Cadeias linfonodais cervicais: topografia, grupos e drenagem de cabeça e pescoço

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Visão topográfica das cadeias cervicais

As cadeias linfonodais cervicais organizam-se como “estações” em camadas: um anel mais superficial, que recebe grande parte da linfa da pele e estruturas externas da cabeça e pescoço, e um eixo profundo, que acompanha a veia jugular interna e recebe drenagens profundas (faringe, laringe, cavidade oral profunda), além de coletar o fluxo vindo dos grupos superficiais. Na prática clínica, essa organização ajuda a prever para onde uma infecção, inflamação ou neoplasia tende a drenar.

Do ponto de vista de marcos palpáveis e relações anatômicas, três referências guiam o mapeamento: (1) o músculo esternocleidomastoideo (ECM), que “divide” o pescoço em regiões e cobre parte da cadeia profunda; (2) a bainha carotídea, onde correm a artéria carótida e a veia jugular interna (e, junto a ela, a cadeia cervical profunda); (3) a glândula parótida, que abriga/relaciona-se com linfonodos pré-auriculares/parotídeos e recebe drenagens da face lateral e couro cabeludo anterior-lateral.

Mapa mental por camadas

  • Anel superficial (pericervical): submentais, submandibulares, pré-auriculares/parotídeos, retroauriculares/mastoideos, occipitais e cervicais superficiais (ao longo da veia jugular externa).
  • Eixo profundo: cervicais profundos (ao longo da veia jugular interna), com destaque para os linfonodos jugulodigástrico (alto) e jugulo-omohióideo (baixo).
  • Convergência: a drenagem final do eixo profundo forma o tronco jugular (direito e esquerdo), que segue para os grandes ductos linfáticos do pescoço.

Grupos cervicais superficiais: localização, marcos e drenagens

Linfonodos submentais

Topografia e palpação: situam-se no triângulo submental, abaixo do mento (queixo), entre os ventres anteriores do músculo digástrico. Palpam-se com a polpa dos dedos sob o queixo, com a cabeça levemente fletida para relaxar a região.

Drenagem principal (o que chega): região central do lábio inferior, pele do queixo, assoalho anterior da boca e porção anterior da língua (especialmente a ponta).

Para onde drenam (saída): principalmente para os submandibulares e, em seguida, para a cadeia cervical profunda.

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Linfonodos submandibulares

Topografia e palpação: ao longo da borda inferior da mandíbula, associados à glândula submandibular e vasos faciais. Palpam-se deslizando os dedos sob o corpo da mandíbula, do mento em direção ao ângulo mandibular.

Drenagem principal: grande parte da face anterior (bochecha, nariz lateral), lábio superior e porções laterais do lábio inferior, gengivas, dentes (exceto alguns territórios que podem drenar para submentais), assoalho da boca e porções anteriores da língua (principalmente margens).

Saída: drenam para os cervicais profundos, com frequência para o segmento superior da cadeia (próximo ao jugulodigástrico).

Linfonodos pré-auriculares / parotídeos (superficiais e intraparotídeos)

Topografia e palpação: anteriores ao trago e sobre/na glândula parótida. Palpam-se à frente da orelha, comparando ambos os lados.

Relações importantes: íntima relação com a glândula parótida; processos inflamatórios da parótida e estruturas drenadas podem cursar com dor local.

Drenagem principal: couro cabeludo anterolateral, pálpebras e conjuntiva laterais, região temporal, parte lateral da face e orelha anterior.

Saída: drenam para os cervicais superficiais e/ou diretamente para os cervicais profundos.

Linfonodos retroauriculares / mastoideos

Topografia e palpação: atrás do pavilhão auricular, sobre a região mastoidea do osso temporal. Palpam-se com os dedos logo posterior à orelha.

Drenagem principal: couro cabeludo posterior à orelha, parte posterior do pavilhão auricular e conduto auditivo externo (porções superficiais).

Saída: drenam para os cervicais superficiais e depois para os cervicais profundos.

Linfonodos occipitais

Topografia e palpação: na base do crânio, próximos à linha nucal superior, na região occipital. Palpam-se na transição crânio-pescoço, atrás.

Drenagem principal: couro cabeludo posterior (região occipital).

Saída: drenam para os cervicais superficiais e, em seguida, para os cervicais profundos.

Linfonodos cervicais superficiais (ao longo da veia jugular externa)

Topografia e palpação: dispõem-se superficialmente ao ECM, acompanhando o trajeto da veia jugular externa. Palpam-se ao longo da face lateral do pescoço, sobre o ECM, do ângulo da mandíbula em direção à clavícula.

Relações importantes: por estarem superficiais ao ECM, costumam ser mais acessíveis à palpação do que os profundos.

Drenagem principal: recebem eferentes dos grupos do anel superficial (parotídeos, mastoideos, occipitais) e drenagens de pele e tecidos superficiais do pescoço.

Saída: convergem para os cervicais profundos, atravessando ou contornando a borda posterior do ECM.

Cadeia cervical profunda: eixo ao longo da veia jugular interna

Os linfonodos cervicais profundos formam a principal via coletora do pescoço. Estão associados à veia jugular interna dentro/adjacentes à bainha carotídea, profundos ao ECM. Por isso, aumentos de volume podem ser menos evidentes e exigem palpação dirigida, muitas vezes com o músculo relaxado e com manobras que “desloquem” o ECM.

Como localizar (marcos anatômicos)

  • ECM: a cadeia profunda corre profunda a ele; a palpação costuma ser feita ao longo da borda anterior do ECM, pressionando suavemente em direção à bainha carotídea.
  • Bainha carotídea: referência para o trajeto da jugular interna; a cadeia profunda acompanha esse eixo do ângulo da mandíbula até a base do pescoço.

Linfonodo jugulodigástrico (alto cervical profundo)

Topografia: próximo ao ângulo da mandíbula, associado ao ventre posterior do digástrico, na porção superior da cadeia profunda.

Importância prática: frequentemente aumenta em processos da orofaringe (ex.: amigdalites) e em drenagens da cavidade oral posterior.

Drenagem principal: tonsilas palatinas, orofaringe, parte posterior da língua e regiões que convergem para o alto jugular.

Linfonodo jugulo-omohióideo (baixo cervical profundo)

Topografia: mais inferior, associado ao tendão/interseção do músculo omo-hióideo, ao longo da jugular interna.

Importância prática: pode receber drenagem relevante da língua (especialmente porções mais posteriores/laterais, dependendo das vias) e de estruturas que convergem para o baixo jugular.

Drenagem principal: vias profundas da cavidade oral e língua, além de eferentes de outros linfonodos profundos.

Convergência para o tronco jugular

Os eferentes da cadeia cervical profunda unem-se formando o tronco jugular de cada lado. Esse tronco representa a “saída principal” da linfa da cabeça e pescoço após a filtragem nos linfonodos profundos. Em termos de raciocínio anatômico, pense no tronco jugular como o coletor final do eixo profundo, recebendo também o fluxo que veio do anel superficial via cervicais superficiais.

Mapas de drenagem por sub-regiões (cabeça e pescoço)

1) Couro cabeludo

Sub-regiãoPrimeiros linfonodos mais prováveisFluxo subsequente típico
Anterior/lateral (temporal)Pré-auriculares/parotídeosCervicais superficiais → Cervicais profundos → Tronco jugular
Posterior à orelhaRetroauriculares/mastoideosCervicais superficiais → Cervicais profundos → Tronco jugular
OccipitalOccipitaisCervicais superficiais → Cervicais profundos → Tronco jugular

Exemplo prático: uma lesão inflamada no couro cabeludo occipital tende a cursar com sensibilidade nos linfonodos occipitais e, se persistente, pode repercutir em cervicais superficiais.

2) Face e região parotídea

Sub-regiãoPrimeiros linfonodos mais prováveisObservações anatômicas
Pálpebra/conjuntiva lateral, têmporaPré-auriculares/parotídeosRelação direta com a glândula parótida
Bochecha, nariz lateral, lábio superiorSubmandibularesAo longo da borda mandibular
Centro do lábio inferior e queixoSubmentaisTriângulo submental

Exemplo prático: uma infecção cutânea na bochecha costuma repercutir mais em submandibulares do que em submentais; já uma lesão no centro do queixo tende a “apontar” para submentais.

3) Cavidade oral (mapa funcional)

EstruturaPrimeiros linfonodos mais prováveisFluxo subsequente típico
Ponta da língua e assoalho anteriorSubmentaisSubmandibulares → Cervicais profundos
Margens anteriores da língua, gengivas e dentes (muitos territórios)SubmandibularesCervicais profundos (alto) → Tronco jugular
Porções posteriores/profundas (inclui vias para jugulares profundos)Cervicais profundos (incl. jugulodigástrico/jugulo-omohióideo)Tronco jugular

Nota clínica: a drenagem da língua é frequentemente bilateral e pode alcançar precocemente a cadeia profunda, o que reforça a necessidade de examinar ambos os lados do pescoço.

4) Faringe

Rota dominante: a faringe drena principalmente para a cadeia cervical profunda, com destaque para o segmento superior (região do jugulodigástrico) em drenagens da orofaringe, incluindo tonsilas palatinas.

Exemplo prático: em faringoamigdalites, é comum dor e aumento de linfonodos altos cervicais profundos, percebidos como sensibilidade próxima ao ângulo da mandíbula, profunda à borda do ECM.

5) Laringe

Rota dominante: a laringe drena para linfonodos cervicais profundos, com padrões que variam conforme o nível (supraglótico tende a drenar mais superiormente; regiões mais inferiores tendem a convergir para porções mais baixas da cadeia profunda). O ponto-chave para o mapa do capítulo é que a laringe converge para o eixo jugular profundo e, daí, para o tronco jugular.

Passo a passo prático: como mapear e palpar cadeias cervicais por sub-regiões

Preparação e posição

  • Posicione o paciente sentado, com ombros relaxados.
  • Peça leve flexão do pescoço para relaxar tecidos superficiais; para examinar a cadeia profunda, pode-se solicitar rotação suave da cabeça para o lado oposto ao examinado, reduzindo a tensão do ECM.
  • Use polpas digitais e movimentos circulares pequenos, comparando sempre os dois lados.

Roteiro 1: anel superficial (da frente para trás)

  1. Submentais: sob o queixo, entre os ventres anteriores do digástrico.
  2. Submandibulares: ao longo da borda inferior da mandíbula, do mento ao ângulo mandibular.
  3. Pré-auriculares/parotídeos: à frente do trago e sobre a parótida.
  4. Retroauriculares/mastoideos: atrás da orelha, sobre a mastoide.
  5. Occipitais: base do crânio, região occipital.

Roteiro 2: cadeia cervical superficial (jugular externa)

  1. Identifique o trajeto do ECM (da mastoide ao esterno/clavícula).
  2. Palpe sobre o ECM, acompanhando a linha aproximada da veia jugular externa, do ângulo da mandíbula em direção à clavícula.
  3. Se houver sensibilidade/aumento, retorne ao “mapa” da região drenada (couro cabeludo posterior, orelha, face lateral) para buscar o foco.

Roteiro 3: cadeia cervical profunda (jugular interna)

  1. Palpe ao longo da borda anterior do ECM, pressionando suavemente em profundidade (direção da bainha carotídea).
  2. Alto jugular (jugulodigástrico): explore próximo ao ângulo da mandíbula, profundo ao ECM e adjacente ao ventre posterior do digástrico.
  3. Baixo jugular (jugulo-omohióideo): desça acompanhando o eixo da jugular interna até a região onde o omo-hióideo cruza o pescoço (aproximação clínica: terço inferior lateral do pescoço).
  4. Integre achados com sintomas: dor de garganta/tonsilas sugere alto jugular; queixas de cavidade oral/língua podem repercutir em alto e/ou baixo jugular.

Relações anatômicas essenciais para orientar o raciocínio

Esternocleidomastoideo (ECM)

Funciona como “cobertura” da cadeia profunda e como referência para separar palpação superficial (sobre o músculo) da profunda (bordas do músculo em direção medial). Linfonodos sobre o ECM tendem a corresponder aos cervicais superficiais; linfonodos profundos ao ECM tendem a corresponder aos cervicais profundos.

Bainha carotídea

É o corredor anatômico onde a veia jugular interna percorre o pescoço; a cadeia cervical profunda acompanha esse trajeto. Por isso, drenagens de estruturas profundas (faringe, laringe, cavidade oral profunda) convergem cedo para essa região.

Glândula parótida

Além de ser marco palpável pré-auricular, a parótida relaciona-se com linfonodos parotídeos (superficiais e intraglandulares). Alterações inflamatórias da face lateral, couro cabeludo temporal e estruturas perioculares laterais podem manifestar-se como linfonodomegalia nessa área, antes de seguir para cervicais superficiais/profundos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao avaliar uma inflamação na orofaringe (como nas tonsilas palatinas), qual linfonodo cervical profundo tende a aumentar com maior frequência e onde ele se localiza?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A orofaringe e as tonsilas palatinas drenam predominantemente para a cadeia cervical profunda, com destaque para o segmento alto, onde se encontra o linfonodo jugulodigástrico, próximo ao ângulo da mandíbula.

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