Apicultura para iniciantes: obtenção do enxame e instalação correta na colmeia

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Formas seguras e éticas de iniciar uma colônia

Para começar na apicultura com previsibilidade e menor risco, o ideal é iniciar com um núcleo (pequena colônia em caixa menor, com quadros de cria e alimento) ou um enxame já estabelecido. A escolha do método impacta diretamente a taxa de sucesso, o comportamento das abelhas e a sanidade do apiário.

Opção 1: compra de núcleo (recomendado para iniciantes)

O núcleo normalmente vem com quadros contendo cria em diferentes idades, alimento (mel/pólen) e uma rainha em postura (ou em processo de aceitação). É a forma mais estável de iniciar porque a colônia já tem estrutura interna e tende a crescer mais rápido.

  • Vantagens: maior previsibilidade, menor chance de abandono, melhor avaliação de sanidade e presença de cria.
  • Cuidados: exigir informações do fornecedor e conferir sinais de vigor e saúde no recebimento.

Opção 2: compra de enxame em caixa padrão

É uma colônia já instalada em caixa de produção. Pode ser interessante quando você quer acelerar a produção ou quando o fornecedor entrega colmeias fortes. Para iniciantes, exige mais atenção no transporte (peso, ventilação) e na adaptação ao novo local.

  • Vantagens: colônia forte, resposta rápida ao fluxo de néctar.
  • Cuidados: maior estresse no transporte, risco de superaquecimento e maior defensividade se manuseada em horário inadequado.

Opção 3: captura controlada (quando permitida e com responsabilidade)

A captura controlada pode ocorrer quando um enxame se instala em local inadequado e é removido por profissional/serviço autorizado, ou quando há captura planejada com iscas e caixas apropriadas, respeitando regras locais. Para iniciantes, a captura é menos previsível: o enxame pode não permanecer, pode estar sem rainha ou com sanidade desconhecida.

  • Vantagens: pode reduzir conflitos em áreas urbanas/rurais e aproveitar enxames que seriam perdidos.
  • Cuidados: risco sanitário, necessidade de quarentena/observação, e maior chance de falhas na fixação do enxame.

Como avaliar um fornecedor de núcleos/enxames

Um bom fornecedor reduz riscos de perda, agressividade excessiva e problemas sanitários. Use critérios objetivos antes de comprar.

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Checklist de avaliação

  • Origem e rastreabilidade: consegue informar de onde vêm as matrizes/rainhas e há quanto tempo o núcleo foi formado.
  • Composição do núcleo: quantos quadros vão no núcleo e quantos são de cria, alimento e cera puxada.
  • Rainha: idade aproximada, se é marcada, e se está em postura regular.
  • Sinais de vigor: presença de cria aberta e operculada, abelhas cobrindo bem os quadros, entrada de pólen (quando observado no local do fornecedor).
  • Sanidade: ausência de odores anormais, cria com padrão uniforme (sem muitas falhas), ausência de sinais evidentes de doenças e pragas.
  • Conduta de entrega: orienta transporte, fornece tela/ventilação adequada e recomenda horário seguro.
  • Compatibilidade de caixa: quadros e medidas compatíveis com seu sistema para evitar improvisos no dia da instalação.

Dica prática: combine com o fornecedor a entrega do núcleo com pelo menos 1 quadro de alimento e 2–3 quadros com cria (aberta e operculada), além de quadros com cera puxada quando possível. Isso acelera a expansão e reduz estresse por falta de recursos.

Recebimento e transporte do núcleo: passo a passo

O transporte é um dos momentos de maior risco para superaquecimento, sufocamento e estresse. O objetivo é manter ventilação, estabilidade e temperatura adequadas.

Antes de buscar/receber

  • Escolha o horário: prefira fim de tarde/início da noite ou bem cedo, quando há menos voo e temperatura mais amena.
  • Prepare o local: colmeia definitiva nivelada e pronta (fundo, ninho, tampa), com alimentação de emergência disponível se necessário.
  • Tenha materiais de fixação: cinta/catraca, tela de ventilação, calços para evitar deslizamento e pano para sombreamento (sem vedar entradas de ar).

No recebimento do núcleo

  • Confirme ventilação: o núcleo deve ter tela/aberturas que permitam circulação de ar. Evite caixas totalmente vedadas.
  • Verifique integridade: tampa firme, quadros não soltos, ausência de frestas grandes por onde abelhas escapem durante o transporte.
  • Reduza a entrada: se o núcleo tiver alvado, mantenha-o fechado com tela adequada para transporte (não com material que impeça ventilação).

Durante o transporte

  • Fixe com cinta: prenda tampa e corpo do núcleo para evitar abertura por vibração.
  • Posicione corretamente: mantenha o núcleo nivelado e estável; evite inclinações que façam quadros baterem.
  • Ventilação no veículo: transporte em área ventilada. Evite porta-malas fechado e quente. Se for cabine, mantenha janelas parcialmente abertas ou ventilação ativa.
  • Evite sol direto: cubra para sombrear, mas sem bloquear as telas de ventilação.
  • Paradas curtas: não deixe o núcleo parado em local quente. Superaquecimento pode matar cria e até a rainha.

Sinais de alerta de superaquecimento: abelhas muito agitadas, “barulho” intenso e contínuo, aglomeração nas telas tentando ventilar. Se ocorrer, pare em local sombreado e ventilado, aumente circulação de ar e reduza o tempo até a instalação.

Instalação correta do núcleo na colmeia: passo a passo

O objetivo da instalação é transferir os quadros para a caixa definitiva com o mínimo de perda de abelhas, mantendo a organização do ninho e reduzindo risco de pilhagem.

1) Prepare a colmeia definitiva

  • Entrada reduzida: deixe o alvado reduzido (especialmente em colônias pequenas) para facilitar defesa.
  • Organize o ninho: deixe espaço para receber os quadros do núcleo no centro do ninho.
  • Tenha quadros extras: quadros com cera alveolada ou lâmina (conforme seu sistema) para completar o espaço, evitando “vãos” que geram construção irregular.

2) Escolha o momento e o ambiente

  • Horário: fim de tarde é prático porque reduz voo e ajuda a colônia a “assentar” durante a noite.
  • Condições: evite vento forte e calor extremo. Trabalhe com movimentos lentos para reduzir defensividade.

3) Transferência dos quadros

Abra o núcleo e a colmeia definitiva. Transfira os quadros na mesma ordem em que estavam no núcleo, mantendo o bloco de cria no centro.

  • Ordem típica: alimento – cria – cria – cria – alimento (varia conforme o núcleo).
  • Evite inverter quadros: mantenha a orientação (frente/trás) para não desorganizar a cria e o trânsito interno.
  • Espaçamento correto: encoste os quadros para manter o espaçamento padrão e evitar pontes de cera.

4) Garanta que a rainha foi transferida

Se você viu a rainha em um quadro, transfira esse quadro com cuidado e evite sacudir. Se não viu, trabalhe com calma e confira se não ficou abelha aglomerada no núcleo vazio.

  • Boa prática: após colocar os quadros, posicione o núcleo vazio (ou a caixa de transporte) próximo à entrada da colmeia definitiva por alguns minutos para que abelhas remanescentes entrem caminhando.

5) Fechamento e estabilização

  • Feche bem: tampa alinhada para evitar frestas.
  • Reduza perturbação: após a instalação, evite reabrir no mesmo dia.
  • Alimentação de apoio (se necessário): se houver escassez de florada ou o núcleo veio com pouco alimento, use alimentação de emergência conforme orientação técnica do seu manejo, evitando derramamentos que provoquem pilhagem.

Roteiro de primeira inspeção (48–72 horas após instalação)

A primeira inspeção deve ser curta e objetiva. A meta é confirmar que a colônia está organizada, com rainha funcional, recursos e condições sanitárias mínimas.

O que verificar (ordem sugerida)

  • 1) Comportamento geral: abelhas calmas no ninho, sem correria excessiva. Defesa exagerada pode indicar estresse, falta de alimento ou pilhagem.
  • 2) Presença de rainha (direta ou indireta): se não localizar a rainha, procure ovos e larvas jovens (sinal de postura recente).
  • 3) Padrão de cria: cria operculada relativamente uniforme e cria aberta presente. Muitas falhas podem sugerir problema de rainha, frio recente, ou estresse.
  • 4) Alimento: quadros com mel/néctar e pólen. Núcleo sem reserva pode entrar em colapso rapidamente.
  • 5) Espaço: abelhas cobrindo bem os quadros? Há necessidade de adicionar quadro com cera puxada/lâmina ao lado do ninho (sem “abrir demais” o ninho)?
  • 6) Sanidade visível: ausência de cheiro forte anormal, ausência de cria derretida/escurecida, ausência de excesso de abelhas deformadas ou mortas na entrada.

Ações corretivas iniciais (se encontrar problemas)

Situação observadaPossível causaAção inicial segura
Pouco alimento ou quadros muito levesEscassez de florada, núcleo fraco, estresse do transporteFornecer alimentação de apoio sem derramar; manter alvado reduzido; evitar inspeções longas
Sem ovos/larvas jovens após 3–5 diasRainha perdida, falha de postura, rejeiçãoReinspecionar com calma; contatar fornecedor; considerar introdução de rainha/novo núcleo conforme orientação
Abelhas muito agressivas e correria na entradaPilhagem, falta de alimento, manejo em horário quenteReduzir alvado; evitar abrir a colmeia; eliminar fontes de cheiro doce ao redor; trabalhar em horários amenos
Construção irregular (pontes de cera)Quadros mal espaçados, vãos internosReorganizar espaçamento; alinhar quadros; corrigir antes que endureça
Muitas abelhas mortas na entrada logo após transporteSuperaquecimento/sufocamento, vibração excessivaReforçar ventilação em próximos transportes; manter colmeia sombreada e tranquila; monitorar postura e cria

Manejo nos primeiros 30 dias

Nos primeiros 30 dias, o foco é estabilizar a colônia, garantir crescimento do ninho e evitar perdas por pilhagem e estresse. O excesso de inspeções é uma causa comum de atraso no desenvolvimento.

Frequência de visitas e duração

  • Semana 1: 1 inspeção curta (além da primeira inspeção), priorizando rainha/cria/alimento.
  • Semanas 2–4: inspeções a cada 7–10 dias, ajustando conforme clima e disponibilidade de florada.
  • Regra prática: se está tudo bem (postura presente, alimento suficiente, crescimento), mantenha inspeções curtas e espaçadas.

Expansão do ninho (quando e como adicionar quadros)

Adicionar espaço cedo demais pode esfriar o ninho e atrasar a cria; tarde demais pode travar postura e estimular enxameação. Use sinais objetivos.

  • Quando expandir: quando as abelhas estiverem cobrindo bem a maioria dos quadros do ninho e houver entrada de néctar/pólen, ou quando a rainha estiver ocupando intensamente os quadros de cria.
  • Como expandir: adicione 1 quadro por vez, preferencialmente com cera puxada. Coloque o novo quadro ao lado do bloco de cria (não no meio do bloco), para estimular construção sem “quebrar” a área aquecida.
  • Evite abrir demais: em colônias pequenas, mantenha o ninho compacto e bem defendido.

Redução de alvado e prevenção de pilhagem

Pilhagem ocorre quando abelhas de outras colônias tentam roubar alimento de uma colônia mais fraca. Núcleos recém-instalados são alvos comuns.

  • Mantenha alvado reduzido: especialmente nas 2 primeiras semanas ou sempre que a colônia estiver fraca.
  • Evite derramamentos: qualquer cheiro de alimento exposto atrai pilhagem. Trabalhe limpo e rápido.
  • Inspeções em horário adequado: prefira horários com boa atividade de campo e clima ameno; evite abrir colmeias ao entardecer se houver risco de pilhagem na região.
  • Sinais de pilhagem: brigas na entrada, abelhas correndo e voando em zigue-zague, cera/fragmentos na frente da colmeia, aumento súbito de agitação.
  • Resposta imediata: reduzir ainda mais o alvado, interromper alimentação exposta, evitar abrir a colmeia, e manter o entorno sem resíduos doces.

Roteiro rápido de inspeção semanal (primeiro mês)

1) Observar entrada (2–3 min): tráfego, entrada de pólen, sinais de briga/pilhagem. 2) Abrir e checar alimento: há reserva suficiente? 3) Checar cria: ovos/larvas e padrão de cria operculada. 4) Checar espaço: abelhas cobrem os quadros? precisa adicionar 1 quadro? 5) Fechar e anotar: data, pontos observados, ação tomada.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a instalação de um núcleo na colmeia definitiva, qual prática ajuda a manter a organização do ninho e reduzir o estresse da colônia?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Manter os quadros na mesma ordem e orientação preserva a estrutura do ninho, mantém a cria no centro (zona mais aquecida) e reduz desorganização e estresse durante a adaptação.

Próximo capitúlo

Apicultura para iniciantes: manejo básico e leitura de quadros em cada inspeção

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