Classes de antibióticos II: macrolídeos, tetraciclinas, lincosamidas e oxazolidinonas

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que você precisa saber sobre estas classes

Macrolídeos, tetraciclinas, lincosamidas e oxazolidinonas são classes muito usadas em infecções respiratórias, pele/tecidos moles e em cenários com suspeita de “atípicos”. Na prática, também aparecem como alternativas quando há alergia a beta-lactâmicos ou quando se busca um perfil específico de cobertura. Aqui o foco é: usos típicos, limitações, efeitos adversos importantes e como checar interações e riscos antes de prescrever.

Macrolídeos (azitromicina, claritromicina, eritromicina)

Espectro e usos gerais

  • Respiratórios e “atípicos”: úteis quando há suspeita de agentes atípicos (ex.: Mycoplasma, Chlamydophila, Legionella) em quadros respiratórios. Frequentemente entram em esquemas de pneumonia adquirida na comunidade quando se quer cobrir atípicos.
  • Faringite/tonsilite por estreptococo: podem ser alternativa em alergia a penicilina, considerando resistência local e orientação do serviço.
  • Pele/tecidos moles: uso mais limitado; podem ser opção em alguns cenários leves, mas não são escolha “automática” para estafilococo resistente.
  • Infecções específicas: azitromicina é usada em algumas ISTs e em situações selecionadas de profilaxia/tratamento conforme protocolos locais.

Ponto prático: macrolídeo costuma ser escolhido quando a pergunta clínica é “preciso cobrir atípicos?” ou “preciso de alternativa por alergia?”.

Efeitos adversos e precauções

  • Gastrointestinais: náuseas, dor abdominal e diarreia são comuns (eritromicina tende a ser pior).
  • Prolongamento de QT e risco de arritmia: macrolídeos podem prolongar o intervalo QT e aumentar risco de torsades de pointes em pessoas suscetíveis.
  • Hepatotoxicidade: elevação de enzimas hepáticas e, raramente, hepatite colestática (atenção a icterícia/prurido).
  • Colite associada a antibiótico: qualquer antibiótico pode precipitar diarreia associada a antibiótico; manter vigilância para diarreia importante/persistente.

Conceito: o que é “prolongamento de QT” e por que importa

O QT é um intervalo no eletrocardiograma que reflete parte da repolarização ventricular. Alguns fármacos prolongam esse intervalo, o que pode facilitar uma arritmia grave (torsades de pointes), especialmente quando há outros fatores de risco.

Fatores de risco comuns para QT prolongado:

  • História de QT longo, síncope inexplicada ou arritmias ventriculares
  • Uso concomitante de outros fármacos que prolongam QT (ex.: alguns antiarrítmicos, antipsicóticos, antidepressivos, antieméticos)
  • Bradicardia
  • Distúrbios eletrolíticos (hipocalemia, hipomagnesemia, hipocalcemia)
  • Doença cardíaca estrutural/insuficiência cardíaca
  • Idade avançada e múltiplas comorbidades

Passo a passo prático antes de prescrever macrolídeo (foco em QT e interações)

  1. Liste medicamentos atuais (incluindo “sob demanda”): procure especialmente fármacos que prolongam QT e anticoagulantes como varfarina.
  2. Cheque fatores de risco clínicos (história cardíaca, síncope, bradicardia, eletrólitos se disponíveis).
  3. Se risco alto: prefira alternativa sem efeito relevante em QT quando possível ou discuta monitorização (ex.: ECG e correção de eletrólitos).
  4. Escolha o macrolídeo com atenção a interações: claritromicina/eritromicina tendem a ter mais interações metabólicas do que azitromicina.
  5. Oriente sinais de alerta: palpitações, tontura/síncope, diarreia intensa, icterícia.

Tetraciclinas (doxiciclina, minociclina)

Espectro e usos gerais

  • Respiratórios e atípicos: doxiciclina é opção frequente em infecções respiratórias comunitárias quando se deseja cobertura para atípicos e alguns patógenos comunitários, dependendo do cenário clínico.
  • Pele/tecidos moles: pode ser útil em algumas infecções cutâneas, inclusive quando se busca cobertura para certos estafilococos comunitários, conforme epidemiologia local.
  • Infecções específicas: muito usadas em zoonoses e doenças transmitidas por vetores em protocolos específicos (ex.: riquétsias), além de acne/rosácea em contexto dermatológico.
  • Alternativa por alergia: podem ser alternativa em alguns quadros quando beta-lactâmicos não podem ser usados, desde que o espectro seja adequado ao caso.

Efeitos adversos e precauções (os “clássicos” que mudam conduta)

  • Fotossensibilidade: maior risco de queimadura solar. Orientar uso de protetor, roupas e evitar exposição intensa.
  • Esofagite medicamentosa: pode ocorrer especialmente com doxiciclina quando tomada com pouca água ou ao deitar logo após.
  • Gastrointestinais: náuseas e desconforto abdominal.
  • Colite associada a antibiótico: possível como em outras classes; atenção a diarreia importante.
  • Gestação e infância: evitar em gestantes e em crianças pequenas (risco para dentes/ossos), salvo exceções protocoladas.

Passo a passo prático para reduzir esofagite por tetraciclina

  1. Tomar com um copo cheio de água (não “só um gole”).
  2. Não deitar por 30–60 minutos após a dose.
  3. Evitar tomar imediatamente antes de dormir.
  4. Se houver dor ao engolir/queimação retroesternal, considerar suspensão e avaliação.

Passo a passo prático para orientar fotossensibilidade

  1. Explique o risco: a pele pode queimar mais rápido, mesmo em dias nublados.
  2. Recomende proteção: protetor solar de amplo espectro, reaplicação, chapéu/roupas.
  3. Planeje exposição: evitar sol forte (10–16h).
  4. Se reação intensa (bolhas, dor importante), reavaliar a necessidade do antibiótico.

Interações e “pegadinhas” de administração

  • Quelantes reduzem absorção: ferro, cálcio, magnésio, zinco, antiácidos e alguns polivitamínicos podem diminuir a absorção. Em geral, separar as tomadas (ex.: 2–4 horas) conforme orientação local.
  • Varfarina: pode haver aumento de INR em alguns pacientes; monitorar mais de perto ao iniciar/suspender.

Lincosamidas (clindamicina)

Espectro e usos gerais

  • Pele/tecidos moles: opção em infecções de pele, especialmente quando se deseja cobertura para Gram-positivos e anaeróbios em determinados cenários (ex.: infecções odontogênicas, algumas infecções associadas a aspiração/necrose de tecido, conforme avaliação clínica).
  • Alternativa por alergia: frequentemente lembrada quando há alergia a penicilinas em infecções odontológicas e algumas infecções de pele, desde que o perfil de cobertura seja apropriado.
  • Infecções específicas: pode ser usada como parte de esquemas para infecções por toxinas (ex.: algumas infecções estreptocócicas graves) por efeito de inibição de produção de toxinas, conforme protocolos.

Efeito adverso-chave: colite associada a antibiótico

Clindamicina é uma das classes mais associadas a diarreia importante e colite por C. difficile. Isso não significa “nunca usar”, mas exige seleção cuidadosa e orientação clara.

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Sinais de alerta para colite associada a antibiótico: diarreia aquosa frequente, dor abdominal importante, febre, sangue/muco nas fezes, sinais de desidratação, sintomas que começam durante o uso ou até semanas após.

Passo a passo prático ao prescrever clindamicina (foco em segurança)

  1. Confirme se há motivo para escolher clindamicina (ex.: necessidade de anaeróbios/Gram-positivos e alternativa por alergia).
  2. Avalie risco de colite: histórico prévio de C. difficile, internações recentes, idade avançada, uso recente de múltiplos antibióticos.
  3. Oriente o paciente sobre diarreia: quando é esperado leve desconforto e quando é sinal de alerta.
  4. Se diarreia importante ocorrer, orientar contato imediato/avaliação e evitar automedicação com antidiarreicos sem orientação.

Oxazolidinonas (linezolida)

Espectro e usos gerais

  • Gram-positivos resistentes: opção importante para infecções por Gram-positivos resistentes (ex.: MRSA e VRE), dependendo do sítio e gravidade.
  • Pele/tecidos moles e pneumonia: pode ser usada em infecções de pele complicadas e pneumonia por Gram-positivos resistentes, conforme protocolos e avaliação de risco/benefício.
  • Alternativa em alergias/limitações: entra quando outras opções não são adequadas por resistência, intolerância ou contraindicações.

Efeitos adversos e precauções (foco em situações específicas)

  • Mielossupressão: pode causar trombocitopenia, anemia e leucopenia, especialmente com uso prolongado e em pacientes com fatores de risco (ex.: terapia mais longa, doença renal, uso concomitante de fármacos mielotóxicos).
  • Neuropatia periférica/óptica: risco aumenta com tratamentos prolongados.
  • Interação serotoninérgica: linezolida tem atividade de inibição de MAO e pode precipitar síndrome serotoninérgica com alguns antidepressivos/serotoninérgicos.

Passo a passo prático de monitorização com linezolida

  1. Antes de iniciar: revisar hemograma basal (se possível) e lista de medicamentos (SSRIs/SNRIs, tramadol, triptanos, etc.).
  2. Durante o tratamento: monitorar hemograma periodicamente (frequência maior se tratamento prolongado ou paciente de risco).
  3. Vigiar sintomas: sangramentos/petéquias (plaquetas baixas), fadiga intensa (anemia), febre/infeções (leucopenia), alterações visuais/parestesias.
  4. Se uso com serotoninérgicos for inevitável: planejar monitorização de sinais de síndrome serotoninérgica (agitação, tremor, hiperreflexia, febre, diarreia) e alinhar conduta com equipe responsável.

Interações medicamentosas relevantes (checagem e monitorização)

1) Inibidores/indutores metabólicos (especialmente com macrolídeos)

Alguns macrolídeos (principalmente claritromicina e eritromicina) podem inibir enzimas metabólicas e aumentar níveis de outros fármacos, elevando risco de toxicidade. Azitromicina tende a ter menos interações desse tipo, mas ainda exige revisão de medicações.

Como agir na prática:

  1. Faça reconciliação medicamentosa (inclua fitoterápicos e “remédios de farmácia”).
  2. Use uma ferramenta de checagem de interações do seu serviço (ou base confiável) antes de prescrever claritromicina/eritromicina.
  3. Se interação relevante: considerar alternativa (ex.: azitromicina ou outra classe) ou ajustar dose/monitorar conforme orientação.

2) Antiarrítmicos e outros fármacos que prolongam QT

Combinar macrolídeo com fármacos que prolongam QT aumenta risco de arritmia. O risco sobe ainda mais se houver hipocalemia/hipomagnesemia.

Como agir na prática:

  1. Identifique co-medicações de risco (antiarrítmicos, alguns antipsicóticos, antieméticos, etc.).
  2. Avalie necessidade: dá para trocar o antibiótico ou o outro fármaco temporariamente?
  3. Se não der para evitar: considerar ECG, corrigir eletrólitos e monitorar sintomas.

3) Varfarina (anticoagulação)

Vários antibióticos podem aumentar o efeito da varfarina e elevar o INR, aumentando risco de sangramento. Macrolídeos e tetraciclinas são exemplos clássicos em que se deve ter atenção.

Como agir na prática:

  1. Ao iniciar ou suspender o antibiótico, planeje monitorização mais frequente de INR (ex.: em 2–3 dias e depois conforme resposta, seguindo protocolo local).
  2. Oriente sinais de sangramento: hematomas fáceis, sangramento gengival, urina escura, fezes enegrecidas, cefaleia intensa.
  3. Documente a orientação e o plano de controle do INR.

Quadro-resumo (uso típico e alertas principais)

ClasseUsos frequentes (exemplos)Alertas de segurançaInterações/checagens
MacrolídeosRespiratórios com suspeita de atípicos; alternativa em alergia em alguns quadrosQT prolongado; GI; hepatotoxicidade; diarreiaChecar QT e co-medicações; atenção a interações (claritro/eritro); monitorar INR se varfarina
TetraciclinasRespiratórios/atípicos; algumas infecções de pele; zoonoses/vetores (protocolos)Fotossensibilidade; esofagite; evitar em gestação/crianças pequenasSeparar de ferro/cálcio/antiácidos; monitorar INR se varfarina
LincosamidasPele/tecidos moles; odontogênicas/anaeróbios em cenários selecionados; alternativa por alergiaMaior risco de colite associada a antibióticoOrientar sinais de alerta e reavaliação precoce se diarreia importante
OxazolidinonasGram-positivos resistentes (MRSA/VRE) em pele e pneumonia conforme protocolosMielossupressão; neuropatias em uso prolongado; risco serotoninérgicoHemograma seriado; revisar antidepressivos/serotoninérgicos; monitorar sintomas

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao prescrever um macrolídeo para um paciente com risco de prolongamento do QT e uso de múltiplas medicações, qual conduta é mais adequada para reduzir risco de arritmia e interações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Macrolídeos podem prolongar QT e interagir com outros fármacos (especialmente claritromicina/eritromicina). A prática segura inclui reconciliar medicações, checar fatores de risco e, se risco alto, considerar alternativa ou monitorização com ECG e eletrólitos.

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Classes de antibióticos III: quinolonas, aminoglicosídeos, sulfametoxazol-trimetoprima e outros agentes relevantes

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