CFTV IP: câmeras de rede, ONVIF, NVR e modos de gravação

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que torna uma câmera IP um dispositivo de rede

Uma câmera IP (de rede) é, na prática, um computador dedicado a capturar vídeo e transmiti-lo pela rede. Diferente de sistemas analógicos, ela não “manda imagem” por um cabo coaxial: ela envia dados (streams) usando protocolos de rede, com endereçamento e serviços semelhantes aos de qualquer equipamento conectado ao switch/roteador.

Elementos essenciais de uma câmera IP

  • Endereço IP: identificador na rede (ex.: 192.168.1.50). Pode ser fixo (recomendado em CFTV) ou obtido via DHCP.
  • Máscara, gateway e DNS: definem como a câmera conversa dentro e fora da sub-rede. Em redes isoladas de CFTV, o gateway pode nem ser necessário; em acesso remoto e integrações, costuma ser.
  • Interface de configuração: normalmente via web (HTTP/HTTPS) e/ou app. É onde você ajusta resolução, compressão, usuários, detecção de movimento, eventos, horário, etc.
  • Serviços e portas: a câmera expõe serviços (ex.: RTSP, HTTP/HTTPS, ONVIF). Cada serviço usa uma porta (ex.: RTSP 554, HTTP 80, HTTPS 443 — podem variar).
  • Streams de vídeo: a câmera pode gerar múltiplos streams (principal e secundário), com resoluções/bitrate diferentes para gravação e visualização.

Protocolos comuns em CFTV IP (o que você precisa reconhecer)

  • RTSP: transporte do stream de vídeo/áudio. Muito usado por NVRs e softwares para “puxar” o vídeo.
  • RTP/RTCP: frequentemente usados junto do RTSP para entrega do fluxo.
  • HTTP/HTTPS: acesso à interface web e, em alguns modelos, a APIs.
  • ONVIF: padrão de interoperabilidade para descoberta, configuração e streaming (detalhado a seguir).
  • NTP: sincronismo de horário. Fundamental para evidências e para eventos funcionarem com carimbo de data/hora correto.
  • SMTP/Push/HTTP callbacks: envio de alertas e integrações (varia por fabricante).

Boas práticas de rede para câmera IP (sem entrar em fundamentos já vistos)

  • Use IP fixo para câmeras e NVR, ou DHCP com reserva por MAC no roteador/servidor DHCP.
  • Padronize credenciais e troque senhas padrão; crie usuários com permissões mínimas para integração.
  • Sincronize o horário via NTP (câmeras e NVR apontando para a mesma fonte).
  • Planeje o stream: defina stream principal para gravação e secundário para visualização remota, reduzindo consumo de banda fora da rede local.

Como o NVR recebe streams (e o que isso muda na prática)

O NVR (Network Video Recorder) é o gravador de rede: ele se conecta às câmeras pela rede e recebe os streams para gravar e/ou exibir. Existem dois comportamentos comuns:

  • NVR “puxa” o stream: o NVR abre uma sessão (RTSP/ONVIF) e recebe o vídeo continuamente. A câmera transmite para o NVR enquanto a sessão estiver ativa.
  • Câmera “empurra” para um destino: menos comum em NVRs tradicionais, mas aparece em alguns cenários (ex.: envio para servidor via protocolo específico). Em geral, em CFTV IP, o padrão é o NVR puxar.

Topologias típicas

  • NVR com portas PoE: as câmeras conectam direto no NVR (ele atua como switch PoE e cria uma rede interna). Simplifica instalação, mas pode limitar flexibilidade de rede e expansão.
  • NVR em rede com switch PoE: câmeras no switch PoE e NVR na mesma rede/VLAN. Mais escalável e facilita uso de NAS/servidor.

O que influencia a carga de rede

O consumo de banda depende do bitrate configurado e do número de streams simultâneos. Exemplo prático: uma câmera em H.265 com 4 Mbps gravando 24/7 gera cerca de 4 Mbps constantes na rede entre câmera e NVR. Se vários clientes abrirem visualização ao vivo, a câmera pode enviar streams adicionais (dependendo do modelo e do método de acesso), aumentando o tráfego.

ConfiguraçãoImpacto típicoUso comum
Stream principal (alta qualidade)Maior bitrate e armazenamentoGravação
Stream secundário (substream)Menor bitrateApp/visualização remota
Vários clientes no stream principalPode elevar tráfego e CPU da câmeraCentrais de monitoramento

ONVIF: conceito, propósito e cuidados ao misturar marcas

O que é ONVIF

ONVIF é um padrão aberto voltado à interoperabilidade em segurança eletrônica. Na prática, ele permite que dispositivos de fabricantes diferentes “conversem” em funções comuns, como:

  • Descoberta de dispositivos na rede (encontrar câmeras automaticamente).
  • Autenticação e gerenciamento básico.
  • Obtenção de stream (URLs RTSP) e perfis de vídeo.
  • Eventos (em alguns casos): detecção de movimento, entradas/saídas de alarme, etc.

Perfis e compatibilidade (o que observar)

ONVIF possui “perfis” que agrupam capacidades. Nem todo dispositivo implementa tudo. Em integrações, o mais importante é confirmar o que o NVR/software e a câmera suportam em comum.

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  • Compatibilidade de vídeo: mesmo com ONVIF, o codec e parâmetros precisam ser aceitos pelo NVR (H.264/H.265, resolução, FPS).
  • Eventos: uma câmera pode aparecer no NVR via ONVIF e gravar, mas eventos avançados (linha virtual, intrusão, reconhecimento) podem não ser entendidos pelo NVR de outra marca.
  • Áudio e PTZ: podem funcionar parcialmente (PTZ com comandos limitados, áudio sem codec compatível, etc.).

Cuidados ao misturar marcas

  • ONVIF não garante 100% de recursos: garante o “mínimo comum” de integração. Recursos proprietários geralmente exigem mesma marca (ou plugin/software específico).
  • Firmware: atualizações podem alterar comportamento ONVIF. Em ambientes críticos, valide em bancada antes de atualizar em produção.
  • Usuários ONVIF: algumas câmeras exigem habilitar ONVIF e criar um usuário específico para integração. Use credenciais dedicadas ao NVR.
  • Descoberta vs. adição manual: se a descoberta falhar, normalmente ainda é possível adicionar por IP e RTSP manualmente.

Modos de gravação típicos: contínuo, por movimento e por evento

O modo de gravação define quando o NVR (ou outro destino) vai armazenar vídeo. A escolha impacta armazenamento, rede e manutenção (principalmente em ajustes finos de detecção).

1) Gravação contínua (24/7)

  • Como funciona: o NVR grava o stream o tempo todo.
  • Vantagens: máxima cobertura; menos dependência de detecção.
  • Desvantagens: maior consumo de disco e tráfego constante.
  • Uso comum: perímetros, áreas críticas, ambientes com muita variação de luz/sombra onde detecção gera falsos.

2) Gravação por movimento

“Movimento” pode ser detectado de duas formas:

  • Detecção na câmera: a câmera analisa a imagem e sinaliza movimento (ou apenas muda o padrão de gravação). Pode ser simples (mudança de pixels) ou mais avançada (dependendo do modelo).
  • Detecção no NVR: o NVR analisa o stream e decide gravar quando houver movimento.

Ponto de atenção: se a detecção for no NVR, ele precisa receber o stream para analisar; ou seja, o tráfego de rede entre câmera e NVR pode continuar semelhante ao contínuo, mas o armazenamento cai. Se a detecção for na câmera e o NVR gravar apenas quando acionado, ainda assim, na maioria dos casos, o NVR mantém a sessão de stream aberta; o “ganho” principal costuma ser em disco, não em banda.

3) Gravação por evento

Evento é um gatilho mais “semântico” do que movimento simples. Exemplos: entrada de alarme, cruzamento de linha, intrusão em área, detecção de pessoa/veículo (quando suportado), sabotagem, perda de vídeo.

  • Vantagens: gravações mais relevantes e buscas mais rápidas.
  • Desvantagens: depende de compatibilidade (muitas vezes proprietária) e de configuração cuidadosa.
  • Integração: eventos podem chegar ao NVR via ONVIF (quando suportado) ou via protocolo do fabricante.

Passo a passo prático: colocando uma câmera IP para gravar em um NVR

Passo 1: preparar rede e endereçamento

  • Defina a faixa de IP do CFTV (ex.: 192.168.10.0/24).
  • Atribua IP fixo para o NVR (ex.: 192.168.10.10).
  • Atribua IP fixo para a câmera (ex.: 192.168.10.50) ou crie reserva DHCP.
  • Configure NTP (mesmo servidor para NVR e câmeras).

Passo 2: validar acesso à câmera

  • Acesse a interface web/app da câmera pelo IP.
  • Troque senha padrão e crie usuário para integração (ex.: nvr_integration).
  • Defina codec e stream: escolha H.264/H.265 conforme compatibilidade do NVR; ajuste FPS e bitrate.

Passo 3: habilitar ONVIF (se aplicável)

  • Ative ONVIF na câmera (quando houver opção).
  • Crie/autorize usuário ONVIF (alguns modelos exigem).
  • Anote porta ONVIF (geralmente 80/8000/8899 varia por fabricante) e RTSP (geralmente 554).

Passo 4: adicionar a câmera no NVR

  • No NVR, escolha Adicionar câmera por ONVIF (automático) ou manual.
  • Se automático falhar, adicione manualmente: IP, usuário, senha e protocolo (ONVIF/RTSP).
  • Valide imagem ao vivo e status (online, bitrate, resolução).

Passo 5: configurar gravação e retenção

  • Escolha o modo: contínuo, movimento ou evento.
  • Defina agenda (ex.: contínuo à noite, evento durante o dia).
  • Configure retenção conforme capacidade de disco (dias desejados) e bitrate.

Passo 6: testar na prática

  • Gere movimento/evento e confirme se o NVR marcou e gravou corretamente.
  • Reproduza a gravação e confira áudio (se houver) e carimbo de data/hora.
  • Simule perda de rede/energia e verifique recuperação (reconexão automática).

Cenários de armazenamento: cartão na câmera, NVR local e servidor/NAS

Cenário A: câmera gravando em cartão microSD (edge recording)

Nesse modelo, a câmera grava localmente no cartão. Pode ser usado como gravação principal (pequenos sistemas) ou como contingência quando o NVR/rede falha.

  • Impacto na rede: baixo para gravação (a gravação é local), mas ainda há tráfego para visualização ao vivo e para baixar gravações.
  • Manutenção: cartão é item de desgaste. Exige política de troca preventiva e monitoramento de saúde (quando disponível).
  • Risco operacional: acesso às gravações pode ser mais trabalhoso (coletar remotamente ou fisicamente). Em incidentes, a câmera pode ser danificada/levada junto com o cartão.
  • Boa prática: configurar gravação no cartão como backup e o NVR como principal, quando possível.

Cenário B: NVR local gravando em HD (mais comum)

As câmeras enviam streams para o NVR, que grava em discos internos. É o modelo mais direto para centrais locais.

  • Impacto na rede: tráfego constante entre câmeras e NVR (conforme bitrate e modo). Em redes bem dimensionadas, é previsível.
  • Manutenção: foco em saúde dos discos (S.M.A.R.T.), temperatura, limpeza, e atualização controlada de firmware. Substituição de HD é procedimento recorrente.
  • Operação: busca e exportação centralizadas; permissões e usuários ficam no NVR.

Cenário C: gravação em servidor/NAS (VMS ou NVR gravando em rede)

A gravação pode ocorrer em um servidor com software (VMS) ou em um NAS (via iSCSI/NFS/SMB, dependendo do NVR/software). É comum quando há muitas câmeras, necessidade de retenção longa ou redundância.

  • Impacto na rede: além do tráfego câmera→gravador, existe tráfego gravador→NAS (ou câmera→NAS em arquiteturas específicas). Isso exige atenção a uplinks, agregação e segmentação.
  • Manutenção: envolve camadas (rede, servidor, storage). Em troca, permite RAID robusto, snapshots (quando aplicável) e expansão mais organizada.
  • Escalabilidade: mais fácil aumentar armazenamento e distribuir carga de gravação por servidores.

Comparativo rápido (rede e manutenção)

ModeloOnde gravaRede (tendência)Manutenção (tendência)
microSDNa câmeraBaixa para gravar; média para acessoTroca de cartões, risco físico
NVR localNo NVRMédia/alta (câmera→NVR)Discos, firmware, ambiente
Servidor/NASStorage em redeAlta (múltiplos fluxos e uplinks)Mais complexa, mais controle

Exemplos práticos de decisão (o que escolher em cada caso)

Exemplo 1: pequena loja (4 câmeras) com internet instável

  • Configuração sugerida: NVR local + microSD como backup.
  • Gravação: contínua em áreas críticas e por movimento em áreas de baixo risco.
  • Motivo: mesmo com falhas de rede, o NVR continua gravando localmente; se houver falha do NVR, o cartão mantém evidências.

Exemplo 2: condomínio (32 câmeras) com portaria remota

  • Configuração sugerida: câmeras em switch PoE + NVR em rede + substream para acesso remoto.
  • Gravação: contínua em entradas/garagem; evento/movimento em áreas internas.
  • Motivo: substream reduz banda para visualização remota; gravação central facilita exportação e auditoria.

Exemplo 3: empresa com retenção longa e auditoria

  • Configuração sugerida: servidor/VMS + NAS com RAID, e NVR apenas se houver necessidade de redundância local.
  • Gravação: contínua com políticas de retenção e perfis por câmera.
  • Motivo: storage escalável e gerenciamento avançado de usuários, logs e trilhas de auditoria.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao misturar câmeras e NVRs de marcas diferentes usando ONVIF, qual é a expectativa mais correta sobre a compatibilidade de recursos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O ONVIF ajuda na interoperabilidade para funções comuns, como descobrir dispositivos e obter o stream. Porém, não garante compatibilidade total: eventos e recursos avançados frequentemente dependem do fabricante e podem funcionar apenas parcialmente entre marcas.

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Qualidade de imagem em CFTV: resolução, lente, campo de visão e iluminação

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