Acessibilidade e inclusão na linguagem em microcopy significa escrever para que pessoas com diferentes habilidades, repertórios, contextos culturais e níveis de letramento consigam ler, entender e agir com segurança. Aqui, “acessível” não é apenas “simples”: é previsível, interpretável por leitores de tela, compatível com tradução, respeitoso com identidades e livre de vieses que excluem ou constrangem. “Inclusivo” é reduzir barreiras invisíveis: jargões, pressupostos culturais, humor interno, metáforas confusas, termos capacitistas, gênero marcado desnecessariamente e mensagens que culpabilizam o usuário.
Na prática, linguagem acessível e inclusiva melhora conversão e reduz suporte porque diminui ambiguidades, evita interpretações erradas e aumenta a confiança. Também reduz risco de discriminação ou de experiências negativas em momentos sensíveis (cadastro, verificação, cobrança, bloqueios, denúncias).
O que torna um texto “difícil” de ler e entender
Mesmo textos curtos podem ser inacessíveis quando exigem esforço cognitivo alto. As causas mais comuns em interfaces são:
Vocabulário especializado (termos técnicos, siglas, juridiquês) sem explicação.
Pressupostos culturais (referências locais, humor, metáforas) que não funcionam para todos.
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Ambiguidade (palavras com múltiplos sentidos, instruções incompletas, pronomes sem referente).
Negativas e duplas negativas que aumentam erro (“não desmarque se não quiser…”).
Excesso de informação em uma única frase (muitas condições, exceções e parênteses).
Dependência de pistas visuais (“clique no botão verde”, “veja o texto em vermelho”), que prejudica pessoas com baixa visão, daltonismo ou leitores de tela.
Tom que julga (culpabiliza, infantiliza, ironiza) e afeta especialmente quem já enfrenta barreiras.
Leitura acessível: como reduzir carga cognitiva sem “empobrecer”
1) Preferir estruturas diretas e previsíveis
Estruturas previsíveis ajudam pessoas com dislexia, TDAH, baixa visão (que usam zoom), usuários em contexto de estresse e quem está lendo em segunda língua. Em microcopy, previsibilidade é: uma ideia por frase, ordem lógica (o que aconteceu → o que fazer), e termos consistentes.
Exemplo (antes): “Para prosseguir, caso você ainda não tenha realizado a validação, será necessário efetuar a confirmação do seu e-mail.”
Exemplo (depois): “Confirme seu e-mail para continuar.”
2) Evitar negativas desnecessárias
Negativas aumentam a chance de erro, principalmente em configurações e consentimentos. Prefira afirmações e descreva o estado final.
Antes: “Não desative para não perder alertas.”
Depois: “Mantenha ativado para receber alertas.”
3) Explicitar o referente (quem faz o quê)
Pronomes (“isso”, “ele”, “aqui”) podem confundir quando a interface tem muitos elementos. Nomeie a ação ou o objeto.
Antes: “Se não funcionar, tente novamente.”
Depois: “Se o código não chegar, peça um novo código.”
4) Não depender de cor, posição ou ícone para transmitir sentido
Quando o texto depende de cor (“campo em vermelho”) ou posição (“à direita”), pessoas com leitores de tela ou layouts responsivos podem se perder. Descreva o que precisa ser feito.
Antes: “Corrija os campos em vermelho.”
Depois: “Revise os campos com erro: e-mail e CPF.”
5) Cuidado com metáforas e humor
Metáforas (“dar um pulo”, “matar um processo”, “dar um tiro no pé”) e humor interno podem excluir pessoas neurodivergentes, usuários internacionais e quem está em situação de estresse. Se usar, garanta que a instrução funcional esteja clara sem depender da figura de linguagem.
Antes: “Ops, deu ruim. Vamos tentar de novo?”
Depois: “Não foi possível concluir agora. Tente novamente.”
Compreensão: escrever para diferentes níveis de letramento e contextos
Leitura em segunda língua e tradução
Mesmo em produtos em português, parte do público pode ler em segunda língua. Além disso, textos podem ser traduzidos no futuro. Para facilitar:
Evite gírias e regionalismos (“dar um jeito”, “quebrar um galho”).
Evite abreviações ambíguas (“cad.”, “doc.”) e siglas sem explicação.
Prefira termos literais (“enviar”, “baixar”, “cancelar”) a expressões vagas (“resolver”, “dar ok”).
Evite trocadilhos e frases que dependem de contexto cultural.
Numeracia: quando números confundem
Acessibilidade também envolve como você apresenta números, valores e prazos. Pessoas com baixa numeracia ou em ansiedade podem interpretar errado.
Escreva prazos de forma concreta: “até 2 dias úteis” em vez de “em breve”.
Evite intervalos vagos: “entre 24 e 48 horas” pode ser melhor como “em até 48 horas”.
Explique o que o número significa: “Limite: 10 MB por arquivo” (e não apenas “10 MB”).
Termos legais e políticas: tornar compreensível sem distorcer
Em textos com implicações legais (cancelamento, cobrança, bloqueio, denúncia), a inclusão exige clareza e transparência. A estratégia é separar: (1) o que a pessoa precisa saber para decidir agora; (2) detalhes completos em um link ou expansão. O microcopy deve refletir o impacto real e evitar eufemismos.
Antes: “Sua conta poderá sofrer limitações.”
Depois: “Sua conta ficará bloqueada para compras até confirmarmos seus dados.”
Vieses na linguagem: como aparecem e como reduzir
Vieses são padrões de linguagem que favorecem um grupo como “padrão” e tratam outros como exceção, problema ou risco. Em produto, vieses aparecem em escolhas de palavras, exemplos, categorias e suposições sobre família, gênero, renda, escolaridade, nacionalidade, corpo e capacidade.
1) Gênero e identidade: evitar marcação desnecessária
Quando o gênero não é relevante, use construções neutras e focadas na ação. Em português, neutralidade pode ser feita com reescrita (sem depender de grafias não padronizadas que podem prejudicar leitura por leitores de tela).
Prefira “pessoa usuária”, “você”, “quem usa”, “equipe”, “titular”, “responsável”.
Evite “caro usuário”, “bem-vindo” como padrão masculino quando não há motivo.
Antes: “O usuário deve informar seu documento.”
Depois: “Informe seu documento.”
Quando for necessário coletar gênero (por exigência legal, personalização real ou métricas), explique o motivo e ofereça opções respeitosas. Evite tratar “outro” como categoria residual sem contexto.
Exemplo de ajuda contextual: “Usamos essa informação para emitir documentos e relatórios. Você pode alterar depois.”
2) Linguagem capacitista: termos que associam deficiência a erro
Expressões como “cego”, “surdo”, “retardado”, “loucura”, “isso é insano” usadas como sinônimo de falha ou incompetência reforçam estigma. Em microcopy, isso aparece em mensagens de erro e brincadeiras.
Antes: “Você digitou isso errado? Tá cego?”
Depois: “Confira o número e tente novamente.”
Também evite “normal” como oposto de “deficiente”. Prefira “padrão”, “comum”, “mais frequente”, quando fizer sentido.
3) Viés socioeconômico: não presumir recursos e contexto
Textos podem excluir ao presumir que a pessoa tem impressora, cartão de crédito, tempo, internet estável, e-mail corporativo, endereço formal, ou conhecimento de burocracias.
Se houver alternativas, apresente-as (“Pague por Pix ou boleto”).
Se houver restrição, diga cedo e com caminho (“No momento, aceitamos apenas cartão. Se preferir Pix, avise quando estiver disponível”).
Antes: “Basta imprimir e assinar.”
Depois: “Assine digitalmente. Se precisar assinar em papel, baixe o PDF.”
4) Viés cultural e familiar: exemplos e categorias
Exemplos (“nome do pai”, “estado civil”, “nome de solteira”) podem excluir diferentes estruturas familiares e identidades. Se o dado não for essencial, não peça. Se for, explique e ofereça alternativas.
Antes: “Nome do pai (obrigatório)”
Depois: “Nome de um responsável legal (se houver no documento)”
5) Linguagem de culpa e suspeita
Em verificação, fraude e segurança, é comum cair em linguagem acusatória (“você tentou…”, “atividade suspeita”) que aumenta ansiedade e pode ser injusta. Prefira linguagem factual e orientada à proteção.
Antes: “Detectamos comportamento suspeito na sua conta.”
Depois: “Por segurança, precisamos confirmar que é você. Enviamos um código para seu e-mail.”
Passo a passo prático: auditoria de acessibilidade e inclusão em microcopy
Passo 1: mapeie os pontos de maior risco
Liste telas e mensagens onde barreiras causam mais abandono ou dano: cadastro, login, recuperação, pagamento, cancelamento, bloqueios, denúncias, moderação, dados pessoais, configurações e qualquer fluxo com termos legais.
Saída esperada: uma lista priorizada de componentes de texto (rótulos, ajudas, mensagens, botões, avisos).
Passo 2: defina o público e os cenários de leitura
Para cada ponto, descreva 2 a 4 cenários: pessoa com leitor de tela, pessoa com baixa visão usando zoom, pessoa com dislexia, pessoa lendo em segunda língua, pessoa em estresse (urgência), pessoa em conexão ruim. Isso orienta escolhas de palavras e estrutura.
Checklist rápido: o texto funciona se for lido em voz alta por um leitor de tela? Funciona fora do layout (sem cor, sem ícone, sem posição)?
Passo 3: aplique um “filtro de compreensão” frase a frase
Reescreva cada item de microcopy respondendo:
O que aconteceu? (se for feedback)
O que a pessoa precisa fazer agora?
O que acontece depois? (quando relevante)
Há termos que exigem conhecimento prévio? Se sim, substitua ou explique.
Há negativas? Transforme em afirmação quando possível.
Exemplo (mensagem de bloqueio):
Antes: “Não foi possível validar sua identidade. Sua conta está com restrições.”
Depois: “Não conseguimos confirmar sua identidade. Para proteger sua conta, compras e saques estão bloqueados. Envie uma foto do documento para liberar.”
Passo 4: revise para neutralidade e respeito
Faça uma varredura por vieses comuns:
Gênero: há masculino genérico? Dá para reescrever sem marcar gênero?
Capacitismo: há termos que usam deficiência como insulto/metáfora?
Culpa: o texto acusa ou envergonha?
Pressupostos: presume família, renda, escolaridade, nacionalidade, religião?
Exemplo (tom culpabilizador):
Antes: “Você não preencheu direito. Tente novamente.”
Depois: “Faltou preencher o CEP. Digite 8 números.”
Passo 5: verifique compatibilidade com leitores de tela e leitura linear
Mesmo sendo “só texto”, microcopy pode falhar na leitura assistiva se depender de contexto visual. Teste lendo em voz alta na ordem em que o conteúdo aparece (rótulo → ajuda → erro → ação). Ajuste para que cada trecho faça sentido sozinho.
Evite “Clique aqui” como link isolado. Prefira links descritivos: “Ver requisitos de senha”.
Evite instruções como “veja acima”. Prefira “veja os requisitos de senha abaixo”.
Passo 6: padronize termos sensíveis e crie uma lista de substituições
Monte um pequeno guia interno com termos preferidos e termos a evitar, especialmente para mensagens de erro, bloqueios e segurança. Isso reduz inconsistência e vieses ao longo do produto.
Exemplo de tabela (modelo):
Evitar: