Este capítulo reúne os pontos de Administração Pública e gestão mais cobrados em concursos, conectando a teoria com a rotina de unidades operacionais e setores administrativos do Corpo de Bombeiros (logística, almoxarifado, manutenção, compras e contratos, escalas e serviços).
Administração Pública: direta e indireta
Conceito essencial
A Administração Pública, em sentido organizacional, é o conjunto de órgãos e entidades que executam atividades administrativas para atender ao interesse público. Para provas, a divisão mais recorrente é:
- Administração Direta: órgãos integrados à estrutura dos entes federativos (União, Estados, DF e Municípios). Exemplo típico: Secretarias de Estado e órgãos subordinados, como comandos, diretorias e batalhões do Corpo de Bombeiros, quando estruturados como órgão do Estado.
- Administração Indireta: entidades com personalidade jurídica própria, criadas para descentralizar atividades: autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista.
Em concursos, atenção ao raciocínio: órgão (direta) não tem personalidade jurídica; entidade (indireta) tem.
Exemplo prático aplicado aos Bombeiros
Uma unidade operacional (batalhão/companhia) normalmente é órgão da Administração Direta. Já um laboratório, centro de pesquisa ou hospital público pode estar em entidade da indireta (a depender da organização do Estado). A prova costuma cobrar a identificação correta do tipo (órgão x entidade) e as consequências (responsabilidade, autonomia, regime jurídico).
Atos administrativos
Conceito essencial
Ato administrativo é a manifestação unilateral de vontade da Administração (ou de quem a represente), sob regime de direito público, com finalidade de atender ao interesse público, produzindo efeitos jurídicos.
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Elementos (muito cobrados):
- Competência: atribuição legal do agente/órgão.
- Finalidade: sempre o interesse público previsto em lei (desvio de finalidade invalida).
- Forma: modo de exteriorização (geralmente escrita; às vezes verbal em urgência, com posterior formalização).
- Motivo: situação de fato e de direito que fundamenta o ato.
- Objeto: conteúdo/efeito do ato (o que ele determina).
Atributos típicos:
- Presunção de legitimidade/veracidade.
- Imperatividade (pode impor obrigações).
- Autoexecutoriedade (em certas hipóteses, executa sem ordem judicial).
- Tipicidade (deve corresponder a um tipo previsto).
Exemplos na rotina
- Escala de serviço publicada: ato administrativo interno, com forma e competência definidas.
- Interdição de local em vistoria/segurança contra incêndio (quando houver previsão legal): ato com imperatividade e, em certas situações, autoexecutoriedade.
- Designação de fiscal de contrato: ato formal que define responsabilidade e competência.
Passo a passo prático: como “testar” a validade de um ato na unidade
- 1) Identifique o ato: é ordem, portaria, despacho, relatório conclusivo, notificação?
- 2) Confira a competência: quem assinou tem atribuição normativa/regimental para isso?
- 3) Verifique a finalidade: atende ao interesse público e ao objetivo legal (sem favorecimento pessoal)?
- 4) Cheque forma e motivação: está documentado, com justificativa mínima e referência normativa quando necessário?
- 5) Avalie objeto e proporcionalidade: o conteúdo é possível, lícito e adequado ao problema?
- 6) Registre e publique/ciência: quando exigido, dê publicidade interna e colha ciência dos envolvidos.
Poderes administrativos
Conceito essencial
Os poderes administrativos são instrumentos jurídicos para a Administração cumprir suas finalidades. Em provas, os mais cobrados:
- Poder vinculado: a lei define todos os requisitos; não há liberdade de escolha. Exemplo: conceder um direito quando preenchidos os requisitos legais.
- Poder discricionário: a lei permite escolha dentro de limites (conveniência e oportunidade). Exemplo: definir prioridade de manutenção entre viaturas, conforme critérios técnicos e disponibilidade.
- Poder hierárquico: organização interna, distribuição de competências, delegação/avocação, ordens e fiscalização.
- Poder disciplinar: apuração e punição de infrações funcionais, respeitando devido processo.
- Poder regulamentar: expedir atos normativos para fiel execução da lei (decretos, regulamentos, instruções).
- Poder de polícia: limitar direitos individuais em favor do interesse público (ex.: fiscalização e medidas de segurança contra incêndio, conforme legislação estadual).
Armadilhas comuns de prova
- Discricionariedade não é arbitrariedade: sempre há limites legais e controle.
- Poder hierárquico não existe entre pessoas jurídicas diferentes (ex.: órgão do CBM e uma autarquia não têm hierarquia entre si, salvo previsão legal específica de supervisão).
- Poder de polícia pode ter fases: ordem, consentimento (licenças), fiscalização e sanção.
Agentes públicos
Conceito essencial
Agente público é toda pessoa física que exerce, ainda que transitoriamente ou sem remuneração, função pública. Classificações frequentes:
- Agentes políticos: ocupantes de cargos estruturais de direção governamental (chefes do Executivo, ministros/secretários).
- Servidores públicos: ocupantes de cargos efetivos ou em comissão, regidos por estatuto (no âmbito civil).
- Militares: integrantes das instituições militares estaduais, com regime jurídico próprio (estatuto disciplinar, hierarquia e disciplina).
- Particulares em colaboração: jurados, mesários, voluntários credenciados, entre outros.
Aplicação na gestão do quartel e do administrativo
Na prática, a unidade lida com diferentes vínculos: militares de carreira, eventualmente servidores civis em áreas administrativas, e prestadores terceirizados. Para fins de prova e de gestão, isso impacta: forma de responsabilização, deveres funcionais, controle de jornada/escala, e quem pode assinar/autorizar determinados atos.
Responsabilidade civil do Estado
Conceito essencial
Regra geral: o Estado responde objetivamente pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros (teoria do risco administrativo). Em seguida, pode haver direito de regresso contra o agente se houver dolo ou culpa.
Pontos cobrados:
- Responsabilidade objetiva: não exige provar culpa do Estado; exige dano e nexo causal.
- Excludentes/atenuantes (conforme entendimento aplicado): culpa exclusiva da vítima, caso fortuito/força maior, fato exclusivo de terceiro, ausência de nexo causal.
- Omissão do Estado: em muitos recortes de prova, tende a exigir análise de dever específico de agir (e pode ser tratada como responsabilidade subjetiva em certas abordagens doutrinárias/jurisprudenciais). O essencial é identificar se havia dever legal e possibilidade de atuação.
Exemplos práticos no contexto bombeiro
- Dano em atendimento: durante uma ocorrência, uma ação necessária pode gerar dano colateral. A análise envolve nexo, necessidade, proporcionalidade e excludentes.
- Acidente com viatura: se em serviço e por conduta do agente, pode gerar responsabilidade do Estado perante terceiro, com possível regresso se houver culpa/dolo do condutor.
- Falha de manutenção: se comprovado que a Administração negligenciou manutenção obrigatória e isso causou dano, pode haver responsabilização.
Passo a passo prático: registro para reduzir risco e facilitar apuração
- 1) Documente a ocorrência: relatório, fotos quando cabível, identificação de envolvidos.
- 2) Preserve evidências: checklists de viatura/equipamento, registros de manutenção, escala e ordens.
- 3) Formalize comunicações: informe chefia e setor competente (corregedoria/assessoria jurídica, conforme norma interna).
- 4) Separe fato de opinião: descreva cronologia e condutas objetivamente.
- 5) Aponte normas e procedimentos seguidos: POPs, manuais, ordens de serviço.
Noções de licitações e contratos (visão de prova e prática)
Conceito essencial
Licitação é o procedimento administrativo para selecionar a proposta mais vantajosa, assegurando isonomia e observando princípios como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Contrato administrativo é o ajuste firmado pela Administração com particular, com cláusulas e prerrogativas públicas.
O foco em concursos costuma recair em: princípios, fases, papéis (gestor e fiscal), hipóteses de contratação direta (dispensa e inexigibilidade) e execução/alterações/sanções.
Fases típicas (visão geral)
- Planejamento: estudo da necessidade, estimativa de custos, definição do objeto, termo de referência/projeto básico, análise de riscos.
- Seleção do fornecedor: edital/convite, julgamento, habilitação (a ordem varia conforme modalidade/regime).
- Contratação: assinatura, designação de gestor e fiscal, definição de garantias quando cabível.
- Execução e fiscalização: recebimento, medição, pagamentos, aditivos, sanções.
Contratação direta: quando aparece em prova
- Dispensa: a licitação seria possível, mas a lei permite não licitar em hipóteses específicas (ex.: baixo valor, emergência/ calamidade dentro dos limites legais, entre outras).
- Inexigibilidade: inviabilidade de competição (ex.: fornecedor exclusivo, serviço técnico especializado singular com notória especialização, conforme requisitos legais).
Em ambos os casos, a regra é processo formal com justificativas, pesquisa de preços e motivação.
Passo a passo prático: compra/serviço recorrente na unidade (ex.: manutenção de viatura, EPI, material de limpeza)
- 1) Defina a necessidade: descreva o problema operacional (ex.: viatura indisponível por falha X) e o impacto no serviço.
- 2) Especifique o objeto: requisitos técnicos mínimos (sem direcionar marca, salvo justificativa técnica), prazos, local de entrega, garantia.
- 3) Estime custos: pesquisa de preços com fontes aceitas pela norma local; registre metodologia.
- 4) Verifique estoque e consumo: consulte almoxarifado e histórico para evitar compra duplicada.
- 5) Escolha a via adequada: licitação ou contratação direta (se cabível), sempre com motivação.
- 6) Planeje a fiscalização: defina critérios de recebimento (quantidade, qualidade, testes), e quem será fiscal.
- 7) Receba e registre: termo de recebimento, entrada em sistema/controle, identificação patrimonial quando aplicável.
- 8) Acompanhe a execução: prazos, conformidade, aplicação de penalidades se necessário, e lições aprendidas para o próximo ciclo.
Gestor e fiscal do contrato: diferença cobrada
- Gestor: acompanha a execução sob visão global (prazos, aditivos, pagamentos, comunicações formais).
- Fiscal: verifica tecnicamente a entrega/serviço (conformidade do objeto, medições, testes, relatórios).
Gestão pública aplicada ao Corpo de Bombeiros
Planejamento institucional (do estratégico ao operacional)
Planejamento é organizar objetivos, ações e recursos para entregar resultados à sociedade. Em unidades bombeiro-militares, ele precisa traduzir metas institucionais em rotinas: prontidão, tempo-resposta, disponibilidade de viaturas, capacitação e prevenção.
- Estratégico: diretrizes amplas (reduzir tempo-resposta médio, ampliar cobertura, aumentar conformidade de vistorias).
- Tático: planos por batalhão/diretoria (plano anual de manutenção, plano de instrução, plano de aquisições).
- Operacional: escalas, checklists, rotinas de almoxarifado, cronogramas de inspeção.
Passo a passo prático: montar um plano trimestral de prontidão da unidade
- 1) Diagnóstico: levante indisponibilidades (viaturas, equipamentos, efetivo), gargalos e demandas sazonais.
- 2) Objetivos mensuráveis: ex.: “elevar disponibilidade de viaturas de 75% para 90%”.
- 3) Ações: manutenção preventiva, compra de peças críticas, treinamento de operadores, revisão de escala.
- 4) Responsáveis e prazos: defina quem faz o quê e quando.
- 5) Indicadores: escolha 3 a 5 métricas simples (ver seção de indicadores).
- 6) Rotina de acompanhamento: reunião quinzenal curta com registro de decisões e pendências.
Gestão por processos (processos-chave da unidade)
Processo é um conjunto de atividades que transforma entradas em saídas com valor. Mapear processos reduz retrabalho e aumenta previsibilidade, algo crítico em logística e manutenção.
Exemplos de processos típicos:
- Atendimento operacional: acionamento, deslocamento, atendimento, retorno, recondicionamento.
- Almoxarifado: requisição, separação, entrega, baixa, inventário.
- Manutenção: abertura de ordem, diagnóstico, execução, teste, liberação.
- Compras: demanda, especificação, pesquisa de preços, contratação, recebimento.
Passo a passo prático: mapear o processo de requisição ao almoxarifado
- 1) Defina início e fim: início = necessidade identificada; fim = material entregue e registrado.
- 2) Liste etapas: solicitação, autorização, separação, entrega, baixa.
- 3) Identifique responsáveis: solicitante, comandante/chefe, almoxarife.
- 4) Defina documentos: formulário/sistema, termo de entrega, controle de lote/validade (EPI e itens críticos).
- 5) Ache gargalos: falta de padronização, ausência de estoque mínimo, autorizações demoradas.
- 6) Padronize: crie checklist e prazos internos (SLA) para itens críticos.
Indicadores (KPIs) para unidades operacionais e administrativas
Indicadores são medidas que mostram desempenho e apoiam decisão. Em provas, costuma-se cobrar que indicador seja: relevante, mensurável, comparável e com periodicidade definida.
Exemplos aplicáveis:
- Tempo-resposta: do acionamento à chegada.
- Disponibilidade de viaturas: % de viaturas aptas por dia/semana.
- Tempo de manutenção: abertura da OS até liberação.
- Ruptura de estoque: número de vezes que item crítico faltou.
- Conformidade de inspeções: % de checklists de viatura/equipamento realizados no prazo.
- Consumo por ocorrência: uso de itens (espuma, EPI descartável) por tipo de atendimento.
Exemplo de indicador simples (disponibilidade de viaturas) = (viaturas aptas / viaturas totais) x 100Gestão de riscos (operacional e administrativa)
Gestão de riscos é identificar, analisar, tratar e monitorar eventos que podem afetar objetivos. Em unidades bombeiro-militares, riscos não são apenas de ocorrência; incluem riscos de compras, estoque, manutenção e conformidade.
Exemplos de riscos administrativos:
- Compra com especificação inadequada (gera material inútil ou impugnação).
- Estoque sem controle de validade (EPI e itens perecíveis).
- Manutenção corretiva excessiva por falta de preventiva.
- Fiscalização de contrato frágil (pagamento por serviço não executado).
Passo a passo prático: matriz de riscos para almoxarifado e manutenção
- 1) Liste riscos: ruptura de item crítico, vencimento, extravio, falha de manutenção.
- 2) Avalie probabilidade e impacto: use escala 1 a 5.
- 3) Priorize: riscos com maior produto (P x I).
- 4) Defina controles: estoque mínimo, inventário cíclico, duplo controle de saída, cronograma de preventiva.
- 5) Defina responsáveis: almoxarife, chefe de manutenção, fiscal de contrato.
- 6) Monitore: revisão mensal e registro de incidentes (quase falhas).
Qualidade no serviço público (aplicação prática)
Qualidade, na gestão pública, é entregar serviço com confiabilidade, padronização e foco no cidadão, usando recursos com eficiência. Na rotina do Corpo de Bombeiros, qualidade aparece em:
- Padronização: POPs de atendimento e rotinas administrativas (requisições, recebimento, checklists).
- Rastreabilidade: registros de manutenção, calibração, entrega de EPI.
- Melhoria contínua: corrigir causas de falhas recorrentes (ex.: item sempre em falta; viatura sempre parada pelo mesmo componente).
Integração com logística, almoxarifado, manutenção e serviços administrativos
Logística e almoxarifado: controles essenciais
Uma unidade operacional depende de suprimentos contínuos (combustível, EPI, materiais de salvamento, itens de limpeza, peças). O almoxarifado precisa equilibrar disponibilidade e custo.
- Estoque mínimo: define ponto de ressuprimento para itens críticos.
- Curva ABC: prioriza controle de itens de maior valor/impacto (A), intermediários (B) e baixo valor (C).
- Inventário: contagens periódicas para reduzir divergências.
- Validade e lote: essencial para itens perecíveis e EPI.
Passo a passo prático: implementar estoque mínimo de item crítico
- 1) Escolha o item: ex.: luvas específicas, máscara, peça de reposição crítica.
- 2) Calcule consumo médio: com base em saídas mensais.
- 3) Defina prazo de reposição: tempo típico entre solicitar e receber.
- 4) Defina estoque de segurança: margem para variações.
- 5) Estabeleça ponto de pedido: consumo no prazo + segurança.
- 6) Crie rotina de verificação: semanal para itens críticos.
Manutenção: preventiva, corretiva e disponibilidade
Gestão de manutenção busca maximizar disponibilidade e segurança. Em concursos, é comum aparecer a diferença:
- Preventiva: programada para evitar falhas (trocas periódicas, inspeções).
- Corretiva: após falha (tende a ser mais cara e imprevisível).
Na prática, a unidade deve manter registros (ordens de serviço), histórico de falhas e critérios de prioridade (impacto na prontidão).
Passo a passo prático: rotina semanal de prontidão de viaturas e equipamentos
- 1) Checklist padronizado: itens de segurança, comunicação, fluidos, ferramentas, equipamentos embarcados.
- 2) Registro: data, responsável, achados e ações.
- 3) Classificação de criticidade: falha crítica (impede saída), moderada (restringe), leve (programar).
- 4) Abertura de OS: para cada falha relevante, com prazo e responsável.
- 5) Acompanhamento: quadro de controle (pendências x prazos) e escalonamento para chefia quando necessário.
Serviços administrativos: protocolo, documentos e conformidade
Rotinas administrativas sustentam a legalidade e a eficiência: protocolo de documentos, controle de patrimônio, designações formais, relatórios e prestação de contas. Em provas, isso se conecta a princípios e atos administrativos (forma, motivação, publicidade) e à fiscalização de contratos.
- Boas práticas: padronizar modelos de documentos, manter trilha de auditoria (quem solicitou, quem autorizou, quem recebeu), e arquivamento organizado.
- Exemplo: uma requisição de material deve ter justificativa, autorização, registro de saída e identificação do responsável pelo recebimento.