Do gasto ao impacto: por que “executar bem” não é só pagar contas
Na avaliação de resultados, a pergunta central deixa de ser “quanto foi gasto?” e passa a ser “o que foi entregue e o que mudou na vida das pessoas?”. A execução financeira (valores empenhados, liquidados e pagos) é necessária para viabilizar políticas públicas, mas não garante, sozinha, que houve melhoria real. Por isso, é útil organizar a análise em uma cadeia lógica que conecta recursos a mudanças observáveis.
Quatro níveis para analisar desempenho: insumos, produtos, resultados e impactos
Uma forma prática de não confundir “meio” com “fim” é separar o que é comprado/contratado do que é entregue e do que muda na realidade. Use esta distinção:
- Insumos: recursos usados para executar a ação (dinheiro, pessoal, materiais, contratos). Ex.: compra de vacinas, contratação de equipe, combustível para equipes de campo.
- Produtos (entregas/outputs): bens e serviços gerados diretamente pela ação. Ex.: doses aplicadas, consultas realizadas, quilômetros de estrada recuperados, alunos atendidos.
- Resultados (outcomes): efeitos de curto/médio prazo no público-alvo, associados ao uso do produto. Ex.: aumento da cobertura vacinal, redução do tempo de espera por consulta, aumento da frequência escolar.
- Impactos: mudanças mais amplas e duradouras, influenciadas por vários fatores além da ação. Ex.: redução de mortalidade por doença evitável, aumento da renda, redução de desigualdades territoriais.
Regra de bolso: execução financeira mede “esforço”; produto mede “entrega”; resultado mede “mudança no público”; impacto mede “mudança estrutural”.
Como PPA, LDO e LOA se conectam na avaliação de resultados
PPA: onde metas e indicadores dão o “norte” do que medir
Para avaliar resultados, você precisa de um alvo e de uma régua. O PPA normalmente oferece essa base ao definir programas com objetivos, metas e indicadores. Na prática, ele ajuda a responder:
- O que o governo quer mudar? (objetivo do programa)
- Como saber se está melhorando? (indicadores)
- Quanto pretende alcançar? (metas, muitas vezes físicas ou de resultado)
Na avaliação, use os indicadores do PPA como referência para escolher quais resultados acompanhar, evitando medir apenas o que é fácil (por exemplo, só contar eventos realizados).
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LDO: onde prioridades e metas anuais orientam foco e cobrança
Mesmo com um plano de médio prazo, o ano tem limites de capacidade e recursos. A LDO ajuda a transformar o “norte” em foco anual ao:
- Definir prioridades para o exercício (o que terá mais atenção e recursos).
- Orientar a alocação e a execução (regras e diretrizes que afetam o ritmo e a forma de implementar).
- Fortalecer a lógica de monitoramento: se algo é prioridade, espera-se meta clara e acompanhamento mais frequente.
Na avaliação, a LDO é útil para justificar por que certos indicadores e metas serão acompanhados com mais intensidade naquele ano.
LOA: onde a implementação vira “condição de possibilidade”
A LOA viabiliza a implementação ao autorizar dotações para ações específicas. Para avaliação de resultados, ela é o ponto de partida para conectar:
- Dotação (quanto foi autorizado)
- Ação (o que será feito)
- Meta física (quanto será entregue)
- Indicador (como medir mudança/efeito)
Sem dotação suficiente, o produto pode não acontecer; sem meta física, você perde o parâmetro de entrega; sem indicador, você não consegue sair do “gasto” para o “impacto”.
Passo a passo prático: como relacionar execução financeira a entregas e resultados
1) Escolha uma ação orçamentária e defina o “objeto avaliável”
Selecione uma ação com escopo claro (ex.: “aquisição e distribuição de medicamentos”, “manutenção de vias urbanas”, “ampliação de atendimento na atenção primária”). Defina o recorte: território, público-alvo e período.
2) Identifique a dotação e a execução financeira do período
Registre os valores autorizados e executados no período (por exemplo, autorizado, empenhado, liquidado e pago). Para análise de desempenho, compare execução com o planejado e observe sazonalidade (algumas entregas concentram-se em certos meses).
3) Defina a meta física (produto) e como será medida
Transforme a ação em entrega mensurável. Exemplos de metas físicas:
- “Aplicar 120.000 doses”
- “Recuperar 35 km de vias”
- “Realizar 18.000 consultas”
Especifique unidade de medida, fonte de dados e periodicidade (mensal, bimestral, trimestral).
4) Vincule a meta física a um indicador de resultado (e, se possível, de impacto)
Escolha um indicador que represente mudança no público-alvo, não apenas esforço. Exemplos:
- Resultado: “Cobertura vacinal (%) no público-alvo”
- Resultado: “Tempo médio de espera (dias) para consulta”
- Impacto: “Taxa de internações por condição sensível à atenção primária (por 10 mil)”
Defina linha de base (situação inicial), meta do período e método de cálculo.
5) Construa a cadeia lógica e explicite hipóteses e riscos
Nem todo produto vira resultado automaticamente. Registre as condições necessárias (ex.: adesão da população, logística, disponibilidade de profissionais) e riscos (ex.: desabastecimento, sazonalidade de demanda, atrasos contratuais). Isso evita atribuir ao orçamento efeitos que dependem de fatores externos.
6) Analise eficiência, eficácia e efetividade com perguntas simples
- Eficiência: “Quanto custou entregar cada unidade de produto?” (custo por dose aplicada, custo por km recuperado)
- Eficácia: “A meta física foi cumprida?” (entregas vs meta)
- Efetividade: “O indicador de resultado melhorou?” (mudança no público-alvo)
Uma leitura útil é cruzar execução financeira com entrega: execução alta com entrega baixa pode indicar gargalos (contratos, logística, capacidade). Entrega alta com execução baixa pode indicar subregistro, preços menores que o previsto ou execução concentrada em restos/contratos anteriores (dependendo do caso).
Modelo de quadro lógico simplificado (para usar em qualquer ação)
O quadro lógico organiza a relação entre recursos, entregas e mudanças. Abaixo um modelo simplificado, pronto para copiar e preencher:
QUADRO LÓGICO (simplificado) — Modelo preenchível
Problema público:
- (descreva em 1 frase)
Objetivo (resultado esperado):
- (mudança no público-alvo)
Insumos (recursos):
- Dotação (R$):
- Equipe/contratos principais:
Atividades (o que será feito):
- (lista curta de atividades)
Produtos (entregas) e meta física:
- Produto 1:
- Meta física:
- Unidade:
- Fonte de dados:
Indicadores:
- Indicador de produto (opcional):
- Fórmula:
- Periodicidade:
- Indicador de resultado (principal):
- Linha de base:
- Meta do ano:
- Fonte:
- Indicador de impacto (quando aplicável):
- Linha de base:
- Meta (médio prazo):
Hipóteses e riscos:
- Hipóteses (condições para funcionar):
- Riscos (o que pode atrapalhar):
Exemplo aplicado: conectando dotação, ação, meta física e indicador
Cenário: município quer aumentar a cobertura vacinal infantil e reduzir internações por doenças evitáveis.
1) Elementos orçamentários e de desempenho (visão integrada)
| Item | Como aparece na prática | Exemplo |
|---|---|---|
| Dotação (LOA) | Valor autorizado para a ação | R$ 3.000.000 |
| Ação | O que será executado | Aquisição e aplicação de vacinas + logística de imunização |
| Execução financeira | Quanto foi empenhado/liquidado/pago | Empenhado: R$ 2.700.000; Liquidado: R$ 2.400.000; Pago: R$ 2.200.000 |
| Meta física (produto) | Entrega mensurável | Aplicar 120.000 doses no ano |
| Indicador de resultado (PPA) | Mede mudança no público-alvo | Cobertura vacinal (%) em crianças < 1 ano |
| Prioridade (LDO) | Foco do ano | Fortalecer atenção básica e imunização |
2) Quadro lógico do exemplo (simplificado e já preenchido)
| Nível | Definição | No exemplo | Como medir |
|---|---|---|---|
| Insumos | Recursos | R$ 3.000.000; equipes; cadeia fria; transporte | Execução financeira (R$) e disponibilidade de equipe |
| Atividades | Processos | Comprar vacinas; distribuir; realizar campanhas; aplicar doses | Cronograma; registros de distribuição e aplicação |
| Produtos | Entregas | 120.000 doses aplicadas | Sistema de imunização; relatórios mensais |
| Resultados | Mudança no público-alvo | Aumentar cobertura vacinal de 78% para 90% | Indicador: cobertura vacinal (%) |
| Impactos | Mudança mais ampla | Reduzir internações por doenças evitáveis | Taxa de internações (por 10 mil) |
3) Conectando números: custo por entrega e leitura de desempenho
Com os dados do exemplo, você pode gerar análises objetivas:
- Custo por dose aplicada (aproximação): se foram aplicadas 110.000 doses e pagos R$ 2.200.000, então
R$ 2.200.000 / 110.000 ≈ R$ 20,00 por dose. Compare com períodos anteriores ou com municípios similares (quando houver referência). - Grau de cumprimento da meta física:
110.000 / 120.000 = 91,7%. Se a execução financeira foi 73% da dotação paga (2,2/3,0) e a entrega foi 91,7%, pode indicar boa eficiência (ou que parte dos custos será paga depois, exigindo cautela na interpretação). - Resultado: se a cobertura subiu de 78% para 88%, houve melhora, mas abaixo da meta (90%). Isso pede investigação: faltou busca ativa? houve hesitação vacinal? problemas de acesso?
4) Checklist rápido para não confundir produto com resultado
- “Doses aplicadas” é produto; “cobertura vacinal (%)” é resultado.
- “Campanhas realizadas” é atividade; “redução de internações” é impacto.
- Execução financeira alta sem melhora do indicador sugere que o problema pode estar em qualidade, focalização, acesso ou hipóteses não atendidas (ex.: adesão do público).
Boas práticas para escolher metas e indicadores (sem complicar)
Critérios simples para metas físicas (produto)
- Clareza: unidade de medida definida (doses, km, atendimentos).
- Rastreabilidade: existe fonte de dados confiável e periódica.
- Controle gerencial: a equipe executora consegue influenciar diretamente.
Critérios simples para indicadores de resultado
- Relevância: representa a mudança que importa para o cidadão.
- Sensibilidade: responde (ao menos em parte) às entregas no horizonte de tempo analisado.
- Comparabilidade: permite comparação no tempo e, quando possível, com outros territórios.
Como usar prioridades da LDO para organizar o monitoramento
Quando uma área é prioridade no ano, trate-a como “painel de controle”:
- Defina 1 a 3 indicadores-chave de resultado.
- Associe cada indicador a 1 ou mais metas físicas (produtos) e às ações financiadas.
- Estabeleça uma rotina de acompanhamento (ex.: mensal para produto; trimestral para resultado).