Conceito e objetivo da avaliação funcional
A avaliação funcional na Fisioterapia Esportiva é uma triagem prática do modo como a pessoa se move em tarefas simples e relevantes para o esporte. O foco não é “passar ou reprovar”, e sim identificar estratégias de movimento que podem aumentar carga em tecidos, reduzir eficiência e orientar o plano de exercícios. Por ser de baixo custo, ela pode ser repetida com frequência para acompanhar evolução.
Uma triagem funcional bem feita observa: qualidade (controle e alinhamento), capacidade (amplitude, força funcional, tolerância) e simetria (diferenças entre lados). O resultado é um conjunto de achados objetivos e comparáveis ao longo do tempo.
Princípios de qualidade do movimento (critérios que você vai usar em todos os testes)
1) Controle lombo-pélvico
- O que observar: manutenção de tronco estável, sem inclinar excessivamente, sem “cair” para um lado, sem hiperlordose/retroversão marcadas durante a tarefa.
- Sinais comuns: rotação de tronco para compensar, inclinação lateral, “barriga solta”/perda de pressão abdominal, pélvis rodando ou caindo no apoio.
- Por que importa: o tronco e a pelve são a base para transferência de força; perda de controle costuma aumentar demanda em quadril, joelho e coluna.
2) Alinhamento de joelho (cadeia do membro inferior)
- O que observar: joelho acompanhando a direção do 2º–3º dedo do pé em tarefas de agachar, avançar, saltar e aterrissar.
- Sinais comuns: valgo dinâmico (joelho “entra”), rotação interna excessiva do fêmur, joelho “foge” para fora, assimetria entre lados.
- Por que importa: desalinhamentos repetidos podem aumentar estresse em estruturas do joelho e reduzir eficiência mecânica.
3) Estabilidade do tornozelo e controle do pé
- O que observar: manutenção do arco do pé, controle de pronação/supinação, calcanhar estável, capacidade de dorsiflexão sem compensar.
- Sinais comuns: colapso do arco, calcanhar “cai” para dentro, instabilidade em apoio unipodal, elevação precoce do calcanhar em agachamentos.
- Por que importa: o tornozelo é o primeiro “amortecedor” e direciona alinhamento acima (joelho/quadril).
4) Amplitude e simetria
- O que observar: profundidade do agachamento, alcance no avanço, extensão de quadril na ponte, dorsiflexão no agachar, amplitude de braços/tronco quando relevante.
- Sinais comuns: limitações de um lado, compensações (tronco inclina para ganhar amplitude), diferença clara entre direita e esquerda.
- Por que importa: assimetrias persistentes podem indicar restrição, dor, medo de movimento ou déficit de controle/força.
Padronização: como tornar a triagem confiável e repetível
Ambiente e materiais (baixo custo)
- Espaço de 3–5 m livre, boa iluminação.
- Fita adesiva no chão para marcar posição dos pés e linha de marcha/corrida.
- Um banco/caixa (altura conhecida) para referência, se necessário.
- Celular para filmagem.
- Fita métrica (para alcance funcional e distância de saltos, quando aplicável).
Regras de execução
- Mesma ordem de testes em todas as reavaliações.
- Mesmas instruções verbais (use um roteiro curto).
- Mesmo número de tentativas: em geral 2–3 repetições para aprender + 2–3 válidas para registrar.
- Mesma velocidade: “controlado” para testes de controle; “natural” para marcha/corrida leve.
- Sem dor: se houver dor aguda, pare e registre (não force para “completar”).
Filmagem para feedback (ângulos simples e úteis)
- Plano frontal (de frente): ideal para ver alinhamento de joelho, queda pélvica, controle do pé.
- Plano sagital (de lado): ideal para ver inclinação de tronco, profundidade, dorsiflexão, padrão de aterrissagem.
- Dicas práticas: celular na altura do quadril/umbigo, a 2–3 m de distância; enquadrar do pé à cabeça; manter o mesmo local e distância em reavaliações.
- Feedback: mostre 1–2 pontos por vez (ex.: “joelho acompanha o pé” e “tronco estável”), evitando excesso de correções simultâneas.
Como registrar achados (para comparar ao longo do tempo)
Use um registro simples e objetivo, combinando descrição + escala. Exemplo de escala prática: 0 = adequado, 1 = leve compensação, 2 = compensação moderada, 3 = compensação importante (ou “não executa”).
| Teste | Lado | Critérios observados | Nota | Comentários |
|---|---|---|---|---|
| Agachamento | — | Tronco, joelho, tornozelo, profundidade | 1 | Valgo leve no final da descida |
| Equilíbrio unipodal | D/E | Queda pélvica, pé, oscilação | 2/1 | D: arco colapsa e tronco inclina |
Além da nota, registre condições (calçado, superfície, fadiga, dor 0–10) e links/nomes dos vídeos (ex.: “2026-01-31_agachamento_frontal.mp4”).
Roteiro de triagem funcional (baixo custo e alta aplicabilidade)
A seguir, um conjunto de testes básicos. Você pode aplicar em 10–20 minutos, dependendo do número de repetições e da necessidade de filmagem.
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1) Postura dinâmica (observação em pé com movimentos simples)
Objetivo: observar como a pessoa organiza tronco, pelve, quadris, joelhos e pés em movimentos leves, sem exigir força máxima.
Passo a passo:
- Posição inicial: em pé, pés na largura do quadril, braços relaxados.
- Peça 3 movimentos: elevar braços acima da cabeça, inclinar levemente o tronco à frente e girar o tronco para direita/esquerda (amplitude confortável).
- Filme de frente e de lado (10–15 s).
Critérios: alinhamento geral, controle lombo-pélvico (evitar “quebrar” na lombar), simetria de rotação e elevação de braços, distribuição de peso nos pés.
2) Marcha e corrida leve (quando apropriado)
Objetivo: observar padrão cíclico, impacto, alinhamento e controle do membro inferior em tarefa específica.
Passo a passo (marcha):
- Marque uma linha reta de 5–10 m.
- Peça para caminhar em velocidade confortável, ida e volta (2–3 passagens).
- Filme de frente (aproximação), de trás (afastamento) e de lado (se possível).
Passo a passo (corrida leve):
- Somente se a pessoa já corre e está sem dor limitante.
- Peça trote leve por 10–20 m (2–3 passagens).
- Filme principalmente de lado e de trás.
Critérios: queda pélvica no apoio, joelho acompanhando o pé, estabilidade do tornozelo, cadência/controle do impacto (ruído de passada muito alto pode sugerir aterrissagem rígida), simetria entre lados.
3) Agachamento bilateral (air squat)
Objetivo: triagem global de mobilidade (tornozelo/quadril), controle de tronco e alinhamento de joelho.
Passo a passo:
- Pés na largura dos ombros, pontas levemente para fora (confortável).
- Braços à frente ou mãos na cintura (padronize).
- Peça 5 repetições em ritmo controlado: 2 s descida, 1 s pausa, 2 s subida.
- Filme de frente e de lado.
Critérios:
- Controle lombo-pélvico: tronco inclina sem colapsar lombar; pelve não “encaixa” abruptamente no fundo (butt wink acentuado) se acompanhado de perda de controle.
- Joelho: acompanha 2º–3º dedo; evitar valgo dinâmico, principalmente na subida.
- Tornozelo/pé: calcanhar no chão, arco controlado, sem colapso excessivo.
- Amplitude: profundidade consistente e confortável; observe se a limitação vem de tornozelo (calcanhar levanta) ou quadril (tronco cai muito à frente).
4) Avanço (lunge) estacionário
Objetivo: avaliar controle em base estreita, alinhamento do joelho e estabilidade do tornozelo em padrão unilateral.
Passo a passo:
- Posição: um pé à frente e outro atrás, quadris “apontando” para frente.
- Descer verticalmente até ambos joelhos flexionarem (amplitude confortável), subir controlado.
- Faça 3–5 repetições por lado.
- Filme de frente (alinhamento) e de lado (tronco e profundidade).
Critérios: joelho da frente alinhado ao pé, tronco estável (sem inclinar/rodar), pelve nivelada, pé da frente com arco controlado, simetria entre lados (profundidade e estabilidade).
5) Ponte (glute bridge) bilateral e, se possível, unilateral
Objetivo: observar extensão de quadril, controle lombo-pélvico e simetria de ativação.
Passo a passo (bilateral):
- Deitado, joelhos flexionados, pés no chão na largura do quadril.
- Subir o quadril até alinhar tronco e coxas, sem hiperextender a lombar.
- Segurar 2 s no topo, descer controlado. Fazer 8–10 repetições.
Passo a passo (unilateral, quando apropriado):
- Uma perna estendida, outra no chão.
- Subir mantendo pelve nivelada. Fazer 5–8 repetições por lado.
Critérios: pelve não roda nem cai, lombar não “assume” o movimento, simetria (no unilateral, observar tremor/queda pélvica), cãibra posterior precoce pode sugerir estratégia dominante de isquiotibiais.
6) Equilíbrio unipodal (estático e com pequena tarefa)
Objetivo: avaliar controle do pé/tornozelo, estabilidade do quadril e controle do tronco.
Passo a passo:
- Em pé, mãos na cintura (padronize), olhar em um ponto fixo.
- Ficar 20–30 s em um pé. Repetir no outro.
- Progressão simples: tocar levemente o chão à frente/lado/trás com a ponta do pé livre (3 toques) sem perder alinhamento.
- Filme de frente.
Critérios: oscilação excessiva, colapso do arco, joelho “entra”, queda pélvica, inclinação do tronco, necessidade de usar braços para equilibrar (se mãos na cintura).
7) Alcance funcional (tipo Y-Balance simplificado)
Objetivo: quantificar controle e alcance em apoio unipodal com medida simples.
Montagem: faça um “Y” no chão com fita: uma linha para frente e duas diagonais (anterolateral e anteromedial). Use fita métrica para medir a distância alcançada.
Passo a passo:
- Em apoio unipodal, a outra perna alcança o mais longe possível tocando levemente a fita, sem transferir peso.
- 3 tentativas por direção, por lado. Registre a melhor (ou a média, se preferir padronizar).
- Filme de frente.
Critérios: manter calcanhar do pé de apoio no chão, joelho alinhado, pelve estável, tronco sem colapsar. Compare diferença entre lados e consistência entre tentativas.
Registro sugerido: distância (cm) por direção e lado + nota de qualidade (0–3). Exemplo: “Anterior D 62 cm (qualidade 1), E 68 cm (qualidade 0)”.
8) Saltos simples (quando apropriado)
Quando usar: em pessoas que já toleram impacto e precisam retornar a gestos com salto/corrida. Evite se houver dor aguda, instabilidade importante, pós-lesão recente sem liberação funcional, ou medo significativo do movimento.
Opção A: salto vertical bipodal com aterrissagem controlada
- Passo a passo: pés na largura do quadril; salto baixo (submáximo) e aterrissar “silencioso” com joelhos flexionando; 3–5 repetições.
- Critérios: joelhos não colapsam para dentro na aterrissagem, tronco não despenca, pés não “batem” instáveis, simetria na distribuição de carga.
Opção B: salto horizontal bipodal curto (broad jump curto)
- Passo a passo: saltar 30–60 cm e estabilizar 2 s na aterrissagem; 3 repetições.
- Critérios: controle do tornozelo/pé, joelho alinhado, estabilidade lombo-pélvica, capacidade de “travar” sem passos extras.
Filmagem: frontal (alinhamento) e lateral (estratégia de aterrissagem). Registre também se houve passos de correção ou perda de equilíbrio.
Como transformar achados em ações (sem “diagnosticar pelo teste”)
Os testes indicam onde e como o movimento perde qualidade. Use isso para escolher intervenções e para definir o que será reavaliado. Exemplos práticos:
- Valgo dinâmico no agachamento/avanço: priorize exercícios de controle de quadril e joelho (ex.: agachamento com mini-band como feedback, step-down controlado), além de revisar controle do pé/tornozelo.
- Calcanhar levanta e tronco cai muito no agachamento: suspeite de limitação de dorsiflexão e/ou estratégia para “fugir” do tornozelo; teste mobilidade de tornozelo em cadeia fechada e use variações com elevação de calcanhar temporária para treinar padrão sem perder alinhamento.
- Queda pélvica no apoio unipodal/marcha: foque em estabilidade pélvica e controle lateral (ex.: ponte unilateral bem executada, marcha lateral com elástico, step-up com pelve nivelada).
- Instabilidade do pé no equilíbrio e alcance: inclua treino de pé/tornozelo (ex.: short foot, equilíbrio progressivo, alcance com controle) e reavalie com as mesmas medidas em cm.
Checklist rápido para aplicação em sessão
- Antes: definir quais testes são relevantes para o esporte e para o momento (sem dor, com dor, retorno ao impacto).
- Durante: padronizar instruções, filmar 2 ângulos, observar critérios (lombo-pélvico, joelho, tornozelo, amplitude/simetria).
- Depois: registrar nota (0–3), medidas (cm/tempo), comentários curtos e salvar vídeos nomeados para comparação.