Mapas e perfis do relevo na Geografia Física: curvas de nível, hipsometria e declividade

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que mapas “mostram” o relevo?

O relevo é tridimensional, mas o mapa é plano. Para representar alturas e formas do terreno em uma superfície 2D, a cartografia usa informações altimétricas (cotas) e técnicas de generalização. As principais ferramentas são curvas de nível, pontos cotados, intervalos altimétricos e mapas hipsométricos. A partir delas, também é possível estimar declividade (inclinação) e orientação de vertentes (para onde a encosta “olha”), o que ajuda a entender drenagem, erosão e padrões de vegetação.

Curvas de nível: a “assinatura” do relevo

O que são

Curvas de nível são linhas que unem pontos de mesma altitude (mesma cota) em relação a um nível de referência (geralmente o nível médio do mar). Elas permitem visualizar a forma do terreno: morros, vales, cristas, planícies e escarpas.

Como ler curvas de nível na prática

  • Curvas próximas = encosta íngreme (alta declividade).
  • Curvas afastadas = encosta suave (baixa declividade).
  • Curvas fechadas (círculos/ovais) = elevação (morro) quando as cotas aumentam para o centro; pode indicar depressão se as cotas diminuem para o centro (em alguns mapas, depressões são marcadas com hachuras).
  • Formato em “V” = vale quando o “V” aponta para montante (para altitudes maiores); em cristas/espigões, o “V” tende a apontar para jusante (altitudes menores).
  • Curvas que “encostam” (muito juntas) sugerem escarpa, paredão ou transição abrupta de relevo.

Intervalo entre curvas (equidistância)

A equidistância é a diferença de altitude entre uma curva e a próxima (por exemplo, 10 m, 20 m, 50 m). Ela é indicada na legenda do mapa e controla o nível de detalhe: equidistância pequena mostra mais detalhes; equidistância grande simplifica o relevo.

Exemplo: se a equidistância é 20 m, uma sequência de curvas pode ser 100 m, 120 m, 140 m, 160 m…

Curvas mestras e curvas intermediárias

Em muitos mapas, algumas curvas são desenhadas mais grossas e com a altitude escrita: são curvas mestras (por exemplo, a cada 100 m). As demais são intermediárias. Isso facilita a leitura rápida do relevo.

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Pontos cotados: altitudes pontuais

Pontos cotados (spot heights) são valores de altitude marcados em pontos específicos, como topos, cruzamentos de estradas, marcos geodésicos ou locais de interesse. Eles são úteis quando:

  • o topo de um morro não forma uma curva fechada clara;
  • há uma passagem (colo) entre duas elevações;
  • é preciso precisão local para obras, trilhas, drenagem ou análise de risco.

Na leitura do mapa, combine pontos cotados com curvas de nível para entender o “miolo” do relevo: um ponto cotado de 347 m dentro de uma curva de 340 m indica que o topo está entre 340 e 360 m (se a equidistância for 20 m) e mais próximo de 347 m.

Intervalos altimétricos e mapas hipsométricos

Intervalos altimétricos (classes de altitude)

Um mapa pode agrupar altitudes em faixas (por exemplo: 0–100 m, 100–300 m, 300–600 m, 600–1000 m). Essas faixas são os intervalos altimétricos. Eles ajudam a comparar áreas extensas sem precisar seguir curva por curva.

Mapa hipsométrico: altitude “por cores”

O mapa hipsométrico representa a altitude por uma escala de cores (ou tons). Em geral, cores mais frias/claras indicam baixas altitudes e cores mais quentes/escuras indicam maiores altitudes (o padrão exato depende da legenda).

Como interpretar de modo aplicado:

  • Drenagem: áreas mais altas tendem a ser divisores de água; áreas mais baixas concentram canais e planícies de inundação.
  • Erosão: transições bruscas de cor em pouco espaço sugerem escarpas e maior energia do escoamento superficial.
  • Vegetação: mudanças altimétricas podem indicar variações de temperatura, umidade e exposição ao vento, influenciando tipos de cobertura vegetal (especialmente em áreas serranas).

Declividade (inclinação): como estimar e por que importa

Conceito

Declividade é a relação entre a diferença de altitude (desnível) e a distância horizontal. Pode ser expressa em % ou em graus. Em mapas com curvas de nível, a declividade aparece indiretamente pelo espaçamento entre curvas.

Cálculo simples a partir do mapa

Você precisa de dois elementos: desnível e distância horizontal (medida no mapa e convertida pela escala).

declividade (%) = (desnível / distância horizontal) × 100

Exemplo prático: entre a curva de 200 m e a de 260 m há 60 m de desnível. Se a distância horizontal real entre elas (após converter pela escala) é 300 m:

declividade = (60 / 300) × 100 = 20%

Leitura aplicada: drenagem, erosão e vegetação

  • Drenagem: em maior declividade, a água escoa mais rápido, tende a formar canais mais encaixados e com maior capacidade de transporte.
  • Erosão: encostas íngremes favorecem erosão linear (sulcos, ravinas) quando há pouca cobertura vegetal e solo exposto; também aumentam a chance de movimentos de massa em condições de saturação do solo.
  • Vegetação: encostas íngremes e muito expostas podem ter solos mais rasos e maior estresse hídrico; áreas suaves acumulam mais solo e umidade, favorecendo maior densidade de cobertura vegetal (dependendo do clima e uso do solo).

Orientação de vertentes (aspect): para onde a encosta está voltada

Conceito

Orientação de vertente é a direção para a qual a encosta desce (N, S, E, W e intermediárias). Ela influencia insolação, temperatura do solo, evaporação e umidade, afetando vegetação e processos erosivos.

Como identificar no mapa

  • Localize uma encosta entre curvas de nível: a água desce do maior valor para o menor.
  • Use a rosa dos ventos do mapa (ou o norte) para determinar a direção do “descer”.
  • Em um vale, a orientação das vertentes opostas costuma ser diferente (uma pode receber mais insolação que a outra).

Efeitos aplicados

  • Drenagem: vertentes voltadas para direções com maior umidade local (por ventos dominantes, neblina orográfica, sombreamento) tendem a manter o solo mais úmido, alterando o padrão de escoamento e infiltração.
  • Erosão: vertentes mais secas podem ter menor cobertura vegetal em certos contextos, aumentando a exposição do solo; vertentes mais úmidas podem ter maior intemperismo químico e saturação, favorecendo instabilidades.
  • Vegetação: diferenças de insolação e umidade criam microambientes; em áreas serranas, isso pode gerar contrastes visíveis entre encostas.

Passo a passo: construindo um perfil topográfico simples

Um perfil topográfico é um “corte” do terreno ao longo de uma linha traçada no mapa. Ele transforma curvas de nível em um gráfico de altitude versus distância, revelando vales, cristas, planícies e escarpas.

Materiais

  • Trecho de mapa com curvas de nível e escala
  • Régua
  • Lápis e papel milimetrado (ou folha comum)
  • Uma tira de papel (ou transparência) para marcar interseções

Etapa 1 — Escolha a linha de corte (A–B)

Trace uma linha reta A–B atravessando as formas que você quer analisar (por exemplo, cruzando um vale e subindo uma encosta até uma crista). Quanto mais a linha cruzar curvas, mais informativo será o perfil.

Etapa 2 — Marque as interseções com as curvas

Coloque a tira de papel sobre a linha A–B e marque:

  • o ponto A e o ponto B;
  • cada ponto onde A–B cruza uma curva de nível;
  • anote ao lado de cada marca a altitude da curva correspondente (use curvas mestras e equidistância para deduzir as intermediárias).

Etapa 3 — Converta a distância do mapa para a distância real

Meça no mapa a distância entre as marcas (em cm) e converta pela escala.

Exemplo de conversão:

Escala 1:50.000 → 1 cm no mapa = 500 m no terreno

Se entre duas marcas há 2 cm no mapa, isso representa 1000 m no terreno.

Etapa 4 — Monte os eixos do perfil

  • Eixo horizontal: distância ao longo de A–B (em metros ou quilômetros).
  • Eixo vertical: altitude (em metros).

Dica: escolha um intervalo vertical que caiba bem no papel. Se o relevo é baixo (planície), use uma escala vertical mais “sensível” para enxergar variações pequenas. Se o relevo é alto (serra), use uma escala vertical que evite um gráfico “esticado demais”.

Etapa 5 — Transfira os pontos e una com uma linha suave

Para cada marca na tira de papel:

  • posicione a distância correspondente no eixo horizontal;
  • suba até a altitude anotada;
  • marque o ponto.

Depois, conecte os pontos com uma linha contínua e suave, respeitando a tendência do terreno (sem “degraus” artificiais).

Etapa 6 — Interprete o perfil: o que procurar

  • Vale: trecho em “U” ou “V” no perfil, com altitudes menores no centro; geralmente coincide com drenagem.
  • Crista/espigão: ponto alto alongado; no perfil aparece como um topo ou sequência de topos.
  • Planície/superfície pouco inclinada: trecho quase horizontal, com pouca variação altimétrica ao longo de grande distância.
  • Escarpa: subida/descida muito rápida (grande desnível em pouca distância), indicando alta declividade.
  • Colo (sela): rebaixamento entre dois topos; pode ser passagem natural e área de convergência/divergência de drenagem local.

Checagem rápida de coerência

  • O perfil deve cruzar as altitudes na mesma ordem em que aparecem ao longo de A–B.
  • Se as curvas estão muito próximas em um trecho do mapa, o perfil deve ficar mais “inclinado” nesse trecho.
  • Se há um rio no mapa, o ponto do perfil no cruzamento com o canal tende a estar em uma cota baixa local.

Exercícios sugeridos (com terrenos distintos)

1) Planície costeira

Objetivo: reconhecer baixa declividade e áreas sujeitas a inundação.

  • Escolha um mapa com equidistância pequena (por exemplo, 5 m ou 10 m) e curvas bem espaçadas.
  • Identifique trechos com poucas curvas e grandes áreas na mesma faixa hipsométrica.
  • Construa um perfil A–B perpendicular à linha de costa (do interior em direção ao litoral) e observe a suavidade do gradiente.
  • Marque no mapa possíveis áreas de acumulação de água: fundos de vale amplos, baixadas e proximidade de corpos d’água.

2) Área serrana

Objetivo: localizar escarpas, cristas e vales encaixados; relacionar declividade com erosão.

  • Encontre trechos com curvas muito próximas e mudanças rápidas de classes hipsométricas.
  • Identifique divisores de água (cristas) e vales (curvas em “V” apontando para montante).
  • Calcule a declividade em dois pontos: um em encosta íngreme e outro em encosta suave, usando a fórmula em %.
  • Faça um perfil cruzando um vale encaixado e uma crista; destaque no perfil onde a energia do escoamento tende a ser maior (maior declividade).

3) Planalto

Objetivo: reconhecer superfícies relativamente elevadas com bordas mais íngremes e drenagem organizada.

  • Use um mapa hipsométrico para localizar uma faixa extensa em altitudes médias/altas relativamente uniformes.
  • Procure bordas com curvas mais próximas (transição para áreas mais baixas).
  • Construa um perfil atravessando o interior do planalto e sua borda (A–B do “miolo” para fora).
  • Compare a declividade média no interior (suave) com a declividade na borda (mais alta) e discuta como isso pode acelerar a erosão nas transições.

Atividade extra: leitura integrada (curvas + hipsometria + vertentes)

Escolha um trecho com vale principal e dois afluentes. Faça:

  • um esboço do divisor de águas usando as cristas indicadas pelas curvas;
  • uma estimativa de declividade do canal principal em dois segmentos (montante e jusante) usando desnível e distância;
  • a identificação da orientação das duas vertentes do vale (uma de cada lado) e uma hipótese sobre diferenças de umidade/vegetação observáveis em campo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar um mapa com curvas de nível, o que o espaçamento entre as curvas indica sobre a declividade da encosta?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em mapas com curvas de nível, a declividade é inferida pelo espaçamento: curvas muito próximas representam grande variação de altitude em pouca distância (encosta íngreme), enquanto curvas afastadas indicam variação menor (encosta suave).

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