V~ 50/60Hz, saída 19V 3,42A, potência 65W, conector DC 5,5x2,5mm, corpo em plástico ABS, marca X, modelo/PN Y, novo, kit com 1 fonte + 1 cabo de força.”

Exemplo 2: Camiseta (têxtil)

Descrição fraca: “T-shirt”

Descrição robusta: “Camiseta masculina de malha, 60% algodão e 40% poliéster, gramatura 160 g/m², manga curta, gola careca, cor preta, tamanhos sortidos (P/M/G), marca X, modelo Y, nova, acondicionada em saco plástico individual.”

Exemplo 3: Kit de ferramentas (kit com itens)

Descrição fraca: “Tool set”

Descrição robusta: “Kit de ferramentas manuais para manutenção doméstica, em aço carbono com cabo em PP/TPR, contendo 1 alicate universal 8", 1 chave ajustável 10", 6 chaves de fenda/philips, 1 estilete, 1 trena 3m, acondicionado em maleta plástica, marca X, modelo Y, novo.”

Exemplo 4: Luminária LED (características que mudam enquadramento)

Descrição fraca: “LED lamp”

Descrição robusta: “Luminária LED de mesa para iluminação interna, potência 10W, tensão 110–240V, temperatura de cor 3000K–6500K, fluxo luminoso 800 lm, corpo em alumínio e ABS, com driver interno, sem bateria, marca X, modelo Y, novo.”

Erros que elevam o risco (lista para auditoria rápida)

  • Descrição genérica (“accessories”, “parts”, “gift”, “sample”, “gadget”, “electronics”) sem função e especificação.
  • Nome comercial enganoso que não reflete a função (ex.: chamar transmissor de “carregador”).
  • Omitir material/composição em itens onde isso define classificação (têxteis, plásticos, metais, compósitos).
  • Omitir potência/tensão em elétricos/eletrônicos.
  • Declarar kit como item único sem listar conteúdo (ou listar conteúdo diferente entre documentos).
  • Inconsistência entre invoice e packing list (descrições diferentes, unidades diferentes, modelos diferentes).
  • Modelo/PN inexistente ou divergente do que está na etiqueta/embalagem.
  • Quantidade e unidade confusas (caixa vs peça) sem fator de conversão explícito.
  • Classificar “por semelhança” sem evidência técnica (ex.: escolher NCM porque “paga menos”).
  • Não guardar evidências (datasheet, catálogo, fotos) para sustentar a classificação.
  • Tradução ruim que muda sentido técnico (ex.: “controller” virar “controle remoto” quando é “controlador”).

Quando buscar apoio especializado (e o que levar pronto)

Vale buscar apoio especializado quando: (1) o produto é técnico e pode cair em múltiplas posições; (2) há risco de tratamento administrativo; (3) é um item com histórico de fiscalização; (4) é um kit complexo; (5) há dúvida relevante de material/composição; (6) o impacto tributário entre duas classificações é grande.

Pacote de informações para enviar ao especialista

  • Fotos do produto e da embalagem (incluindo etiquetas).
  • Datasheet/manual/catálogo do fabricante.
  • Composição/material e processo de fabricação (se aplicável).
  • Função principal e aplicação (como o cliente usa).
  • Se é parte/acessório ou produto completo; e de que equipamento faz parte.
  • Invoice proforma com descrição pretendida e modelo/PN.

Como validar a recomendação recebida

  • Confirme se a descrição proposta cobre função + material + especificações que justificam o código.
  • Verifique se o NCM sugerido é compatível com o produto físico (etiquetas, potência, composição).
  • Padronize a descrição final e aplique igual em invoice, packing list e cadastro interno do SKU.

Padronização interna: ficha do produto para importação

Para reduzir retrabalho, crie uma “ficha do produto” por SKU com os campos abaixo e use como fonte única para preencher documentos e instruir o fornecedor.

CampoExemplo
Nome técnicoFonte de alimentação AC/DC
AplicaçãoNotebook
MaterialABS (carcaça), cobre (condutores)
EspecificaçõesEntrada 100–240V; saída 19V 3,42A; 65W
Dimensões/peso120×50×30 mm; 250 g
Marca/Modelo/PNX / Y / PN12345
Conteúdo do kit1 fonte + 1 cabo
Descrição padronizada(texto final para documentos)
EvidênciasDatasheet v2; fotos lote; catálogo 2026

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática reduz o risco de autuações ao declarar uma mercadoria na importação para revenda?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O risco cai quando o código e a descrição são coerentes e detalhados, e batem com documentos e mercadoria. Isso reduz inconsistências que geram canal de conferência, exigências, reclassificação e multas, além de permitir resposta rápida com evidências.

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