Canal do câmbio na política monetária: diferenciais de juros, fluxo de capitais e preços

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é o canal do câmbio

O canal do câmbio é o caminho pelo qual mudanças na taxa de juros e na percepção de risco alteram a taxa de câmbio (preço da moeda estrangeira em moeda local) e, em seguida, influenciam a inflação. Ele é especialmente relevante em economias que importam combustíveis, fertilizantes, componentes industriais e bens finais, porque uma depreciação cambial tende a encarecer esses itens e pressionar preços ao consumidor.

Há duas ligações principais: (1) juros e risco → câmbio (via diferencial de retorno e fluxo de capitais) e (2) câmbio → inflação (via preços de importados, combustíveis e insumos, com repasse ao longo do tempo).

Como juros influenciam o câmbio: diferencial de retorno e risco

1) Diferencial de juros (diferencial de retorno)

Investidores comparam o retorno esperado de aplicar em ativos domésticos versus estrangeiros. Em termos simples, quando a taxa de juros doméstica sobe (ou quando se espera que suba), o retorno em moeda local pode ficar mais atrativo. Isso tende a aumentar a demanda por ativos domésticos, elevando a demanda pela moeda local e pressionando o câmbio para apreciação (moeda local mais forte).

Uma forma didática de pensar é pelo retorno esperado em moeda estrangeira:

Retorno esperado (em USD) ≈ (1 + i_dom) × (E_câmbio_futuro / E_câmbio_hoje) − 1

Onde i_dom é o juro doméstico e E é o câmbio (moeda local por USD). Se o mercado acredita que o câmbio não vai depreciar muito no futuro, um juro doméstico maior aumenta o retorno esperado e pode atrair capital.

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2) Percepção de risco (prêmio de risco) e “qualidade” do diferencial

O diferencial de juros não atua sozinho. Investidores também exigem um prêmio de risco para compensar incertezas (fiscais, políticas, externas, liquidez, risco de crédito soberano). Se o risco percebido sobe, o investidor pode exigir um retorno muito maior para manter posição no país. Nessa situação, mesmo com juros altos, pode haver saída de capital e depreciação cambial.

Uma maneira prática de resumir é:

Retorno relativo relevante ≈ (juro doméstico) − (juro externo) − (prêmio de risco)

Se o prêmio de risco aumenta mais do que o diferencial de juros, o retorno ajustado ao risco piora e o câmbio tende a se desvalorizar.

3) Fluxo de capitais: o “mecanismo” que move o câmbio

O câmbio reage ao balanço entre oferta e demanda por moeda estrangeira, que é influenciado por fluxos como:

  • Investimento de portfólio (títulos públicos, ações): costuma reagir rapidamente a juros e risco.
  • Investimento direto (fábricas, aquisições): tende a ser mais lento e ligado a perspectivas de longo prazo.
  • Hedge e rolagem de dívidas em moeda estrangeira: empresas podem demandar dólares quando o risco aumenta.
  • Termos de troca (commodities): melhora de preços de exportação pode fortalecer a moeda; queda pode enfraquecer.

Como o câmbio afeta a inflação: importados, combustíveis e insumos

1) Preços de bens importados (efeito direto)

Quando o câmbio se deprecia, o preço em moeda local de bens importados sobe quase imediatamente na “porta de entrada” (custo em moeda local). Isso afeta eletrônicos, medicamentos, máquinas, peças e diversos bens de consumo.

2) Combustíveis e energia (efeito amplo e sensível)

Combustíveis são um canal importante porque impactam diretamente alguns preços ao consumidor e, indiretamente, o custo de transporte e logística. Mesmo quando há mecanismos de suavização (estoques, políticas de preço, impostos), o câmbio costuma ser um determinante relevante do custo.

3) Insumos e cadeia produtiva (efeito indireto)

Muitos setores usam insumos importados (fertilizantes, químicos, componentes). A depreciação eleva custos de produção, que podem ser repassados aos preços finais com defasagem. Esse repasse depende de:

  • Concorrência (se empresas conseguem repassar sem perder vendas).
  • Demanda (consumidor mais fraco reduz repasse).
  • Estoques e contratos (preços travados por algum tempo).
  • Credibilidade e expectativas (se agentes acreditam que a inflação será controlada, o repasse tende a ser menor).

Curto prazo vs. médio prazo: o que muda no tempo

Efeitos de curto prazo (reação imediata do mercado)

  • Câmbio reage rápido a notícias de juros, comunicação, dados e eventos de risco global.
  • Preços financeiros (câmbio, juros futuros, bolsa) ajustam em minutos/horas.
  • Inflação corrente quase não muda no mesmo dia, mas expectativas podem se mover rapidamente.

Efeitos de médio prazo (repasse para preços)

  • Pass-through (repasse cambial) aparece ao longo de meses: primeiro em importados e atacado, depois em varejo e serviços ligados a custos.
  • Magnitude do repasse varia: em alguns períodos é menor (moeda mais estável, expectativas ancoradas, demanda fraca) e em outros maior (choque persistente, indexação, inércia).
  • Segunda ordem: se o choque cambial altera expectativas e negociações salariais, pode contaminar itens menos ligados ao câmbio.

Passo a passo prático: como ler um movimento cambial no cenário de política monetária

Passo 1 — Identificar o tipo de choque

  • Choque externo: alta de juros lá fora, aversão a risco global, queda de commodities.
  • Choque doméstico: piora fiscal, ruído político, surpresa inflacionária, mudança de percepção sobre a trajetória de juros.

Passo 2 — Medir a intensidade e a persistência

  • O câmbio moveu 2% em um dia ou 15% em um mês?
  • Há sinais de que o movimento é temporário (evento pontual) ou persistente (mudança estrutural de risco/juros)?

Passo 3 — Mapear canais de repasse mais relevantes

  • Importados: peso no consumo e velocidade de ajuste.
  • Combustíveis: regras de preço, impostos, defasagens.
  • Insumos: setores mais expostos (alimentos, indústria, construção).

Passo 4 — Traduzir câmbio em impacto inflacionário (ordem de grandeza)

Uma regra prática (apenas ilustrativa) é pensar em um repasse parcial e distribuído no tempo. Por exemplo: uma depreciação de 10% pode gerar algo como 0,5 a 1,5 p.p. de pressão na inflação acumulada ao longo de alguns trimestres, dependendo do contexto. O ponto central é: não é 1 para 1, e o efeito é defasado.

Passo 5 — Checar expectativas e itens “sensíveis”

  • Expectativas de inflação (curto e médio prazo) subiram?
  • Medidas de inflação de bens comercializáveis (tradables) aceleraram?
  • Indicadores de atacado/custos (quando disponíveis) estão repassando?

Passo 6 — Incorporar no cenário: balanço entre atividade e inflação

Um câmbio mais depreciado tende a elevar inflação, mas também pode reduzir demanda (via piora de renda real e condições financeiras). O cenário final depende do equilíbrio entre pressão de custos e arrefecimento da demanda, além da credibilidade da política monetária.

Exemplo prático: choque cambial e como entra no cenário do Banco Central

Cenário: em 6 semanas, o câmbio passa de 5,00 para 5,75 (depreciação de 15%). O gatilho é uma combinação de (a) alta inesperada de juros nos EUA e (b) aumento do risco doméstico percebido. O mercado revisa para cima o prêmio de risco e reduz posições em ativos locais.

O que acontece no curto prazo (dias/semanas)

  • Câmbio sobe rápido e a volatilidade aumenta.
  • Juros futuros podem subir, refletindo maior risco e expectativa de resposta monetária.
  • Expectativas de inflação começam a se deteriorar, especialmente para horizontes de 12–24 meses.

O que acontece no médio prazo (meses)

  • Importados: reajustes em eletrônicos, medicamentos e bens duráveis importados ou com alto conteúdo importado.
  • Combustíveis: aumento de custos em moeda local pressiona preços na bomba (com defasagem e dependendo de regras de repasse).
  • Alimentos e indústria: insumos como fertilizantes e químicos encarecem, elevando custos e pressionando preços ao consumidor.

Como isso entra no cenário

  • O choque cambial é convertido em trajetória de inflação projetada, com um perfil de repasse ao longo dos trimestres.
  • O cenário também considera se o choque é temporário (reversível) ou persistente (mudança de patamar).
  • Se houver risco de desancoragem de expectativas (agentes passam a acreditar em inflação mais alta por mais tempo), o choque ganha peso maior, pois aumenta a chance de efeitos de segunda ordem.
Elemento do choqueIndicador observadoImplicação típica
Depreciação rápidaAlta do câmbio e volatilidadeReprecificação imediata de ativos; atenção a expectativas
PersistênciaCâmbio permanece em patamar alto por mesesMaior repasse para preços; revisão de projeções
Risco domésticoPrêmio de risco sobeDiferencial de juros “perde força”; câmbio pode ficar pressionado
Combustíveis/insumosCustos em moeda local sobemPressão em bens comercializáveis e cadeia produtiva

Sugestões de gráficos para este capítulo

1) Câmbio vs. inflação de bens comercializáveis (tradables)

Ideia: um gráfico com duas séries: (a) variação do câmbio (por exemplo, % em 12 meses) e (b) inflação de bens comercializáveis (também em 12 meses). A leitura esperada é que movimentos persistentes do câmbio tendem a anteceder acelerações/desacelerações em tradables, com alguma defasagem.

  • Eixo esquerdo: variação do câmbio (12m).
  • Eixo direito: inflação de tradables (12m).
  • Marcar períodos de choques (bandas verticais).

2) Linha temporal de repasse (pass-through) do câmbio para preços

Ideia: uma linha (ou barras) mostrando o impacto acumulado estimado do choque cambial na inflação ao longo de 1 a 8 trimestres. Exemplo de desenho: 0% no trimestre 0, depois 20% do repasse no T+1, 50% no T+2, 75% no T+3, 90% no T+4, estabilizando depois.

  • Eixo x: trimestres após o choque (T, T+1, …).
  • Eixo y: % do repasse acumulado (0% a 100%).
  • Opcional: duas curvas (repasse baixo vs. repasse alto) para mostrar dependência do contexto.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Como o canal do câmbio ajuda a explicar o efeito de uma alta de juros doméstica sobre a inflação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O canal do câmbio liga juros e risco ao câmbio via diferencial de retorno e fluxos de capitais. Se o câmbio aprecia, importados, combustíveis e insumos tendem a pressionar menos a inflação, com repasse defasado.

Próximo capitúlo

Canal das expectativas na política monetária: credibilidade, comunicação e formação de preços

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