O que é anamnese esportiva e por que ela muda sua conduta
A anamnese esportiva é uma entrevista clínica estruturada para entender como o praticante treina, compete e se recupera, e como isso se relaciona com dor, desempenho e risco de lesão. Diferente de uma anamnese “geral”, ela precisa mapear carga (volume, intensidade e frequência), demandas específicas da modalidade (gestos, impactos, contato, mudanças de direção), contexto (posição/função, calendário, viagens), e fatores de recuperação (sono, estresse, alimentação, medicações). O objetivo é transformar informações subjetivas em dados utilizáveis: hipóteses sobre mecanismos de lesão, irritabilidade do quadro, tolerância à carga e metas realistas para o plano de reabilitação e retorno ao esporte.
Estrutura recomendada: do motivo da consulta ao perfil de carga
1) Motivo principal e “o que mudou”
- Queixa principal (dor, instabilidade, perda de performance, rigidez, medo de movimento, queda de rendimento).
- Início: súbito (trauma) ou gradual (sobrecarga)?
- O que mudou nas últimas 2–6 semanas? (aumento de treinos, troca de calçado, mudança de posição, novo exercício, retorno pós-pausa).
- Localização e comportamento: onde dói, quando dói, o que piora/melhora.
2) Histórico de lesões e tratamentos
O histórico de lesões é um dos melhores preditores de novas lesões. Busque detalhes que influenciam a recidiva: tempo de afastamento, retorno apressado, déficits persistentes, e se houve progressão de carga.
- Lesões anteriores na mesma região e em regiões relacionadas (ex.: tornozelo e joelho; quadril e lombar; ombro e cervical).
- Cirurgias, infiltrações, fraturas, luxações, rupturas.
- Tratamentos já feitos e resposta (fisioterapia, fortalecimento, repouso, medicação, treino adaptado).
- Recorrência: quantas vezes no último ano? Em que fase do treino/competição?
3) Modalidade, posição/função e demandas específicas
Mapeie o “trabalho” do corpo no esporte. A mesma modalidade pode ter demandas muito diferentes por posição/função.
- Modalidade e nível: recreacional, amador competitivo, federado/profissional.
- Posição/função: exemplo no futebol (zagueiro, lateral, atacante), no vôlei (ponteiro, central, líbero), na corrida (provas curtas vs longas), na musculação (hipertrofia vs força).
- Gestos mais repetidos: saltos, sprints, arremessos, chutes, quedas, frenagens, rotações.
- Superfície e ambiente: quadra, grama, asfalto, trilha; calor/frio; altitude.
4) Carga atual: volume, intensidade e frequência
Para iniciantes, a maior parte dos problemas vem de progressões rápidas demais. Para competitivos, o desafio costuma ser conciliar picos de carga com recuperação insuficiente. Registre a carga de forma simples e repetível.
- Frequência semanal (dias/semana) e duração média (minutos/sessão).
- Intensidade percebida: use escala de esforço (RPE 0–10).
- Carga interna semanal:
carga = duração (min) × RPEpor sessão; some para obter a carga semanal. - Carga externa quando possível: km/semana, número de sprints, saltos, séries/repetições, tonelagem (kg total), tempo de quadra.
- Variação recente: aumento percentual nas últimas semanas (ex.: “subi de 15 km para 25 km/semana”).
5) Rotina de força, mobilidade e condicionamento
O objetivo é entender se existe base de força e controle para tolerar o esporte, e se há lacunas (ex.: só treina esporte, não faz força; ou faz força pesada sem mobilidade/recuperação).
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Treino de força: quantas vezes/semana, principais exercícios, cargas, proximidade da falha, presença de dor durante/apos.
- Mobilidade/alongamento: o que faz, quanto tempo, antes/depois, se percebe benefício.
- Condicionamento: zona aeróbia, intervalados, sprints; como progride.
- Aquecimento e desaquecimento: existe rotina? quanto tempo? quais exercícios?
6) Recuperação: sono, estresse e sinais de fadiga
Recuperação insuficiente aumenta risco de lesão e piora dor persistente. Perguntas simples ajudam a identificar “gargalos” de recuperação.
- Sono: horas/noite, qualidade, despertares, regularidade, ronco/apneia suspeita.
- Estresse: trabalho/estudo, prazos, viagens, carga mental.
- Sinais de fadiga: queda de desempenho, irritabilidade, dor muscular prolongada, sensação de “pernas pesadas”, aumento de dor com treinos habituais.
7) Alimentação, hidratação e uso de substâncias/medicações
- Rotina alimentar: número de refeições, proteína diária aproximada, ingestão de frutas/vegetais, timing pré/pós-treino.
- Hidratação: volume diário, eletrólitos em treinos longos/calor.
- Suplementos: creatina, cafeína, pré-treinos, termogênicos.
- Medicações: anti-inflamatórios, analgésicos, relaxantes, corticoides; frequência e motivo.
- Para mulheres: ciclo menstrual e relação com sintomas/energia (quando pertinente e com abordagem respeitosa).
8) Metas do aluno/atleta e critérios de sucesso
Metas bem definidas orientam o plano e evitam frustração. Transforme desejos em objetivos mensuráveis.
- Meta principal: voltar a treinar sem dor? competir em data específica? melhorar performance?
- Prazo: existe competição, teste físico, viagem, temporada?
- O que é “aceitável” durante o processo: tolera desconforto leve? quer zero dor?
- Critérios pessoais: correr X km, agachar X kg, jogar X minutos, treinar X dias/semana.
Perguntas-chave (roteiro pronto) para usar na prática
Bloco A — Dor e função (para todos)
- Em uma escala de 0 a 10, qual a dor agora? Qual a pior dor na última semana?
- O que você não consegue fazer hoje por causa do problema? (ex.: correr, agachar, saltar, arremessar).
- Quais movimentos/atividades pioram? E quais aliviam?
- Há rigidez matinal? Quanto tempo dura?
- Há sensação de instabilidade, travamento, estalos com dor, formigamento ou perda de força?
Bloco B — Histórico de lesões
- Você já teve lesão nessa região antes? Quando? Quanto tempo ficou parado?
- Teve lesões importantes em outras regiões (tornozelo/joelho/quadril/coluna/ombro)?
- Já fez cirurgia ou infiltração? Qual e quando?
- O que funcionou e o que não funcionou nos tratamentos anteriores?
Bloco C — Treino e carga (com números)
- Quantos treinos por semana? Quanto tempo cada treino?
- Como você descreveria a intensidade média (0–10)? E o treino mais pesado da semana?
- O que mudou nas últimas semanas? (volume, intensidade, tipo de treino, superfície, calçado, posição).
- Você faz aquecimento? Quanto tempo e o que inclui?
- Você faz treino de força? Quais exercícios principais e quantas vezes por semana?
Bloco D — Recuperação e estilo de vida
- Quantas horas você dorme por noite? Acorda descansado?
- Como está seu estresse (0–10) na última semana?
- Como está sua alimentação no dia a dia? Você consegue comer antes/depois do treino?
- Usa anti-inflamatório/analgésico? Com que frequência?
Perguntas específicas para iniciantes
Iniciantes muitas vezes não têm referência de carga e técnica. Foque em progressão, adaptação e educação.
- Há quanto tempo você começou na modalidade/academia?
- Você aumentou a frequência recentemente? (ex.: de 2 para 5 dias/semana)
- Você está aprendendo técnica com alguém (treinador/professor) ou por conta própria?
- Você sente dor em mais de um local após treinar? Quanto tempo demora para “voltar ao normal”?
- Você consegue descrever seu aquecimento? Se não, quais seriam 5–10 minutos possíveis na sua rotina?
Perguntas para recreacionais vs competitivos
| Aspecto | Recreacional (perguntas úteis) | Competitivo (perguntas úteis) |
|---|---|---|
| Calendário | Tem dias fixos de treino? Você consegue ajustar a semana? | Quais datas de competição? Há viagens? Quantos jogos/provas em sequência? |
| Objetivo | Saúde, estética, bem-estar, completar uma prova? | Performance, ranking, tempo/resultado, titularidade? |
| Carga | Você alterna semanas mais leves/pesadas ou é sempre igual? | Como é o microciclo (treinos técnicos, táticos, força, regenerativo)? Há monitoramento por GPS/HR? |
| Tolerância a sintomas | Quanto de desconforto você aceita para continuar treinando? | Você compete com dor? O que a equipe técnica exige? Há pressão externa? |
| Recuperação | Trabalho/estudo atrapalha sono e alimentação? | Como é a recuperação pós-jogo/prova (banho gelado, massagem, nutrição, sono)? |
Passo a passo prático: como conduzir a anamnese em 10–15 minutos
Passo 1 — Prepare o “mapa” antes de perguntar
- Tenha um formulário com campos objetivos (checklists e números).
- Defina escalas padrão: dor (0–10), função (0–100%), esforço (RPE 0–10).
Passo 2 — Comece pelo objetivo do paciente
- Pergunte: “O que você quer voltar a fazer e até quando?”
- Registre meta e prazo; isso guiará as próximas perguntas.
Passo 3 — Entenda a queixa com foco em comportamento e irritabilidade
- Identifique gatilhos (carga, gesto, amplitude, impacto).
- Quantifique: dor atual, pior dor, duração pós-treino, rigidez.
Passo 4 — Faça a linha do tempo das últimas 6 semanas
- Liste mudanças: aumento de volume, intensidade, novo exercício, retorno pós-pausa, mudança de superfície/equipamento.
- Se houver competição, marque datas e picos de carga.
Passo 5 — Quantifique carga semanal com método simples
- Para cada sessão: duração (min) e RPE (0–10).
- Calcule
duração × RPEe some na semana. - Registre também métricas externas relevantes (km, saltos, séries).
Passo 6 — Mapeie força/mobilidade e recuperação
- Força: frequência, exercícios-chave, dor durante/apos.
- Sono: horas e qualidade; estresse (0–10).
- Alimentação/hidratação e medicações.
Passo 7 — Feche com “três hipóteses” e próximos dados necessários
- Hipótese de mecanismo (sobrecarga, técnica, retorno rápido, déficit de força/controle, recuperação insuficiente).
- Quais testes físicos e medidas você precisará na avaliação (ex.: amplitude, força, testes funcionais).
- Combine como será o monitoramento: dor, função e carga semanal.
Modelo de ficha de avaliação (anamnese esportiva) com campos objetivos
FICHA — ANAMNESE ESPORTIVA (Estruturada) Data: ____/____/____ Profissional: ____________ Sessão: ( ) 1ª ( ) Retorno ID: ________
1) IDENTIFICAÇÃO
Nome: __________________________ Idade: ____ Sexo: ____ Altura: ____ Peso: ____
Contato: ________________________ Profissão/Rotina: _____________________________
2) MODALIDADE E PERFIL
Modalidade: _____________________ Nível: ( ) Iniciante ( ) Recreacional ( ) Competitivo
Posição/Função: __________________ Mão/pé dominante: ____________________________
Superfície/ambiente: __________________ Calçado/equipamento: ____________________
3) QUEIXA PRINCIPAL
Região: _________________________ Início: ___/___/___ ( ) súbito ( ) gradual
Mecanismo percebido: ____________________________________________________________
Dor (0–10): agora ___ pior 7 dias ___ melhor ___
Rigidez matinal: ( ) não ( ) sim, dura ____ min
Sinais associados: ( ) instabilidade ( ) travamento ( ) estalos com dor ( ) formigamento
Limitações funcionais (top 3): 1) __________ 2) __________ 3) __________
4) HISTÓRICO DE LESÕES
Lesões prévias (região/ano/tempo parado): ________________________________________
Cirurgias/infiltrações: __________________________________________________________
Tratamentos prévios e resposta: __________________________________________________
5) TREINO ATUAL — CARGA (últimas 2–6 semanas)
Frequência (dias/sem): ____ Duração média (min): ____
RPE médio (0–10): ____ RPE pico (0–10): ____
Mudanças recentes (volume/intensidade/exercícios/superfície): ______________________
6) REGISTRO DE CARGA SEMANAL (duração x RPE)
Semana: ____/____ a ____/____
Sessão | Tipo (técnico/força/corrida/jogo) | Duração(min) | RPE(0-10) | Carga | Observações
1 | ________________________________ | ____ | ____ | ____ | __________
2 | ________________________________ | ____ | ____ | ____ | __________
3 | ________________________________ | ____ | ____ | ____ | __________
4 | ________________________________ | ____ | ____ | ____ | __________
5 | ________________________________ | ____ | ____ | ____ | __________
6 | ________________________________ | ____ | ____ | ____ | __________
7 | ________________________________ | ____ | ____ | ____ | __________
TOTAL CARGA SEMANAL: _______
Métrica externa (se aplicável): km/sem ____ | saltos ____ | séries ____ | jogos ____
7) FORÇA, MOBILIDADE E CONDICIONAMENTO
Força (x/sem): ____ Exercícios-chave: ___________________________________________
Dor no treino de força? ( ) não ( ) sim, quais: __________________________________
Mobilidade/alongamento: _________________________________________________________
Condicionamento: ________________________________________________________________
Aquecimento: ( ) não ( ) sim, descreva: __________________________________________
8) RECUPERAÇÃO E ESTILO DE VIDA
Sono: ____ h/noite Qualidade (0–10): ____ Cochilos: ( ) não ( ) sim
Estresse (0–10): ____ Trabalho/estudo: __________________________________________
Alimentação (resumo): ___________________________________________________________
Hidratação: _______________________ Suplementos: ________________________________
Medicações (nome/dose/frequência): ______________________________________________
9) ESCALAS DE FUNÇÃO (marcar uma)
Função percebida hoje (0–100%): ____%
PSFS (0–10) — 3 atividades importantes:
A1: __________________ nota ___/10 | A2: __________________ nota ___/10 | A3: __________________ nota ___/10
10) METAS E PRAZOS
Meta principal: _________________________________________________________________
Prazo/competição: ___________________ Disponibilidade p/ reabilitação (dias/sem): ____
Critérios de sucesso (mensuráveis): ______________________________________________
11) ALERTAS/OBSERVAÇÕES
Sinais de alerta/encaminhamento (se houver): _____________________________________
Observações gerais: _____________________________________________________________Escalas rápidas para padronizar dor e função (uso prático)
Escala Numérica de Dor (END 0–10)
- 0 = sem dor; 10 = pior dor imaginável.
- Registre: dor atual, pior na semana, e dor durante atividade-chave (ex.: corrida, salto, agachamento).
PSFS (Patient-Specific Functional Scale) simplificada
- Peça 3 atividades importantes para o paciente e dê nota de 0 a 10 (0 = incapaz; 10 = normal).
- Útil para iniciantes e atletas porque foca no que realmente importa (ex.: “correr 5 km”, “jogar 1 tempo”, “agachar sem dor”).
RPE (0–10) para intensidade
- 0 = repouso; 10 = máximo.
- Use junto com duração para estimar carga interna e comparar semanas.
Exemplos práticos de preenchimento (para ganhar velocidade)
Exemplo 1 — Iniciante na corrida com dor no joelho
- Mudança recente: começou a correr há 3 semanas; saiu de 0 para 4 dias/sem; aumentou de 10 para 22 min por treino.
- RPE médio 7/10; sem treino de força; sono 6 h/noite; estresse 8/10.
- Interpretação para guiar avaliação: provável pico de carga + baixa recuperação + ausência de força; priorizar ajuste de carga e base de força.
Exemplo 2 — Competitivo com dor no ombro (arremesso/saque)
- Contexto: aumento de volume de treinos técnicos por calendário; força mantida, mas mobilidade/recuperação reduzidas por viagens.
- RPE alto em sessões específicas; dor piora após treinos longos; usa anti-inflamatório 3x/sem para “aguentar”.
- Interpretação para guiar avaliação: monitorar carga por tipo de sessão, mapear tolerância ao gesto e ajustar picos; alinhar metas com datas de competição.