O auto de infração de trânsito (AIT) é o registro formal do fato constatado pela autoridade/agente competente, que dá suporte ao processo administrativo. A qualidade do AIT depende de consistência interna (os campos “conversam” entre si), precisão (dados verificáveis) e aderência aos requisitos formais (campos obrigatórios, identificação, local, tempo e descrição). Um AIT bem preenchido reduz retrabalho, evita nulidades e aumenta a rastreabilidade do ato fiscalizatório.
Campos essenciais do AIT: o que não pode faltar
Os campos essenciais são aqueles que, se ausentes, ilegíveis ou contraditórios, comprometem a validade do registro e a correta identificação do fato, do veículo e do responsável. Na prática, a conferência deve garantir que o AIT permita responder, sem suposições: “o que ocorreu, onde, quando, com qual veículo, sob qual enquadramento e com quais elementos de constatação”.
Identificação do AIT e do órgão autuador
- Número do AIT: identificador único, sem duplicidade.
- Órgão/entidade autuadora: código/identificação conforme padrão interno.
- Agente/autoridade: identificação funcional (matrícula/código) e assinatura (física ou eletrônica, conforme sistema).
Dados de tempo e local
- Data e hora: no formato padronizado; coerentes com a dinâmica descrita.
- Local: município/UF, via, número aproximado ou referência (km, sentido, ponto notável), e, quando aplicável, sentido da via.
- Condições relevantes (quando influenciam a constatação): por exemplo, “via com sinalização vertical R-19 visível” ou “faixa de pedestres demarcada”. Evite narrativas extensas; registre apenas o que é verificável e pertinente.
Identificação do veículo
- Placa: conferir caracteres e padrão.
- Marca/modelo e espécie/categoria (quando exigido pelo sistema): devem ser compatíveis com a placa/consulta.
- Cor (quando disponível): útil para rastreabilidade, especialmente em locais com grande fluxo.
Identificação do condutor e do proprietário
- Condutor: quando abordado, registrar nome e documento (CNH/CPF) conforme procedimento do órgão.
- Assinatura do condutor: quando houver abordagem e assinatura for prevista; se recusar, registrar a recusa no campo próprio/observações do sistema, sem adjetivações.
- Proprietário: em regra, identificado via cadastro; não inventar dados. Se o sistema preencher automaticamente, conferir consistência.
Tipificação/enquadramento e descrição do fato
- Código de enquadramento: selecionar o correto e compatível com a situação observada.
- Descrição objetiva: deve refletir a conduta e os elementos observáveis (sinalização, local, manobra, posição do veículo, equipamento, etc.).
- Elemento de constatação: abordagem, observação direta, equipamento medidor, registro por imagem, etc., conforme aplicável.
Equipamentos e medições (quando aplicável)
- Identificação do equipamento: número de série/patrimônio, tipo.
- Medição: valor aferido/considerado, unidade e condições necessárias (ex.: velocidade medida/considerada).
- Condições de uso: quando o procedimento exigir (ex.: teste, calibração/validade, posicionamento). Registrar apenas o essencial e verificável.
Requisitos formais de validade e consistência
Além de “preencher todos os campos”, o AIT precisa ser consistente. A consistência é a ausência de contradições entre local, horário, enquadramento, descrição e dados do veículo/condutor. Requisitos formais típicos de qualidade incluem:
- Legibilidade e integridade: sem rasuras, campos truncados, abreviações incompreensíveis ou dados incompletos.
- Identificação inequívoca: placa e local devem permitir localizar o fato sem ambiguidade.
- Coerência entre enquadramento e narrativa: a descrição deve “provar” o enquadramento escolhido, sem depender de interpretação subjetiva.
- Impessoalidade: registrar o fato, não a opinião (“condutor imprudente”, “dirigia mal”).
- Verificabilidade: incluir somente elementos que possam ser confirmados (sinalização existente, posição do veículo, marcações viárias, leitura de equipamento, etc.).
- Rastreabilidade: quando houver suporte (foto, vídeo, relatório de equipamento, número de ocorrência), referenciar o identificador correto no campo apropriado.
Prazos e formas de notificação: o que o agente precisa garantir no registro
A notificação é etapa essencial do processo e depende da qualidade do AIT para ser expedida corretamente. Embora a expedição e o fluxo administrativo possam ser executados por setores específicos, o agente impacta diretamente a notificação ao registrar dados completos e corretos.
Formas usuais de notificação
- Notificação por abordagem: quando o condutor é abordado e cientificado no ato, conforme procedimento e sistema adotados.
- Notificação ao proprietário: quando não há abordagem, a notificação segue para o endereço cadastrado do proprietário.
- Meios eletrônicos: quando previstos e aderentes ao cadastro do usuário, com registro de expedição/ciência conforme regras do órgão.
Prazos: impacto prático no preenchimento
- Data/hora e local corretos são críticos para contagem de prazos e para a defesa. Erros nesses campos geram questionamentos e podem inviabilizar a continuidade do processo.
- Dados cadastrais: se a placa estiver errada, a notificação pode ser expedida a terceiro ou não ser expedida, gerando nulidades e retrabalho.
- Registro imediato: quando o sistema permite lavratura eletrônica, a inserção tempestiva reduz risco de inconsistências e perda de detalhes observacionais.
Passo a passo prático para lavrar um AIT com qualidade
1) Preparação e checagem do contexto
- Confirme o ponto exato (referência, km, sentido) e a sinalização pertinente (placa, marca viária, semáforo, faixa, etc.).
- Defina o enquadramento com base no que é observável e registrável.
- Se houver equipamento, confirme identificação e condição de uso exigida pelo procedimento.
2) Identificação do veículo
- Leia a placa com dupla conferência (visual + consulta, quando disponível).
- Confronte marca/modelo/cor com o que é visto, quando o sistema apresentar divergência relevante.
- Evite “completar” dados por suposição (ex.: cor “prata” quando não há certeza).
3) Data, hora e local
- Registre a hora real do fato (não a hora de finalização do AIT, se forem diferentes).
- Descreva o local com granularidade suficiente: via + número aproximado ou referência + sentido.
- Em rodovias/avenidas longas, inclua km, sentido e ponto de referência para reduzir ambiguidade.
4) Condutor (quando abordado)
- Registre dados do documento conforme apresentado/consultado.
- Se houver recusa de assinatura, registre a ocorrência de forma neutra (“condutor recusou-se a assinar”), sem qualificações.
- Se o condutor não estiver presente (ex.: veículo estacionado), não inventar dados; manter campos conforme procedimento do órgão.
5) Enquadramento e narrativa impessoal
- Selecione o enquadramento correto e, em seguida, escreva a narrativa para demonstrar os elementos do fato.
- Use linguagem descritiva: “veículo X, placa Y, transitava/estava estacionado em…”, “foi constatado que…”.
- Inclua o elemento material: sinalização, marca viária, posição do veículo, manobra, equipamento, distância, sentido, etc., quando pertinente.
6) Revisão de consistência (checklist rápido)
- Placa confere? Local confere? Data/hora confere?
- Enquadramento confere com a narrativa?
- Narrativa está impessoal e verificável?
- Campos obrigatórios preenchidos e legíveis?
- Se houver equipamento/imagem, identificadores foram registrados?
Modelo comentado de preenchimento (exemplo didático)
A seguir, um modelo genérico para treinar consistência e clareza. Ajuste aos campos do seu sistema (talonário eletrônico/físico) e aos padrões do órgão.
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1. Número do AIT: 2026XXXXXXX (gerado pelo sistema) // Deve ser único e rastreável. Não reutilizar/duplicar. 2. Órgão autuador: DETRAN/UF (código interno) // Confere com a competência e com o sistema. 3. Data: 16/01/2026 Hora: 14:32 // Hora do fato. Evite arredondar sem necessidade. 4. Local: Av. Central, nº 1200, sentido bairro-centro, Município/UF // Referência objetiva. 5. Veículo: Placa ABC1D23 Marca/Modelo: (auto) Cor: (observada) // Placa com dupla conferência. 6. Condutor: (se abordado) Nome + CNH/CPF // Sem abreviar de forma ambígua. 7. Enquadramento: (código) // Selecionar o correto antes de narrar. 8. Descrição do fato (impessoal e verificável): // Estrutura recomendada: sujeito + ação + contexto + elemento material. "Foi constatado que o veículo placa ABC1D23 transitava pela Av. Central, sentido bairro-centro, e realizou [conduta] em local sinalizado por [placa/marcação], visível no ponto." 9. Elemento de constatação: Observação direta / Abordagem / Equipamento (ID: XXXXX) // Informar o meio. 10. Observações (se necessário): // Apenas o indispensável: recusa de assinatura, condições objetivas, referência de mídia. "Condutor recusou-se a assinar." 11. Assinatura do agente: (código/matrícula) // Conforme padrão do sistema.Como relatar a dinâmica do fato de forma impessoal e verificável
Use uma estrutura fixa para reduzir subjetividade e aumentar consistência:
- Quem/qual: “veículo placa…”, “condutor… (quando identificado)”.
- O que: a ação observada (manobra, parada, circulação, estacionamento, uso de equipamento, etc.).
- Onde: via + referência + sentido.
- Quando: data/hora.
- Elemento material: sinalização, marca viária, posição do veículo, equipamento, registro de imagem, etc.
Exemplos de frases adequadas (neutras):
- “Foi constatado que o veículo placa ___ encontrava-se estacionado sobre a marcação de faixa de pedestres, em frente ao nº ___.”
- “Foi constatado que o veículo placa ___ avançou o semáforo com indicação vermelha no cruzamento ___, sentido ___.”
- “Por meio do equipamento ___ (ID ___), foi registrada a medição de ___, sendo considerada ___, no ponto ___.”
Exemplos do que evitar (subjetivo/valorativo):
- “Condutor estava em alta velocidade” (sem medição/critério registrado).
- “Condutor foi irresponsável” (juízo de valor).
- “Quase causou acidente” (hipótese sem evidência objetiva no AIT).
Erros frequentes que geram inconsistência, retrabalho e risco de nulidade
- Placa incorreta (troca de caracteres, O/0, I/1): direciona notificação a terceiro ou inviabiliza expedição.
- Local genérico (“Av. Brasil” sem número, km, sentido): dificulta defesa, auditoria e validação do fato.
- Data/hora incompatíveis: divergência com turno de serviço, com registro de equipamento ou com sequência de AITs.
- Enquadramento não compatível com a narrativa: descrição não contém os elementos mínimos do tipo infracional.
- Narrativa opinativa: uso de adjetivos e conclusões (“perigoso”, “imprudente”) em vez de fatos.
- Campos obrigatórios em branco: agente, órgão, local, identificação do veículo, meio de constatação.
- Abreviações confusas: “prox.”, “em frte”, “s/ nº” sem padrão; prefira escrita clara e padronizada.
- Rasuras/ilegibilidade (quando em papel): compromete a integridade do ato.
- Equipamento sem identificação: quando a constatação depende de medição/registro, a falta do ID fragiliza o AIT.
- Observações excessivas: textos longos e dispersos aumentam risco de contradição; registre só o necessário.
Práticas para assegurar clareza, rastreabilidade e aderência normativa
Padronização de escrita e vocabulário
- Adote frases curtas e objetivas.
- Use sempre a mesma ordem: veículo → ação → local → sinalização/elemento material.
- Evite sinônimos que mudem o sentido operacional (ex.: “parou” vs “estacionou”, quando a distinção for relevante).
Dupla checagem antes de confirmar
- Leia a placa em voz baixa e compare com a consulta/sistema.
- Revise local e sentido: “qualquer agente conseguiria encontrar o ponto com essa descrição?”
- Revise se a narrativa contém o elemento material (placa, faixa, semáforo, equipamento) quando necessário.
Rastreabilidade documental
- Quando houver mídia (foto/vídeo) ou relatório de equipamento, registre o identificador no campo próprio.
- Se houver ocorrência/apoio operacional, registre o número de referência somente quando o procedimento do órgão prever.
- Mantenha coerência entre AITs sequenciais (horário e deslocamento plausíveis), evitando lacunas que gerem questionamentos.
Qualidade do registro em situações comuns
- Sem abordagem: capriche em local, referência e elemento material; a narrativa deve ser autoexplicativa.
- Com abordagem: registre corretamente a identificação do condutor e eventuais ocorrências objetivas (ex.: recusa de assinatura).
- Em locais complexos (cruzamentos, retornos, corredores): inclua sentido e ponto exato (antes/depois do cruzamento, lado da via, faixa).