O que significa “dose por peso” e quando usar
Dose por peso é uma forma de prescrição em que a quantidade do fármaco é proporcional ao peso do paciente. É comum em pediatria (maior variabilidade de peso e janela terapêutica estreita) e também em adultos para alguns medicamentos (ex.: anticoagulantes, sedação, vasopressores e inotrópicos em infusão).
- mg/kg/dose: quantidade por administração (ex.: a cada 8 horas).
- mg/kg/dia: quantidade total diária, geralmente dividida em doses (ex.: 1x/dia, 2x/dia, 3x/dia).
- mcg/kg/min: taxa de infusão contínua (muito usada em drogas vasoativas), que precisa ser convertida para uma forma operacional (mg/h e, depois, mL/h conforme a concentração preparada).
Fluxo completo: do peso à administração com validação clínica
1) Obter o peso em kg (e qual peso usar)
- Preferir peso atual aferido (balança) e registrar data/hora.
- Checar coerência com histórico recente: variações grandes podem indicar erro de digitação, edema importante, amputações, ascite ou estimativa inadequada.
- Quando o peso é estimado: sinalizar como estimado e, se possível, confirmar o mais cedo possível. Em pediatria, peso estimado aumenta risco de sub/superdose.
- Adultos com obesidade/edema: algumas drogas usam peso ideal ou ajustado; se a prescrição não especificar, não assuma. Confirme com protocolo local ou prescritor.
2) Identificar o tipo de prescrição por peso
- Está escrito mg/kg/dose ou mg/kg/dia?
- Há intervalo (ex.: 8/8h) ou número de doses por dia?
- Em infusão: está em mcg/kg/min (ou mcg/kg/h)? Não misture unidades.
3) Calcular a dose total (em mg ou mcg) a partir do peso
Regra prática: Dose total = dose por kg × peso (kg). Depois, ajuste para o esquema (por dose ou por dia).
4) Converter para a forma administrável
- Se o resultado estiver em mcg, decida se vai manter em mcg ou converter para mg (conforme a apresentação e o preparo).
- Para infusão, converta a taxa para mg/h e então para mL/h usando a concentração final da solução preparada.
5) Validar clinicamente (checagens rápidas e limites usuais quando disponíveis)
- Cheque plausibilidade: a dose final “faz sentido” para aquele paciente? Compare com faixas usuais do serviço, protocolos e referências institucionais.
- Cheque unidade: mg vs mcg é a fonte mais perigosa de erro (fator 1000).
- Cheque peso: kg vs lb (libras) e erro de casa decimal (ex.: 7,2 kg digitado como 72 kg).
- Em pediatria: atenção a doses máximas por dose/dia (quando o protocolo trouxer). Se a dose calculada exceder o máximo, deve ser ajustada e discutida.
Cenários e exemplos completos (com validação e conversão)
Exemplo 1 (pediatria): mg/kg/dose com conversão para mL
Prescrição: Amoxicilina 25 mg/kg/dose VO a cada 12h. Peso: 18 kg (aferido hoje). Apresentação: suspensão 250 mg/5 mL.
Passo a passo
- 1) Calcular mg por dose:
25 mg/kg/dose × 18 kg = 450 mg/dose. - 2) Converter concentração:
250 mg/5 mL = 50 mg/mL. - 3) Converter mg para mL:
450 mg ÷ 50 mg/mL = 9 mL. - 4) Validar: dose por administração e volume são plausíveis para VO? 9 mL pode ser administrável, mas pode exigir seringa dosadora e orientação ao cuidador. Se o serviço tiver limite de volume por tomada para a idade, conferir.
Resultado: Administrar 450 mg por dose = 9 mL da suspensão a cada 12h.
Risco típico de erro
- Confundir
25 mg/kg/dosecom25 mgtotal (subdose importante). - Usar peso antigo (ex.: 14 kg) e reduzir indevidamente a dose.
Exemplo 2 (adulto): mg/kg/dia dividido em doses
Prescrição: Fármaco X 6 mg/kg/dia VO, dividido em 3 doses (8/8h). Peso: 70 kg (aferido). Comprimidos: 100 mg.
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Passo a passo
- 1) Calcular dose total diária:
6 mg/kg/dia × 70 kg = 420 mg/dia. - 2) Dividir pelo número de doses:
420 mg/dia ÷ 3 = 140 mg/dose. - 3) Converter para forma disponível: comprimidos de 100 mg. Opções:
1,5 comp = 150 mg(se puder fracionar) ou ajustar conforme prescrição/protocolo. Não arredonde sem critério; confirmar se há apresentação de 50 mg, se o comprimido é sulcado e se o ajuste é clinicamente aceitável. - 4) Validar: conferir se 6 mg/kg/dia está dentro da faixa usual do protocolo local para a indicação e se há dose máxima diária. Se houver máximo menor que 420 mg/dia, deve limitar.
Resultado matemático: 140 mg a cada 8h. Resultado operacional depende da apresentação e da possibilidade de fracionamento/ajuste prescrito.
Risco típico de erro
- Administrar
420 mga cada 8h (erro por não dividir as doses; triplica a dose diária). - Confundir “dividido em 3 doses” com “3 dias”.
Exemplo 3 (infusão): mcg/kg/min → mg/h → mL/h
Prescrição: Noradrenalina 0,2 mcg/kg/min. Peso: 80 kg. Preparo: 4 mg em 50 mL (concentração final 0,08 mg/mL).
Passo a passo
- 1) Calcular mcg/min total:
0,2 mcg/kg/min × 80 kg = 16 mcg/min. - 2) Converter para mcg/h:
16 mcg/min × 60 = 960 mcg/h. - 3) Converter mcg/h para mg/h:
960 mcg/h ÷ 1000 = 0,96 mg/h. - 4) Calcular concentração da solução:
4 mg ÷ 50 mL = 0,08 mg/mL. - 5) Converter mg/h para mL/h:
0,96 mg/h ÷ 0,08 mg/mL = 12 mL/h. - 6) Validar: conferir se a taxa em mL/h é compatível com a bomba e com o acesso venoso; comparar a dose em mcg/kg/min com a faixa usual do protocolo institucional para noradrenalina e com metas hemodinâmicas. Reavaliar se o peso usado é o correto (em UTI, peso estimado é comum e pode distorcer a dose).
Resultado: Programar a bomba em 12 mL/h (equivale a 0,2 mcg/kg/min para 80 kg com esse preparo).
Risco típico de erro
- Trocar mcg por mg ao converter (erro 1000×).
- Usar concentração errada do preparo (ex.: confundir 4 mg/50 mL com 4 mg/100 mL).
- Esquecer o fator
×60ao passar de minuto para hora.
Checklist rápido de validação antes de administrar
- Peso: está em kg? é atual? é plausível?
- Tipo de dose: por dose, por dia, ou por minuto?
- Unidade final: mg, mcg, mL (coerentes com a apresentação/preparo)?
- Arredondamento: foi necessário? está justificado e seguro?
- Limites usuais: há faixa do protocolo local e dose máxima? a dose calculada ultrapassa?
Erros comuns (e como evitar)
1) Confundir mg/kg com mg total
- Erro: administrar “25 mg” quando a prescrição é “25 mg/kg”.
- Prevenção: sempre escreva a etapa intermediária:
mg/kg × kg = mg.
2) Usar peso em libras (lb) como se fosse kg
- Erro: paciente 154 lb tratado como 154 kg (superdose).
- Prevenção: confirmar unidade no prontuário; se vier em lb, converter antes e registrar o kg usado no cálculo.
3) Trocar mcg por mg (ou vice-versa)
- Erro: interpretar
0,2 mcg/kg/mincomo0,2 mg/kg/min(1000× maior). - Prevenção: destaque visual no rascunho do cálculo e, em infusões, sempre passe por
mcg/min → mcg/h → mg/hexplicitamente.
4) Erro de casa decimal no peso
- Erro: 7,2 kg digitado como 72 kg.
- Prevenção: checar plausibilidade por faixa etária e histórico; em pediatria, comparar com curvas/registro anterior quando disponível.
5) Não dividir a dose diária
- Erro: calcular mg/kg/dia corretamente, mas administrar o total em cada tomada.
- Prevenção: escrever sempre:
mg/dia ÷ nº de doses = mg/dose.
Exercícios (faça o cálculo completo e escreva a validação)
1) mg/kg/dose (pediatria)
Prescrição: Cefalexina 20 mg/kg/dose VO a cada 8h. Peso: 12 kg. Suspensão: 250 mg/5 mL. Calcule mg por dose e mL por dose. Aponte 2 checagens de validação.
2) mg/kg/dia dividido em doses (adulto)
Prescrição: Fármaco Y 10 mg/kg/dia dividido em 2 doses. Peso: 64 kg. Apresentação: comprimidos 200 mg. Calcule mg/dia, mg/dose e proponha uma forma administrável (sem arredondar automaticamente; descreva o que você precisaria confirmar).
3) mcg/kg/min (infusão)
Prescrição: Dopamina 5 mcg/kg/min. Peso: 60 kg. Preparo: 200 mg em 50 mL. Calcule mcg/min, mg/h e mL/h. Liste 3 erros comuns que poderiam ocorrer nesse cenário.