Bombas de infusão: cálculo de taxa em mL/h e programação segura

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que a bomba de infusão “precisa saber”

Na prática, a bomba entrega volume por tempo (mL/h). Já a prescrição pode vir como dose por tempo (mg/h) ou dose por tempo em minutos (mcg/min). O cálculo consiste em traduzir a dose prescrita para mL/h usando a concentração da solução (mg/mL ou mcg/mL) e, em seguida, programar a bomba com checagens de segurança.

Relação central:

Taxa (mL/h) = Dose por tempo (mg/h ou mcg/h) ÷ Concentração (mg/mL ou mcg/mL)

Quando a dose estiver em mcg/min, primeiro converta para mcg/h multiplicando por 60.

mcg/h = mcg/min × 60

Passo a passo: de mg/h para mL/h

1) Identifique a dose por hora

Exemplo: prescrição de 10 mg/h.

2) Confirme a concentração da solução (mg/mL)

Exemplo de solução preparada: 50 mg em 50 mL.

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Concentração = 50 mg ÷ 50 mL = 1 mg/mL

3) Calcule a taxa em mL/h

Taxa = 10 mg/h ÷ 1 mg/mL = 10 mL/h

4) Faça uma checagem rápida de plausibilidade

  • Se a concentração é 1 mg/mL, então mL/h e mg/h ficam numericamente iguais (10 mg/h → 10 mL/h). Isso ajuda a detectar erro de casa decimal.
  • Verifique se a taxa calculada é compatível com o volume total disponível e o tempo esperado de infusão.

Passo a passo: de mcg/min para mL/h

1) Converta mcg/min para mcg/h

Exemplo: prescrição de 5 mcg/min.

mcg/h = 5 × 60 = 300 mcg/h

2) Determine a concentração em mcg/mL

Exemplo de solução preparada: 2 mg em 50 mL.

Converta a massa para mcg e calcule:

2 mg = 2000 mcg
Concentração = 2000 mcg ÷ 50 mL = 40 mcg/mL

3) Calcule a taxa em mL/h

Taxa = 300 mcg/h ÷ 40 mcg/mL = 7,5 mL/h

4) Checagem rápida de plausibilidade

  • Se a concentração é 40 mcg/mL, uma taxa de 7,5 mL/h entrega 7,5 × 40 = 300 mcg/h, que corresponde a 5 mcg/min.
  • Se você obtiver uma taxa muito alta (ex.: > 100 mL/h) para um fármaco potente, reavalie unidade (mcg vs mg) e conversão min→h.

Concentração padrão: como construir para facilitar programação e reduzir erro

Concentração padrão é uma forma de preparo que torna o cálculo e a programação mais diretos, reduzindo risco de erro por conversões repetidas. A ideia é escolher uma concentração que gere relações fáceis (por exemplo, 1 mg/mL ou 10 mcg/mL), respeitando protocolos locais e estabilidade do medicamento.

Estratégia 1: “1 mg/mL” (muito útil quando a prescrição vem em mg/h)

Se o objetivo é 1 mg/mL, então:

mL/h = mg/h

Exemplo de construção:

  • Desejo: 1 mg/mL em seringa de 50 mL
  • Quantidade de fármaco necessária: 1 mg/mL × 50 mL = 50 mg
  • Preparo: 50 mg em volume final de 50 mL

Programação fica direta: 12 mg/h → 12 mL/h.

Estratégia 2: “10 mcg/mL” (útil para prescrições em mcg/min com taxas mais intuitivas)

Se a concentração for 10 mcg/mL, então:

Taxa (mL/h) = (mcg/min × 60) ÷ 10 = mcg/min × 6

Exemplo de construção em 50 mL:

  • Desejo: 10 mcg/mL em 50 mL
  • Quantidade total: 10 mcg/mL × 50 mL = 500 mcg (0,5 mg)
  • Preparo: 0,5 mg em volume final de 50 mL

Exemplo de uso: 5 mcg/min → taxa = 5 × 6 = 30 mL/h.

Atenção: concentrações muito baixas podem gerar taxas altas; concentrações muito altas podem gerar taxas muito baixas (sensíveis a pequenos erros). A escolha deve equilibrar segurança, limites da bomba e prática do serviço.

Exemplos práticos com solução preparada (50 mg em 50 mL)

Exemplo 1: atingir dose-alvo em mg/h

Solução: 50 mg em 50 mL → 1 mg/mL.

Alvo: 18 mg/h.

Taxa = 18 mg/h ÷ 1 mg/mL = 18 mL/h

Se a seringa tem 50 mL, tempo aproximado até acabar:

Tempo ≈ 50 mL ÷ 18 mL/h ≈ 2,78 h (≈ 2 h 47 min)

Essa estimativa ajuda a planejar troca de seringa e evitar interrupção.

Exemplo 2: titulação por etapas (ajuste de dose)

Mesma solução (1 mg/mL). Protocolo de titulação: aumentar 2 mg/h a cada 15 min até resposta clínica, máximo 20 mg/h.

EtapaDose (mg/h)Taxa (mL/h)Checagem rápida
Inicial10101 mg/mL → números iguais
+15 min1212Confirmar dentro do máximo
+30 min1414Reavaliar resposta/efeitos
+45 min1616Checar alarmes/linha
+60 min1818Planejar troca de seringa
Máximo2020Não ultrapassar

Ao titular, registre sempre hora, dose, taxa e resposta clínica. Em bombas com biblioteca de drogas, selecione o medicamento correto para que limites (soft/hard) ajudem a prevenir programação fora do protocolo.

Limites, alarmes e “erros típicos” na programação

Limites (soft/hard) e como usar a seu favor

  • Soft limit: a bomba alerta, mas permite seguir após confirmação. Use para “parar e pensar”: dose/taxa faz sentido? unidade está correta?
  • Hard limit: a bomba bloqueia a programação. Se você bater em hard limit, não “contorne” mudando o medicamento ou unidade; revise prescrição, concentração e seleção do fármaco na biblioteca.

Alarmes comuns e o que verificar

  • Oclusão: pinça fechada, dobra no equipo, filtro obstruído, acesso venoso infiltrado, torneira fechada, pressão elevada por cateter fino.
  • Ar na linha: bolhas, conexão frouxa, seringa mal encaixada.
  • Fim de infusão / volume concluído: VTBI atingido, seringa vazia.
  • Bateria baixa: risco de interrupção durante transporte.

Erros típicos a prevenir

  • Unidade errada: programar mg/h quando a prescrição está em mcg/min (ou vice-versa).
  • Concentração divergente do preparo real: programar como se fosse 1 mg/mL, mas a seringa foi preparada com outra concentração.
  • Casa decimal: 7,5 mL/h digitado como 75 mL/h.
  • Canal/linha errada: ajustar a taxa no canal de outro medicamento.

Checagens na bomba antes de iniciar e a cada ajuste

Checklist de programação segura (prático)

  • Medicamento e via: conferir se o canal selecionado corresponde ao fármaco e à via correta (EV, por exemplo).
  • Concentração: confirmar que a concentração programada é a mesma do rótulo da seringa/bolsa (mg/mL ou mcg/mL).
  • Unidade de dose: confirmar se a bomba está em mL/h (modo simples) ou em dose (modo com biblioteca) e se a unidade exibida corresponde à prescrição.
  • Taxa (mL/h): conferir com o cálculo manual e, se possível, com uma checagem independente.
  • VTBI (volume a ser infundido): programar conforme plano (ex.: volume total da seringa ou volume parcial). Verificar se não ficou um VTBI antigo.
  • Linha correta e conexões: rastrear fisicamente do frasco/seringa até o paciente; confirmar que a linha não está conectada a outra via/torneira.
  • Oclusão e clamps: clamps abertos, equipo sem dobras, torneiras na posição correta.
  • Bateria/energia: confirmar carga e conexão à tomada quando aplicável, especialmente em transporte.
  • Alarmes habilitados: volume, oclusão e ar na linha conforme padrão do serviço.

Exercícios: cenários de mudança de dose (com resposta)

Cenário 1 (mg/h com solução 50 mg em 50 mL)

Solução: 50 mg em 50 mL (1 mg/mL). A dose atual é 8 mg/h e deve subir para 14 mg/h.

  • Pergunta: qual nova taxa em mL/h?
  • Resposta: 14 mg/h ÷ 1 mg/mL = 14 mL/h

Cenário 2 (mcg/min com solução 2 mg em 50 mL)

Solução: 2 mg em 50 mL → 40 mcg/mL. Dose atual 4 mcg/min, nova dose 7 mcg/min.

  • Pergunta: qual nova taxa em mL/h?
  • Resposta: 7 mcg/min × 60 = 420 mcg/h; 420 ÷ 40 = 10,5 mL/h

Cenário 3 (titulação com verificação de limite)

Solução: 50 mg em 50 mL (1 mg/mL). Protocolo permite até 16 mg/h. A equipe tenta programar 18 mg/h.

  • Pergunta: qual taxa seria e o que fazer?
  • Resposta: taxa seria 18 mL/h, porém excede o limite do protocolo (16 mg/h). Não programar; revisar prescrição/ordem médica e parâmetros clínicos antes de qualquer alteração.

Cenário 4 (detecção de erro por plausibilidade)

Solução: 2 mg em 50 mL (40 mcg/mL). Prescrição: 5 mcg/min. Um profissional programou 75 mL/h.

  • Pergunta: está correto?
  • Resposta: não. Se 75 mL/h, a dose entregue seria 75 × 40 = 3000 mcg/h = 50 mcg/min, 10 vezes maior que o prescrito. O correto é 5×60=300 mcg/h; 300÷40=7,5 mL/h.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Uma infusão está prescrita em 5 mcg/min e a solução preparada contém 2 mg em 50 mL (40 mcg/mL). Qual taxa deve ser programada na bomba em mL/h?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Converta 5 mcg/min para mcg/h: 5×60=300 mcg/h. Depois, aplique taxa = dose/concentração: 300 ÷ 40 = 7,5 mL/h.

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Infusões contínuas por peso: mcg/kg/min e mg/kg/h convertidos para mL/h

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