O objetivo real da calibração: distância constante do bico
Nivelar a mesa e ajustar o Z-offset não é “deixar a mesa perfeitamente reta” (isso quase nunca existe). O objetivo prático é garantir que a distância entre o bico (nozzle) e a superfície seja consistente em toda a área de impressão, para que a primeira camada saia uniforme e com boa aderência.
Dois conceitos ajudam a não se confundir:
- Nivelamento (tram) da mesa: alinhar o plano da mesa com o movimento do eixo X/Y, ajustando os cantos (parafusos/rodas). Isso reduz variações “grossas”.
- Compensação por malha (mesh): medir pequenas variações de altura em vários pontos e compensar durante a impressão (via firmware/sensor). Isso corrige irregularidades “finas”.
- Z-offset: ajuste global da altura do bico em relação ao “zero” detectado (fim de curso ou sensor). É o que define o quanto o bico fica perto/longe da mesa quando a impressora acredita estar em Z=0.
Antes de começar: condições para uma calibração confiável
- Bico e mesa na temperatura de impressão: materiais e peças expandem com calor. Aqueça bico e mesa (ex.: PLA: mesa 55–65°C, bico 200–215°C; ajuste conforme seu material) e espere estabilizar alguns minutos.
- Superfície limpa: poeira e gordura alteram a aderência e “enganam” a leitura da primeira camada. Limpe com álcool isopropílico (quando compatível com sua superfície).
- Sem filamento escorrendo no bico: um “pingo” pode alterar a altura real. Faça um pequeno purge e remova o excesso com cuidado (pinça/escova apropriada) antes de medir.
- Homing correto: sempre faça
Home(G28) antes de nivelar/ajustar Z-offset.
Nivelamento manual (com folha de papel): passo a passo
O método da folha de papel cria uma referência simples para a folga entre bico e mesa. Ele não mede “milímetros exatos”; ele cria uma sensação de atrito leve e consistente em todos os pontos.
O que você precisa
- Uma folha de papel comum (aprox. 0,08–0,12 mm) ou um calibrador de lâminas (feeler gauge) se quiser mais repetibilidade.
- Acesso ao menu de movimentação da impressora (ou comandos via computador).
Procedimento
- Aqueça bico e mesa na temperatura de trabalho.
- Faça Home (G28).
- Desative motores (ou use o menu “Move Axis” para posicionar com controle). Se desativar, mova o cabeçote com cuidado para não forçar correias.
- Vá ao primeiro ponto (normalmente canto frontal esquerdo, perto do parafuso de ajuste). Posicione o bico a poucos milímetros do ponto e desça para Z próximo de 0 (conforme o procedimento da sua máquina).
- Coloque a folha entre bico e mesa e ajuste o parafuso daquele canto até sentir atrito leve: a folha deve deslizar, mas “raspando” de leve.
- Repita nos outros cantos (frontal direito, traseiro direito, traseiro esquerdo) e depois no centro.
- Faça mais 1–2 voltas completas pelos cantos. Ajustar um canto influencia os outros; repetir estabiliza o plano.
Como saber se o atrito está correto
- Folha presa / muito difícil de mover: bico está muito baixo (risco de raspar e bloquear extrusão).
- Folha solta / sem atrito: bico está muito alto (primeira camada não “amassa” e pode descolar).
Dica de repetibilidade
Se sua impressora permite, use microajustes de Z (ex.: passos de 0,05 mm) durante o teste do papel para padronizar a sensação. Um feeler gauge (0,10 mm) torna o processo mais consistente que papel.
Nivelamento com sensor e malha (Auto Bed Leveling / Mesh): passo a passo
Com sensor (indutivo, BLTouch/CRTouch, strain gauge etc.), a impressora mede vários pontos e cria uma malha de compensação. Isso não elimina a necessidade de um nivelamento básico: a malha corrige pequenas variações, mas não deve “salvar” uma mesa muito desalinhada.
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Fluxo recomendado
- Faça um nivelamento manual básico (rápido) para deixar a mesa “no plano” aproximado.
- Aqueça bico e mesa na temperatura de trabalho.
- Faça Home (G28).
- Execute a calibração da malha pelo menu (ex.: “Bed Mesh”, “Auto Level”, “Create Mesh”). A impressora tocará/medirá vários pontos.
- Salve a malha (quando aplicável) e confirme se ela é carregada antes de imprimir. Em alguns firmwares, é necessário habilitar “Load Mesh” no início do print.
Quantos pontos usar?
- 3×3 ou 4×4: mais rápido, bom para mesas relativamente planas.
- 5×5 ou mais: melhor para mesas com variações, mas demora mais.
Quando refazer a malha
- Troca de superfície (vidro/PEI), remoção e recolocação da placa, mudança de grampos/ímãs.
- Manutenção no eixo Z, troca de rodas/rolamentos, mexer em parafusos da mesa.
- Mudança significativa de temperatura de trabalho (ex.: sair de PLA para ABS com mesa muito mais quente).
Padrões de primeira camada: o teste que “não mente”
Depois do nivelamento (manual ou com malha), valide com um padrão de primeira camada. Ele mostra, na prática, se a distância bico-mesa está consistente.
Modelos/padrões úteis
- Quadrados nos cantos + centro: revela diferenças regionais.
- Grade (grid) cobrindo a mesa: excelente para ver variações contínuas.
- Linhas longas (zig-zag): evidencia falhas de aderência e variações de pressão.
Configurações sugeridas para o teste
- Altura da primeira camada: 0,20 mm (se seu bico for 0,4 mm) é um bom ponto de partida.
- Largura de linha: 0,42–0,48 mm (ligeiramente maior que o bico ajuda na aderência).
- Velocidade da primeira camada: 15–25 mm/s para facilitar leitura e aderência.
Como interpretar sinais de erro na primeira camada
| Sinal observado | O que significa | Ajuste típico |
|---|---|---|
| Linhas muito “achatadas”, com bordas levantando ou aspecto translúcido; material parece “espremido” | Bico muito baixo (Z-offset baixo demais) | Subir o Z-offset em pequenos passos (ex.: +0,02 a +0,05 mm) |
| Bico “raspando”, batidas/ruídos, marcas na superfície; extrusor pode estalar por contrapressão | Bico baixo demais (risco de danificar superfície/bico) | Pare a impressão e suba Z imediatamente; depois reajuste Z-offset |
| Linhas arredondadas, com espaços entre elas; peça descola fácil ao toque | Bico muito alto (Z-offset alto demais) | Descer o Z-offset em pequenos passos (ex.: -0,02 a -0,05 mm) |
| Boa aderência no centro, ruim nos cantos (ou o inverso) | Mesa desalinhada (tram) ou malha desatualizada | Refazer nivelamento manual e/ou recalibrar mesh |
| Uma faixa específica sempre falha (ex.: lado esquerdo) | Variação local da mesa/superfície, sujeira, ou malha insuficiente | Limpar superfície; aumentar densidade da malha; verificar fixação da placa |
Ajuste de Z-offset com segurança (procedimento prático)
O Z-offset é o ajuste mais “sensível” porque mexe diretamente no quanto o bico comprime a primeira camada. Faça sempre com cuidado e em passos pequenos.
Quando você deve ajustar o Z-offset
- Após criar/atualizar a malha (principalmente com sensor).
- Ao trocar o bico (mesmo “mesma medida”, a ponta pode variar).
- Ao trocar a superfície (PEI liso/texturizado, vidro, adesivo).
- Após manutenção no hotend, no eixo Z ou na mesa.
Método 1: ajuste durante um teste de primeira camada (recomendado)
- Prepare um arquivo de teste de primeira camada (grade ou quadrados).
- Aqueça bico e mesa.
- Inicie a impressão do teste.
- Use o ajuste fino de Z (muitas impressoras chamam de “Z Offset”, “Baby Steps”, “Live Z”).
- Faça ajustes pequenos (0,02 mm é um bom passo). Espere algumas linhas para ver o efeito.
- Busque o ponto ideal: linhas encostadas sem espaços, topo relativamente liso, sem excesso de esmagamento e sem raspagem.
- Salve o valor ao final (se o firmware exigir confirmação). Anote também fora da impressora (ex.: caderno/planilha) com data e condições.
Método 2: ajuste por “papel” no Z=0 (útil como referência inicial)
- Aqueça bico e mesa.
- Faça Home (G28).
- Vá para o centro da mesa.
- Desça até Z=0 (conforme o menu/firmware).
- Teste o papel: se estiver muito preso ou solto, ajuste o Z-offset até obter atrito leve.
- Salve o Z-offset e valide com um padrão de primeira camada (não confie só no papel).
Regras de segurança e boas práticas
- Se ouvir raspagem ou ver o bico marcando a superfície: pare e suba o Z imediatamente. Não “insista” para ver se melhora.
- Não faça saltos grandes no Z-offset. Mudanças de 0,10 mm podem transformar uma primeira camada boa em falha total.
- Registre o valor final e o contexto: material, temperaturas, bico, superfície. Exemplo de registro:
2026-01-28 | PLA | 210/60 | bico 0.4 latão | PEI texturizado | Z-offset = -1.62. - Tenha um “valor base”: se algo der errado, você volta ao último valor conhecido.
Rotina rápida de recalibração após mudanças
Use esta sequência sempre que trocar algo relevante (bico, superfície, manutenção):
- Aqueça bico e mesa nas temperaturas do material.
- Home (G28).
- Faça um nivelamento manual rápido (se sua mesa tiver parafusos).
- Recalibre a malha (se usar sensor) e salve/carregue.
- Imprima um padrão de primeira camada.
- Ajuste Z-offset ao vivo em passos de 0,02 mm até ficar ideal.
- Salve e registre o novo Z-offset.
Checklist de diagnóstico (quando a primeira camada insiste em falhar)
- Falha em toda a mesa: Z-offset incorreto (alto demais ou baixo demais) ou temperatura/aderência inadequadas.
- Falha em regiões específicas: mesa desalinhada, malha desatualizada, superfície suja ou mal fixada.
- Linhas falhando intermitentemente: bico sujo com resíduo, filamento úmido, ou fluxo irregular (mas primeiro confirme Z e limpeza).
- Depois de trocar o bico: refaça Z-offset e valide com padrão; pequenas diferenças de geometria do bico mudam o “zero” real.