Por que arredondar é uma decisão clínica e não “só matemática”
No cálculo de medicamentos, o arredondamento define o que de fato será medido e administrado. A resposta “matematicamente exata” pode ser impossível de aspirar, pode exceder o erro aceitável de uma seringa ou pode aumentar risco em fármacos de alta vigilância. Por isso, o padrão seguro é: manter máxima precisão durante o cálculo e arredondar apenas no final, com uma regra prática baseada em: (1) unidade (mg, mcg, mL), (2) dispositivo disponível (seringa/bomba), (3) volume mínimo mensurável, (4) risco do medicamento e do paciente.
Dois princípios que evitam erros
- Não arredonde no meio do caminho: cada arredondamento intermediário “carrega” erro para a etapa seguinte e pode distorcer a dose final.
- Arredonde para o que é mensurável: a resposta final deve ser compatível com a graduação da seringa (ou com a precisão da bomba), e com um volume que possa ser administrado com segurança.
Regras práticas de arredondamento (mg, mcg e mL)
1) Regras para mL (volume a aspirar/administrar)
Use como referência a menor graduação confiável do dispositivo. Na prática, a seringa define o “passo” do arredondamento.
| Dispositivo | Graduação típica | Arredondamento prático do volume (mL) | Observação de segurança |
|---|---|---|---|
| Seringa 1 mL (tuberculina/insulina em mL) | 0,01 mL | Arredondar para 0,01 mL | Preferida para volumes pequenos e drogas potentes |
| Seringa 3 mL | 0,1 mL | Arredondar para 0,1 mL | Evitar para volumes < 0,3 mL quando possível |
| Seringa 5–10 mL | 0,2 mL (varia) | Arredondar para 0,2 mL (ou menor graduação disponível) | Maior erro relativo em volumes pequenos |
| Bomba de infusão | 0,1 mL/h (comum) | Arredondar taxa para 0,1 mL/h (ou conforme equipamento) | Checar limites do equipamento e política local |
Regra de bolso: se o volume calculado for muito pequeno para medir com segurança, a solução segura costuma ser usar seringa menor e/ou ajustar a concentração por diluição (conforme protocolo), em vez de “forçar” um arredondamento grande.
2) Regras para mg e mcg (dose em massa)
Em geral, quem determina a dose é a prescrição; o que você mede é o volume. Ainda assim, você pode precisar apresentar a dose calculada (ex.: dose por peso) e decidir como reportá-la.
- mg: frequentemente arredondar para 0,1 mg quando a apresentação e a mensuração permitirem; para doses muito pequenas (ex.: < 1 mg), considerar 0,01 mg se houver necessidade clínica e capacidade de preparo/medição compatível.
- mcg: preferir apresentar em número inteiro de mcg quando possível. Para drogas de alta potência em microdoses, pode ser necessário manter 1 casa decimal (ex.: 12,5 mcg) apenas se a concentração e o dispositivo permitirem medir com fidelidade.
- Drogas de alta vigilância: evitar arredondamentos “para cima” que aumentem dose sem justificativa. Quando houver dúvida, priorize precisão (seringa menor/diluição) e dupla checagem.
Regra de bolso: a dose em mg/mcg pode ser apresentada com mais casas durante o cálculo, mas a administração deve ser convertida para um volume mensurável. Se o volume mensurável implicar mudança relevante na dose, ajuste o preparo (ex.: diluir) ou valide com prescrição/protocolo.
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Como manter precisão e arredondar só no final (passo a passo)
Passo a passo prático
- Escreva a expressão completa do cálculo com unidades (sem arredondar).
- Calcule com precisão (idealmente mantendo 3–4 casas decimais em etapas intermediárias, ou usando frações/valores exatos quando possível).
- Converta para a forma administrável (geralmente mL ou mL/h).
- Escolha o dispositivo (seringa 1 mL, 3 mL, bomba etc.) e identifique a menor graduação confiável.
- Arredonde apenas o valor final administrável para a graduação do dispositivo.
- Verifique o impacto do arredondamento (diferença absoluta e percentual na dose).
- Registre a decisão: valor exato, valor arredondado, dispositivo e justificativa (ex.: “compatível com seringa 1 mL”).
Como avaliar o impacto do arredondamento
Uma forma simples é calcular o erro percentual:
Erro (%) = (|valor arredondado − valor exato| / valor exato) × 100Em volumes pequenos, um arredondamento aparentemente “pequeno” pode gerar erro percentual grande. Isso é especialmente crítico em pediatria, neonatologia e drogas de alta vigilância.
Exemplos: como o arredondamento muda a dose final
Exemplo 1 — Volume pequeno: diferença de seringa muda o erro
Situação: volume calculado para administrar uma dose é 0,26 mL.
- Com seringa de 3 mL (arredonda para 0,1 mL): volume administrável ≈
0,3 mL. Diferença:+0,04 mL(erro relativo ~15,4%). - Com seringa de 1 mL (arredonda para 0,01 mL): volume administrável ≈
0,26 mL. Diferença:0,00 mL(erro ~0%).
Aprendizado: antes de “aceitar” arredondar, troque para um dispositivo mais adequado. O arredondamento não é só número; é escolha de ferramenta.
Exemplo 2 — Arredondar no meio do cálculo distorce o resultado
Situação: você precisa preparar um volume final a partir de uma concentração e uma dose. Durante o cálculo, surge um valor intermediário 1,6667.
- Conduta insegura: arredondar cedo para
1,7e seguir. Isso pode “empurrar” o resultado final para cima. - Conduta segura: manter
1,6667(ou mais casas) e arredondar apenas o volume final para a graduação da seringa.
Aprendizado: arredondamentos intermediários acumulam erro. O padrão seguro é preservar casas decimais até o último passo.
Exemplo 3 — Quando o arredondamento exige mudar a estratégia (diluir)
Situação: volume calculado é 0,04 mL. Mesmo com seringa de 1 mL (0,01 mL), o erro relativo de 0,01 mL seria 25% se você arredondar para 0,05 mL ou 0,03 mL.
Conduta segura: em vez de aceitar um arredondamento com alto erro relativo, considerar diluição conforme protocolo para aumentar o volume administrável (ex.: tornar a dose equivalente a 0,2–0,4 mL), mantendo a mesma dose em massa.
Aprendizado: volumes muito pequenos são um sinal para revisar dispositivo/concentração, especialmente em fármacos potentes.
Como documentar o arredondamento (modelo prático)
Documentar reduz ambiguidade entre quem prepara e quem administra, e facilita auditoria/checagem.
O que registrar
- Valor exato calculado (com unidade): ex.:
0,263 mL. - Valor administrado (arredondado): ex.:
0,26 mL. - Dispositivo: ex.: “seringa 1 mL (graduação 0,01 mL)”.
- Motivo: ex.: “arredondado para graduação do dispositivo” ou “ajuste para bomba (0,1 mL/h)”.
- Checagem (quando aplicável): “dupla checagem realizada” (conforme política local).
Exemplos de anotação
Volume calculado: 0,263 mL. Administrado: 0,26 mL (seringa 1 mL; arredondado para 0,01 mL).Taxa calculada: 7,46 mL/h. Programado: 7,5 mL/h (bomba com passo 0,1 mL/h).
Mini-guia de notação segura (casas decimais e unidades)
Regras de escrita que evitam erros de 10×
- Use zero à esquerda para valores < 1: escreva
0,5 mg(não,5 mg). - Evite zero à direita em inteiros: escreva
5 mg(não5,0 mg), para reduzir risco de leitura como50 mg. - Unidade sempre explícita: nunca deixe número “solto”.
- Não misture unidades na mesma linha sem clareza (ex.: mg e mcg). Se precisar, reescreva em uma única unidade.
- Evite abreviações perigosas: prefira escrever por extenso quando houver risco de confusão. Exemplos comuns a evitar:
U(pode parecer 0),IUmal escrito,µg(pode ser lido como mg); prefiraUIemcgquando aplicável e padronizado. - Use vírgula ou ponto de forma consistente conforme padrão institucional, e mantenha o mesmo padrão em todo o registro.
Apresentação segura do resultado
- Quando o resultado final for mL, apresente com o número de casas compatível com a seringa (ex.: 0,26 mL; 1,3 mL).
- Quando o resultado final for mL/h, apresente com o passo da bomba (ex.: 7,5 mL/h).
- Se houver arredondamento relevante, registre o valor exato e o administrado.
Exercícios (foco em casas decimais e volumes pequenos)
Instruções: mantenha precisão durante o cálculo e arredonde apenas a resposta final conforme o dispositivo indicado. Em seguida, calcule o erro percentual do arredondamento.
1) Arredondamento por seringa
Um volume calculado foi 0,247 mL.
- a) Qual volume você registraria usando seringa de 1 mL (0,01 mL)?
- b) Qual volume usando seringa de 3 mL (0,1 mL)?
- c) Compare o erro percentual em (a) e (b).
2) Volume mínimo mensurável
Você obteve 0,06 mL como volume final. O setor só dispõe de seringa de 3 mL.
- a) Qual seria o volume arredondado para a graduação disponível?
- b) Qual o erro percentual aproximado?
- c) Que medida prática reduziria o erro sem alterar a dose prescrita (pense em dispositivo/concentração)?
3) Notação segura
Reescreva as anotações abaixo de forma segura:
- a)
.5 mg - b)
5.0 mg - c)
10 U - d)
250 µg(considere risco de confusão e padronização)
4) Arredondar apenas no final
Durante um cálculo, você obteve um valor intermediário 2,3333 e no final um volume 1,167 mL para seringa de 1 mL.
- a) Qual volume final você administraria?
- b) Mostre como ficaria diferente se você arredondasse o intermediário para
2,3antes de terminar (não precisa refazer todo o cálculo; descreva o efeito esperado).