O que são aquisições e contratos no contexto do PMI
Aquisições (procurement) são as decisões e atividades para obter de fora do time do projeto produtos, serviços ou resultados necessários para entregar o que foi combinado. Na prática, envolve: decidir se vale a pena fazer internamente ou comprar, definir claramente o que será contratado, selecionar fornecedores com critérios objetivos, escolher um tipo de contrato adequado ao nível de incerteza e acompanhar a execução para garantir entrega, qualidade e conformidade.
O objetivo é reduzir incertezas e conflitos típicos de contratação: escopo ambíguo, expectativas desalinhadas, mudanças sem controle, entregas sem aceite formal e dependências externas que travam o projeto.
Decidir “fazer vs. comprar” (make-or-buy) com segurança
A decisão de fazer internamente ou comprar não é apenas financeira. Ela combina custo, prazo, risco, capacidade e estratégia. Uma forma prática é usar uma matriz simples de decisão com critérios e pesos.
Critérios práticos para decidir
- Capacidade interna: temos pessoas, tempo e competência para executar com qualidade?
- Prazo: comprar acelera ou adiciona lead time (seleção, contrato, onboarding)?
- Custo total: considere custo de execução + gestão + ferramentas + retrabalho + riscos.
- Risco e criticidade: se falhar, qual o impacto? Há plano B?
- Conhecimento e propriedade intelectual: o que precisa ficar dentro de casa?
- Dependências externas: licenças, integrações, aprovações, acesso a ambientes.
- Flexibilidade: haverá mudanças frequentes? Contratos rígidos podem atrapalhar.
Passo a passo: mini-matriz make-or-buy
- Liste o item a ser obtido (ex.: “desenvolver módulo de pagamentos”).
- Defina 5–7 critérios e atribua pesos (ex.: 1 a 5).
- Pontue “fazer” e “comprar” para cada critério (1 a 5).
- Some os pontos ponderados e registre a justificativa.
- Valide com stakeholders (principalmente quem vai operar/manter).
| Critério | Peso | Fazer (nota) | Comprar (nota) |
|---|---|---|---|
| Prazo | 5 | 2 | 4 |
| Capacidade interna | 4 | 2 | 4 |
| Risco de qualidade | 4 | 3 | 3 |
| Flexibilidade para mudanças | 3 | 4 | 2 |
| Conhecimento estratégico | 3 | 4 | 2 |
Use a matriz como apoio à decisão, não como “verdade matemática”. O valor está em explicitar trade-offs e registrar por que a decisão foi tomada.
Termo de Referência (TR) / Statement of Work (SOW): como escrever para evitar ambiguidades
O Termo de Referência (ou SOW) é o documento que descreve o que será contratado e como o fornecedor será avaliado. Um TR bem escrito reduz disputas e facilita o acompanhamento, porque transforma expectativas em critérios verificáveis.
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Estrutura recomendada de TR (prática e objetiva)
- Contexto e objetivo: por que a contratação existe e qual resultado final esperado.
- Escopo da contratação: o que está incluído (entregáveis) e o que está explicitamente fora.
- Requisitos: funcionais e não funcionais (desempenho, segurança, compatibilidade, conformidade).
- Critérios de aceitação: como será verificado que “está pronto”.
- Marcos e cronograma: datas-alvo, dependências, entregas por fase.
- SLAs e níveis de serviço (quando aplicável): disponibilidade, tempo de resposta, tempo de solução.
- Responsabilidades: o que o fornecedor faz e o que o contratante precisa fornecer (acessos, dados, aprovações).
- Governança: rituais de acompanhamento, relatórios, canais, escalonamento.
- Gestão de mudanças: como solicitar, estimar, aprovar e registrar mudanças.
- Regras legais e de compliance: confidencialidade, LGPD, auditoria, segurança.
- Propriedade intelectual: quem é dono do quê (código, documentos, modelos, dados).
Exemplo de documento: escopo de contratação (modelo)
Documento: Escopo de Contratação (TR/SOW) - Exemplo resumido 1) Objetivo Contratar serviço de sustentação e evolução do sistema X para reduzir incidentes e garantir SLA. 2) Entregáveis - Plano de transição (até D+15) - Catálogo de serviços e SLAs acordados (até D+20) - Relatórios mensais de desempenho (mensal) - Correções de incidentes P1/P2 conforme SLA - Pacotes quinzenais de melhorias (quando aprovados) 3) Fora do escopo - Desenvolvimento de novo módulo Y - Suporte a integrações não documentadas - Atendimento fora do horário acordado (exceto plantão contratado) 4) Requisitos e critérios de aceitação - Incidentes P1: resposta em até 30 min; solução/contorno em até 4h - Disponibilidade mensal: 99,5% (exceto janelas de manutenção) - Entrega de melhoria: deve passar em testes acordados e ter evidência (logs, prints, relatório) 5) Dependências do contratante - Acesso VPN e credenciais (até D+5) - Ambiente de homologação disponível (até D+10) - Product Owner para priorização e aceite (2h/semana) 6) Governança - Reunião semanal de status (30 min) - Comitê mensal (1h) com indicadores e plano de ação 7) Mudanças - Solicitação via formulário padrão; fornecedor estima impacto (prazo/custo/risco) - Aprovação por e-mail do responsável; registro em log de mudanças 8) Propriedade intelectual - Código e documentação produzidos no contrato pertencem ao contratante; fornecedor mantém know-how prévio.Note como o exemplo evita termos vagos (“melhorar performance”, “atender rápido”) e substitui por métricas e evidências.
Critérios de seleção: como comparar fornecedores de forma justa
Selecionar fornecedor “pelo menor preço” costuma aumentar custo total por retrabalho, atrasos e disputas. O ideal é usar critérios ponderados e evidências objetivas (provas, cases, certificações, demonstrações, proposta técnica).
Passo a passo: matriz de critérios ponderados
- Defina critérios alinhados ao risco do item (técnico, prazo, segurança, suporte).
- Atribua pesos (ex.: total 100%).
- Defina escala de notas (ex.: 1 a 5) e o que significa cada nota.
- Exija evidências (ex.: portfólio, POC, referências, currículo do time).
- Calcule a pontuação final e registre justificativas.
- Faça checagem de riscos: capacidade real, dependência de pessoas-chave, saúde financeira, compliance.
Exemplo de documento: matriz de critérios (modelo)
| Critério | Peso | Como avaliar (evidência) | Fornecedor A | Fornecedor B |
|---|---|---|---|---|
| Entendimento do escopo e abordagem | 25% | Proposta técnica + plano de trabalho | 4 | 3 |
| Experiência no domínio | 20% | Cases + referências verificáveis | 3 | 5 |
| Equipe e senioridade | 15% | Currículos + alocação nominal | 4 | 3 |
| Prazo e capacidade de entrega | 15% | Cronograma + capacidade (WIP) | 3 | 4 |
| Segurança/Compliance (ex.: LGPD) | 10% | Políticas + controles + auditoria | 4 | 2 |
| Preço (TCO) | 15% | Planilha de custos + premissas | 3 | 4 |
Boa prática: separar avaliação técnica e avaliação comercial para evitar que preço “mascare” riscos técnicos.
Tipos básicos de contrato e quando usar
O tipo de contrato define como o risco é distribuído entre contratante e fornecedor. Quanto maior a incerteza do escopo, mais cuidado com contratos rígidos de preço fechado.
Preço Fixo (Fixed Price)
- Quando usar: escopo bem definido, requisitos estáveis, baixa incerteza.
- Vantagens: previsibilidade de custo.
- Riscos: fornecedor pode “otimizar” entregas para caber no preço; mudanças viram disputa.
- Cuidados: critérios de aceite claros, marcos de pagamento por entrega aceita, cláusula de mudança bem definida.
Tempo e Material (T&M)
- Quando usar: escopo evolutivo, necessidade de flexibilidade, trabalho contínuo.
- Vantagens: adapta-se a mudanças; começa mais rápido.
- Riscos: custo pode crescer; exige gestão ativa de prioridades e produtividade.
- Cuidados: teto de horas/custo, cadência de entregas, indicadores de desempenho, transparência de timesheet.
Custo Reembolsável (Cost-Reimbursable)
- Quando usar: alta incerteza e necessidade de iniciar mesmo sem escopo fechado (menos comum em projetos pequenos).
- Vantagens: viabiliza trabalho exploratório.
- Riscos: contratante assume grande parte do risco de custo.
- Cuidados: auditoria de custos, limites, incentivos por desempenho.
Contrato por SLA / Serviço Gerenciado
- Quando usar: operação e suporte, serviços recorrentes (help desk, infraestrutura, sustentação).
- Vantagens: foco em níveis de serviço e continuidade.
- Riscos: métricas mal definidas geram “cumprimento de número” sem resolver o problema real.
- Cuidados: SLAs + OLAs (responsabilidades internas), penalidades/bonificações proporcionais, definição de severidades.
Como acompanhar entregas de fornecedores: SLAs, marcos, aceite, mudanças e desempenho
Contratar bem é metade do trabalho. A outra metade é acompanhar de forma objetiva, com evidências e acordos claros de como medir progresso e qualidade.
1) Defina marcos (milestones) e entregas verificáveis
Marcos devem representar pontos de controle com evidência concreta, não apenas “percentual concluído”. Exemplos: “ambiente configurado e validado”, “POC aprovada”, “release em homologação com testes passados”, “documentação entregue”.
- Pagamento: prefira vincular a marcos aceitos (total ou parcial).
- Evidências: relatórios de teste, logs, checklist assinado, link de repositório, ata de reunião.
2) Use SLAs quando o serviço for contínuo
SLA é um acordo de nível de serviço com métricas e metas. Para funcionar, precisa de definições operacionais.
- Exemplos de métricas: tempo de resposta, tempo de solução, disponibilidade, taxa de reabertura, satisfação do usuário.
- Defina severidades: P1/P2/P3 com exemplos do que se enquadra em cada uma.
- Janela de atendimento: horário comercial, 24x7, plantões.
- Exclusões: indisponibilidade por terceiros, manutenção programada, falhas de infraestrutura do contratante (se aplicável).
3) Formalize aceite (acceptance) para evitar “entreguei, então acabou”
Aceite é a confirmação de que o entregável atende aos critérios definidos. Sem aceite formal, o projeto acumula pendências e discussões subjetivas.
- Pré-aceite: verificação interna do fornecedor (autotestes, revisão).
- Validação: testes do contratante conforme roteiro acordado.
- Registro: evidência do aceite (e-mail, sistema, ata) e lista de pendências.
- Condição de aceite: aceite total, aceite com ressalvas (com prazo), ou rejeição (com motivos).
4) Controle mudanças com um fluxo simples e rastreável
Mudança é inevitável. O problema é mudança sem registro, sem estimativa e sem aprovação. Um fluxo mínimo evita “escopo elástico”.
- Solicitação: descreva a mudança e o motivo (o que muda e por quê).
- Análise de impacto: fornecedor estima impacto em prazo, custo, riscos e qualidade.
- Aprovação: responsável aprova (ou rejeita) com base em trade-offs.
- Atualização de baseline: atualize documentos do contrato/escopo e o plano de entregas.
- Registro: mantenha um log de mudanças com status e decisões.
5) Gestão de desempenho do fornecedor (sem burocracia)
Gestão de desempenho é acompanhar indicadores e agir cedo. Use poucos indicadores, mas acionáveis.
- Entrega: % marcos no prazo, lead time de entrega, previsibilidade.
- Qualidade: defeitos por entrega, retrabalho, incidentes pós-release.
- Operação (SLA): cumprimento de metas por severidade, reabertura, backlog.
- Comunicação: tempo de resposta, clareza de status, escalonamentos.
Combine com o fornecedor um plano de ação quando houver desvios: causa raiz, ações, responsáveis e datas.
Exemplo de checklist de aceite (modelo reutilizável)
Checklist de Aceite - Entregável: ____________________ Identificação - Projeto/Contrato: ____________________ - Fornecedor: ____________________ - Versão/Release: ____________________ - Data de entrega: ____/____/______ Critérios técnicos [ ] Entregável corresponde ao TR/SOW (itens incluídos) [ ] Requisitos funcionais atendidos (roteiro de testes executado) [ ] Requisitos não funcionais atendidos (ex.: performance/segurança) [ ] Evidências anexadas (relatório, prints, logs, links) Qualidade e conformidade [ ] Padrões acordados seguidos (ex.: code review, documentação) [ ] Vulnerabilidades críticas tratadas (se aplicável) [ ] LGPD/Confidencialidade atendidas (se aplicável) Operação e suporte [ ] Manual/Runbook entregue (se aplicável) [ ] Treinamento/repasse realizado (se aplicável) [ ] Plano de rollback definido (se aplicável) Pendências - Pendência 1: ____________________ Prazo: ____/____/______ Responsável: ______ - Pendência 2: ____________________ Prazo: ____/____/______ Responsável: ______ Decisão de aceite [ ] Aceite total [ ] Aceite com ressalvas (pendências acima) [ ] Rejeitado (motivos): ____________________ Aprovadores - Responsável do contratante: ____________________ Data: ____/____/______ - Responsável do fornecedor: ____________________ Data: ____/____/______Cuidados comuns que evitam problemas (e como tratar)
Ambiguidades no escopo (“o fornecedor entendeu diferente”)
- Sinal de risco: termos vagos como “interface moderna”, “alta performance”, “suporte completo”.
- Como evitar: transformar em critérios verificáveis (métricas, exemplos, protótipos, casos de uso, limites).
- Ferramenta simples: seção “inclui / não inclui” no TR e exemplos do que é considerado pronto.
Dependências externas não mapeadas
- Sinal de risco: fornecedor depende de acessos, aprovações, dados, terceiros, compras internas.
- Como evitar: listar dependências no TR com responsável e prazo; criar marcos específicos para “pré-requisitos liberados”.
- Boa prática: definir o que acontece se a dependência atrasar (replanejamento, pausa, custos).
Propriedade intelectual e direitos de uso
- Sinal de risco: não está claro quem é dono do código, documentação, modelos, artes, dados e configurações.
- Como evitar: cláusulas explícitas sobre titularidade, licenças, reutilização de componentes do fornecedor, e entrega de fontes/artefatos.
- Ponto crítico: acesso a repositórios, credenciais, chaves e documentação para manutenção futura.
Alinhamento de expectativas (o “pronto” de cada lado)
- Sinal de risco: fornecedor considera entregue ao “subir em homologação”; contratante considera entregue só após aceite e estabilização.
- Como evitar: definir no TR o fluxo de entrega, validação, aceite e correções; incluir prazos para correção de defeitos pós-entrega.
- Boa prática: acordar a cadência de demonstrações e checkpoints para evitar surpresas no fim.
Pagamentos desalinhados com valor entregue
- Sinal de risco: grande pagamento antecipado sem marcos verificáveis.
- Como evitar: pagamentos por marcos aceitos; retenção parcial até estabilização; critérios de aceite como condição de pagamento.
Gestão de mudanças inexistente (escopo cresce sem controle)
- Sinal de risco: solicitações por chat/e-mail sem registro e sem estimativa formal.
- Como evitar: log de mudanças + aprovação explícita + atualização do que foi contratado.