O que a bomba de infusão “precisa saber”
Na prática, a bomba entrega volume por tempo (mL/h). Já a prescrição pode vir como dose por tempo (mg/h) ou dose por tempo em minutos (mcg/min). O cálculo consiste em traduzir a dose prescrita para mL/h usando a concentração da solução (mg/mL ou mcg/mL) e, em seguida, programar a bomba com checagens de segurança.
Relação central:
Taxa (mL/h) = Dose por tempo (mg/h ou mcg/h) ÷ Concentração (mg/mL ou mcg/mL)Quando a dose estiver em mcg/min, primeiro converta para mcg/h multiplicando por 60.
mcg/h = mcg/min × 60Passo a passo: de mg/h para mL/h
1) Identifique a dose por hora
Exemplo: prescrição de 10 mg/h.
2) Confirme a concentração da solução (mg/mL)
Exemplo de solução preparada: 50 mg em 50 mL.
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Concentração = 50 mg ÷ 50 mL = 1 mg/mL3) Calcule a taxa em mL/h
Taxa = 10 mg/h ÷ 1 mg/mL = 10 mL/h4) Faça uma checagem rápida de plausibilidade
- Se a concentração é 1 mg/mL, então
mL/hemg/hficam numericamente iguais (10 mg/h → 10 mL/h). Isso ajuda a detectar erro de casa decimal. - Verifique se a taxa calculada é compatível com o volume total disponível e o tempo esperado de infusão.
Passo a passo: de mcg/min para mL/h
1) Converta mcg/min para mcg/h
Exemplo: prescrição de 5 mcg/min.
mcg/h = 5 × 60 = 300 mcg/h2) Determine a concentração em mcg/mL
Exemplo de solução preparada: 2 mg em 50 mL.
Converta a massa para mcg e calcule:
2 mg = 2000 mcgConcentração = 2000 mcg ÷ 50 mL = 40 mcg/mL3) Calcule a taxa em mL/h
Taxa = 300 mcg/h ÷ 40 mcg/mL = 7,5 mL/h4) Checagem rápida de plausibilidade
- Se a concentração é 40 mcg/mL, uma taxa de 7,5 mL/h entrega
7,5 × 40 = 300 mcg/h, que corresponde a 5 mcg/min. - Se você obtiver uma taxa muito alta (ex.: > 100 mL/h) para um fármaco potente, reavalie unidade (mcg vs mg) e conversão min→h.
Concentração padrão: como construir para facilitar programação e reduzir erro
Concentração padrão é uma forma de preparo que torna o cálculo e a programação mais diretos, reduzindo risco de erro por conversões repetidas. A ideia é escolher uma concentração que gere relações fáceis (por exemplo, 1 mg/mL ou 10 mcg/mL), respeitando protocolos locais e estabilidade do medicamento.
Estratégia 1: “1 mg/mL” (muito útil quando a prescrição vem em mg/h)
Se o objetivo é 1 mg/mL, então:
mL/h = mg/hExemplo de construção:
- Desejo: 1 mg/mL em seringa de 50 mL
- Quantidade de fármaco necessária:
1 mg/mL × 50 mL = 50 mg - Preparo: 50 mg em volume final de 50 mL
Programação fica direta: 12 mg/h → 12 mL/h.
Estratégia 2: “10 mcg/mL” (útil para prescrições em mcg/min com taxas mais intuitivas)
Se a concentração for 10 mcg/mL, então:
Taxa (mL/h) = (mcg/min × 60) ÷ 10 = mcg/min × 6Exemplo de construção em 50 mL:
- Desejo: 10 mcg/mL em 50 mL
- Quantidade total:
10 mcg/mL × 50 mL = 500 mcg(0,5 mg) - Preparo: 0,5 mg em volume final de 50 mL
Exemplo de uso: 5 mcg/min → taxa = 5 × 6 = 30 mL/h.
Atenção: concentrações muito baixas podem gerar taxas altas; concentrações muito altas podem gerar taxas muito baixas (sensíveis a pequenos erros). A escolha deve equilibrar segurança, limites da bomba e prática do serviço.
Exemplos práticos com solução preparada (50 mg em 50 mL)
Exemplo 1: atingir dose-alvo em mg/h
Solução: 50 mg em 50 mL → 1 mg/mL.
Alvo: 18 mg/h.
Taxa = 18 mg/h ÷ 1 mg/mL = 18 mL/hSe a seringa tem 50 mL, tempo aproximado até acabar:
Tempo ≈ 50 mL ÷ 18 mL/h ≈ 2,78 h (≈ 2 h 47 min)Essa estimativa ajuda a planejar troca de seringa e evitar interrupção.
Exemplo 2: titulação por etapas (ajuste de dose)
Mesma solução (1 mg/mL). Protocolo de titulação: aumentar 2 mg/h a cada 15 min até resposta clínica, máximo 20 mg/h.
| Etapa | Dose (mg/h) | Taxa (mL/h) | Checagem rápida |
|---|---|---|---|
| Inicial | 10 | 10 | 1 mg/mL → números iguais |
| +15 min | 12 | 12 | Confirmar dentro do máximo |
| +30 min | 14 | 14 | Reavaliar resposta/efeitos |
| +45 min | 16 | 16 | Checar alarmes/linha |
| +60 min | 18 | 18 | Planejar troca de seringa |
| Máximo | 20 | 20 | Não ultrapassar |
Ao titular, registre sempre hora, dose, taxa e resposta clínica. Em bombas com biblioteca de drogas, selecione o medicamento correto para que limites (soft/hard) ajudem a prevenir programação fora do protocolo.
Limites, alarmes e “erros típicos” na programação
Limites (soft/hard) e como usar a seu favor
- Soft limit: a bomba alerta, mas permite seguir após confirmação. Use para “parar e pensar”: dose/taxa faz sentido? unidade está correta?
- Hard limit: a bomba bloqueia a programação. Se você bater em hard limit, não “contorne” mudando o medicamento ou unidade; revise prescrição, concentração e seleção do fármaco na biblioteca.
Alarmes comuns e o que verificar
- Oclusão: pinça fechada, dobra no equipo, filtro obstruído, acesso venoso infiltrado, torneira fechada, pressão elevada por cateter fino.
- Ar na linha: bolhas, conexão frouxa, seringa mal encaixada.
- Fim de infusão / volume concluído: VTBI atingido, seringa vazia.
- Bateria baixa: risco de interrupção durante transporte.
Erros típicos a prevenir
- Unidade errada: programar mg/h quando a prescrição está em mcg/min (ou vice-versa).
- Concentração divergente do preparo real: programar como se fosse 1 mg/mL, mas a seringa foi preparada com outra concentração.
- Casa decimal: 7,5 mL/h digitado como 75 mL/h.
- Canal/linha errada: ajustar a taxa no canal de outro medicamento.
Checagens na bomba antes de iniciar e a cada ajuste
Checklist de programação segura (prático)
- Medicamento e via: conferir se o canal selecionado corresponde ao fármaco e à via correta (EV, por exemplo).
- Concentração: confirmar que a concentração programada é a mesma do rótulo da seringa/bolsa (mg/mL ou mcg/mL).
- Unidade de dose: confirmar se a bomba está em mL/h (modo simples) ou em dose (modo com biblioteca) e se a unidade exibida corresponde à prescrição.
- Taxa (mL/h): conferir com o cálculo manual e, se possível, com uma checagem independente.
- VTBI (volume a ser infundido): programar conforme plano (ex.: volume total da seringa ou volume parcial). Verificar se não ficou um VTBI antigo.
- Linha correta e conexões: rastrear fisicamente do frasco/seringa até o paciente; confirmar que a linha não está conectada a outra via/torneira.
- Oclusão e clamps: clamps abertos, equipo sem dobras, torneiras na posição correta.
- Bateria/energia: confirmar carga e conexão à tomada quando aplicável, especialmente em transporte.
- Alarmes habilitados: volume, oclusão e ar na linha conforme padrão do serviço.
Exercícios: cenários de mudança de dose (com resposta)
Cenário 1 (mg/h com solução 50 mg em 50 mL)
Solução: 50 mg em 50 mL (1 mg/mL). A dose atual é 8 mg/h e deve subir para 14 mg/h.
- Pergunta: qual nova taxa em mL/h?
- Resposta:
14 mg/h ÷ 1 mg/mL = 14 mL/h
Cenário 2 (mcg/min com solução 2 mg em 50 mL)
Solução: 2 mg em 50 mL → 40 mcg/mL. Dose atual 4 mcg/min, nova dose 7 mcg/min.
- Pergunta: qual nova taxa em mL/h?
- Resposta:
7 mcg/min × 60 = 420 mcg/h;420 ÷ 40 = 10,5 mL/h
Cenário 3 (titulação com verificação de limite)
Solução: 50 mg em 50 mL (1 mg/mL). Protocolo permite até 16 mg/h. A equipe tenta programar 18 mg/h.
- Pergunta: qual taxa seria e o que fazer?
- Resposta: taxa seria
18 mL/h, porém excede o limite do protocolo (16 mg/h). Não programar; revisar prescrição/ordem médica e parâmetros clínicos antes de qualquer alteração.
Cenário 4 (detecção de erro por plausibilidade)
Solução: 2 mg em 50 mL (40 mcg/mL). Prescrição: 5 mcg/min. Um profissional programou 75 mL/h.
- Pergunta: está correto?
- Resposta: não. Se 75 mL/h, a dose entregue seria
75 × 40 = 3000 mcg/h=50 mcg/min, 10 vezes maior que o prescrito. O correto é5×60=300 mcg/h;300÷40=7,5 mL/h.