Agricultura Moderna e Tecnologias de Campo: Sensoriamento, Dados e Precisão

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é agricultura de precisão (na prática)

Agricultura moderna com base em dados é a capacidade de medir variações dentro do talhão (solo, relevo, umidade, vigor, pragas/doenças, produtividade) e ajustar decisões (irrigar, adubar, aplicar defensivos, regular máquinas) de forma mais localizada e consistente. “Precisão” não significa necessariamente alta tecnologia: pode começar com um caderno de campo bem feito e evoluir para mapas, sensores e aplicação em taxa variável.

O objetivo é reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade: medir sempre do mesmo jeito, comparar ao longo do tempo e agir com base em evidências.

Tecnologias por escala: do simples ao avançado

1) Apps e planilhas de registro (base de tudo)

Mesmo sem sensores, um sistema de registro bem estruturado permite identificar padrões: áreas que sempre “sentem” seca primeiro, pontos com falhas recorrentes, talhões com maior pressão de pragas, datas em que o manejo funcionou melhor.

  • Ferramentas: planilha (Excel/Google Sheets), app de notas, formulário (Google Forms), caderno físico padronizado.
  • Quando usar: desde o primeiro dia; é o “banco de dados” do campo.
  • Vantagem: baixo custo e alta consistência se houver rotina.

2) GPS e mapas de talhão

GPS no celular já é suficiente para marcar pontos fixos e desenhar limites aproximados. Em operações mecanizadas, GPS agrícola melhora a repetibilidade (linhas, sobreposição, registro de passadas).

  • Uso prático: marcar pontos de amostragem, locais de problema, entradas/saídas, áreas encharcadas, manchas de baixo vigor.
  • Produto: mapa simples do talhão com zonas e pontos de monitoramento.

3) Sensores de umidade do solo

Servem para transformar “achismo” em decisão: quando irrigar, quanto repor e se a água está chegando onde deveria. Podem ser portáteis (medição pontual) ou instalados (monitoramento contínuo).

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  • O que medir: umidade/ tensão em diferentes profundidades (ex.: 0–20 cm e 20–40 cm, ajustando à cultura).
  • Como usar: comparar zonas (alto/baixo, areia/argila, compactado/não compactado) e acompanhar tendência semanal.

4) Estações meteorológicas e pluviômetros

O clima muda dentro da propriedade. Uma estação (ou ao menos um pluviômetro bem instalado) ajuda a registrar chuva real, temperatura, umidade do ar, vento e radiação, apoiando irrigação, pulverização e janelas de operação.

  • O que medir: chuva (mm), temperatura (mín/máx), umidade relativa, vento (velocidade/direção) e, se disponível, evapotranspiração estimada.
  • Uso direto: decidir se pulveriza (vento/umidade), ajustar lâmina de irrigação (chuva + demanda), planejar operações.

5) Drones e imagens (inspeção e mapas de vigor)

Drones ajudam a enxergar o talhão inteiro rapidamente, identificando falhas, encharcamento, erosão, reboleiras e diferenças de vigor. Imagens podem ser apenas RGB (visual) ou multiespectrais (índices como NDVI) quando disponível.

  • Quando vale mais: áreas grandes, talhões com histórico de variabilidade, necessidade de inspeção rápida após eventos (chuva forte, vento, geada, falha de irrigação).
  • Cuidados: padronizar altura, horário (evitar sombras fortes), e registrar data/condições para comparar ao longo do tempo.

6) Aplicação localizada (taxa variável e “spot spraying”)

Aplicação localizada é usar mapas e observações para aplicar insumos onde há necessidade. Pode ser desde uma aplicação dirigida em reboleiras até taxa variável com controlador e mapa.

  • Exemplos: corrigir apenas manchas de deficiência, aplicar herbicida em reboleiras, ajustar dose por zona de vigor, reduzir sobreposição em bordaduras.
  • Pré-requisito: mapa confiável + calibração + registro do que foi aplicado e onde.

O que medir no campo (e por quê)

Indicadores mínimos (começo rápido)

  • Chuva: define reposição de água e risco de doenças; base para comparar semanas.
  • Umidade do solo: evita irrigar cedo demais ou tarde demais; identifica zonas que secam primeiro.
  • Vigor/stand: falhas e desuniformidade explicam queda de produtividade e orientam replantio/ajustes.
  • Ocorrências: pragas/doenças/plantas daninhas por ponto e intensidade; orienta inspeção e aplicação localizada.
  • Operações: data, produto, dose, volume, equipamento, operador; essencial para rastreabilidade e melhoria contínua.

Indicadores por objetivo

ObjetivoO que medirComo vira decisão
IrrigaçãoChuva + umidade do solo (profundidades) + observação de estresseDefinir ligar/desligar, ajustar lâmina e frequência por zona
Adubação em coberturaVigor por zona, histórico de resposta, falhas, textura/compactação observadaPriorizar zonas responsivas, ajustar dose e momento
PulverizaçãoIncidência por ponto, estágio da cultura, clima (vento/UR)Aplicar no momento correto, evitar deriva, focar reboleiras
Tráfego/máquinasMarcas de compactação, encharcamento, falhas em linhasRedefinir rotas, evitar operações em solo úmido, ajustar pressão/peso

Como coletar dados de forma consistente (padrão de campo)

Princípios de consistência

  • Mesmos pontos: medir sempre nos mesmos locais (pontos fixos) para comparar semanas.
  • Mesma hora (quando possível): reduz variação por temperatura/evaporação (especialmente em imagens e observações de murcha).
  • Mesmo método: mesma profundidade, mesma unidade, mesma escala de avaliação.
  • Registro imediato: anotar no momento evita “memória seletiva”.
  • Foto georreferenciada: uma foto por ponto por semana cria histórico visual valioso.

Escalas simples para padronizar observações

Use escalas curtas para reduzir subjetividade. Exemplo de vigor (visual):

  • 0 = falha/sem plantas
  • 1 = fraco (amarelado, baixo crescimento)
  • 2 = médio
  • 3 = alto (verde, uniforme, bom fechamento)

Exemplo de infestação (daninhas/pragas):

  • 0 = ausente
  • 1 = baixa (poucos focos)
  • 2 = média (vários focos)
  • 3 = alta (generalizada)

Modelo de ficha (digital ou papel)

Data; Talhão; Ponto; GPS; Cultura/estágio; Chuva 24h; Umidade solo (0-20); Umidade solo (20-40); Vigor (0-3); Falhas (%); Observações (compactação/encharcamento); Ocorrências (daninhas/pragas/doenças, 0-3); Ação recomendada; Foto (sim/não)

Zoneamento simples dentro do talhão (sem complicar)

Zoneamento é dividir o talhão em partes que se comportam de forma parecida. Você pode começar com 2 a 4 zonas usando observação e um mapa simples.

Critérios práticos de zoneamento

  • Altos e baixos: áreas altas tendem a drenar mais e secar primeiro; baixadas podem encharcar e ter maior risco de doença.
  • Textura aparente: manchas mais arenosas vs. mais argilosas (diferença de cor, estrutura e retenção de água).
  • Compactação: locais com trilhas de máquinas, cabeceiras, pontos de patinagem; plantas menores e raízes limitadas.
  • Diferenças de vigor: faixas ou manchas recorrentes vistas a olho, por drone ou por imagens de satélite.

Passo a passo: criar um zoneamento simples

  1. Desenhe o limite do talhão (no papel quadriculado, no mapa do celular ou em uma imagem impressa).
  2. Marque elementos fixos: carreadores, curvas de nível, linhas de irrigação, drenagens, cercas.
  3. Faça um caminhamento inicial (ver seção abaixo) e marque no mapa: baixadas, áreas pedregosas, pontos compactados, reboleiras.
  4. Defina 2–4 zonas com base no comportamento: por exemplo, Zona A (alto/seca rápido), Zona B (meia encosta), Zona C (baixada/encharca).
  5. Valide com 1–2 medições por zona (umidade do solo e vigor) para confirmar que as zonas realmente diferem.

Caminhamento guiado por observações e mapas (rotina de inspeção)

O caminhamento é uma inspeção planejada, não “andar sem rumo”. Ele combina mapa + pontos fixos + observações rápidas para detectar problemas cedo.

Como planejar o caminhamento

  1. Escolha a rota: passe por todas as zonas (alto/baixo) e inclua bordas e cabeceiras (onde problemas são mais comuns).
  2. Leve o mapa (impresso ou no celular) e um formulário de registro.
  3. Defina paradas: pontos fixos + paradas extras quando houver anomalia (mancha, falha, reboleira).
  4. Padronize o que observar: vigor, falhas, sinais de estresse hídrico, compactação, encharcamento, presença de daninhas/pragas/doenças.
  5. Registre com evidência: nota + foto + localização.

Dicas para “ler” o talhão durante o caminhamento

  • Linhas mais fracas em faixas podem indicar problema de distribuição (plantio, adubação, irrigação) ou tráfego.
  • Manchas circulares frequentemente sugerem foco localizado (praga/doença/drenagem pontual).
  • Problema repetido em cabeceira sugere compactação e manobra de máquinas.
  • Diferença alto vs. baixo costuma aparecer primeiro em semanas secas (alto sofre) ou chuvosas (baixo encharca).

Transformando dados em decisões (regras simples e acionáveis)

1) Decisão de irrigar

Combine três fontes: chuva registrada, sensor/medição de umidade e observação de estresse.

  • Regra prática: se a zona A (alto) mostra queda consistente de umidade e sinais de estresse antes das outras, ajuste a estratégia por zona (mais frequência/menor lâmina, ou turnos diferentes se o sistema permitir).
  • Checagem: após irrigar, confirme se a umidade aumentou na profundidade-alvo; se só aumenta na superfície, pode haver infiltração limitada ou lâmina insuficiente.

2) Decisão de adubar/ajustar manejo

Use o zoneamento e o vigor para priorizar onde há maior retorno.

  • Regra prática: zonas com vigor consistentemente baixo devem ser investigadas antes de “aumentar dose”: pode ser compactação, encharcamento, falha de distribuição, ou limitação física.
  • Aplicação localizada: se houver manchas pequenas, considere correções pontuais (quando tecnicamente aplicável) em vez de tratar o talhão inteiro.

3) Decisão de aplicar defensivos de forma localizada

Mapeie ocorrências por ponto e por zona. Quando a pressão está concentrada, a aplicação localizada reduz custo e impacto.

  • Regra prática: se a ocorrência é “0–1” na maior parte do talhão e “2–3” em reboleiras, priorize inspeção detalhada e intervenção dirigida nessas áreas.
  • Condição de aplicação: use vento/umidade/temperatura para escolher janela segura e eficaz.

Rastreabilidade e caderno de campo (digital ou papel)

Rastreabilidade é conseguir responder com clareza: o que foi feito, quando, onde, por quem e com qual resultado. Isso protege a operação, facilita auditorias e melhora decisões futuras.

O que registrar (mínimo recomendado)

  • Identificação: talhão, área, cultura, variedade/lote (quando aplicável), datas-chave.
  • Operações: plantio, irrigação, adubação, pulverizações, roçadas, colheita (data, equipamento, operador).
  • Insumos: produto, lote, dose, volume de calda, área tratada, motivo da aplicação.
  • Condições: clima no momento (vento/UR/temperatura), solo (úmido/seco), observações de campo.
  • Resultados: efeito observado após X dias, necessidade de reaplicação, falhas.

Como organizar para não virar “papelada”

  • Uma página por talhão por semana (papel) ou um formulário padrão (digital).
  • Campos obrigatórios curtos: data, talhão, operação, produto/dose, área, observação.
  • Fotos com padrão: sempre do mesmo ângulo nos pontos fixos (ajuda a comparar).

Mini-projeto aplicável: mapa do talhão + 5 pontos fixos + rotina semanal

Objetivo do mini-projeto

Em 7 dias, montar um sistema simples e repetível para monitorar o talhão e tomar decisões baseadas em dados, usando ferramentas acessíveis.

Parte A — Criar o mapa do talhão (passo a passo)

  1. Escolha o talhão (comece por um de importância alta ou com variabilidade conhecida).
  2. Desenhe o contorno: caminhe as bordas com GPS do celular ou use uma imagem impressa e desenhe manualmente.
  3. Marque referências: entradas, carreadores, pontos de água, áreas de sombra, drenagens, linhas de irrigação.
  4. Faça um zoneamento simples (2–4 zonas): alto/baixo, compactado, vigor diferente.
  5. Salve/arquive: nomeie o arquivo (ex.: Talhão_03_2026_SafraVerão) e guarde versão impressa para campo.

Parte B — Definir 5 pontos fixos de monitoramento

Distribua os pontos para representar as zonas. Exemplo de lógica:

  • P1: área alta (seca rápido)
  • P2: meia encosta (condição “média”)
  • P3: baixada (risco de encharcamento)
  • P4: cabeceira/tráfego (risco de compactação)
  • P5: mancha histórica de baixo vigor (ponto-problema)

Passo a passo:

  1. Vá a cada local e registre o GPS (latitude/longitude) e uma descrição (ex.: “P3 – baixada perto do dreno”).
  2. Tire uma foto padrão (mesma altura e direção) e nomeie com data e ponto.
  3. Se usar umidade do solo, defina profundidades fixas e mantenha sempre as mesmas.

Parte C — Montar uma rotina semanal de registros (modelo pronto)

Escolha um dia fixo (ex.: toda segunda-feira) e um horário aproximado.

FrequênciaAtividadeTempo estimadoSaída (registro)
SemanalVisitar P1–P5 e preencher ficha padrão30–60 minVigor, falhas, ocorrências, fotos, umidade (se houver)
SemanalAtualizar chuva/clima (pluviômetro/estação)5–10 minChuva acumulada e observações climáticas
SemanalRevisar mapa e marcar novas anomalias10–20 minMapa com pontos de atenção
Após operaçãoRegistrar aplicação/irrigação/adubação5–15 minRastreabilidade completa (o que/onde/quando/como)

Checklist de qualidade do seu sistema (para validar em 2 semanas)

  • Você consegue comparar P1–P5 entre semanas sem dúvida de local?
  • Os registros têm data, talhão e ponto sempre preenchidos?
  • Existe pelo menos uma decisão tomada com base no registro (ex.: ajustar irrigação na zona alta)?
  • As fotos mostram evolução (mesmo ângulo) e ajudam a explicar diferenças?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao iniciar agricultura de precisão com recursos simples, qual prática ajuda mais a reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade do manejo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A base da precisão é consistência: medir e registrar sempre do mesmo jeito (pontos fixos, método e horário) permite comparar semanas/safras e decidir com evidências, reduzindo desperdícios mesmo com ferramentas simples.

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