Avaliação na Fisioterapia Esportiva: Anamnese e mapeamento do perfil do praticante

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é anamnese esportiva e por que ela muda sua conduta

A anamnese esportiva é uma entrevista clínica estruturada para entender como o praticante treina, compete e se recupera, e como isso se relaciona com dor, desempenho e risco de lesão. Diferente de uma anamnese “geral”, ela precisa mapear carga (volume, intensidade e frequência), demandas específicas da modalidade (gestos, impactos, contato, mudanças de direção), contexto (posição/função, calendário, viagens), e fatores de recuperação (sono, estresse, alimentação, medicações). O objetivo é transformar informações subjetivas em dados utilizáveis: hipóteses sobre mecanismos de lesão, irritabilidade do quadro, tolerância à carga e metas realistas para o plano de reabilitação e retorno ao esporte.

Estrutura recomendada: do motivo da consulta ao perfil de carga

1) Motivo principal e “o que mudou”

  • Queixa principal (dor, instabilidade, perda de performance, rigidez, medo de movimento, queda de rendimento).
  • Início: súbito (trauma) ou gradual (sobrecarga)?
  • O que mudou nas últimas 2–6 semanas? (aumento de treinos, troca de calçado, mudança de posição, novo exercício, retorno pós-pausa).
  • Localização e comportamento: onde dói, quando dói, o que piora/melhora.

2) Histórico de lesões e tratamentos

O histórico de lesões é um dos melhores preditores de novas lesões. Busque detalhes que influenciam a recidiva: tempo de afastamento, retorno apressado, déficits persistentes, e se houve progressão de carga.

  • Lesões anteriores na mesma região e em regiões relacionadas (ex.: tornozelo e joelho; quadril e lombar; ombro e cervical).
  • Cirurgias, infiltrações, fraturas, luxações, rupturas.
  • Tratamentos já feitos e resposta (fisioterapia, fortalecimento, repouso, medicação, treino adaptado).
  • Recorrência: quantas vezes no último ano? Em que fase do treino/competição?

3) Modalidade, posição/função e demandas específicas

Mapeie o “trabalho” do corpo no esporte. A mesma modalidade pode ter demandas muito diferentes por posição/função.

  • Modalidade e nível: recreacional, amador competitivo, federado/profissional.
  • Posição/função: exemplo no futebol (zagueiro, lateral, atacante), no vôlei (ponteiro, central, líbero), na corrida (provas curtas vs longas), na musculação (hipertrofia vs força).
  • Gestos mais repetidos: saltos, sprints, arremessos, chutes, quedas, frenagens, rotações.
  • Superfície e ambiente: quadra, grama, asfalto, trilha; calor/frio; altitude.

4) Carga atual: volume, intensidade e frequência

Para iniciantes, a maior parte dos problemas vem de progressões rápidas demais. Para competitivos, o desafio costuma ser conciliar picos de carga com recuperação insuficiente. Registre a carga de forma simples e repetível.

  • Frequência semanal (dias/semana) e duração média (minutos/sessão).
  • Intensidade percebida: use escala de esforço (RPE 0–10).
  • Carga interna semanal: carga = duração (min) × RPE por sessão; some para obter a carga semanal.
  • Carga externa quando possível: km/semana, número de sprints, saltos, séries/repetições, tonelagem (kg total), tempo de quadra.
  • Variação recente: aumento percentual nas últimas semanas (ex.: “subi de 15 km para 25 km/semana”).

5) Rotina de força, mobilidade e condicionamento

O objetivo é entender se existe base de força e controle para tolerar o esporte, e se há lacunas (ex.: só treina esporte, não faz força; ou faz força pesada sem mobilidade/recuperação).

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  • Treino de força: quantas vezes/semana, principais exercícios, cargas, proximidade da falha, presença de dor durante/apos.
  • Mobilidade/alongamento: o que faz, quanto tempo, antes/depois, se percebe benefício.
  • Condicionamento: zona aeróbia, intervalados, sprints; como progride.
  • Aquecimento e desaquecimento: existe rotina? quanto tempo? quais exercícios?

6) Recuperação: sono, estresse e sinais de fadiga

Recuperação insuficiente aumenta risco de lesão e piora dor persistente. Perguntas simples ajudam a identificar “gargalos” de recuperação.

  • Sono: horas/noite, qualidade, despertares, regularidade, ronco/apneia suspeita.
  • Estresse: trabalho/estudo, prazos, viagens, carga mental.
  • Sinais de fadiga: queda de desempenho, irritabilidade, dor muscular prolongada, sensação de “pernas pesadas”, aumento de dor com treinos habituais.

7) Alimentação, hidratação e uso de substâncias/medicações

  • Rotina alimentar: número de refeições, proteína diária aproximada, ingestão de frutas/vegetais, timing pré/pós-treino.
  • Hidratação: volume diário, eletrólitos em treinos longos/calor.
  • Suplementos: creatina, cafeína, pré-treinos, termogênicos.
  • Medicações: anti-inflamatórios, analgésicos, relaxantes, corticoides; frequência e motivo.
  • Para mulheres: ciclo menstrual e relação com sintomas/energia (quando pertinente e com abordagem respeitosa).

8) Metas do aluno/atleta e critérios de sucesso

Metas bem definidas orientam o plano e evitam frustração. Transforme desejos em objetivos mensuráveis.

  • Meta principal: voltar a treinar sem dor? competir em data específica? melhorar performance?
  • Prazo: existe competição, teste físico, viagem, temporada?
  • O que é “aceitável” durante o processo: tolera desconforto leve? quer zero dor?
  • Critérios pessoais: correr X km, agachar X kg, jogar X minutos, treinar X dias/semana.

Perguntas-chave (roteiro pronto) para usar na prática

Bloco A — Dor e função (para todos)

  • Em uma escala de 0 a 10, qual a dor agora? Qual a pior dor na última semana?
  • O que você não consegue fazer hoje por causa do problema? (ex.: correr, agachar, saltar, arremessar).
  • Quais movimentos/atividades pioram? E quais aliviam?
  • Há rigidez matinal? Quanto tempo dura?
  • Há sensação de instabilidade, travamento, estalos com dor, formigamento ou perda de força?

Bloco B — Histórico de lesões

  • Você já teve lesão nessa região antes? Quando? Quanto tempo ficou parado?
  • Teve lesões importantes em outras regiões (tornozelo/joelho/quadril/coluna/ombro)?
  • Já fez cirurgia ou infiltração? Qual e quando?
  • O que funcionou e o que não funcionou nos tratamentos anteriores?

Bloco C — Treino e carga (com números)

  • Quantos treinos por semana? Quanto tempo cada treino?
  • Como você descreveria a intensidade média (0–10)? E o treino mais pesado da semana?
  • O que mudou nas últimas semanas? (volume, intensidade, tipo de treino, superfície, calçado, posição).
  • Você faz aquecimento? Quanto tempo e o que inclui?
  • Você faz treino de força? Quais exercícios principais e quantas vezes por semana?

Bloco D — Recuperação e estilo de vida

  • Quantas horas você dorme por noite? Acorda descansado?
  • Como está seu estresse (0–10) na última semana?
  • Como está sua alimentação no dia a dia? Você consegue comer antes/depois do treino?
  • Usa anti-inflamatório/analgésico? Com que frequência?

Perguntas específicas para iniciantes

Iniciantes muitas vezes não têm referência de carga e técnica. Foque em progressão, adaptação e educação.

  • Há quanto tempo você começou na modalidade/academia?
  • Você aumentou a frequência recentemente? (ex.: de 2 para 5 dias/semana)
  • Você está aprendendo técnica com alguém (treinador/professor) ou por conta própria?
  • Você sente dor em mais de um local após treinar? Quanto tempo demora para “voltar ao normal”?
  • Você consegue descrever seu aquecimento? Se não, quais seriam 5–10 minutos possíveis na sua rotina?

Perguntas para recreacionais vs competitivos

AspectoRecreacional (perguntas úteis)Competitivo (perguntas úteis)
CalendárioTem dias fixos de treino? Você consegue ajustar a semana?Quais datas de competição? Há viagens? Quantos jogos/provas em sequência?
ObjetivoSaúde, estética, bem-estar, completar uma prova?Performance, ranking, tempo/resultado, titularidade?
CargaVocê alterna semanas mais leves/pesadas ou é sempre igual?Como é o microciclo (treinos técnicos, táticos, força, regenerativo)? Há monitoramento por GPS/HR?
Tolerância a sintomasQuanto de desconforto você aceita para continuar treinando?Você compete com dor? O que a equipe técnica exige? Há pressão externa?
RecuperaçãoTrabalho/estudo atrapalha sono e alimentação?Como é a recuperação pós-jogo/prova (banho gelado, massagem, nutrição, sono)?

Passo a passo prático: como conduzir a anamnese em 10–15 minutos

Passo 1 — Prepare o “mapa” antes de perguntar

  • Tenha um formulário com campos objetivos (checklists e números).
  • Defina escalas padrão: dor (0–10), função (0–100%), esforço (RPE 0–10).

Passo 2 — Comece pelo objetivo do paciente

  • Pergunte: “O que você quer voltar a fazer e até quando?”
  • Registre meta e prazo; isso guiará as próximas perguntas.

Passo 3 — Entenda a queixa com foco em comportamento e irritabilidade

  • Identifique gatilhos (carga, gesto, amplitude, impacto).
  • Quantifique: dor atual, pior dor, duração pós-treino, rigidez.

Passo 4 — Faça a linha do tempo das últimas 6 semanas

  • Liste mudanças: aumento de volume, intensidade, novo exercício, retorno pós-pausa, mudança de superfície/equipamento.
  • Se houver competição, marque datas e picos de carga.

Passo 5 — Quantifique carga semanal com método simples

  • Para cada sessão: duração (min) e RPE (0–10).
  • Calcule duração × RPE e some na semana.
  • Registre também métricas externas relevantes (km, saltos, séries).

Passo 6 — Mapeie força/mobilidade e recuperação

  • Força: frequência, exercícios-chave, dor durante/apos.
  • Sono: horas e qualidade; estresse (0–10).
  • Alimentação/hidratação e medicações.

Passo 7 — Feche com “três hipóteses” e próximos dados necessários

  • Hipótese de mecanismo (sobrecarga, técnica, retorno rápido, déficit de força/controle, recuperação insuficiente).
  • Quais testes físicos e medidas você precisará na avaliação (ex.: amplitude, força, testes funcionais).
  • Combine como será o monitoramento: dor, função e carga semanal.

Modelo de ficha de avaliação (anamnese esportiva) com campos objetivos

FICHA — ANAMNESE ESPORTIVA (Estruturada)  Data: ____/____/____  Profissional: ____________  Sessão: ( ) 1ª  ( ) Retorno  ID: ________

1) IDENTIFICAÇÃO
Nome: __________________________  Idade: ____  Sexo: ____  Altura: ____  Peso: ____
Contato: ________________________  Profissão/Rotina: _____________________________

2) MODALIDADE E PERFIL
Modalidade: _____________________  Nível: ( ) Iniciante ( ) Recreacional ( ) Competitivo
Posição/Função: __________________  Mão/pé dominante: ____________________________
Superfície/ambiente: __________________  Calçado/equipamento: ____________________

3) QUEIXA PRINCIPAL
Região: _________________________  Início: ___/___/___  ( ) súbito  ( ) gradual
Mecanismo percebido: ____________________________________________________________
Dor (0–10): agora ___  pior 7 dias ___  melhor ___
Rigidez matinal: ( ) não ( ) sim, dura ____ min
Sinais associados: ( ) instabilidade ( ) travamento ( ) estalos com dor ( ) formigamento
Limitações funcionais (top 3): 1) __________ 2) __________ 3) __________

4) HISTÓRICO DE LESÕES
Lesões prévias (região/ano/tempo parado): ________________________________________
Cirurgias/infiltrações: __________________________________________________________
Tratamentos prévios e resposta: __________________________________________________

5) TREINO ATUAL — CARGA (últimas 2–6 semanas)
Frequência (dias/sem): ____  Duração média (min): ____
RPE médio (0–10): ____  RPE pico (0–10): ____
Mudanças recentes (volume/intensidade/exercícios/superfície): ______________________

6) REGISTRO DE CARGA SEMANAL (duração x RPE)
Semana: ____/____ a ____/____
Sessão | Tipo (técnico/força/corrida/jogo) | Duração(min) | RPE(0-10) | Carga | Observações
1      | ________________________________ | ____         | ____      | ____  | __________
2      | ________________________________ | ____         | ____      | ____  | __________
3      | ________________________________ | ____         | ____      | ____  | __________
4      | ________________________________ | ____         | ____      | ____  | __________
5      | ________________________________ | ____         | ____      | ____  | __________
6      | ________________________________ | ____         | ____      | ____  | __________
7      | ________________________________ | ____         | ____      | ____  | __________
TOTAL CARGA SEMANAL: _______
Métrica externa (se aplicável): km/sem ____ | saltos ____ | séries ____ | jogos ____

7) FORÇA, MOBILIDADE E CONDICIONAMENTO
Força (x/sem): ____  Exercícios-chave: ___________________________________________
Dor no treino de força? ( ) não ( ) sim, quais: __________________________________
Mobilidade/alongamento: _________________________________________________________
Condicionamento: ________________________________________________________________
Aquecimento: ( ) não ( ) sim, descreva: __________________________________________

8) RECUPERAÇÃO E ESTILO DE VIDA
Sono: ____ h/noite  Qualidade (0–10): ____  Cochilos: ( ) não ( ) sim
Estresse (0–10): ____  Trabalho/estudo: __________________________________________
Alimentação (resumo): ___________________________________________________________
Hidratação: _______________________  Suplementos: ________________________________
Medicações (nome/dose/frequência): ______________________________________________

9) ESCALAS DE FUNÇÃO (marcar uma)
Função percebida hoje (0–100%): ____%
PSFS (0–10) — 3 atividades importantes:
A1: __________________  nota ___/10 | A2: __________________  nota ___/10 | A3: __________________  nota ___/10

10) METAS E PRAZOS
Meta principal: _________________________________________________________________
Prazo/competição: ___________________  Disponibilidade p/ reabilitação (dias/sem): ____
Critérios de sucesso (mensuráveis): ______________________________________________

11) ALERTAS/OBSERVAÇÕES
Sinais de alerta/encaminhamento (se houver): _____________________________________
Observações gerais: _____________________________________________________________

Escalas rápidas para padronizar dor e função (uso prático)

Escala Numérica de Dor (END 0–10)

  • 0 = sem dor; 10 = pior dor imaginável.
  • Registre: dor atual, pior na semana, e dor durante atividade-chave (ex.: corrida, salto, agachamento).

PSFS (Patient-Specific Functional Scale) simplificada

  • Peça 3 atividades importantes para o paciente e dê nota de 0 a 10 (0 = incapaz; 10 = normal).
  • Útil para iniciantes e atletas porque foca no que realmente importa (ex.: “correr 5 km”, “jogar 1 tempo”, “agachar sem dor”).

RPE (0–10) para intensidade

  • 0 = repouso; 10 = máximo.
  • Use junto com duração para estimar carga interna e comparar semanas.

Exemplos práticos de preenchimento (para ganhar velocidade)

Exemplo 1 — Iniciante na corrida com dor no joelho

  • Mudança recente: começou a correr há 3 semanas; saiu de 0 para 4 dias/sem; aumentou de 10 para 22 min por treino.
  • RPE médio 7/10; sem treino de força; sono 6 h/noite; estresse 8/10.
  • Interpretação para guiar avaliação: provável pico de carga + baixa recuperação + ausência de força; priorizar ajuste de carga e base de força.

Exemplo 2 — Competitivo com dor no ombro (arremesso/saque)

  • Contexto: aumento de volume de treinos técnicos por calendário; força mantida, mas mobilidade/recuperação reduzidas por viagens.
  • RPE alto em sessões específicas; dor piora após treinos longos; usa anti-inflamatório 3x/sem para “aguentar”.
  • Interpretação para guiar avaliação: monitorar carga por tipo de sessão, mapear tolerância ao gesto e ajustar picos; alinhar metas com datas de competição.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na anamnese esportiva, qual abordagem melhor transforma informações subjetivas em dados utilizáveis para orientar hipóteses, tolerância à carga e metas do retorno ao esporte?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A anamnese esportiva deve converter relatos em dados práticos: identificar demandas e mudanças recentes, quantificar carga (como duração × RPE) e avaliar recuperação. Isso sustenta hipóteses, irritabilidade, tolerância à carga e metas realistas.

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