Visão topográfica das cadeias cervicais
As cadeias linfonodais cervicais organizam-se como “estações” em camadas: um anel mais superficial, que recebe grande parte da linfa da pele e estruturas externas da cabeça e pescoço, e um eixo profundo, que acompanha a veia jugular interna e recebe drenagens profundas (faringe, laringe, cavidade oral profunda), além de coletar o fluxo vindo dos grupos superficiais. Na prática clínica, essa organização ajuda a prever para onde uma infecção, inflamação ou neoplasia tende a drenar.
Do ponto de vista de marcos palpáveis e relações anatômicas, três referências guiam o mapeamento: (1) o músculo esternocleidomastoideo (ECM), que “divide” o pescoço em regiões e cobre parte da cadeia profunda; (2) a bainha carotídea, onde correm a artéria carótida e a veia jugular interna (e, junto a ela, a cadeia cervical profunda); (3) a glândula parótida, que abriga/relaciona-se com linfonodos pré-auriculares/parotídeos e recebe drenagens da face lateral e couro cabeludo anterior-lateral.
Mapa mental por camadas
- Anel superficial (pericervical): submentais, submandibulares, pré-auriculares/parotídeos, retroauriculares/mastoideos, occipitais e cervicais superficiais (ao longo da veia jugular externa).
- Eixo profundo: cervicais profundos (ao longo da veia jugular interna), com destaque para os linfonodos jugulodigástrico (alto) e jugulo-omohióideo (baixo).
- Convergência: a drenagem final do eixo profundo forma o tronco jugular (direito e esquerdo), que segue para os grandes ductos linfáticos do pescoço.
Grupos cervicais superficiais: localização, marcos e drenagens
Linfonodos submentais
Topografia e palpação: situam-se no triângulo submental, abaixo do mento (queixo), entre os ventres anteriores do músculo digástrico. Palpam-se com a polpa dos dedos sob o queixo, com a cabeça levemente fletida para relaxar a região.
Drenagem principal (o que chega): região central do lábio inferior, pele do queixo, assoalho anterior da boca e porção anterior da língua (especialmente a ponta).
Para onde drenam (saída): principalmente para os submandibulares e, em seguida, para a cadeia cervical profunda.
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Linfonodos submandibulares
Topografia e palpação: ao longo da borda inferior da mandíbula, associados à glândula submandibular e vasos faciais. Palpam-se deslizando os dedos sob o corpo da mandíbula, do mento em direção ao ângulo mandibular.
Drenagem principal: grande parte da face anterior (bochecha, nariz lateral), lábio superior e porções laterais do lábio inferior, gengivas, dentes (exceto alguns territórios que podem drenar para submentais), assoalho da boca e porções anteriores da língua (principalmente margens).
Saída: drenam para os cervicais profundos, com frequência para o segmento superior da cadeia (próximo ao jugulodigástrico).
Linfonodos pré-auriculares / parotídeos (superficiais e intraparotídeos)
Topografia e palpação: anteriores ao trago e sobre/na glândula parótida. Palpam-se à frente da orelha, comparando ambos os lados.
Relações importantes: íntima relação com a glândula parótida; processos inflamatórios da parótida e estruturas drenadas podem cursar com dor local.
Drenagem principal: couro cabeludo anterolateral, pálpebras e conjuntiva laterais, região temporal, parte lateral da face e orelha anterior.
Saída: drenam para os cervicais superficiais e/ou diretamente para os cervicais profundos.
Linfonodos retroauriculares / mastoideos
Topografia e palpação: atrás do pavilhão auricular, sobre a região mastoidea do osso temporal. Palpam-se com os dedos logo posterior à orelha.
Drenagem principal: couro cabeludo posterior à orelha, parte posterior do pavilhão auricular e conduto auditivo externo (porções superficiais).
Saída: drenam para os cervicais superficiais e depois para os cervicais profundos.
Linfonodos occipitais
Topografia e palpação: na base do crânio, próximos à linha nucal superior, na região occipital. Palpam-se na transição crânio-pescoço, atrás.
Drenagem principal: couro cabeludo posterior (região occipital).
Saída: drenam para os cervicais superficiais e, em seguida, para os cervicais profundos.
Linfonodos cervicais superficiais (ao longo da veia jugular externa)
Topografia e palpação: dispõem-se superficialmente ao ECM, acompanhando o trajeto da veia jugular externa. Palpam-se ao longo da face lateral do pescoço, sobre o ECM, do ângulo da mandíbula em direção à clavícula.
Relações importantes: por estarem superficiais ao ECM, costumam ser mais acessíveis à palpação do que os profundos.
Drenagem principal: recebem eferentes dos grupos do anel superficial (parotídeos, mastoideos, occipitais) e drenagens de pele e tecidos superficiais do pescoço.
Saída: convergem para os cervicais profundos, atravessando ou contornando a borda posterior do ECM.
Cadeia cervical profunda: eixo ao longo da veia jugular interna
Os linfonodos cervicais profundos formam a principal via coletora do pescoço. Estão associados à veia jugular interna dentro/adjacentes à bainha carotídea, profundos ao ECM. Por isso, aumentos de volume podem ser menos evidentes e exigem palpação dirigida, muitas vezes com o músculo relaxado e com manobras que “desloquem” o ECM.
Como localizar (marcos anatômicos)
- ECM: a cadeia profunda corre profunda a ele; a palpação costuma ser feita ao longo da borda anterior do ECM, pressionando suavemente em direção à bainha carotídea.
- Bainha carotídea: referência para o trajeto da jugular interna; a cadeia profunda acompanha esse eixo do ângulo da mandíbula até a base do pescoço.
Linfonodo jugulodigástrico (alto cervical profundo)
Topografia: próximo ao ângulo da mandíbula, associado ao ventre posterior do digástrico, na porção superior da cadeia profunda.
Importância prática: frequentemente aumenta em processos da orofaringe (ex.: amigdalites) e em drenagens da cavidade oral posterior.
Drenagem principal: tonsilas palatinas, orofaringe, parte posterior da língua e regiões que convergem para o alto jugular.
Linfonodo jugulo-omohióideo (baixo cervical profundo)
Topografia: mais inferior, associado ao tendão/interseção do músculo omo-hióideo, ao longo da jugular interna.
Importância prática: pode receber drenagem relevante da língua (especialmente porções mais posteriores/laterais, dependendo das vias) e de estruturas que convergem para o baixo jugular.
Drenagem principal: vias profundas da cavidade oral e língua, além de eferentes de outros linfonodos profundos.
Convergência para o tronco jugular
Os eferentes da cadeia cervical profunda unem-se formando o tronco jugular de cada lado. Esse tronco representa a “saída principal” da linfa da cabeça e pescoço após a filtragem nos linfonodos profundos. Em termos de raciocínio anatômico, pense no tronco jugular como o coletor final do eixo profundo, recebendo também o fluxo que veio do anel superficial via cervicais superficiais.
Mapas de drenagem por sub-regiões (cabeça e pescoço)
1) Couro cabeludo
| Sub-região | Primeiros linfonodos mais prováveis | Fluxo subsequente típico |
|---|---|---|
| Anterior/lateral (temporal) | Pré-auriculares/parotídeos | Cervicais superficiais → Cervicais profundos → Tronco jugular |
| Posterior à orelha | Retroauriculares/mastoideos | Cervicais superficiais → Cervicais profundos → Tronco jugular |
| Occipital | Occipitais | Cervicais superficiais → Cervicais profundos → Tronco jugular |
Exemplo prático: uma lesão inflamada no couro cabeludo occipital tende a cursar com sensibilidade nos linfonodos occipitais e, se persistente, pode repercutir em cervicais superficiais.
2) Face e região parotídea
| Sub-região | Primeiros linfonodos mais prováveis | Observações anatômicas |
|---|---|---|
| Pálpebra/conjuntiva lateral, têmpora | Pré-auriculares/parotídeos | Relação direta com a glândula parótida |
| Bochecha, nariz lateral, lábio superior | Submandibulares | Ao longo da borda mandibular |
| Centro do lábio inferior e queixo | Submentais | Triângulo submental |
Exemplo prático: uma infecção cutânea na bochecha costuma repercutir mais em submandibulares do que em submentais; já uma lesão no centro do queixo tende a “apontar” para submentais.
3) Cavidade oral (mapa funcional)
| Estrutura | Primeiros linfonodos mais prováveis | Fluxo subsequente típico |
|---|---|---|
| Ponta da língua e assoalho anterior | Submentais | Submandibulares → Cervicais profundos |
| Margens anteriores da língua, gengivas e dentes (muitos territórios) | Submandibulares | Cervicais profundos (alto) → Tronco jugular |
| Porções posteriores/profundas (inclui vias para jugulares profundos) | Cervicais profundos (incl. jugulodigástrico/jugulo-omohióideo) | Tronco jugular |
Nota clínica: a drenagem da língua é frequentemente bilateral e pode alcançar precocemente a cadeia profunda, o que reforça a necessidade de examinar ambos os lados do pescoço.
4) Faringe
Rota dominante: a faringe drena principalmente para a cadeia cervical profunda, com destaque para o segmento superior (região do jugulodigástrico) em drenagens da orofaringe, incluindo tonsilas palatinas.
Exemplo prático: em faringoamigdalites, é comum dor e aumento de linfonodos altos cervicais profundos, percebidos como sensibilidade próxima ao ângulo da mandíbula, profunda à borda do ECM.
5) Laringe
Rota dominante: a laringe drena para linfonodos cervicais profundos, com padrões que variam conforme o nível (supraglótico tende a drenar mais superiormente; regiões mais inferiores tendem a convergir para porções mais baixas da cadeia profunda). O ponto-chave para o mapa do capítulo é que a laringe converge para o eixo jugular profundo e, daí, para o tronco jugular.
Passo a passo prático: como mapear e palpar cadeias cervicais por sub-regiões
Preparação e posição
- Posicione o paciente sentado, com ombros relaxados.
- Peça leve flexão do pescoço para relaxar tecidos superficiais; para examinar a cadeia profunda, pode-se solicitar rotação suave da cabeça para o lado oposto ao examinado, reduzindo a tensão do ECM.
- Use polpas digitais e movimentos circulares pequenos, comparando sempre os dois lados.
Roteiro 1: anel superficial (da frente para trás)
- Submentais: sob o queixo, entre os ventres anteriores do digástrico.
- Submandibulares: ao longo da borda inferior da mandíbula, do mento ao ângulo mandibular.
- Pré-auriculares/parotídeos: à frente do trago e sobre a parótida.
- Retroauriculares/mastoideos: atrás da orelha, sobre a mastoide.
- Occipitais: base do crânio, região occipital.
Roteiro 2: cadeia cervical superficial (jugular externa)
- Identifique o trajeto do ECM (da mastoide ao esterno/clavícula).
- Palpe sobre o ECM, acompanhando a linha aproximada da veia jugular externa, do ângulo da mandíbula em direção à clavícula.
- Se houver sensibilidade/aumento, retorne ao “mapa” da região drenada (couro cabeludo posterior, orelha, face lateral) para buscar o foco.
Roteiro 3: cadeia cervical profunda (jugular interna)
- Palpe ao longo da borda anterior do ECM, pressionando suavemente em profundidade (direção da bainha carotídea).
- Alto jugular (jugulodigástrico): explore próximo ao ângulo da mandíbula, profundo ao ECM e adjacente ao ventre posterior do digástrico.
- Baixo jugular (jugulo-omohióideo): desça acompanhando o eixo da jugular interna até a região onde o omo-hióideo cruza o pescoço (aproximação clínica: terço inferior lateral do pescoço).
- Integre achados com sintomas: dor de garganta/tonsilas sugere alto jugular; queixas de cavidade oral/língua podem repercutir em alto e/ou baixo jugular.
Relações anatômicas essenciais para orientar o raciocínio
Esternocleidomastoideo (ECM)
Funciona como “cobertura” da cadeia profunda e como referência para separar palpação superficial (sobre o músculo) da profunda (bordas do músculo em direção medial). Linfonodos sobre o ECM tendem a corresponder aos cervicais superficiais; linfonodos profundos ao ECM tendem a corresponder aos cervicais profundos.
Bainha carotídea
É o corredor anatômico onde a veia jugular interna percorre o pescoço; a cadeia cervical profunda acompanha esse trajeto. Por isso, drenagens de estruturas profundas (faringe, laringe, cavidade oral profunda) convergem cedo para essa região.
Glândula parótida
Além de ser marco palpável pré-auricular, a parótida relaciona-se com linfonodos parotídeos (superficiais e intraglandulares). Alterações inflamatórias da face lateral, couro cabeludo temporal e estruturas perioculares laterais podem manifestar-se como linfonodomegalia nessa área, antes de seguir para cervicais superficiais/profundos.