Cadeias linfonodais inguinais e femorais: drenagem do membro inferior, períneo e parede abdominal inferior

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

Visão geral das cadeias inguinais e femorais

As cadeias linfonodais inguinais e femorais organizam a drenagem linfática do membro inferior, do períneo e de parte da parede abdominal inferior. Clinicamente, são as cadeias mais frequentemente palpadas no exame físico por receberem linfa de grandes territórios cutâneos e de tecidos superficiais. Para entender a drenagem, é útil separar: linfonodos inguinais superficiais (grupo horizontal e vertical) e linfonodos inguinais profundos (ao longo da veia femoral), incluindo o linfonodo de Cloquet (ou de Rosenmüller), que marca a transição para a pelve.

Linfonodos inguinais superficiais

Localização e relações anatômicas

Os linfonodos inguinais superficiais situam-se no tecido subcutâneo, imediatamente abaixo da pele, superficiais à fáscia lata. Em geral, acompanham o trajeto da veia safena magna na sua porção terminal e distribuem-se em dois agrupamentos principais:

  • Grupo horizontal (superior): forma uma cadeia paralela ao ligamento inguinal, logo inferior a ele, estendendo-se da região próxima à espinha ilíaca ântero-superior em direção ao tubérculo púbico.
  • Grupo vertical (inferior): dispõe-se ao longo da porção terminal da veia safena magna, próximo ao hiato safeno, em direção inferior na face ântero-medial da coxa.

Marco prático: o grupo horizontal costuma ser palpável logo abaixo do ligamento inguinal; o grupo vertical, ao longo da safena magna, na transição entre virilha e coxa medial.

Territórios típicos de drenagem (superficiais)

Como regra, os inguinais superficiais recebem linfa de pele e tecidos superficiais de grandes áreas abaixo do umbigo e do membro inferior, além de estruturas superficiais do períneo e genitais externos. A seguir, os territórios são organizados por grupo para facilitar a correlação clínica.

GrupoTerritórios de drenagem mais típicosObservações e exceções anatômicas relevantes
Inguinais superficiais – horizontal
  • Parede abdominal inferior (abaixo do umbigo)
  • Região glútea inferior (porção inferior da nádega)
  • Períneo superficial
  • Genitais externos: escroto e pênis (pele), grandes lábios e vulva (pele)
  • Canal anal abaixo da linha pectínea (pele perianal)
  • Exceção clássica: a glande do pênis e a glande do clitóris tendem a drenar preferencialmente para inguinais profundos (e/ou ilíacos internos, conforme variações).
  • Exceção importante: testículo e ovário drenam para linfonodos lombares (para-aórticos), não para inguinais, por origem embrionária e trajeto vascular.
  • Uretra distal pode drenar para inguinais (sobretudo porção esponjosa distal), com variações.
Inguinais superficiais – vertical
  • Pele e tecidos superficiais da maior parte do membro inferior, especialmente face ântero-medial da coxa e perna
  • Exceção frequente: a drenagem da margem lateral do pé e da face póstero-lateral da perna tende a acompanhar a veia safena parva para linfonodos poplíteos antes de alcançar inguinais.
  • Estruturas profundas (músculos, articulações) tendem a drenar para cadeias profundas (poplíteos/femorais profundos) antes de chegar aos superficiais.

Linfonodos inguinais profundos (femorais profundos)

Localização e relações anatômicas

Os linfonodos inguinais profundos situam-se profundos à fáscia lata, no interior do triângulo femoral, acompanhando a veia femoral (medial ou ântero-medial a ela, conforme o nível). São menos numerosos que os superficiais e recebem linfa de estruturas profundas do membro inferior e de vias eferentes dos superficiais.

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Linfonodo de Cloquet (Rosenmüller): é o linfonodo inguinal profundo mais superior, localizado no canal femoral, próximo ao anel femoral, imediatamente inferior ao ligamento inguinal. Funciona como “sentinela” na transição entre drenagem da coxa/virilha e os linfonodos da pelve.

O que costuma drenar para os inguinais profundos

  • Estruturas profundas do membro inferior (porções profundas acompanhando vasos femorais).
  • Glande do pênis e glande do clitóris (frequentemente), além de parte da uretra distal (variações).
  • Eferentes dos inguinais superficiais (grande parte do fluxo superficial converge para os profundos antes de seguir para a pelve).

Trajetos eferentes: como a linfa chega aos linfonodos ilíacos externos

De modo geral, a drenagem segue uma progressão: território periférico → inguinais superficiais e/ou profundos → ilíacos externos. Os eferentes dos inguinais profundos acompanham os vasos femorais através da transição sob o ligamento inguinal, conectando-se aos linfonodos ilíacos externos ao longo dos vasos ilíacos externos na pelve.

Origem (território)Primeiro(s) linfonodo(s) mais prováveisTrajeto típico até ilíacos externosMarcos anatômicos úteis
Pele da parede abdominal inferior (abaixo do umbigo)Inguinais superficiais (horizontal)Superficiais → profundos (femorais) → ilíacos externosPalpar logo abaixo do ligamento inguinal, próximo ao tubérculo púbico e ao trajeto da safena magna
Pele do períneo e genitais externos (escroto, pele do pênis; vulva/lábios)Inguinais superficiais (horizontal)Superficiais → profundos → ilíacos externos (com possíveis conexões para ilíacos internos conforme região)Grupo horizontal: faixa subcutânea paralela ao ligamento inguinal
Glande do pênis / glande do clitórisInguinais profundos (incluindo Cloquet em alguns casos)Profundos → ilíacos externos (e possíveis vias para ilíacos internos)Profundos: profundos à fáscia lata, junto à veia femoral; Cloquet no canal femoral
Pele e subcutâneo da maior parte do membro inferior (especialmente medial)Inguinais superficiais (vertical)Superficiais → profundos → ilíacos externosGrupo vertical: ao longo da safena magna na coxa ântero-medial
Margem lateral do pé e face póstero-lateral da pernaPoplíteos (frequente) → inguinais profundos/superficiaisPoplíteos → profundos → ilíacos externosSuspeitar via poplítea quando lesão é lateral no pé/perna; inguinais podem estar secundariamente aumentados
Canal anal abaixo da linha pectínea (perianal)Inguinais superficiais (horizontal)Superficiais → profundos → ilíacos externosImportante diferenciar de drenagem acima da linha pectínea (tende a seguir para cadeias pélvicas)

Inspeção e palpação: passo a passo prático com marcos anatômicos

1) Preparação e posicionamento

  • Posicionar o paciente em decúbito dorsal, com quadris levemente abduzidos e relaxados.
  • Explicar que a palpação pode ser desconfortável; manter a musculatura relaxada reduz falsos negativos.

2) Identificar o ligamento inguinal (referência para o grupo horizontal)

  • Localizar a espinha ilíaca ântero-superior e o tubérculo púbico; o ligamento inguinal estende-se entre esses pontos.
  • Palpar logo inferior ao ligamento inguinal, varrendo transversalmente: essa faixa corresponde ao território do grupo horizontal.

3) Palpar o grupo vertical ao longo da veia safena magna

  • Partir da região do hiato safeno (junção safeno-femoral, na virilha) e descer alguns centímetros na face ântero-medial da coxa.
  • Palpar em “linha” acompanhando o trajeto esperado da veia safena magna, buscando nódulos móveis no subcutâneo (superficiais à fáscia lata).

4) Avaliar suspeita de acometimento profundo (inguinais profundos)

  • Os linfonodos profundos são menos acessíveis; a avaliação é indireta e baseada em dor profunda, aumento importante de volume na região femoral e correlação com territórios de drenagem (ex.: glande).
  • Quando possível, palpar profundamente no triângulo femoral, próximo ao pulso femoral, lembrando que os profundos acompanham a veia femoral (mais medial ao feixe arterial palpável).

5) Correlacionar achados com o território de drenagem

  • Aumento no grupo horizontal: pensar em lesões/infecções de parede abdominal inferior, períneo, genitais externos, região glútea inferior e região perianal abaixo da linha pectínea.
  • Aumento no grupo vertical: pensar em lesões cutâneas do membro inferior (especialmente medial/anterior).
  • Suspeita de via poplítea: lesões na margem lateral do pé e perna póstero-lateral podem primeiro envolver poplíteos e só depois inguinais.

Mapeamento rápido por regiões (para uso em casos clínicos)

Região/estruturaLinfonodos mais prováveis inicialmentePonto de atenção
Pele da coxa/perna (maior parte, sobretudo medial)Inguinais superficiais (vertical)Feridas crônicas e celulites podem causar linfonodomegalia dolorosa
Pele lateral do péPoplíteos → inguinaisInguinais podem estar normais no início
Parede abdominal inferiorInguinais superficiais (horizontal)Diferenciar de drenagem acima do umbigo (não é o foco aqui)
Períneo superficial e pele perianal abaixo da linha pectíneaInguinais superficiais (horizontal)Importante na avaliação de fissuras/abscessos perianais superficiais
Escroto e pele do pênis; vulva/lábiosInguinais superficiais (horizontal)Não confundir com testículo/ovário (drenagem para para-aórticos)
Glande do pênis / glande do clitórisInguinais profundosPode envolver Cloquet e seguir para ilíacos externos

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a avaliação de uma lesão na glande do pênis ou do clitóris, qual cadeia linfonodal é mais provável de ser a primeira a receber a drenagem linfática?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A glande do pênis e a glande do clitóris frequentemente drenam preferencialmente para os linfonodos inguinais profundos, e não para os inguinais superficiais; o linfonodo de Cloquet pode participar como marco de transição para a pelve.

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Cadeias linfonodais mediastinais: grupos, relações com vias aéreas e grandes vasos

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