Valores e moralidades cotidianas: o que a sociedade considera importante

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que são valores (e por que eles aparecem nas decisões pequenas)

Valores são critérios do que um grupo considera desejável, correto ou importante. Eles funcionam como “bússolas” que orientam escolhas e julgamentos: o que merece respeito, o que é justo, o que é invasivo, o que é solidário, o que é “merecido”. Diferente de regras explícitas, valores costumam aparecer como justificativas em frases do tipo: “o certo é…”, “não é justo…”, “cada um tem que…”, “isso é falta de respeito…”.

No cotidiano, valores raramente aparecem isolados. Uma mesma situação pode ativar valores diferentes em pessoas diferentes, gerando conflito: alguém vê “liberdade”; outro vê “segurança”. Alguém vê “mérito”; outro vê “solidariedade”. Por isso, mapear valores ajuda a entender por que discussões aparentemente pequenas (atraso, fila, dinheiro, empréstimos) ficam tão carregadas.

Valores comuns que organizam o dia a dia

  • Respeito: reconhecer limites, tempo e dignidade do outro (cumprimentar, não interromper, não humilhar, não invadir).
  • Mérito: recompensar esforço, desempenho e responsabilidade (“quem se dedicou mais deveria…”).
  • Honestidade: dizer a verdade, cumprir acordos, não se aproveitar de brechas.
  • Privacidade: controlar o que é íntimo, o que pode ser perguntado, exposto ou compartilhado.
  • Solidariedade: apoiar quem precisa, dividir custos e riscos, agir com empatia.

Como valores viram decisões: cinco situações comuns

1) Dividir despesas (conta, aluguel, viagem, presente coletivo)

Dividir dinheiro é um dos lugares onde valores ficam mais visíveis, porque envolve justiça, reconhecimento e confiança.

SituaçãoValores em jogoFrases típicas (pistas)
Dividir igualmente a contaIgualdade, simplicidade, harmonia“Melhor meio a meio para não complicar.”
Dividir proporcional à rendaSolidariedade, equidade“Para mim pesa mais; faz sentido ajustar.”
Pagar o que consumiuMérito/Responsabilidade, precisão“Cada um paga o seu, é o mais justo.”
Uma pessoa paga tudoGenerosidade, status, reciprocidade“Deixa que eu pago hoje.”

Conflitos comuns: mérito/individualismo (“cada um paga o seu”) vs. solidariedade/coletividade (“vamos equilibrar para ninguém ficar de fora”).

2) Emprestar objetos (carro, roupa, ferramenta, senha)

Empréstimos testam confiança e limites. O objeto emprestado vira um “símbolo” de cuidado e reciprocidade.

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  • Honestidade: devolver no prazo, avisar se quebrou, não “sumir” com o item.
  • Respeito: usar com cuidado, não emprestar para terceiros sem permissão.
  • Privacidade: senha, celular e computador envolvem dados e intimidade.
  • Solidariedade: ajudar alguém a resolver um problema imediato.

Exemplo prático: emprestar o celular para “só fazer uma ligação” pode acionar solidariedade, mas também privacidade (medo de mexer em mensagens). A resposta (“claro” vs. “prefiro não”) costuma ser interpretada moralmente, mesmo quando é apenas um limite.

3) Aceitar atrasos (encontro, entrega, reunião)

Atraso é uma disputa sobre o valor do tempo e sobre hierarquia. Quem espera pode sentir que seu tempo vale menos.

  • Respeito: avisar, pedir desculpas, não naturalizar.
  • Responsabilidade/mérito: “cumprir o combinado” como sinal de confiabilidade.
  • Solidariedade: considerar imprevistos reais (transporte, cuidado com filhos, saúde).

Quando o atraso vira conflito? Geralmente quando há assimetria: uma pessoa sempre atrasa e a outra sempre “engole”, ou quando o atraso é lido como falta de consideração (“nem avisou”).

4) Reagir a “furar fila” (no mercado, no trânsito, no atendimento)

Fila é um símbolo de justiça procedural: a ordem define quem tem prioridade. “Furar” é percebido como quebra de igualdade e honestidade.

  • Igualdade/justiça: “todo mundo está esperando”.
  • Honestidade: não se aproveitar de brechas.
  • Segurança: evitar confronto (principalmente em contextos tensos).
  • Liberdade: alguns interpretam como “esperteza” ou “se dá um jeito”.

Conflito típico: justiça vs. segurança. A pessoa pode achar errado, mas não confrontar por medo de agressão. O valor “segurança” não elimina o valor “justiça”; ele apenas muda a estratégia.

5) Falar sobre dinheiro (salário, dívidas, preço de coisas)

Dinheiro é um tema moralizado: pode sinalizar sucesso, fracasso, responsabilidade, generosidade ou egoísmo. Por isso, perguntas simples (“quanto você ganha?”) podem soar invasivas.

  • Privacidade: controlar informações sensíveis.
  • Honestidade: transparência em acordos (principalmente no trabalho e em parcerias).
  • Mérito: comparar salários pode ativar ideias de “merecimento”.
  • Solidariedade: falar de dinheiro pode ajudar a negociar condições mais justas ou apoiar alguém.

Exemplo prático: em um grupo de amigos, alguém pede para dividir uma viagem “sem olhar muito”. Para uns, isso é harmonia; para outros, é injustiça se os gastos são muito diferentes.

Comparando contextos: família, amigos, trabalho e vizinhança

Família: cuidado, hierarquia e “dívidas morais”

Na família, valores de solidariedade e lealdade costumam ser fortes. Ao mesmo tempo, pode haver hierarquias (pais/filhos, mais velhos/mais novos) que definem quem decide e quem “deve” algo.

  • Dividir despesas: “quem pode mais ajuda mais” (solidariedade) vs. “cada adulto se vira” (autonomia/mérito).
  • Privacidade: perguntas sobre vida amorosa, corpo ou finanças podem ser justificadas como “preocupação”, mas vividas como invasão.
  • Atrasos: tolerância maior por laços afetivos, mas também cobrança emocional (“você nunca tem tempo pra gente”).

Amigos: reciprocidade e negociação de limites

Entre amigos, a moralidade costuma girar em torno de reciprocidade (trocas equilibradas ao longo do tempo) e respeito aos limites. O “placar” pode ser informal, mas existe: quem sempre pede e nunca oferece pode ser visto como abusivo.

  • Empréstimos: emprestar pode ser prova de confiança; negar pode ser lido como frieza, mesmo quando é limite legítimo.
  • Dinheiro: falar abertamente pode ser sinal de intimidade; evitar pode ser sinal de desconforto ou proteção.
  • Fila/jeitinho: alguns grupos valorizam “se virar”; outros valorizam “não passar por cima”.

Trabalho: mérito, justiça e reputação

No trabalho, valores de mérito, responsabilidade e justiça aparecem com força porque afetam avaliação, promoção e confiança. A moralidade cotidiana se mistura com reputação profissional.

  • Atrasos: podem ser lidos como falta de profissionalismo, mesmo quando há causas estruturais (transporte, dupla jornada).
  • Falar de salário: pode ser visto como “tabu” (privacidade) ou como ferramenta de justiça (transparência para reduzir desigualdades).
  • Dividir tarefas: “cada um faz sua parte” (mérito) vs. “vamos cobrir quem está sobrecarregado” (solidariedade).

Vizinhança: convivência, segurança e fronteiras

Na vizinhança, valores de segurança, respeito e coletividade são centrais: barulho, uso de áreas comuns, vagas, lixo, animais, reformas. Pequenos atos viram sinais de consideração ou ameaça.

  • Liberdade vs. segurança: “posso receber quem eu quiser” vs. “precisamos controlar entrada”.
  • Individualismo vs. coletividade: “minha música, minha casa” vs. “somos muitos, precisamos combinar”.
  • Fila/ordem: elevador, garagem e portaria criam micro-regras onde “passar na frente” vira conflito.

Conflitos entre valores: como identificar o que está batendo de frente

Liberdade vs. segurança

Esse conflito aparece quando escolhas individuais aumentam risco percebido para outros. Exemplos: deixar o portão destrancado, aceitar desconhecidos no prédio, dirigir “mais rápido porque estou com pressa”.

Pergunta-guia: a discordância é sobre o fato (o risco é real?) ou sobre o valor (quanto risco é aceitável em nome da liberdade)?

Individualismo vs. coletividade

Aparece em decisões sobre compartilhar custos, tempo e incômodos. Exemplos: dividir conta, barulho, limpeza de espaços comuns, cobrir colega de trabalho.

Pergunta-guia: a pessoa está defendendo autonomia (“não quero ser obrigado”) ou proteção do grupo (“se cada um fizer o seu, alguém fica prejudicado”)?

Mérito vs. solidariedade

Aparece quando há desigualdade de recursos, tempo ou oportunidades. Exemplo: um amigo com renda menor pede para adaptar o rolê; um colega precisa sair mais cedo por cuidado com familiares.

Pergunta-guia: o foco está em recompensar esforço individual ou em reduzir sofrimento/evitar exclusão?

Honestidade vs. harmonia

Aparece quando dizer a verdade pode gerar atrito. Exemplo: apontar que alguém sempre atrasa, que alguém consumiu mais na conta, que alguém “furou fila”.

Pergunta-guia: a pessoa evita falar por cuidado com o vínculo (harmonia) ou por medo de confronto? E qual o custo disso no longo prazo?

Passo a passo: como mapear valores por trás de uma discussão cotidiana

Passo 1 — Descreva o fato sem julgamento

Escreva uma frase objetiva: “A pessoa chegou 25 minutos atrasada e não avisou.” Evite adjetivos (“desrespeitosa”, “folgada”) por enquanto.

Passo 2 — Liste as reações e as justificativas (as suas e as dos outros)

  • “Fiquei irritado porque perdi tempo.”
  • “Ela disse que o trânsito estava impossível.”
  • “Eu pensei que ela não se importa.”

Passo 3 — Traduza cada justificativa em um valor

  • “Perdi tempo” → respeito/consideração
  • “Trânsito impossível” → solidariedade/compreensão
  • “Não se importa” → respeito/reciprocidade

Passo 4 — Identifique o conflito de valores (se houver)

Exemplo: respeito ao tempo vs. solidariedade com imprevistos. Ou justiça na fila vs. segurança ao evitar confronto.

Passo 5 — Teste uma solução que reconheça os dois valores

Em vez de escolher um lado moral absoluto, formule um acordo que preserve ambos quando possível. Exemplo: “Se atrasar mais de 10 minutos, avisa; se for imprevisto sério, a gente remarca sem culpa.”

Atividades: encontre os valores escondidos em argumentos comuns

Atividade 1 — “Tradução moral” de frases do dia a dia

Para cada frase abaixo, marque quais valores aparecem (pode ser mais de um): respeito, mérito, honestidade, privacidade, solidariedade, segurança, liberdade, coletividade, autonomia.

  • “Se eu cheguei antes, eu tenho prioridade.”
  • “Não custa nada ajudar, amanhã pode ser você.”
  • “Cada um paga o que consumiu, simples.”
  • “Eu não gosto de falar de salário, é pessoal.”
  • “Se você empresta, tem que confiar.”
  • “Eu tenho direito de fazer barulho na minha casa.”
  • “Melhor não discutir com quem fura fila, vai que dá confusão.”

Atividade 2 — Quatro contextos, um mesmo tema

Escolha um tema: atraso ou dinheiro. Preencha mentalmente (ou em um caderno) como você reagiria em cada contexto e qual valor guiaria sua reação.

ContextoO que você aceitaria?O que você cobraria?Valor principal
Família
Amigos
Trabalho
Vizinhança

Atividade 3 — Detectando conflitos de valores

Leia os pares e escreva qual conflito aparece e qual solução poderia reconhecer os dois lados.

  • “Cada um cuida da sua vida” vs. “A gente precisa se ajudar.”
  • “Eu tenho liberdade” vs. “Isso coloca os outros em risco.”
  • “Não é justo eu pagar mais” vs. “Se for assim, eu não consigo ir.”
  • “Prefiro falar a verdade” vs. “Você vai magoar a pessoa.”

Atividade 4 — Seu “radar” de valores

Escolha uma discussão real que você teve (ou presenciou) nas últimas duas semanas. Responda:

  • Qual foi o fato que iniciou o conflito?
  • Quais foram as frases-chave usadas por cada lado?
  • Quais valores cada lado estava defendendo?
  • Havia um valor “não dito” (ex.: medo, status, vergonha, necessidade de pertencimento)?
  • O que mudaria se vocês nomeassem explicitamente os valores (“pra mim é uma questão de…”)?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar um conflito cotidiano sobre alguém “furar fila”, qual interpretação identifica corretamente o tipo de conflito de valores descrito no conteúdo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O conteúdo descreve a fila como símbolo de justiça/igualdade e o “furar” como quebra dessa regra. Ainda assim, a pessoa pode evitar confrontar por valorizar segurança, criando um conflito entre justiça e segurança.

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