Transformando Probabilidade em Contagem: Espaço Amostral, Eventos e Razões

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

Da probabilidade “no ar” para a probabilidade “contável”

Em muitos problemas, a probabilidade fica simples quando você transforma a pergunta em uma contagem bem definida. O caminho padrão é: definir o espaço amostral (o conjunto de resultados elementares possíveis), verificar se os resultados são equiprováveis e, quando forem, usar P(A)=|A|/|S|. O ponto crítico é escolher qual será o “resultado elementar”: se você agrupa resultados em categorias com probabilidades diferentes, perde a equiprobabilidade e a razão |A|/|S| deixa de valer diretamente.

Checklist operacional (use em todo exercício)

  • (1) Resultado elementar: descreva exatamente o que é um “ponto” do espaço amostral (ex.: “uma carta específica”, “um par ordenado (d1,d2)”, “uma sequência de 4 dígitos”).
  • (2) Total de possibilidades: calcule |S| com contagem adequada.
  • (3) Definição do evento: escreva o evento A em termos do resultado elementar (ex.: “(d1,d2) com soma 7”).
  • (4) Contagem do evento: calcule |A| com contagem adequada.
  • (5) Simplificação e interpretação: reduza a fração e explique o significado (ex.: “1 em 6”).

Equiprobabilidade: quando a razão |A|/|S| funciona (e quando não)

Equiprobabilidade significa: cada resultado elementar em S tem a mesma chance. Exemplos típicos: uma carta bem embaralhada (cada carta específica é igualmente provável), um dado honesto (cada face), uma senha gerada uniformemente entre todas as sequências possíveis.

Armadilha comum: definir como resultado elementar uma categoria agregada (ex.: “soma dos dados”) e tentar usar |A|/|S| nesse espaço agregado. As somas não são equiprováveis. A correção é remodelar o espaço amostral para resultados elementares equiprováveis (ex.: pares ordenados (d1,d2)).

Exemplo 1 (cartas): evento simples e evento composto

1A) Uma carta de um baralho padrão (52 cartas). Probabilidade de sair Ás

(1) Resultado elementar: uma carta específica (por exemplo, “Ás de Copas”).

(2) Total de possibilidades: |S|=52.

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(3) Evento: A = “a carta é um Ás”.

(4) Contagem do evento: há 4 ases, então |A|=4.

(5) Simplificação e interpretação: P(A)=4/52=1/13. Interpretação: em média, 1 a cada 13 cartas é Ás.

1B) Uma carta. Probabilidade de sair “carta vermelha OU figura (J,Q,K)”

(1) Resultado elementar: uma carta específica.

(2) Total de possibilidades: |S|=52.

(3) Evento: A = “vermelha” (26 cartas), B = “figura” (12 cartas). Queremos P(A∪B).

(4) Contagem do evento: |A∪B|=|A|+|B|-|A∩B|. As figuras vermelhas: J,Q,K de Copas e Ouros = 6 cartas. Logo |A∪B|=26+12-6=32.

(5) Simplificação e interpretação: P(A∪B)=32/52=8/13. Interpretação: a maioria das cartas (8 em 13) é vermelha ou figura.

Exemplo 2 (dados): remodelando para recuperar equiprobabilidade

2A) Dois dados honestos. Probabilidade de a soma ser 7

Por que não usar “soma” como resultado elementar? Porque “soma = 2” tem 1 forma, “soma = 7” tem 6 formas etc. As somas não são equiprováveis.

(1) Resultado elementar: par ordenado (d1,d2), com d1,d2∈{1,2,3,4,5,6}.

(2) Total de possibilidades: |S|=6·6=36.

(3) Evento: A = “d1+d2=7”.

(4) Contagem do evento: pares que somam 7: (1,6),(2,5),(3,4),(4,3),(5,2),(6,1). Então |A|=6.

(5) Simplificação e interpretação: P(A)=6/36=1/6. Interpretação: em média, 1 em 6 lançamentos duplos dá soma 7.

2B) Dois dados. Probabilidade de “pelo menos um 6”

(1) Resultado elementar: par ordenado (d1,d2).

(2) Total de possibilidades: |S|=36.

(3) Evento: A = “d1=6 ou d2=6”.

(4) Contagem do evento (via complemento): complemento A^c = “nenhum é 6”, ou seja, d1∈{1..5} e d2∈{1..5}. Então |A^c|=5·5=25, logo |A|=36-25=11.

(5) Simplificação e interpretação: P(A)=11/36. Interpretação: um pouco menos que 1/3 das vezes aparece pelo menos um 6.

Exemplo 3 (urnas): sem reposição e evento composto

3A) Urna com 5 bolas vermelhas e 3 azuis. Retira-se 2 sem reposição. Probabilidade de sair “uma de cada cor”

(1) Resultado elementar: um par de bolas específicas retiradas (sem ordem). Cada subconjunto de 2 bolas é igualmente provável quando a retirada é aleatória sem reposição.

(2) Total de possibilidades: |S|= número de maneiras de escolher 2 bolas dentre 8: |S|=C(8,2)=28.

(3) Evento: A = “1 vermelha e 1 azul”.

(4) Contagem do evento: escolher 1 vermelha dentre 5 e 1 azul dentre 3: |A|=C(5,1)·C(3,1)=5·3=15.

(5) Simplificação e interpretação: P(A)=15/28. Interpretação: é mais provável sair cores diferentes do que duas da mesma cor.

3B) Mesma urna. Probabilidade de sair “duas vermelhas OU duas azuis”

(1) Resultado elementar: subconjunto de 2 bolas específicas.

(2) Total de possibilidades: |S|=28.

(3) Evento: A = “2 vermelhas”, B = “2 azuis”. Queremos P(A∪B).

(4) Contagem do evento: |A|=C(5,2)=10, |B|=C(3,2)=3. Como não dá para ser simultaneamente “2 vermelhas” e “2 azuis”, A e B são disjuntos, então |A∪B|=10+3=13.

(5) Simplificação e interpretação: P(A∪B)=13/28. Interpretação: cerca de 46% das vezes as duas bolas têm a mesma cor.

Exemplo 4 (senhas): espaço amostral como sequência elementar

4A) Senha de 4 dígitos (0–9), com repetição permitida. Probabilidade de ter exatamente dois dígitos iguais a 7

(1) Resultado elementar: uma sequência de 4 dígitos (ex.: 0-7-7-3). Sequências são equiprováveis se a geração for uniforme.

(2) Total de possibilidades: |S|=10^4=10000.

(3) Evento: A = “exatamente duas posições contêm o dígito 7”.

(4) Contagem do evento: escolha as 2 posições que serão 7: C(4,2)=6. Nas outras 2 posições, cada uma pode ser qualquer dígito exceto 7: 9 opções por posição, total 9^2=81. Logo |A|=6·81=486.

(5) Simplificação e interpretação: P(A)=486/10000=0,0486. Interpretação: cerca de 4,86% das senhas têm exatamente dois 7.

4B) Senha de 4 dígitos. Probabilidade de ser “palíndroma” (ABBA)

(1) Resultado elementar: sequência de 4 dígitos.

(2) Total de possibilidades: |S|=10^4.

(3) Evento: A = “d1=d4 e d2=d3”.

(4) Contagem do evento: escolha d1 (10 opções) e d2 (10 opções). Os demais ficam determinados. Então |A|=10·10=100.

(5) Simplificação e interpretação: P(A)=100/10000=1/100. Interpretação: 1% das senhas de 4 dígitos são palíndromas.

Exemplo 5 (amostras sem reposição): ordem vs. não ordem e consistência do modelo

5A) Selecionar 3 cartas de um baralho, sem reposição. Probabilidade de “todas serem de Copas”

Você pode modelar o resultado elementar como “conjunto de 3 cartas” (sem ordem) ou como “sequência de 3 retiradas” (com ordem). As duas escolhas funcionam, desde que S e A sejam contados no mesmo modelo.

Modelo sem ordem

(1) Resultado elementar: subconjunto de 3 cartas específicas.

(2) Total de possibilidades: |S|=C(52,3).

(3) Evento: A = “as 3 cartas são de Copas”.

(4) Contagem do evento: há 13 copas, então |A|=C(13,3).

(5) Simplificação e interpretação: P(A)=C(13,3)/C(52,3). Interpretação: chance de um trio todo do mesmo naipe (Copas) ao escolher 3 cartas.

Exemplo 6 (resultados não igualmente prováveis): categorias agregadas vs. sequências elementares

6A) Duas moedas honestas. Probabilidade de “dar exatamente uma cara”

Se você define o resultado como “número de caras” (0,1,2), esses três resultados não são equiprováveis. Para usar contagem com |A|/|S|, remodele para sequências.

Modelo correto (sequências equiprováveis)

(1) Resultado elementar: sequência ordenada de dois lançamentos: {CC, CK, KC, KK} (C=cara, K=coroa).

(2) Total de possibilidades: |S|=4.

(3) Evento: A = “exatamente uma cara” = {CK, KC}.

(4) Contagem do evento: |A|=2.

(5) Simplificação e interpretação: P(A)=2/4=1/2. Interpretação: metade das vezes sai uma cara e uma coroa.

6B) Dois dados: por que “soma” falha como espaço amostral equiprovável

Espaço agregado (não equiprovável): somas possíveis {2,3,...,12} (11 resultados). Se você fizesse P(soma=7)=1/11, estaria errado.

Remodelagem (sequências equiprováveis): usar (d1,d2) com 36 resultados igualmente prováveis, como no Exemplo 2A, recupera a razão correta 6/36.

Tabela-guia: como escolher o “resultado elementar” para manter equiprobabilidade

ExperimentoResultado elementar recomendadoObservação de equiprobabilidade
1 cartacarta específicaequiprovável com baralho bem embaralhado
2 dadospar ordenado (d1,d2)equiprovável; somas não são
k retiradas sem reposiçãosubconjunto (sem ordem) ou sequência (com ordem)ambos funcionam se a contagem for consistente
senhasequência de caracteresequiprovável se gerada uniformemente
moedassequência de resultadosequiprovável; “número de caras” é agregado

Modelo de escrita (para você copiar e preencher)

(1) Resultado elementar: ________________________________
(2) Total de possibilidades |S|: ________________________
(3) Evento A (em termos do resultado elementar): ________
(4) Contagem do evento |A|: _____________________________
(5) Probabilidade P(A)=|A|/|S| = ________ ; interpretação: __________________

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao calcular a probabilidade de a soma de dois dados honestos ser 7 usando P(A)=|A|/|S|, qual escolha de “resultado elementar” mantém a equiprobabilidade e permite aplicar corretamente a razão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

As somas não são equiprováveis (por exemplo, 7 tem mais combinações do que 2). Ao modelar o espaço amostral como pares ordenados (d1,d2), os 36 resultados são equiprováveis e a probabilidade pode ser obtida por |A|/|S|.

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