Capital de giro: o que é e por que aparece no caixa
Capital de giro é o dinheiro que fica “preso” no funcionamento do negócio entre comprar (ou produzir) e receber do cliente. Na prática, ele aparece como necessidade de caixa para sustentar: estoque (mercadoria parada), vendas a prazo (dinheiro ainda não recebido) e o intervalo até o pagamento a fornecedores (quando você paga antes de receber).
Uma forma aplicada de enxergar capital de giro é pelo tempo: quantos dias o dinheiro leva para sair do caixa e voltar para o caixa. Esse tempo é medido por ciclos.
Ciclo operacional x ciclo de caixa (ciclo financeiro)
- Ciclo operacional: tempo entre a compra/produção e o recebimento da venda. Em dias, costuma ser:
Dias de Estoque (DIO) + Prazo Médio de Recebimento (PMR/DSO). - Ciclo de caixa (ciclo financeiro): tempo em que o dinheiro fica efetivamente “fora do caixa”, considerando que você pode pagar o fornecedor depois. Em dias:
Ciclo de Caixa = DIO + DSO - Prazo Médio de Pagamento (PMP/DPO).
Interpretação direta: quanto maior o ciclo de caixa, maior a necessidade de capital de giro (mais caixa “travado” para manter a operação). Quanto menor, mais leve fica a operação e menos dinheiro você precisa para girar.
As três alavancas que mudam a necessidade de caixa
1) Estoque (DIO): dias de estoque
Estoque é capital de giro “materializado”. Mesmo que a mercadoria esteja no depósito, o dinheiro já saiu (ou vai sair) para comprá-la. Quanto mais dias de estoque, mais caixa imobilizado e maior o risco de obsolescência, perdas e promoções forçadas.
2) Clientes (DSO/PMR): prazo médio de recebimento
Quando você vende a prazo, você financia o cliente. O prazo médio de recebimento mede quantos dias, em média, você demora para transformar vendas em dinheiro.
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3) Fornecedores (DPO/PMP): prazo médio de pagamento
Quando o fornecedor dá prazo, ele financia parte do seu ciclo. Aumentar o prazo médio de pagamento (sem multas e sem perder desconto relevante) tende a reduzir a necessidade de capital de giro.
Como calcular as métricas (passo a passo prático)
Você pode calcular com dados mensais e transformar em dias. O ideal é usar médias (estoque médio e contas a receber/pagar médios) para não distorcer por picos.
Passo 1 — Separe os dados do mês
- CMV/CPV (Custo das Mercadorias Vendidas / Custo do Produto Vendido) do mês.
- Vendas a prazo do mês (ou vendas totais, se quase tudo é a prazo).
- Compras do mês (se não tiver, use CMV como aproximação em comércio com estoque estável; em indústria, prefira compras/consumo real).
- Saldo de Estoque no início e no fim do mês.
- Saldo de Contas a Receber no início e no fim do mês.
- Saldo de Contas a Pagar (fornecedores) no início e no fim do mês.
Passo 2 — Calcule as médias
Estoque Médio = (Estoque Inicial + Estoque Final) / 2Clientes Médio (A Receber) = (AR Inicial + AR Final) / 2Fornecedores Médio (A Pagar) = (AP Inicial + AP Final) / 2
Passo 3 — Transforme em “dias”
Use 30 dias (mês) ou 365 (ano). Para consistência, use o mesmo padrão sempre.
- DIO (Dias de Estoque):
DIO = (Estoque Médio / CMV do mês) × 30 - DSO (Prazo Médio de Recebimento):
DSO = (Clientes Médio / Vendas a prazo do mês) × 30 - DPO (Prazo Médio de Pagamento):
DPO = (Fornecedores Médio / Compras do mês) × 30
Passo 4 — Calcule os ciclos
Ciclo Operacional = DIO + DSOCiclo de Caixa = DIO + DSO - DPO
Passo 5 — Converta “dias” em dinheiro (necessidade aproximada de caixa)
Uma leitura prática é estimar quanto caixa fica preso por dia de ciclo. Uma aproximação simples:
Saída diária com custo ≈ CMV do mês / 30Necessidade de Capital de Giro (aprox.) ≈ Saída diária com custo × Ciclo de Caixa
Essa aproximação ajuda a comparar cenários (antes/depois) e priorizar ações. Para decisões mais finas, você pode separar custos variáveis, impostos e fretes, mas a lógica de gestão já aparece bem com CMV.
Como interpretar (o que é “bom” ou “ruim”)
Leitura rápida das métricas
- DIO alto: excesso de estoque, mix errado, compras em lote sem giro, previsão fraca, ou itens parados. Impacto: caixa imobilizado e risco de desconto para desovar.
- DSO alto: política de prazo frouxa, concentração em clientes que pagam tarde, cobrança lenta, ou vendas no cartão com antecipação não usada. Impacto: você financia o cliente.
- DPO baixo: você paga rápido demais (ou sem negociar), ou está perdendo prazo por desorganização. Impacto: você financia o fornecedor ao contrário.
- Ciclo de caixa alto: operação “puxa” caixa; crescimento pode piorar o caixa (vender mais pode exigir mais capital de giro).
- Ciclo de caixa baixo ou negativo: operação “gera” caixa no giro (comum em alguns varejos e modelos com recebimento rápido e pagamento mais longo).
Armadilhas comuns
- Confundir lucro com caixa: um negócio pode ser lucrativo e quebrar por ciclo de caixa longo (muito estoque + muito prazo ao cliente).
- Comprar para “ganhar desconto”: desconto pode ser menor que o custo do dinheiro parado (e o risco de encalhe).
- Prazo maior para vender sem recalcular o ciclo: aumentar DSO sem compensar em DIO ou DPO aumenta a necessidade de caixa.
Decisões práticas para liberar capital de giro
Ações sobre estoque (reduzir DIO)
- Mapeie estoque parado: liste itens sem saída há 30/60/90 dias (ajuste ao seu setor). Separe por valor total e margem.
- Desova inteligente: combos, kits, desconto progressivo, venda casada, canal alternativo (atacado, marketplace, ponta de estoque). Objetivo: transformar parado em caixa, mesmo com margem menor.
- Revisão de mix: reduza profundidade (muitas variações) onde a demanda é baixa; aumente foco nos itens de giro.
- Política de compra por giro: defina estoque mínimo/máximo por item e compre por reposição, não por “feeling”.
- Lote econômico com caixa: se comprar mais barato exige muito estoque, compare o ganho do desconto com o custo do capital (juros, oportunidade, risco).
Ações sobre recebimentos (reduzir DSO)
- Regras de prazo por perfil: clientes novos com prazo menor; clientes recorrentes com limite e histórico.
- Incentivo ao pagamento rápido: desconto pequeno para pagamento à vista/pix; condições melhores para quem antecipa.
- Reprecificação do prazo: embuta custo financeiro no preço a prazo (preço à vista e preço a prazo coerentes).
- Quebra de parcelas: reduzir número de parcelas ou aumentar entrada diminui DSO.
- Foco no mix que paga melhor: priorize produtos/serviços com recebimento mais rápido ou com melhor margem para “pagar” o prazo.
Ações sobre pagamentos (aumentar DPO com segurança)
- Negocie prazo com contrapartida: previsibilidade de compra, pedido recorrente, volume mínimo, ou retirada programada.
- Evite pagar antes sem motivo: pagar antecipado só faz sentido se o desconto superar o custo do capital e não apertar o caixa.
- Centralize compras: menos fornecedores e mais volume por fornecedor pode melhorar prazo.
- Calendário de compras: alinhe datas de compra com datas de maior entrada de caixa (sem depender de “milagre”).
Estudo de caso: antes/depois do ciclo de caixa
Cenário: pequena loja de materiais para reforma. Vende parte no cartão e parte no boleto/crediário. O dono sente que “vende bem”, mas falta caixa para repor e pagar contas.
Dados do mês (ANTES)
| Item | Valor (R$) |
|---|---|
| Vendas a prazo no mês | 200.000 |
| CMV do mês | 120.000 |
| Compras do mês | 125.000 |
| Estoque inicial | 180.000 |
| Estoque final | 210.000 |
| Contas a receber inicial | 140.000 |
| Contas a receber final | 160.000 |
| Fornecedores (a pagar) inicial | 70.000 |
| Fornecedores (a pagar) final | 80.000 |
Cálculo (ANTES)
Estoque médio = (180.000 + 210.000)/2 = 195.000AR médio = (140.000 + 160.000)/2 = 150.000AP médio = (70.000 + 80.000)/2 = 75.000DIO = (195.000 / 120.000) × 30 = 48,8 diasDSO = (150.000 / 200.000) × 30 = 22,5 diasDPO = (75.000 / 125.000) × 30 = 18,0 diasCiclo operacional = 48,8 + 22,5 = 71,3 diasCiclo de caixa = 48,8 + 22,5 - 18,0 = 53,3 dias
Leitura: o dinheiro fica, em média, 53 dias fora do caixa. Se o negócio cresce, a necessidade de capital de giro cresce junto.
Estimativa de caixa preso:
Saída diária com custo ≈ 120.000/30 = 4.000 por diaNCG aprox. ≈ 4.000 × 53,3 = 213.200
Plano de ação aplicado (3 frentes)
- Estoque: identificar itens sem giro há 90 dias; desovar com kits e desconto; reduzir compras de baixa saída; implantar reposição por mínimo/máximo. Meta: reduzir estoque médio.
- Recebimento: reduzir parcelas de 6x para 4x em parte do mix; criar desconto para pix; aumentar entrada no crediário. Meta: reduzir DSO.
- Fornecedor: negociar +10 dias de prazo com 2 principais fornecedores em troca de pedido recorrente quinzenal. Meta: aumentar DPO.
Dados do mês (DEPOIS de 60 dias de ajustes)
| Item | Valor (R$) |
|---|---|
| Vendas a prazo no mês | 210.000 |
| CMV do mês | 126.000 |
| Compras do mês | 124.000 |
| Estoque inicial | 210.000 |
| Estoque final | 170.000 |
| Contas a receber inicial | 160.000 |
| Contas a receber final | 120.000 |
| Fornecedores (a pagar) inicial | 80.000 |
| Fornecedores (a pagar) final | 110.000 |
Cálculo (DEPOIS)
Estoque médio = (210.000 + 170.000)/2 = 190.000AR médio = (160.000 + 120.000)/2 = 140.000AP médio = (80.000 + 110.000)/2 = 95.000DIO = (190.000 / 126.000) × 30 = 45,2 diasDSO = (140.000 / 210.000) × 30 = 20,0 diasDPO = (95.000 / 124.000) × 30 = 23,0 diasCiclo operacional = 45,2 + 20,0 = 65,2 diasCiclo de caixa = 45,2 + 20,0 - 23,0 = 42,2 dias
Impacto: o ciclo de caixa caiu de 53,3 para 42,2 dias (melhora de 11,1 dias).
Estimativa de caixa liberado (aproximação):
Saída diária com custo ≈ 126.000/30 = 4.200 por diaCaixa liberado ≈ 4.200 × 11,1 = 46.620
Além disso, houve redução real de estoque final e de contas a receber final, o que tende a aliviar o caixa no curto prazo. O ponto principal é que o negócio passou a “pedir” menos dinheiro para operar o mesmo volume de vendas.
Checklist de implementação (para usar na rotina)
- Atualizar mensalmente:
DIO, DSO, DPO, Ciclo de Caixa. - Definir metas simples: reduzir DIO em X dias, reduzir DSO em Y dias, aumentar DPO em Z dias.
- Listar top 20 itens por valor em estoque e marcar: giro alto, médio, baixo, parado.
- Revisar mix e compras: cortar reposição de itens de baixo giro até normalizar.
- Revisar política comercial: preço à vista vs a prazo, entrada mínima, parcelamento máximo por categoria.
- Negociar com fornecedores-chave: prazo, entregas fracionadas, pedidos programados.