Como se orientar: “os linfonodos seguem as artérias”
Nas cadeias linfonodais abdominais, a regra topográfica mais útil é usar os eixos vasculares como mapa: tronco celíaco, artéria mesentérica superior (AMS), artéria mesentérica inferior (AMI) e a aorta abdominal (com a veia cava inferior como referência paralela). Em geral, os linfonodos se dispõem ao longo das artérias que irrigam um órgão, recebem linfa dos vasos linfáticos que acompanham esses ramos arteriais e, por convergência, drenam para troncos linfáticos que alcançam a cisterna do quilo e seguem para o ducto torácico.
Para estudar e aplicar clinicamente (imagem, cirurgia, oncologia), organize em quatro grupos: pré-aórticos (celíacos, mesentéricos superiores e inferiores), para-aórticos/lombares, ilíacos comuns, ilíacos externos e internos. A seguir, cada grupo é descrito com seus territórios viscerais e rotas de convergência.
1) Linfonodos pré-aórticos (viscerais): celíacos, mesentéricos superiores e inferiores
Os pré-aórticos ficam anteriormente à aorta, próximos às origens do tronco celíaco, AMS e AMI. Eles são os principais “coletores” da linfa dos órgãos do tubo digestivo e anexos (fígado, pâncreas, baço), seguindo a lógica dos pedículos vasculares.
1.1 Celíacos (e subgrupos periarteriais)
Relacionam-se ao tronco celíaco e seus ramos (gástrica esquerda, hepática comum, esplênica). Na prática, pense em “linfonodos ao redor de cada artéria” que depois convergem para o grupo celíaco.
- Estômago: a drenagem acompanha as curvaturas e vasos gástricos.
- Curvatura menor → linfonodos ao longo da gástrica esquerda e gástrica direita → convergência para celíacos.
- Curvatura maior → linfonodos ao longo das gastro-omentais e vasos curtos → via esplênica/epiploica → celíacos.
- Região pilórica tende a drenar também para linfonodos associados à hepática (via gastroduodenal/hepática comum), antes de alcançar os celíacos.
- Fígado e vias biliares: a linfa acompanha o pedículo hepático (tríade portal).
- Vasos linfáticos do parênquima e da cápsula convergem para linfonodos no hilo hepático e ao longo da artéria hepática e do colédoco → celíacos.
- Uma parte da drenagem superficial pode seguir trajetos diafragmáticos, mas no contexto abdominal a via dominante de convergência visceral é para o território celíaco.
- Pâncreas: acompanha principalmente a esplênica (corpo/cauda) e a gastroduodenal/hepática (cabeça).
- Cabeça → linfonodos pancreatoduodenais/peri-hepáticos → celíacos e, por continuidade com o mesentério, pode alcançar a via da AMS.
- Corpo/cauda → linfonodos ao longo da artéria esplênica → celíacos.
- Baço: segue a artéria esplênica.
- Linfa do hilo esplênico → linfonodos ao longo da esplênica → celíacos.
1.2 Mesentéricos superiores (território da AMS)
Recebem linfa do intestino médio: duodeno distal, jejuno, íleo, ceco, apêndice, cólon ascendente e 2/3 proximais do cólon transverso. A drenagem acompanha arcadas e ramos da AMS, com uma sequência típica de “estações” no mesentério.
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- Intestino delgado (jejuno/íleo): vasos linfáticos seguem as artérias jejunais/ileais no mesentério.
- Linfonodos próximos à parede intestinal (perientéricos) → linfonodos intermediários ao longo das arcadas → linfonodos centrais junto ao tronco da AMS (mesentéricos superiores) → convergência para troncos que seguem à cisterna do quilo.
- Íleo terminal, ceco e apêndice: acompanham ramos ileocólicos.
- Pericecais/periapendiculares → ileocólicos → mesentéricos superiores.
- Cólon ascendente e transverso proximal: seguem ramos cólicos direito e médio.
- Linfonodos epicólicos/paracólicos (junto à borda do cólon) → intermediários ao longo dos vasos cólicos → centrais na raiz da AMS → mesentéricos superiores.
1.3 Mesentéricos inferiores (território da AMI)
Recebem linfa do intestino posterior: 1/3 distal do transverso, cólon descendente, sigmoide e reto superior (a porção média e inferior do reto tem forte conexão pélvica, descrita adiante).
- Cólon descendente e sigmoide: seguem artérias cólica esquerda e sigmoideas.
- Epicólicos/paracólicos → intermediários ao longo dos vasos → centrais na origem da AMI (mesentéricos inferiores) → convergência para troncos que alcançam a cisterna do quilo.
- Reto superior: acompanha a artéria retal superior (ramo da AMI) → linfonodos ao longo desse pedículo → mesentéricos inferiores.
Nota prática: porções mais baixas do reto e canal anal têm rotas pélvicas e perineais importantes; aqui o foco é a via abdominal superior via AMI.
2) Linfonodos para-aórticos (lombares): aorta abdominal e veia cava inferior como eixos
Os para-aórticos/lombares distribuem-se ao longo da aorta abdominal e da veia cava inferior, recebendo linfa principalmente de órgãos retroperitoneais e de estruturas que drenam por vias gonadais. São um ponto-chave de convergência entre drenagens viscerais profundas e troncos que seguem para a cisterna do quilo.
2.1 Rins e suprarrenais
- Rins: a drenagem acompanha as artérias renais e veias renais até linfonodos no hilo renal e ao longo dos grandes vasos.
- Hilares renais → para-aórticos (incluindo regiões laterais à aorta e próximas à cava) → troncos lombares → cisterna do quilo.
- Suprarrenais: drenagem profunda retroperitoneal.
- Vasos linfáticos acompanham ramos suprarrenais e vasos renais → para-aórticos → troncos lombares → cisterna do quilo.
2.2 Vias gonadais (testículos/ovários) e implicações topográficas
As gônadas se formam alto no retroperitônio durante o desenvolvimento e mantêm drenagem linfática para cadeias altas, acompanhando os vasos gonadais.
- Testículos: drenam para linfonodos ao longo dos vasos testiculares → para-aórticos (frequentemente próximos ao nível das artérias renais) → troncos lombares → cisterna do quilo.
- Ovários: drenam ao longo dos vasos ovarianos → para-aórticos → troncos lombares → cisterna do quilo.
Aplicação prática: aumento de linfonodos para-aórticos pode estar relacionado a processos em rins/suprarrenais ou gônadas, mesmo que a queixa seja pélvica ou escrotal, porque a drenagem segue o pedículo gonadal até o retroperitônio alto.
3) Linfonodos ilíacos comuns: “ponte” entre abdome e pelve
Os ilíacos comuns ficam ao longo dos vasos ilíacos comuns, na bifurcação da aorta. Funcionam como estação de passagem e convergência: recebem linfa dos ilíacos externos e internos e também podem receber contribuições de estruturas profundas que seguem trajetos pélvicos superiores. A drenagem eferente tende a seguir para para-aórticos e então para a cisterna do quilo.
- Fluxo típico: ilíacos internos/externos → ilíacos comuns → para-aórticos → troncos lombares → cisterna do quilo.
4) Linfonodos ilíacos externos e internos: drenagens pélvicas e conexões com o cólon distal
Use como guia os eixos artéria ilíaca externa (trajeto para o membro inferior) e artéria ilíaca interna (ramificações para vísceras pélvicas). Esses grupos são essenciais para entender rotas linfáticas de órgãos pélvicos e a transição entre drenagem abdominal (AMI) e pélvica.
4.1 Ilíacos externos
Associados ao eixo ilíaco externo, recebem linfa de estruturas que acompanham esse trajeto e de porções anteriores/anterolaterais da pelve.
- Convergência: ilíacos externos → ilíacos comuns → para-aórticos.
4.2 Ilíacos internos
Associados aos ramos viscerais da ilíaca interna, recebem linfa de vísceras pélvicas e de porções do reto que drenam inferiormente (em contraste com o reto superior via AMI).
- Reto médio/inferior (via pélvica): drenagem pode seguir vasos retais médio/inferior e trajetos pélvicos → ilíacos internos → ilíacos comuns → para-aórticos.
- Órgãos pélvicos: drenagens viscerais pélvicas profundas tendem a convergir para ilíacos internos antes de alcançar ilíacos comuns.
Nota de integração com o cólon: o sigmoide e o reto superior são dominados pela via da AMI (mesentéricos inferiores), enquanto porções retais mais baixas têm maior participação das cadeias ilíacas internas. Essa “mudança de eixo” é útil para prever rotas de disseminação e planejar avaliação por imagem.
Passo a passo prático: como prever a cadeia linfonodal de um órgão abdominal
- Identifique a artéria principal do órgão (tronco celíaco, AMS, AMI, renal, gonadal, ilíaca interna/externa).
- Siga o pedículo arterial de distal para proximal: pequenos ramos → tronco arterial maior. Assuma que os linfonodos acompanham esse caminho.
- Classifique o destino:
- Se o órgão é do tubo digestivo e anexos altos (estômago, fígado, baço, pâncreas) → tende a celíacos.
- Se é intestino médio → mesentéricos superiores.
- Se é intestino posterior (cólon distal e reto superior) → mesentéricos inferiores.
- Se é retroperitoneal (rins, suprarrenais) ou segue vasos gonadais → para-aórticos.
- Se é pélvico profundo/porções retais inferiores → ilíacos internos (com passagem por ilíacos comuns).
- Determine a convergência final: pré-aórticos e para-aórticos drenam para troncos que alcançam a cisterna do quilo e seguem no ducto torácico; ilíacos internos/externos convergem para ilíacos comuns e então para para-aórticos.
Mapa-resumo (órgão → cadeia principal)
| Órgão/segmento | Eixo vascular guia | Cadeia linfonodal predominante |
|---|---|---|
| Estômago | Gástricas, gastro-omentais, esplênica | Celíacos |
| Fígado/vias biliares | Artéria hepática e pedículo hepático | Celíacos |
| Pâncreas | Esplênica; hepática/gastroduodenal; continuidade com AMS | Celíacos (com conexões para AMS) |
| Baço | Artéria esplênica | Celíacos |
| Jejuno/íleo | AMS (arcadas mesentéricas) | Mesentéricos superiores |
| Ceco/apêndice/ascendente/transverso proximal | AMS (ileocólica, cólica direita, cólica média) | Mesentéricos superiores |
| Transverso distal/descendente/sigmoide | AMI (cólica esquerda, sigmoideas) | Mesentéricos inferiores |
| Reto superior | Artéria retal superior (AMI) | Mesentéricos inferiores |
| Reto médio/inferior (via pélvica) | Ramos pélvicos (ilíaca interna) | Ilíacos internos → ilíacos comuns |
| Rins | Artérias renais; aorta/cava | Para-aórticos (lombares) |
| Suprarrenais | Ramos suprarrenais; aorta/cava | Para-aórticos (lombares) |
| Testículos/ovários | Vasos gonadais | Para-aórticos (lombares) |