Objetivo da avaliação inicial: organizar, proteger e direcionar
A avaliação inicial em Fisioterapia Neurológica é uma consulta estruturada para: (1) garantir segurança imediata (do paciente e do terapeuta), (2) coletar informações relevantes para compreender limitações e participação no cotidiano, e (3) formular uma hipótese funcional inicial que guiará o exame físico e a definição de prioridades terapêuticas. O foco não é “fechar diagnóstico médico”, e sim identificar como a condição neurológica impacta atividades, papéis e autonomia, além de reconhecer sinais de alerta que exigem encaminhamento.
Organização prática da primeira consulta (passo a passo)
1) Preparação do ambiente e do atendimento
- Tempo e fluxo: reserve tempo para entrevista + exame físico básico + orientações iniciais. Evite “apertar” a consulta, pois aumenta risco e reduz qualidade da coleta.
- Ambiente seguro: espaço livre de obstáculos, cadeira com braços, maca com altura ajustável, acesso a água, banheiro próximo, iluminação adequada.
- Recursos essenciais: oxímetro, esfigmomanômetro, termômetro (se disponível), luvas, álcool, faixa elástica/cinto de marcha (se você utiliza), ficha de registro padronizada.
- Privacidade e comunicação: minimize ruídos, posicione-se no campo visual do paciente, confirme se há necessidade de intérprete/cuidador e se o paciente autoriza a presença.
2) Checagem de segurança imediata (antes de levantar ou testar)
- Estado geral: aparência, nível de alerta, fala, dispneia, sudorese, palidez, confusão.
- Sinais vitais quando indicado: pressão arterial, frequência cardíaca, saturação, especialmente se houver queixa de tontura, fadiga intensa, dor torácica, uso de medicações cardiovasculares, histórico de quedas recentes ou pós-evento neurológico recente.
- Risco de queda imediato: necessidade de apoio para sentar/levantar, instabilidade evidente, uso de dispositivo, medo de cair. Se houver risco, priorize avaliação em sedestação e transferências com assistência.
- Plano de assistência: defina nível de ajuda (supervisão, contato leve, assistência moderada) e se será necessário acompanhante durante deslocamentos.
3) Entrevista clínica estruturada (roteiro)
Use perguntas abertas no início e, em seguida, perguntas direcionadas. Sempre que possível, registre exemplos concretos (o que acontece, onde, com que frequência, em quais tarefas).
Roteiro sugerido (com exemplos de perguntas)
- Queixa principal: “O que mais está atrapalhando seu dia a dia hoje?” “Qual situação você mais quer melhorar primeiro?”
- Início e evolução do problema: “Quando começou?” “Foi súbito ou gradual?” “O que mudou nas últimas semanas?”
- Contexto de vida e rotina: “Com quem você mora?” “Como é um dia típico?” “Quais tarefas você precisa fazer em casa/trabalho?”
- Prioridades do paciente: “Se você pudesse escolher 2 melhorias para as próximas 4–6 semanas, quais seriam?”
- Nível de atividade prévia: “Antes do problema, você caminhava quanto?” “Fazia exercícios? Quais?” “Trabalhava em pé, sentado, dirigia?”
- Barreiras ambientais: “Sua casa tem escadas? Banheiro com barras? Tapetes soltos?” “Como é o acesso à rua/transporte?”
- Apoio familiar e rede: “Quem ajuda quando você precisa?” “Esse apoio é diário ou eventual?” “Há sobrecarga do cuidador?”
- Dor: “Onde dói?” “Em que situações piora/melhora?” “De 0 a 10, quanto?” “Interfere no sono ou no movimento?”
- Fadiga: “Em que horário do dia é pior?” “O que você consegue fazer antes de precisar parar?” “Quanto tempo leva para recuperar?”
- Sono: “Quantas horas dorme?” “Acorda muitas vezes?” “Sente-se descansado?”
- Objetivos de participação: “O que você quer voltar a fazer na comunidade?” “Visitar alguém, ir ao mercado, trabalhar, estudar, cuidar de alguém, praticar um hobby?”
- Segurança e quedas (perguntas diretas): “Você caiu no último mês?” “Quase caiu?” “Em que circunstâncias?”
- Medicações e comorbidades relevantes: “Quais remédios usa?” “Algum mudou recentemente?” “Tem pressão alta, diabetes, problemas cardíacos, osteoporose?”
- Dispositivos e órteses: “Usa bengala/andador/cadeira de rodas?” “Órtese, tala, palmilha?” “Consegue usar sozinho?”
4) Triagem de sinais de alerta e critérios de encaminhamento
Na avaliação inicial, a triagem de sinais de alerta (red flags) serve para reconhecer situações em que a fisioterapia deve ser adiada, adaptada ou acompanhada de avaliação médica. Em caso de dúvida, priorize segurança e documente a decisão.
Sinais de alerta neurológicos (encaminhar/urgência conforme gravidade)
- Início súbito de fraqueza, dormência, alteração de fala, assimetria facial, perda de visão, confusão ou piora neurológica rápida.
- Cefaleia intensa e diferente do habitual, especialmente com rigidez de nuca, febre, vômitos persistentes ou alteração do nível de consciência.
- Crise convulsiva recente sem avaliação/ajuste médico ou com recuperação incompleta.
- Quedas com perda de consciência, amnésia do evento, sinais de trauma craniano importante ou uso de anticoagulantes (risco aumentado).
- Alterações autonômicas importantes (ex.: sudorese fria, palidez, tontura intensa, desmaio) durante esforços leves.
Sinais de alerta cardiopulmonares (encaminhar/urgência conforme gravidade)
- Dor torácica, falta de ar desproporcional, palpitações com mal-estar, saturação baixa persistente, edema súbito importante.
- Pressão arterial muito elevada ou muito baixa com sintomas (tontura, visão turva, confusão), especialmente se repetida.
Sinais de alerta musculoesqueléticos/gerais
- Dor intensa progressiva sem relação com movimento, febre, perda de peso inexplicada, sinais de infecção.
- Suspeita de fratura após queda (dor localizada, deformidade, incapacidade de apoiar).
Critérios práticos para interromper a sessão e encaminhar
- Piora neurológica aguda durante a consulta.
- Síncope, pré-síncope persistente, dor torácica, dispneia importante.
- Confusão aguda, agitação incomum, sonolência marcada.
- Sinais vitais fora do esperado com sintomas e sem recuperação com repouso.
Como comunicar: explique de forma objetiva (“precisamos garantir sua segurança”), descreva o que foi observado, oriente procurar serviço médico/urgência conforme o caso e registre no prontuário o motivo e a orientação dada.
Modelo de registro clínico (campos + exemplos de preenchimento)
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IDENTIFICAÇÃO E CONTEXTO (data, local, acompanhante, consentimento para presença do cuidador) EX.: 31/01/2026. Paciente com esposa, autorizou presença. MOTIVO DA CONSULTA / QUEIXA PRINCIPAL EX.: “Insegurança para andar em casa e medo de cair ao ir ao banheiro à noite.” HISTÓRIA DO PROBLEMA ATUAL (início, evolução, fatores de melhora/piora) EX.: Início há 3 meses após internação. Piora com cansaço no fim do dia. Melhora com pausas. ROTINA E CONTEXTO DE VIDA EX.: Mora em casa térrea, banheiro sem barras, tapetes na sala. Sai pouco. ATIVIDADE PRÉVIA EX.: Antes caminhava 30 min/dia, fazia compras sozinho. PRIORIDADES DO PACIENTE (top 2–3) EX.: 1) Andar até o portão sem ajuda. 2) Tomar banho com mais segurança. BARREIRAS AMBIENTAIS EX.: Iluminação fraca no corredor à noite; ausência de barras no box. APOIO FAMILIAR/REDE EX.: Esposa ajuda nas transferências; filho visita 2x/semana. DOR (local, intensidade, comportamento) EX.: Ombro D 6/10 ao elevar braço; piora ao vestir camiseta. FADIGA EX.: Necessita pausa após 5–7 min em pé; recuperação em 10 min sentado. SONO EX.: Dorme 5–6h, acorda 3x/noite para urinar; sonolência diurna. QUEDAS/QUASE QUEDAS EX.: 2 quase quedas no banheiro na última semana; sem quedas com trauma. MEDICAÇÕES/COMORBIDADES RELEVANTES EX.: Anti-hipertensivo, anticoagulante; HAS e DM2. DISPOSITIVOS/ÓRTESES EX.: Usa bengala fora de casa; não usa dentro. TRIAGEM DE ALERTA (negativos/positivos) EX.: Nega dor torácica, nega piora neurológica súbita. Refere tontura ao levantar rápido. IMPRESSÃO INICIAL DE SEGURANÇA EX.: Risco aumentado de queda noturna; orientar iluminação e retirada de tapetes. HIPÓTESE FUNCIONAL INICIAL (ver seção abaixo) EX.: Limitação principal em transferências e marcha domiciliar por baixa tolerância ao ortostatismo + insegurança em mudanças de direção; participação restrita (não sai sozinho). PLANO PARA EXAME FÍSICO (o que priorizar hoje) EX.: Checar ortostatismo, transferências, controle de tronco em sedestação, alcance funcional, marcha curta com supervisão. ORIENTAÇÕES IMEDIATAS EX.: Levantar em etapas; hidratação; luz noturna; revisar necessidade de barras no banheiro. ENCAMINHAMENTOS/CONTATO MÉDICO (se aplicável) EX.: Orientado a comunicar médico sobre tontura postural e revisar medicação; registrado. Dicas para registrar com qualidade
- Use linguagem observável: “precisa de apoio no braço da cadeira para levantar” em vez de “fraco”.
- Quantifique quando possível: intensidade de dor, tempo em pé, distância aproximada, número de quedas.
- Inclua exemplos funcionais: “não consegue carregar um copo até a mesa sem apoiar” é mais útil do que “dificuldade de coordenação”.
Como definir uma hipótese funcional inicial (para guiar o exame físico)
A hipótese funcional inicial é uma explicação provisória, baseada na entrevista e na observação geral, sobre por que o paciente está com dificuldade e em quais situações. Ela não substitui o exame físico; ela define prioridades de teste e nível de segurança durante a avaliação.
Estrutura simples para formular a hipótese (modelo em 4 partes)
- 1) Tarefa-alvo limitada: qual atividade está falhando? (ex.: levantar da cama, caminhar em casa, usar a mão para comer).
- 2) Contexto: onde e quando ocorre? (ex.: à noite, em superfícies irregulares, quando está cansado).
- 3) Prováveis fatores contribuintes (a confirmar no exame): tolerância ao ortostatismo, dor, fadiga, medo, déficits sensoriais percebidos, limitações de amplitude, baixa resistência, dificuldade de dupla tarefa, barreiras ambientais.
- 4) Impacto na participação: o que deixou de fazer? (ex.: não vai ao mercado, evita visitas, parou de trabalhar).
Exemplos de hipóteses funcionais iniciais (bem escritas)
| Queixa/Contexto | Hipótese funcional inicial | O que priorizar no exame físico |
|---|---|---|
| “Quase caio quando viro para sentar na cama, principalmente de manhã.” | Instabilidade em mudanças de direção e transições posturais, possivelmente associada a tontura postural e baixa confiança; risco de queda em ambiente domiciliar. | Medidas de ortostatismo, transições (deitado-sentado, sentado-em pé), viradas, necessidade de apoio, estratégias de segurança. |
| “Minha mão não acompanha para abotoar e segurar talheres; fico frustrado.” | Limitação em destreza e uso funcional de membro superior em tarefas finas, com impacto em autocuidado e alimentação; possível influência de dor/rigidez e fadiga. | Observação de tarefas reais (talher, botão), preensão, alcance, coordenação funcional, dor durante movimento. |
| “Consigo andar pouco; depois de alguns minutos, preciso sentar.” | Baixa tolerância ao esforço e fadiga limitando marcha comunitária; participação reduzida (evita sair). Considerar fatores cardiopulmonares e de condicionamento, além de barreiras ambientais. | Sinais vitais em esforço leve, teste funcional graduado, pausas, percepção de esforço, segurança para treino. |
Roteiro de condução da consulta (script operacional)
- Minuto 0–5: acolhimento, consentimento, checagem rápida de segurança e necessidade de acompanhante.
- Minuto 5–20: entrevista estruturada (queixa, prioridades, contexto, barreiras, apoio, dor/fadiga/sono, participação).
- Minuto 20–25: triagem de sinais de alerta + decisão de prosseguir/adaptar/encaminhar.
- Minuto 25–45: exame físico guiado pela hipótese funcional (comece pelo mais seguro: sedestação/transferências antes de tarefas em pé, se necessário).
- Minuto 45–60: devolutiva breve (o que foi entendido), validação das prioridades, orientações imediatas de segurança e próximos passos (o que será avaliado/treinado nas próximas sessões).
Exemplo de devolutiva curta e útil (sem promessas)
“Pelo que você me contou, sua maior dificuldade é se sentir seguro nas transferências e ao caminhar à noite. Hoje vou observar como você levanta, vira e caminha com segurança, e vamos checar se a tontura ao levantar pode estar contribuindo. Também vou anotar ajustes simples em casa para reduzir risco de queda enquanto avançamos no tratamento.”