Avaliação funcional na Fisioterapia Esportiva: observação de movimento e testes básicos

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivo da avaliação funcional

A avaliação funcional na Fisioterapia Esportiva é uma triagem prática do modo como a pessoa se move em tarefas simples e relevantes para o esporte. O foco não é “passar ou reprovar”, e sim identificar estratégias de movimento que podem aumentar carga em tecidos, reduzir eficiência e orientar o plano de exercícios. Por ser de baixo custo, ela pode ser repetida com frequência para acompanhar evolução.

Uma triagem funcional bem feita observa: qualidade (controle e alinhamento), capacidade (amplitude, força funcional, tolerância) e simetria (diferenças entre lados). O resultado é um conjunto de achados objetivos e comparáveis ao longo do tempo.

Princípios de qualidade do movimento (critérios que você vai usar em todos os testes)

1) Controle lombo-pélvico

  • O que observar: manutenção de tronco estável, sem inclinar excessivamente, sem “cair” para um lado, sem hiperlordose/retroversão marcadas durante a tarefa.
  • Sinais comuns: rotação de tronco para compensar, inclinação lateral, “barriga solta”/perda de pressão abdominal, pélvis rodando ou caindo no apoio.
  • Por que importa: o tronco e a pelve são a base para transferência de força; perda de controle costuma aumentar demanda em quadril, joelho e coluna.

2) Alinhamento de joelho (cadeia do membro inferior)

  • O que observar: joelho acompanhando a direção do 2º–3º dedo do pé em tarefas de agachar, avançar, saltar e aterrissar.
  • Sinais comuns: valgo dinâmico (joelho “entra”), rotação interna excessiva do fêmur, joelho “foge” para fora, assimetria entre lados.
  • Por que importa: desalinhamentos repetidos podem aumentar estresse em estruturas do joelho e reduzir eficiência mecânica.

3) Estabilidade do tornozelo e controle do pé

  • O que observar: manutenção do arco do pé, controle de pronação/supinação, calcanhar estável, capacidade de dorsiflexão sem compensar.
  • Sinais comuns: colapso do arco, calcanhar “cai” para dentro, instabilidade em apoio unipodal, elevação precoce do calcanhar em agachamentos.
  • Por que importa: o tornozelo é o primeiro “amortecedor” e direciona alinhamento acima (joelho/quadril).

4) Amplitude e simetria

  • O que observar: profundidade do agachamento, alcance no avanço, extensão de quadril na ponte, dorsiflexão no agachar, amplitude de braços/tronco quando relevante.
  • Sinais comuns: limitações de um lado, compensações (tronco inclina para ganhar amplitude), diferença clara entre direita e esquerda.
  • Por que importa: assimetrias persistentes podem indicar restrição, dor, medo de movimento ou déficit de controle/força.

Padronização: como tornar a triagem confiável e repetível

Ambiente e materiais (baixo custo)

  • Espaço de 3–5 m livre, boa iluminação.
  • Fita adesiva no chão para marcar posição dos pés e linha de marcha/corrida.
  • Um banco/caixa (altura conhecida) para referência, se necessário.
  • Celular para filmagem.
  • Fita métrica (para alcance funcional e distância de saltos, quando aplicável).

Regras de execução

  • Mesma ordem de testes em todas as reavaliações.
  • Mesmas instruções verbais (use um roteiro curto).
  • Mesmo número de tentativas: em geral 2–3 repetições para aprender + 2–3 válidas para registrar.
  • Mesma velocidade: “controlado” para testes de controle; “natural” para marcha/corrida leve.
  • Sem dor: se houver dor aguda, pare e registre (não force para “completar”).

Filmagem para feedback (ângulos simples e úteis)

  • Plano frontal (de frente): ideal para ver alinhamento de joelho, queda pélvica, controle do pé.
  • Plano sagital (de lado): ideal para ver inclinação de tronco, profundidade, dorsiflexão, padrão de aterrissagem.
  • Dicas práticas: celular na altura do quadril/umbigo, a 2–3 m de distância; enquadrar do pé à cabeça; manter o mesmo local e distância em reavaliações.
  • Feedback: mostre 1–2 pontos por vez (ex.: “joelho acompanha o pé” e “tronco estável”), evitando excesso de correções simultâneas.

Como registrar achados (para comparar ao longo do tempo)

Use um registro simples e objetivo, combinando descrição + escala. Exemplo de escala prática: 0 = adequado, 1 = leve compensação, 2 = compensação moderada, 3 = compensação importante (ou “não executa”).

TesteLadoCritérios observadosNotaComentários
AgachamentoTronco, joelho, tornozelo, profundidade1Valgo leve no final da descida
Equilíbrio unipodalD/EQueda pélvica, pé, oscilação2/1D: arco colapsa e tronco inclina

Além da nota, registre condições (calçado, superfície, fadiga, dor 0–10) e links/nomes dos vídeos (ex.: “2026-01-31_agachamento_frontal.mp4”).

Roteiro de triagem funcional (baixo custo e alta aplicabilidade)

A seguir, um conjunto de testes básicos. Você pode aplicar em 10–20 minutos, dependendo do número de repetições e da necessidade de filmagem.

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1) Postura dinâmica (observação em pé com movimentos simples)

Objetivo: observar como a pessoa organiza tronco, pelve, quadris, joelhos e pés em movimentos leves, sem exigir força máxima.

Passo a passo:

  • Posição inicial: em pé, pés na largura do quadril, braços relaxados.
  • Peça 3 movimentos: elevar braços acima da cabeça, inclinar levemente o tronco à frente e girar o tronco para direita/esquerda (amplitude confortável).
  • Filme de frente e de lado (10–15 s).

Critérios: alinhamento geral, controle lombo-pélvico (evitar “quebrar” na lombar), simetria de rotação e elevação de braços, distribuição de peso nos pés.

2) Marcha e corrida leve (quando apropriado)

Objetivo: observar padrão cíclico, impacto, alinhamento e controle do membro inferior em tarefa específica.

Passo a passo (marcha):

  • Marque uma linha reta de 5–10 m.
  • Peça para caminhar em velocidade confortável, ida e volta (2–3 passagens).
  • Filme de frente (aproximação), de trás (afastamento) e de lado (se possível).

Passo a passo (corrida leve):

  • Somente se a pessoa já corre e está sem dor limitante.
  • Peça trote leve por 10–20 m (2–3 passagens).
  • Filme principalmente de lado e de trás.

Critérios: queda pélvica no apoio, joelho acompanhando o pé, estabilidade do tornozelo, cadência/controle do impacto (ruído de passada muito alto pode sugerir aterrissagem rígida), simetria entre lados.

3) Agachamento bilateral (air squat)

Objetivo: triagem global de mobilidade (tornozelo/quadril), controle de tronco e alinhamento de joelho.

Passo a passo:

  • Pés na largura dos ombros, pontas levemente para fora (confortável).
  • Braços à frente ou mãos na cintura (padronize).
  • Peça 5 repetições em ritmo controlado: 2 s descida, 1 s pausa, 2 s subida.
  • Filme de frente e de lado.

Critérios:

  • Controle lombo-pélvico: tronco inclina sem colapsar lombar; pelve não “encaixa” abruptamente no fundo (butt wink acentuado) se acompanhado de perda de controle.
  • Joelho: acompanha 2º–3º dedo; evitar valgo dinâmico, principalmente na subida.
  • Tornozelo/pé: calcanhar no chão, arco controlado, sem colapso excessivo.
  • Amplitude: profundidade consistente e confortável; observe se a limitação vem de tornozelo (calcanhar levanta) ou quadril (tronco cai muito à frente).

4) Avanço (lunge) estacionário

Objetivo: avaliar controle em base estreita, alinhamento do joelho e estabilidade do tornozelo em padrão unilateral.

Passo a passo:

  • Posição: um pé à frente e outro atrás, quadris “apontando” para frente.
  • Descer verticalmente até ambos joelhos flexionarem (amplitude confortável), subir controlado.
  • Faça 3–5 repetições por lado.
  • Filme de frente (alinhamento) e de lado (tronco e profundidade).

Critérios: joelho da frente alinhado ao pé, tronco estável (sem inclinar/rodar), pelve nivelada, pé da frente com arco controlado, simetria entre lados (profundidade e estabilidade).

5) Ponte (glute bridge) bilateral e, se possível, unilateral

Objetivo: observar extensão de quadril, controle lombo-pélvico e simetria de ativação.

Passo a passo (bilateral):

  • Deitado, joelhos flexionados, pés no chão na largura do quadril.
  • Subir o quadril até alinhar tronco e coxas, sem hiperextender a lombar.
  • Segurar 2 s no topo, descer controlado. Fazer 8–10 repetições.

Passo a passo (unilateral, quando apropriado):

  • Uma perna estendida, outra no chão.
  • Subir mantendo pelve nivelada. Fazer 5–8 repetições por lado.

Critérios: pelve não roda nem cai, lombar não “assume” o movimento, simetria (no unilateral, observar tremor/queda pélvica), cãibra posterior precoce pode sugerir estratégia dominante de isquiotibiais.

6) Equilíbrio unipodal (estático e com pequena tarefa)

Objetivo: avaliar controle do pé/tornozelo, estabilidade do quadril e controle do tronco.

Passo a passo:

  • Em pé, mãos na cintura (padronize), olhar em um ponto fixo.
  • Ficar 20–30 s em um pé. Repetir no outro.
  • Progressão simples: tocar levemente o chão à frente/lado/trás com a ponta do pé livre (3 toques) sem perder alinhamento.
  • Filme de frente.

Critérios: oscilação excessiva, colapso do arco, joelho “entra”, queda pélvica, inclinação do tronco, necessidade de usar braços para equilibrar (se mãos na cintura).

7) Alcance funcional (tipo Y-Balance simplificado)

Objetivo: quantificar controle e alcance em apoio unipodal com medida simples.

Montagem: faça um “Y” no chão com fita: uma linha para frente e duas diagonais (anterolateral e anteromedial). Use fita métrica para medir a distância alcançada.

Passo a passo:

  • Em apoio unipodal, a outra perna alcança o mais longe possível tocando levemente a fita, sem transferir peso.
  • 3 tentativas por direção, por lado. Registre a melhor (ou a média, se preferir padronizar).
  • Filme de frente.

Critérios: manter calcanhar do pé de apoio no chão, joelho alinhado, pelve estável, tronco sem colapsar. Compare diferença entre lados e consistência entre tentativas.

Registro sugerido: distância (cm) por direção e lado + nota de qualidade (0–3). Exemplo: “Anterior D 62 cm (qualidade 1), E 68 cm (qualidade 0)”.

8) Saltos simples (quando apropriado)

Quando usar: em pessoas que já toleram impacto e precisam retornar a gestos com salto/corrida. Evite se houver dor aguda, instabilidade importante, pós-lesão recente sem liberação funcional, ou medo significativo do movimento.

Opção A: salto vertical bipodal com aterrissagem controlada

  • Passo a passo: pés na largura do quadril; salto baixo (submáximo) e aterrissar “silencioso” com joelhos flexionando; 3–5 repetições.
  • Critérios: joelhos não colapsam para dentro na aterrissagem, tronco não despenca, pés não “batem” instáveis, simetria na distribuição de carga.

Opção B: salto horizontal bipodal curto (broad jump curto)

  • Passo a passo: saltar 30–60 cm e estabilizar 2 s na aterrissagem; 3 repetições.
  • Critérios: controle do tornozelo/pé, joelho alinhado, estabilidade lombo-pélvica, capacidade de “travar” sem passos extras.

Filmagem: frontal (alinhamento) e lateral (estratégia de aterrissagem). Registre também se houve passos de correção ou perda de equilíbrio.

Como transformar achados em ações (sem “diagnosticar pelo teste”)

Os testes indicam onde e como o movimento perde qualidade. Use isso para escolher intervenções e para definir o que será reavaliado. Exemplos práticos:

  • Valgo dinâmico no agachamento/avanço: priorize exercícios de controle de quadril e joelho (ex.: agachamento com mini-band como feedback, step-down controlado), além de revisar controle do pé/tornozelo.
  • Calcanhar levanta e tronco cai muito no agachamento: suspeite de limitação de dorsiflexão e/ou estratégia para “fugir” do tornozelo; teste mobilidade de tornozelo em cadeia fechada e use variações com elevação de calcanhar temporária para treinar padrão sem perder alinhamento.
  • Queda pélvica no apoio unipodal/marcha: foque em estabilidade pélvica e controle lateral (ex.: ponte unilateral bem executada, marcha lateral com elástico, step-up com pelve nivelada).
  • Instabilidade do pé no equilíbrio e alcance: inclua treino de pé/tornozelo (ex.: short foot, equilíbrio progressivo, alcance com controle) e reavalie com as mesmas medidas em cm.

Checklist rápido para aplicação em sessão

  • Antes: definir quais testes são relevantes para o esporte e para o momento (sem dor, com dor, retorno ao impacto).
  • Durante: padronizar instruções, filmar 2 ângulos, observar critérios (lombo-pélvico, joelho, tornozelo, amplitude/simetria).
  • Depois: registrar nota (0–3), medidas (cm/tempo), comentários curtos e salvar vídeos nomeados para comparação.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao registrar os resultados de uma triagem funcional para acompanhar a evolução, qual prática torna os achados mais objetivos e comparáveis ao longo do tempo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O registro fica mais comparável quando inclui descrição + escala (0–3) e condições do teste (dor, calçado, fadiga), permitindo reavaliações consistentes ao longo do tempo.

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