Checagem e verificação no jornalismo: como confirmar antes de publicar

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é checagem e verificação (e por que são etapas diferentes)

Checagem é o processo de confirmar se cada informação que você pretende publicar é verdadeira, precisa e sustentada por evidências. Verificação é a validação técnica e contextual de elementos específicos (por exemplo: uma imagem, um vídeo, um dado estatístico, uma citação, um documento), testando origem, integridade e coerência.

Na prática, a checagem funciona como um “controle de qualidade” do texto inteiro; a verificação é o conjunto de testes para itens que podem enganar (mídias, números, prints, documentos, afirmações virais).

Princípios operacionais: o que precisa ser confirmado antes de publicar

  • Múltiplas fontes independentes: não basta “duas pessoas repetirem a mesma coisa” se uma copiou a outra. Busque independência real (origens diferentes, acesso direto ao fato, documentos distintos).
  • Rastreabilidade: toda afirmação factual deve ter um “caminho” até a evidência (documento, base pública, gravação, observação direta, resposta formal).
  • Precisão: nomes, cargos, datas, locais, valores e unidades devem bater exatamente. “Quase certo” vira erro publicado.
  • Contexto: uma informação pode ser verdadeira e ainda assim enganar se estiver fora de contexto (recorte temporal, comparação inadequada, base populacional diferente, mudança de regra).
  • Transparência interna: se algo não pôde ser confirmado, isso precisa aparecer como limite do que se sabe (sem “chutar” ou preencher lacunas).

Processo prático de checagem: passo a passo

1) Quebre o texto em “unidades checáveis”

Antes de checar, transforme o rascunho em uma lista de itens verificáveis. Exemplo de unidades checáveis:

  • “A prefeitura gastou R$ 12,4 milhões em 2025 com merenda.”
  • “O contrato foi assinado em 14 de março.”
  • “A empresa X pertence ao grupo Y.”
  • “Segundo a secretária, ‘não houve atraso’.”
  • “O vídeo mostra a confusão na estação Central ontem à noite.”

2) Classifique o risco e a exigência de prova

Defina prioridade de checagem:

  • Alto risco: acusações, ilegalidades, saúde/segurança, números grandes, afirmações que podem afetar reputações, conteúdo viral.
  • Médio risco: dados administrativos, cronologias, atribuições de fala, descrições de eventos.
  • Baixo risco: informações de serviço já publicadas em fontes oficiais (ainda assim, confirme data/horário).

3) Confirme com múltiplas fontes independentes

Para cada unidade checável, busque pelo menos dois suportes independentes quando possível:

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  • Documento + fonte humana: um relatório oficial e a confirmação de quem assina/produz.
  • Registro público + dado bruto: diário oficial/portal de transparência e planilha/arquivo original.
  • Observação direta + evidência digital: presença no local e imagens com metadados/horário coerente.

Dica prática: quando duas fontes humanas confirmam, tente adicionar um terceiro pilar documental. Isso reduz o risco de “consenso errado”.

4) Valide números (e evite armadilhas comuns)

Checagem de números não é só “ver se está certo”: é entender o que o número mede.

  • Unidade e base: R$ (correntes ou corrigidos?), porcentagem (de quê?), taxa (por 100 mil?), período (mês/ano?).
  • Comparabilidade: o indicador é o mesmo nos dois períodos? Houve mudança de metodologia?
  • Arredondamento: defina regra (ex.: 12.456.789 → “R$ 12,5 milhões”) e mantenha consistência.
  • Ordem de grandeza: faça uma conta rápida de plausibilidade (ex.: “R$ 1 bilhão” para uma cidade pequena exige verificação extra).

Modelo de validação rápida:

1) Copie o número e a frase exata onde ele aparece. 2) Localize a fonte primária (planilha, relatório, base). 3) Refaça o cálculo (mesmo que simples). 4) Confirme período, unidade e denominador. 5) Registre o link/arquivo e a data de acesso.

5) Confirme datas, nomes, cargos, locais e grafias

  • Nomes: peça a grafia correta (ou confirme em documento oficial/assinatura). Atenção a acentos e sobrenomes compostos.
  • Cargos: confirme o cargo no momento do fato (pessoas mudam de função). Use fontes oficiais (nomeação, organograma, site institucional atualizado).
  • Datas e horários: confirme fuso, horário de verão (quando aplicável), e se a data é do evento, do registro ou da publicação.
  • Locais: confirme endereço/bairro/cidade e se o local citado é o mesmo do registro (ex.: “Hospital Central” pode existir em mais de uma cidade).

6) Cheque citações: fidelidade, atribuição e contexto

Uma citação correta tem três camadas:

  • Fidelidade: corresponde ao áudio/gravação/anotação?
  • Atribuição: está claro quem disse e em que condição (entrevista, nota, discurso)?
  • Contexto: a frase não foi recortada de modo a mudar o sentido?

Prática recomendada:

  • Se houver gravação, marque timecode (minuto/segundo) da fala.
  • Se a fala veio de documento, guarde o PDF/print com data e link.
  • Evite “aspas criativas”: se você reescreveu para clareza, não use aspas; use discurso indireto.

7) Verifique imagens e vídeos: origem, data e integridade

Antes de usar uma imagem/vídeo como evidência, responda: de onde veio, quando foi feito, onde foi feito e se foi alterado.

Técnicas práticas (sem depender de uma única ferramenta)

  • Rastreamento de origem: procure a publicação mais antiga do arquivo (mesma imagem em posts anteriores, bancos de imagem, páginas antigas). Compare versões: a primeira costuma ter mais contexto.
  • Busca reversa e variações: teste recortes diferentes (um detalhe do fundo, um rosto, uma placa) para achar correspondências.
  • Metadados (quando disponíveis): verifique data/hora, modelo do dispositivo, coordenadas. Atenção: metadados podem ter sido removidos por redes sociais.
  • Consistência interna: sombras e direção da luz, clima compatível com a data alegada, placas e sinalização, idioma, arquitetura, vegetação, uniformes, modelos de veículos.
  • Áudio e edição: cortes abruptos, descompasso labial, ruídos repetidos, bordas “tremidas” em objetos (sinal de manipulação), trilha sobreposta.
  • Geolocalização por pistas: compare elementos do cenário com mapas, fotos de rua, imagens públicas de pontos de referência.

Regra de ouro: se você não consegue confirmar origem e contexto, não trate como prova do que a legenda afirma. No máximo, descreva como “imagem que circula” e explique o que foi possível (ou não) verificar.

8) Verifique afirmações e comparações com registros públicos

Para afirmações do tipo “foi o maior”, “nunca aconteceu”, “aumentou X%”, “é ilegal”, use um roteiro:

  • Defina o escopo: maior em qual período? em qual região? qual métrica?
  • Busque a fonte primária: lei, decreto, boletim, base estatística, relatório de auditoria.
  • Compare com séries históricas: se a afirmação envolve tendência, pegue anos anteriores.
  • Procure exceções: mudanças de regra, reclassificação, fusões de órgãos, revisão de dados.

Como documentar a checagem (para você e para a edição)

Monte um “dossiê de checagem” simples, que permita reconstituir decisões:

  • Lista de afirmações checáveis (uma por linha).
  • Fonte primária (link/arquivo) + data de acesso.
  • Fonte secundária (se houver) + contato/registro.
  • Status: confirmado / parcialmente confirmado / não confirmado / contestado.
  • Observações: limitações, divergências, como foi resolvido.
AfirmaçãoFonte primáriaConfirmação extraStatus
Contrato assinado em 14/03/2025PDF do contrato (pág. 3)Diário oficial (edição X)Confirmado
Gasto de R$ 12,4 mi em 2025Portal de transparência (filtro anual)Planilha baixada + soma refeitaConfirmado
“Não houve atraso”Áudio 00:12:40Confirmado (citação)

Checklist de verificação por tipo de conteúdo

1) Nota rápida (urgência alta)

  • Quem? (nome e cargo corretos)
  • O quê? (fato descrito sem inferência)
  • Quando e onde? (data/hora/local confirmados)
  • Fonte primária ou autoridade responsável identificada
  • Uma segunda confirmação independente (quando possível)
  • Números básicos revisados (unidade, período)
  • Se houver imagem/vídeo: origem mínima confirmada ou uso apenas ilustrativo (declarado)
  • Frases potencialmente acusatórias revisadas (evitar afirmar sem prova)

2) Reportagem longa (mais camadas, mais risco)

  • Lista completa de unidades checáveis criada e preenchida
  • Para cada dado: fonte primária arquivada (PDF/planilha/link)
  • Cálculos refeitos e anotados (como chegou no número)
  • Datas, nomes, cargos e grafias conferidos em fonte confiável
  • Citações com timecode/trecho do documento
  • Comparações contextualizadas (mesma métrica, mesmo período)
  • Contraponto: partes citadas tiveram chance de resposta (e isso está registrado)
  • Imagens/vídeos: origem, data e local verificados; descrição não extrapola o que se vê
  • Leitura final procurando ambiguidades e frases que sugerem causalidade sem evidência

3) Entrevista (texto em formato pergunta-resposta ou perfil)

  • Nome, cargo e credenciais do entrevistado confirmados
  • Local, data e condição da entrevista registrados
  • Citações revisadas com gravação/anotações
  • Afirmações factuais do entrevistado checadas (não publicar como fato sem validação)
  • Termos técnicos conferidos (definições e uso correto)
  • Trechos sensíveis: checar se a fala não foi truncada e se mantém o sentido

Prática: identifique inconsistências em um texto simulado

Instruções: leia o texto abaixo e marque (1) o que é checável, (2) o que está inconsistente, (3) que evidência você buscaria para confirmar.

Texto simulado

“A Secretaria Municipal de Transporte anunciou nesta terça-feira (12) que vai instalar 120 novas câmeras de monitoramento em todas as 18 estações do metrô até março de 2025. O contrato, no valor de R$ 2,3 milhões, foi assinado em 14 de março com a empresa Vigilant Tecnologia, que, segundo a secretaria, ‘já atende o governo estadual há cinco anos’. A secretária Marina Souza afirmou que ‘não houve atraso’ na licitação e que as câmeras ‘reduziram em 40% os furtos’ em um projeto-piloto iniciado no ano passado na Estação Central. Um vídeo que circula nas redes mostra a confusão na Central ontem à noite, quando um homem teria sido detido após tentar quebrar uma catraca. Procurada, a empresa disse por nota que ‘cumpre todos os prazos’.”

Gabarito orientado (o que procurar)

  • Data conflitante: “terça-feira (12)” — o dia da semana bate com o calendário do mês/ano? (checar calendário).
  • Prazo estranho: “até março de 2025” — se a nota está em 2025, o prazo pode já ter passado; se está em 2026, é anacrônico. (checar data real do anúncio e do texto).
  • Assinatura do contrato: “assinado em 14 de março” — de qual ano? (checar contrato/diário oficial).
  • Escopo absoluto: “todas as 18 estações do metrô” — a cidade tem exatamente 18? há estações em reforma/novas? (checar site oficial/relatórios).
  • Número de câmeras: 120 para 18 estações dá média de 6,6 por estação; é plausível? (checar projeto, termo de referência, planilha do contrato).
  • Valor do contrato: R$ 2,3 milhões inclui instalação + manutenção + software? Qual vigência? (checar objeto, vigência, itens).
  • Empresa e vínculo: “atende o governo estadual há cinco anos” — qual contrato? desde quando? (checar portal de compras/contratos estaduais).
  • Citação: “não houve atraso” — precisa de gravação/timecode ou documento oficial. (checar áudio/ata/nota).
  • Indicador de 40%: 40% de quê (boletins, registros policiais, ocorrências internas)? Qual período comparado? (checar metodologia, base, período, denominador).
  • Projeto-piloto: “iniciado no ano passado” — qual data exata? (checar portaria, comunicado, relatório).
  • Vídeo que circula: “ontem à noite” — ontem em relação a qual data? O vídeo é mesmo da Estação Central? (verificar origem, data, geolocalização, consistência interna).
  • Detenção: “teria sido detido” — por quem? segurança do metrô? polícia? houve boletim? (checar registros oficiais e resposta das autoridades).
  • Nota da empresa: existe nota formal? está íntegra? (checar e arquivar o texto completo, data e canal).

Exercício de reescrita (após checar)

Reescreva duas frases do texto simulado para ficarem publicáveis sem extrapolar o que foi confirmado. Exemplo de ajuste de linguagem:

  • Trocar “reduziram em 40% os furtos” por “a secretaria afirma que houve redução de 40% nos registros de furtos no piloto, sem detalhar a metodologia” (até você obter a base e o cálculo).
  • Trocar “mostra a confusão… ontem à noite” por “um vídeo que circula nas redes afirma mostrar a Estação Central; a reportagem não confirmou de forma independente a data e o local da gravação” (até verificar).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual procedimento mais adequado ao usar um vídeo que circula nas redes como evidência em uma matéria?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Verificação de mídia exige testar origem, contexto (quando/onde) e integridade. Se isso não puder ser confirmado, o material não deve sustentar a afirmação; no máximo, pode ser citado com transparência sobre as limitações.

Próximo capitúlo

Organização do material apurado: notas, transcrições e linha do tempo

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