Arredondamentos, casas decimais e apresentação da resposta: padrões seguros no cálculo de medicamentos

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Por que arredondar é uma decisão clínica e não “só matemática”

No cálculo de medicamentos, o arredondamento define o que de fato será medido e administrado. A resposta “matematicamente exata” pode ser impossível de aspirar, pode exceder o erro aceitável de uma seringa ou pode aumentar risco em fármacos de alta vigilância. Por isso, o padrão seguro é: manter máxima precisão durante o cálculo e arredondar apenas no final, com uma regra prática baseada em: (1) unidade (mg, mcg, mL), (2) dispositivo disponível (seringa/bomba), (3) volume mínimo mensurável, (4) risco do medicamento e do paciente.

Dois princípios que evitam erros

  • Não arredonde no meio do caminho: cada arredondamento intermediário “carrega” erro para a etapa seguinte e pode distorcer a dose final.
  • Arredonde para o que é mensurável: a resposta final deve ser compatível com a graduação da seringa (ou com a precisão da bomba), e com um volume que possa ser administrado com segurança.

Regras práticas de arredondamento (mg, mcg e mL)

1) Regras para mL (volume a aspirar/administrar)

Use como referência a menor graduação confiável do dispositivo. Na prática, a seringa define o “passo” do arredondamento.

DispositivoGraduação típicaArredondamento prático do volume (mL)Observação de segurança
Seringa 1 mL (tuberculina/insulina em mL)0,01 mLArredondar para 0,01 mLPreferida para volumes pequenos e drogas potentes
Seringa 3 mL0,1 mLArredondar para 0,1 mLEvitar para volumes < 0,3 mL quando possível
Seringa 5–10 mL0,2 mL (varia)Arredondar para 0,2 mL (ou menor graduação disponível)Maior erro relativo em volumes pequenos
Bomba de infusão0,1 mL/h (comum)Arredondar taxa para 0,1 mL/h (ou conforme equipamento)Checar limites do equipamento e política local

Regra de bolso: se o volume calculado for muito pequeno para medir com segurança, a solução segura costuma ser usar seringa menor e/ou ajustar a concentração por diluição (conforme protocolo), em vez de “forçar” um arredondamento grande.

2) Regras para mg e mcg (dose em massa)

Em geral, quem determina a dose é a prescrição; o que você mede é o volume. Ainda assim, você pode precisar apresentar a dose calculada (ex.: dose por peso) e decidir como reportá-la.

  • mg: frequentemente arredondar para 0,1 mg quando a apresentação e a mensuração permitirem; para doses muito pequenas (ex.: < 1 mg), considerar 0,01 mg se houver necessidade clínica e capacidade de preparo/medição compatível.
  • mcg: preferir apresentar em número inteiro de mcg quando possível. Para drogas de alta potência em microdoses, pode ser necessário manter 1 casa decimal (ex.: 12,5 mcg) apenas se a concentração e o dispositivo permitirem medir com fidelidade.
  • Drogas de alta vigilância: evitar arredondamentos “para cima” que aumentem dose sem justificativa. Quando houver dúvida, priorize precisão (seringa menor/diluição) e dupla checagem.

Regra de bolso: a dose em mg/mcg pode ser apresentada com mais casas durante o cálculo, mas a administração deve ser convertida para um volume mensurável. Se o volume mensurável implicar mudança relevante na dose, ajuste o preparo (ex.: diluir) ou valide com prescrição/protocolo.

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Como manter precisão e arredondar só no final (passo a passo)

Passo a passo prático

  1. Escreva a expressão completa do cálculo com unidades (sem arredondar).
  2. Calcule com precisão (idealmente mantendo 3–4 casas decimais em etapas intermediárias, ou usando frações/valores exatos quando possível).
  3. Converta para a forma administrável (geralmente mL ou mL/h).
  4. Escolha o dispositivo (seringa 1 mL, 3 mL, bomba etc.) e identifique a menor graduação confiável.
  5. Arredonde apenas o valor final administrável para a graduação do dispositivo.
  6. Verifique o impacto do arredondamento (diferença absoluta e percentual na dose).
  7. Registre a decisão: valor exato, valor arredondado, dispositivo e justificativa (ex.: “compatível com seringa 1 mL”).

Como avaliar o impacto do arredondamento

Uma forma simples é calcular o erro percentual:

Erro (%) = (|valor arredondado − valor exato| / valor exato) × 100

Em volumes pequenos, um arredondamento aparentemente “pequeno” pode gerar erro percentual grande. Isso é especialmente crítico em pediatria, neonatologia e drogas de alta vigilância.

Exemplos: como o arredondamento muda a dose final

Exemplo 1 — Volume pequeno: diferença de seringa muda o erro

Situação: volume calculado para administrar uma dose é 0,26 mL.

  • Com seringa de 3 mL (arredonda para 0,1 mL): volume administrável ≈ 0,3 mL. Diferença: +0,04 mL (erro relativo ~15,4%).
  • Com seringa de 1 mL (arredonda para 0,01 mL): volume administrável ≈ 0,26 mL. Diferença: 0,00 mL (erro ~0%).

Aprendizado: antes de “aceitar” arredondar, troque para um dispositivo mais adequado. O arredondamento não é só número; é escolha de ferramenta.

Exemplo 2 — Arredondar no meio do cálculo distorce o resultado

Situação: você precisa preparar um volume final a partir de uma concentração e uma dose. Durante o cálculo, surge um valor intermediário 1,6667.

  • Conduta insegura: arredondar cedo para 1,7 e seguir. Isso pode “empurrar” o resultado final para cima.
  • Conduta segura: manter 1,6667 (ou mais casas) e arredondar apenas o volume final para a graduação da seringa.

Aprendizado: arredondamentos intermediários acumulam erro. O padrão seguro é preservar casas decimais até o último passo.

Exemplo 3 — Quando o arredondamento exige mudar a estratégia (diluir)

Situação: volume calculado é 0,04 mL. Mesmo com seringa de 1 mL (0,01 mL), o erro relativo de 0,01 mL seria 25% se você arredondar para 0,05 mL ou 0,03 mL.

Conduta segura: em vez de aceitar um arredondamento com alto erro relativo, considerar diluição conforme protocolo para aumentar o volume administrável (ex.: tornar a dose equivalente a 0,2–0,4 mL), mantendo a mesma dose em massa.

Aprendizado: volumes muito pequenos são um sinal para revisar dispositivo/concentração, especialmente em fármacos potentes.

Como documentar o arredondamento (modelo prático)

Documentar reduz ambiguidade entre quem prepara e quem administra, e facilita auditoria/checagem.

O que registrar

  • Valor exato calculado (com unidade): ex.: 0,263 mL.
  • Valor administrado (arredondado): ex.: 0,26 mL.
  • Dispositivo: ex.: “seringa 1 mL (graduação 0,01 mL)”.
  • Motivo: ex.: “arredondado para graduação do dispositivo” ou “ajuste para bomba (0,1 mL/h)”.
  • Checagem (quando aplicável): “dupla checagem realizada” (conforme política local).

Exemplos de anotação

  • Volume calculado: 0,263 mL. Administrado: 0,26 mL (seringa 1 mL; arredondado para 0,01 mL).
  • Taxa calculada: 7,46 mL/h. Programado: 7,5 mL/h (bomba com passo 0,1 mL/h).

Mini-guia de notação segura (casas decimais e unidades)

Regras de escrita que evitam erros de 10×

  • Use zero à esquerda para valores < 1: escreva 0,5 mg (não ,5 mg).
  • Evite zero à direita em inteiros: escreva 5 mg (não 5,0 mg), para reduzir risco de leitura como 50 mg.
  • Unidade sempre explícita: nunca deixe número “solto”.
  • Não misture unidades na mesma linha sem clareza (ex.: mg e mcg). Se precisar, reescreva em uma única unidade.
  • Evite abreviações perigosas: prefira escrever por extenso quando houver risco de confusão. Exemplos comuns a evitar: U (pode parecer 0), IU mal escrito, µg (pode ser lido como mg); prefira UI e mcg quando aplicável e padronizado.
  • Use vírgula ou ponto de forma consistente conforme padrão institucional, e mantenha o mesmo padrão em todo o registro.

Apresentação segura do resultado

  • Quando o resultado final for mL, apresente com o número de casas compatível com a seringa (ex.: 0,26 mL; 1,3 mL).
  • Quando o resultado final for mL/h, apresente com o passo da bomba (ex.: 7,5 mL/h).
  • Se houver arredondamento relevante, registre o valor exato e o administrado.

Exercícios (foco em casas decimais e volumes pequenos)

Instruções: mantenha precisão durante o cálculo e arredonde apenas a resposta final conforme o dispositivo indicado. Em seguida, calcule o erro percentual do arredondamento.

1) Arredondamento por seringa

Um volume calculado foi 0,247 mL.

  • a) Qual volume você registraria usando seringa de 1 mL (0,01 mL)?
  • b) Qual volume usando seringa de 3 mL (0,1 mL)?
  • c) Compare o erro percentual em (a) e (b).

2) Volume mínimo mensurável

Você obteve 0,06 mL como volume final. O setor só dispõe de seringa de 3 mL.

  • a) Qual seria o volume arredondado para a graduação disponível?
  • b) Qual o erro percentual aproximado?
  • c) Que medida prática reduziria o erro sem alterar a dose prescrita (pense em dispositivo/concentração)?

3) Notação segura

Reescreva as anotações abaixo de forma segura:

  • a) .5 mg
  • b) 5.0 mg
  • c) 10 U
  • d) 250 µg (considere risco de confusão e padronização)

4) Arredondar apenas no final

Durante um cálculo, você obteve um valor intermediário 2,3333 e no final um volume 1,167 mL para seringa de 1 mL.

  • a) Qual volume final você administraria?
  • b) Mostre como ficaria diferente se você arredondasse o intermediário para 2,3 antes de terminar (não precisa refazer todo o cálculo; descreva o efeito esperado).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao calcular um volume para administração, qual conduta segue o padrão seguro de arredondamento para reduzir erros?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O padrão seguro é preservar a precisão durante todo o cálculo e arredondar somente no final, para um valor mensurável e compatível com a graduação da seringa/bomba. Arredondamentos intermediários acumulam erro e podem distorcer a dose.

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Prevenção de erros de medicação no cálculo: barreiras, dupla checagem e análise de plausibilidade

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