O que você precisa saber sobre estas classes
Macrolídeos, tetraciclinas, lincosamidas e oxazolidinonas são classes muito usadas em infecções respiratórias, pele/tecidos moles e em cenários com suspeita de “atípicos”. Na prática, também aparecem como alternativas quando há alergia a beta-lactâmicos ou quando se busca um perfil específico de cobertura. Aqui o foco é: usos típicos, limitações, efeitos adversos importantes e como checar interações e riscos antes de prescrever.
Macrolídeos (azitromicina, claritromicina, eritromicina)
Espectro e usos gerais
- Respiratórios e “atípicos”: úteis quando há suspeita de agentes atípicos (ex.: Mycoplasma, Chlamydophila, Legionella) em quadros respiratórios. Frequentemente entram em esquemas de pneumonia adquirida na comunidade quando se quer cobrir atípicos.
- Faringite/tonsilite por estreptococo: podem ser alternativa em alergia a penicilina, considerando resistência local e orientação do serviço.
- Pele/tecidos moles: uso mais limitado; podem ser opção em alguns cenários leves, mas não são escolha “automática” para estafilococo resistente.
- Infecções específicas: azitromicina é usada em algumas ISTs e em situações selecionadas de profilaxia/tratamento conforme protocolos locais.
Ponto prático: macrolídeo costuma ser escolhido quando a pergunta clínica é “preciso cobrir atípicos?” ou “preciso de alternativa por alergia?”.
Efeitos adversos e precauções
- Gastrointestinais: náuseas, dor abdominal e diarreia são comuns (eritromicina tende a ser pior).
- Prolongamento de QT e risco de arritmia: macrolídeos podem prolongar o intervalo QT e aumentar risco de torsades de pointes em pessoas suscetíveis.
- Hepatotoxicidade: elevação de enzimas hepáticas e, raramente, hepatite colestática (atenção a icterícia/prurido).
- Colite associada a antibiótico: qualquer antibiótico pode precipitar diarreia associada a antibiótico; manter vigilância para diarreia importante/persistente.
Conceito: o que é “prolongamento de QT” e por que importa
O QT é um intervalo no eletrocardiograma que reflete parte da repolarização ventricular. Alguns fármacos prolongam esse intervalo, o que pode facilitar uma arritmia grave (torsades de pointes), especialmente quando há outros fatores de risco.
Fatores de risco comuns para QT prolongado:
- História de QT longo, síncope inexplicada ou arritmias ventriculares
- Uso concomitante de outros fármacos que prolongam QT (ex.: alguns antiarrítmicos, antipsicóticos, antidepressivos, antieméticos)
- Bradicardia
- Distúrbios eletrolíticos (hipocalemia, hipomagnesemia, hipocalcemia)
- Doença cardíaca estrutural/insuficiência cardíaca
- Idade avançada e múltiplas comorbidades
Passo a passo prático antes de prescrever macrolídeo (foco em QT e interações)
- Liste medicamentos atuais (incluindo “sob demanda”): procure especialmente fármacos que prolongam QT e anticoagulantes como varfarina.
- Cheque fatores de risco clínicos (história cardíaca, síncope, bradicardia, eletrólitos se disponíveis).
- Se risco alto: prefira alternativa sem efeito relevante em QT quando possível ou discuta monitorização (ex.: ECG e correção de eletrólitos).
- Escolha o macrolídeo com atenção a interações: claritromicina/eritromicina tendem a ter mais interações metabólicas do que azitromicina.
- Oriente sinais de alerta: palpitações, tontura/síncope, diarreia intensa, icterícia.
Tetraciclinas (doxiciclina, minociclina)
Espectro e usos gerais
- Respiratórios e atípicos: doxiciclina é opção frequente em infecções respiratórias comunitárias quando se deseja cobertura para atípicos e alguns patógenos comunitários, dependendo do cenário clínico.
- Pele/tecidos moles: pode ser útil em algumas infecções cutâneas, inclusive quando se busca cobertura para certos estafilococos comunitários, conforme epidemiologia local.
- Infecções específicas: muito usadas em zoonoses e doenças transmitidas por vetores em protocolos específicos (ex.: riquétsias), além de acne/rosácea em contexto dermatológico.
- Alternativa por alergia: podem ser alternativa em alguns quadros quando beta-lactâmicos não podem ser usados, desde que o espectro seja adequado ao caso.
Efeitos adversos e precauções (os “clássicos” que mudam conduta)
- Fotossensibilidade: maior risco de queimadura solar. Orientar uso de protetor, roupas e evitar exposição intensa.
- Esofagite medicamentosa: pode ocorrer especialmente com doxiciclina quando tomada com pouca água ou ao deitar logo após.
- Gastrointestinais: náuseas e desconforto abdominal.
- Colite associada a antibiótico: possível como em outras classes; atenção a diarreia importante.
- Gestação e infância: evitar em gestantes e em crianças pequenas (risco para dentes/ossos), salvo exceções protocoladas.
Passo a passo prático para reduzir esofagite por tetraciclina
- Tomar com um copo cheio de água (não “só um gole”).
- Não deitar por 30–60 minutos após a dose.
- Evitar tomar imediatamente antes de dormir.
- Se houver dor ao engolir/queimação retroesternal, considerar suspensão e avaliação.
Passo a passo prático para orientar fotossensibilidade
- Explique o risco: a pele pode queimar mais rápido, mesmo em dias nublados.
- Recomende proteção: protetor solar de amplo espectro, reaplicação, chapéu/roupas.
- Planeje exposição: evitar sol forte (10–16h).
- Se reação intensa (bolhas, dor importante), reavaliar a necessidade do antibiótico.
Interações e “pegadinhas” de administração
- Quelantes reduzem absorção: ferro, cálcio, magnésio, zinco, antiácidos e alguns polivitamínicos podem diminuir a absorção. Em geral, separar as tomadas (ex.: 2–4 horas) conforme orientação local.
- Varfarina: pode haver aumento de INR em alguns pacientes; monitorar mais de perto ao iniciar/suspender.
Lincosamidas (clindamicina)
Espectro e usos gerais
- Pele/tecidos moles: opção em infecções de pele, especialmente quando se deseja cobertura para Gram-positivos e anaeróbios em determinados cenários (ex.: infecções odontogênicas, algumas infecções associadas a aspiração/necrose de tecido, conforme avaliação clínica).
- Alternativa por alergia: frequentemente lembrada quando há alergia a penicilinas em infecções odontológicas e algumas infecções de pele, desde que o perfil de cobertura seja apropriado.
- Infecções específicas: pode ser usada como parte de esquemas para infecções por toxinas (ex.: algumas infecções estreptocócicas graves) por efeito de inibição de produção de toxinas, conforme protocolos.
Efeito adverso-chave: colite associada a antibiótico
Clindamicina é uma das classes mais associadas a diarreia importante e colite por C. difficile. Isso não significa “nunca usar”, mas exige seleção cuidadosa e orientação clara.
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Sinais de alerta para colite associada a antibiótico: diarreia aquosa frequente, dor abdominal importante, febre, sangue/muco nas fezes, sinais de desidratação, sintomas que começam durante o uso ou até semanas após.
Passo a passo prático ao prescrever clindamicina (foco em segurança)
- Confirme se há motivo para escolher clindamicina (ex.: necessidade de anaeróbios/Gram-positivos e alternativa por alergia).
- Avalie risco de colite: histórico prévio de C. difficile, internações recentes, idade avançada, uso recente de múltiplos antibióticos.
- Oriente o paciente sobre diarreia: quando é esperado leve desconforto e quando é sinal de alerta.
- Se diarreia importante ocorrer, orientar contato imediato/avaliação e evitar automedicação com antidiarreicos sem orientação.
Oxazolidinonas (linezolida)
Espectro e usos gerais
- Gram-positivos resistentes: opção importante para infecções por Gram-positivos resistentes (ex.: MRSA e VRE), dependendo do sítio e gravidade.
- Pele/tecidos moles e pneumonia: pode ser usada em infecções de pele complicadas e pneumonia por Gram-positivos resistentes, conforme protocolos e avaliação de risco/benefício.
- Alternativa em alergias/limitações: entra quando outras opções não são adequadas por resistência, intolerância ou contraindicações.
Efeitos adversos e precauções (foco em situações específicas)
- Mielossupressão: pode causar trombocitopenia, anemia e leucopenia, especialmente com uso prolongado e em pacientes com fatores de risco (ex.: terapia mais longa, doença renal, uso concomitante de fármacos mielotóxicos).
- Neuropatia periférica/óptica: risco aumenta com tratamentos prolongados.
- Interação serotoninérgica: linezolida tem atividade de inibição de MAO e pode precipitar síndrome serotoninérgica com alguns antidepressivos/serotoninérgicos.
Passo a passo prático de monitorização com linezolida
- Antes de iniciar: revisar hemograma basal (se possível) e lista de medicamentos (SSRIs/SNRIs, tramadol, triptanos, etc.).
- Durante o tratamento: monitorar hemograma periodicamente (frequência maior se tratamento prolongado ou paciente de risco).
- Vigiar sintomas: sangramentos/petéquias (plaquetas baixas), fadiga intensa (anemia), febre/infeções (leucopenia), alterações visuais/parestesias.
- Se uso com serotoninérgicos for inevitável: planejar monitorização de sinais de síndrome serotoninérgica (agitação, tremor, hiperreflexia, febre, diarreia) e alinhar conduta com equipe responsável.
Interações medicamentosas relevantes (checagem e monitorização)
1) Inibidores/indutores metabólicos (especialmente com macrolídeos)
Alguns macrolídeos (principalmente claritromicina e eritromicina) podem inibir enzimas metabólicas e aumentar níveis de outros fármacos, elevando risco de toxicidade. Azitromicina tende a ter menos interações desse tipo, mas ainda exige revisão de medicações.
Como agir na prática:
- Faça reconciliação medicamentosa (inclua fitoterápicos e “remédios de farmácia”).
- Use uma ferramenta de checagem de interações do seu serviço (ou base confiável) antes de prescrever claritromicina/eritromicina.
- Se interação relevante: considerar alternativa (ex.: azitromicina ou outra classe) ou ajustar dose/monitorar conforme orientação.
2) Antiarrítmicos e outros fármacos que prolongam QT
Combinar macrolídeo com fármacos que prolongam QT aumenta risco de arritmia. O risco sobe ainda mais se houver hipocalemia/hipomagnesemia.
Como agir na prática:
- Identifique co-medicações de risco (antiarrítmicos, alguns antipsicóticos, antieméticos, etc.).
- Avalie necessidade: dá para trocar o antibiótico ou o outro fármaco temporariamente?
- Se não der para evitar: considerar ECG, corrigir eletrólitos e monitorar sintomas.
3) Varfarina (anticoagulação)
Vários antibióticos podem aumentar o efeito da varfarina e elevar o INR, aumentando risco de sangramento. Macrolídeos e tetraciclinas são exemplos clássicos em que se deve ter atenção.
Como agir na prática:
- Ao iniciar ou suspender o antibiótico, planeje monitorização mais frequente de INR (ex.: em 2–3 dias e depois conforme resposta, seguindo protocolo local).
- Oriente sinais de sangramento: hematomas fáceis, sangramento gengival, urina escura, fezes enegrecidas, cefaleia intensa.
- Documente a orientação e o plano de controle do INR.
Quadro-resumo (uso típico e alertas principais)
| Classe | Usos frequentes (exemplos) | Alertas de segurança | Interações/checagens |
|---|---|---|---|
| Macrolídeos | Respiratórios com suspeita de atípicos; alternativa em alergia em alguns quadros | QT prolongado; GI; hepatotoxicidade; diarreia | Checar QT e co-medicações; atenção a interações (claritro/eritro); monitorar INR se varfarina |
| Tetraciclinas | Respiratórios/atípicos; algumas infecções de pele; zoonoses/vetores (protocolos) | Fotossensibilidade; esofagite; evitar em gestação/crianças pequenas | Separar de ferro/cálcio/antiácidos; monitorar INR se varfarina |
| Lincosamidas | Pele/tecidos moles; odontogênicas/anaeróbios em cenários selecionados; alternativa por alergia | Maior risco de colite associada a antibiótico | Orientar sinais de alerta e reavaliação precoce se diarreia importante |
| Oxazolidinonas | Gram-positivos resistentes (MRSA/VRE) em pele e pneumonia conforme protocolos | Mielossupressão; neuropatias em uso prolongado; risco serotoninérgico | Hemograma seriado; revisar antidepressivos/serotoninérgicos; monitorar sintomas |