Trabalho interdisciplinar e comunicação clínica na Fisioterapia Neurológica

Capítulo 17

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Conceito e finalidade do trabalho interdisciplinar na reabilitação neurológica

Trabalho interdisciplinar é a atuação coordenada de diferentes profissões com um plano integrado, metas compartilhadas e comunicação contínua, para reduzir riscos, aumentar independência e alinhar decisões ao que é significativo para o paciente e sua família. Na Fisioterapia Neurológica, isso é especialmente importante porque limitações motoras, de comunicação, deglutição, cognição, humor, dor, fadiga, ambiente e suporte social frequentemente se influenciam mutuamente. O foco não é “cada um fazer sua parte isoladamente”, mas construir uma linha única de cuidado com responsabilidades claras, evitando duplicidade de intervenções e mensagens contraditórias.

Objetivos compartilhados (exemplos)

  • Segurança: reduzir risco de aspiração, quedas, lesões por pressão, erros de medicação e sobrecarga do cuidador.
  • Funcionalidade: melhorar desempenho em mobilidade, autocuidado, comunicação e alimentação, com estratégias consistentes entre os profissionais.
  • Participação: retorno a papéis sociais (trabalho, estudo, lazer), com adaptações ambientais e suporte psicossocial.
  • Autonomia: decisões informadas, respeito a preferências, metas realistas e consentimento contínuo.

Papéis complementares na equipe: o que cada área observa e entrega ao plano

Fisioterapia (FT)

  • Foco: mobilidade, transferências, marcha, condicionamento, controle postural, prevenção de complicações musculoesqueléticas e respiratórias relacionadas à imobilidade.
  • Entrega para a equipe: nível de assistência para mobilidade (ex.: “1 pessoa para transferência”), tolerância ao esforço, risco de queda, recomendações de treino seguro, necessidade de dispositivos (bengala, andador, cadeira de rodas) e orientações de manuseio.
  • Interface típica: com TO para consistência de estratégias em transferências e uso de cadeira/órteses; com enfermagem para rotinas seguras; com medicina para restrições clínicas e ajuste de analgesia/espasticidade quando impactam função; com fono para segurança durante mobilidade pós-refeição se houver risco de aspiração.

Terapia Ocupacional (TO)

  • Foco: desempenho em atividades de vida diária (banho, vestir, higiene, alimentação), função de membro superior, cognição funcional, adaptações ambientais e tecnologia assistiva.
  • Entrega para a equipe: estratégias de economia de energia, adaptações no domicílio, treino de tarefas com compensações seguras, recomendações de utensílios adaptados e rotinas para independência.
  • Interface típica: com FT para alinhar transferências e posicionamento em cadeira; com serviço social para viabilizar recursos; com psicologia para barreiras motivacionais e adesão; com enfermagem para padronizar autocuidado no leito.

Fonoaudiologia

  • Foco: deglutição (segurança alimentar), comunicação (fala/linguagem) e, quando aplicável, cognição comunicativa.
  • Entrega para a equipe: recomendações de consistência alimentar, postura e estratégias durante alimentação, sinais de alerta de aspiração, plano de comunicação alternativa/aumentativa e orientações para equipe e família.
  • Interface típica: com enfermagem para administração segura de dieta e medicações; com medicina para decisões sobre via alternativa de alimentação; com FT/TO para posicionamento adequado durante refeições e uso de cadeira/apoios.

Enfermagem

  • Foco: monitorização clínica contínua, administração de medicações, cuidados com pele, manejo de dispositivos (sondas, cateteres), educação do cuidador e execução de rotinas 24h.
  • Entrega para a equipe: observações de tolerância diária, intercorrências (queda, dessaturação, sonolência), adesão às recomendações, barreiras práticas no plantão e necessidades de treinamento de equipe/cuidador.
  • Interface típica: com FT/TO para padronizar transferências e posicionamento; com fono para dieta e medicações; com medicina para ajuste terapêutico conforme resposta e efeitos adversos.

Medicina (neurologia, fisiatria, clínica, geriatria, etc.)

  • Foco: diagnóstico, estabilidade clínica, prescrição e ajuste medicamentoso, investigação de causas de piora, indicação de exames e encaminhamentos, definição de restrições e liberação para esforços.
  • Entrega para a equipe: metas clínicas, restrições (ex.: carga, pressão arterial alvo), plano medicamentoso e alertas de efeitos colaterais que impactam função (sedação, hipotensão, discinesias).
  • Interface típica: com FT/TO para adequar intensidade e segurança; com fono para decisões sobre via alimentar; com psicologia para manejo de humor/ansiedade; com serviço social para continuidade do cuidado.

Psicologia

  • Foco: adaptação ao adoecimento, humor, ansiedade, estratégias de enfrentamento, motivação, adesão, suporte ao cuidador e comunicação de más notícias em conjunto com a equipe.
  • Entrega para a equipe: leitura de barreiras emocionais e comportamentais, recomendações de abordagem (ex.: instruções curtas, reforço positivo, manejo de frustração), sinais de sobrecarga do cuidador.
  • Interface típica: com FT/TO para aumentar engajamento em treino; com medicina para avaliação de necessidade de intervenção farmacológica; com serviço social para rede de suporte.

Serviço Social

  • Foco: acesso a recursos, benefícios, rede de apoio, planejamento de alta, articulação com atenção básica, transporte, equipamentos e adaptações domiciliares viáveis.
  • Entrega para a equipe: mapa de suporte familiar, barreiras socioeconômicas, viabilidade de recomendações (ex.: cuidador disponível, moradia com escadas), encaminhamentos para serviços e programas.
  • Interface típica: com TO/FT para viabilizar órteses/auxiliares e adaptações; com enfermagem para treinamento do cuidador; com medicina para documentação necessária.

Comunicação clínica padronizada: como relatar achados e metas de forma útil para a equipe

Uma comunicação eficaz em equipe precisa ser breve, específica, orientada à função e acionável. Evite descrições vagas (“melhorando”, “fraco”) e prefira informações que mudem condutas (“necessita 1 pessoa + cinto de marcha”, “risco de aspiração com líquidos finos”). A seguir, um modelo prático de mensagem que pode ser usado em prontuário, passagem de plantão e discussão interdisciplinar.

Modelo de resumo funcional (estrutura sugerida)

  • 1) Situação funcional atual: o que a pessoa faz e com quanta ajuda (mobilidade, transferências, autocuidado, comunicação, alimentação).
  • 2) Principais riscos: quedas, aspiração, lesão de pele, fadiga excessiva, confusão, dor, hipotensão, agitação.
  • 3) Recomendações imediatas: como mobilizar, quando mobilizar, com quais precauções, posicionamento, supervisão necessária.
  • 4) Dispositivos/órteses/auxiliares: necessidade, tipo, quando usar, quem deve colocar/retirar, checagens de segurança.
  • 5) Metas compartilhadas (curto prazo): 1–3 metas interprofissionais com prazo e critério observável.
  • 6) Próximos passos: encaminhamentos, treinamentos, reavaliações e dúvidas para a equipe.

Exemplo de nota padronizada (FT para equipe)

Resumo funcional (últimas 24–48h): Deambula 10 m com andador e supervisão; transferências leito-cadeira com 1 pessoa e cinto; tolera 15 min em pé com pausas. Autocuidado: precisa ajuda para vestir MMII. Comunicação: compreende instruções simples; fala baixa. Alimentação: sem queixas, mas tosse ocasional com água (aguardando fono). Riscos: queda (instabilidade em curvas), hipotensão postural referida, possível risco de aspiração com líquidos. Recomendações: mobilizar 3x/dia com 1 pessoa + cinto; levantar em etapas (sentar 2 min antes de ortostatismo); evitar caminhar logo após refeições até orientação da fono; cadeira com apoio de braços e freios travados. Auxiliares/órteses: andador ajustado à altura; considerar AFO após avaliação conjunta FT/TO se persistir arrasto. Metas compartilhadas (7 dias): (1) Transferência leito-cadeira com supervisão; (2) Caminhar 30 m com andador sem quase quedas; (3) Alimentação segura definida pela fono e treinada com enfermagem/família. Próximos passos: discutir com medicina ajuste de anti-hipertensivo se hipotensão persistir; solicitar fono para avaliação de deglutição; serviço social para avaliar necessidade de barras no banheiro.

Checklist de comunicação rápida (passagem de plantão)

ItemO que dizerExemplo
AssistênciaQuantas pessoas e qual dispositivo“1 pessoa + cinto; andador”
LimitesO que evitar e por quê“Evitar levantar rápido: hipotensão”
RiscosQueda/aspiração/pele/dor“Tosse com líquidos; aguardar fono”
RotinaFrequência e melhor horário“Mobilizar após higiene; 3x/dia”
EquipamentosO que usar e como checar“Freios da cadeira travados”
Meta1 objetivo observável“Transferir com supervisão”

Como construir um plano integrado sem duplicar esforços (passo a passo)

Passo 1 — Definir um objetivo comum e mensurável

Escolha uma meta que atravesse profissões e seja observável no dia a dia (ex.: “alimentar-se com segurança”, “ir ao banheiro com segurança”, “retornar para casa com suporte”). Evite metas paralelas desconectadas.

Passo 2 — Mapear barreiras por domínio e atribuir responsabilidades

Liste barreiras e defina quem lidera cada uma, quem apoia e o que será feito fora da sessão (rotina 24h). Exemplo: para “ir ao banheiro com segurança”, a FT pode liderar treino de marcha/transferência; a TO lidera adaptação do banheiro e treino de vestir; enfermagem padroniza a rotina e supervisão; serviço social viabiliza barras/assento elevado.

Passo 3 — Padronizar linguagem e critérios de assistência

Combine termos e critérios para evitar interpretações diferentes. Exemplos de padronização: “supervisão” (presença sem contato), “assistência mínima/moderada/máxima”, “1 pessoa/2 pessoas”, e quando usar cinto de marcha. Registre no prontuário e sinalize no leito quando aplicável (conforme política do serviço).

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Passo 4 — Integrar intervenções para o mesmo contexto funcional

Em vez de cada área treinar a mesma tarefa separadamente, planeje sequências complementares. Exemplo: FT treina transferência e ortostatismo; TO treina higiene e vestir em pé com a mesma estratégia de apoio; enfermagem reforça a mesma técnica nas rotinas.

Passo 5 — Definir “o que não fazer” para reduzir risco

Inclua contraindicações práticas: “não caminhar sem supervisão”, “não oferecer líquidos finos até liberação da fono”, “não usar órtese sem checar pele”. Isso evita eventos adversos e mensagens divergentes.

Passo 6 — Planejar reavaliação e gatilhos de escalonamento

Determine quando reavaliar e quais sinais exigem contato imediato com outro profissional (ex.: queda, tosse persistente, sonolência nova, dor intensa, piora súbita de força, confusão aguda).

Encaminhamentos: quando, para quem e como escrever

Encaminhar não é “passar o problema adiante”; é formular uma pergunta clínica e fornecer dados relevantes para decisão. Um bom encaminhamento inclui: motivo, contexto funcional, risco, achados observáveis e o que você espera como retorno (recomendações, liberação, prescrição, avaliação específica).

Exemplos de encaminhamentos (modelos curtos)

  • Para Fonoaudiologia (deglutição): “Paciente com tosse após líquidos e voz úmida pós-ingestão; objetivo é definir consistência segura e estratégias. Solicito avaliação de deglutição e orientações para equipe/família.”
  • Para Terapia Ocupacional (adaptações): “Dificuldade para vestir MMII e higiene no banheiro; casa com box estreito. Solicito avaliação de AVD e recomendações de adaptações/tecnologia assistiva para alta segura.”
  • Para Medicina (revisão medicamentosa): “Relata tontura ao ortostatismo e queda de PA em mobilização; sonolência após medicação noturna. Solicito revisão de anti-hipertensivos/sedativos e orientação de parâmetros para treino.”
  • Para Enfermagem (padronização 24h): “Necessita 1 pessoa + cinto para transferências; risco de queda em idas ao banheiro. Solicito reforço da técnica e registro de intercorrências (tontura, quase quedas).”
  • Para Psicologia: “Evita treino por medo de cair, choro frequente e baixa adesão; cuidador exausto. Solicito avaliação de humor/ansiedade e estratégias para engajamento e suporte ao cuidador.”
  • Para Serviço Social: “Alta prevista em 10 dias; mora em casa com escadas, sem cuidador fixo. Solicito avaliação de rede de apoio, recursos para adaptações e encaminhamentos para continuidade do cuidado.”

Perguntas-chave para discussão em equipe (roteiro de reunião)

Segurança alimentar e deglutição

  • Há sinais de aspiração (tosse, engasgos, voz úmida, febre sem foco, queda de saturação)?
  • Qual consistência e volume são seguros? Precisa de supervisão durante refeições?
  • Como administrar medicações com segurança (inteiras, trituradas, espessadas)? Quem orienta e quem executa?
  • Qual postura ideal para alimentação e por quanto tempo manter após refeição?

Cognição funcional e comunicação

  • O paciente compreende instruções? Precisa de comandos curtos, pistas visuais, rotina estruturada?
  • Há impulsividade, negligência, desorientação ou flutuação de atenção que aumente risco de queda?
  • Qual é a melhor forma de comunicação (fala, escrita, pranchas, gestos)? A equipe está usando o mesmo método?

Manejo medicamentoso e efeitos na função

  • Há sedação, hipotensão, discinesias, tremor, dor mal controlada ou efeitos adversos que limitem treino?
  • Qual o melhor horário para terapia considerando pico/vale de medicações?
  • Quem garante reconciliação medicamentosa na transição de cuidado (alta/transferência)?

Adaptações ambientais e tecnologia assistiva

  • Como é o ambiente domiciliar (escadas, banheiro, largura de portas, cama, iluminação)?
  • Quais adaptações são prioritárias e viáveis (barras, assento elevado, cadeira de banho, rampas)?
  • Quais dispositivos o paciente usará (andador, cadeira, órtese) e quem treinará paciente/cuidador para uso seguro?

Plano 24h e prevenção de eventos

  • Como será a rotina de mobilização fora das sessões? Quem supervisiona?
  • Quais são os “não fazer” para todos os turnos (ex.: não levantar sozinho, não oferecer líquidos finos)?
  • Quais sinais exigem acionar a equipe imediatamente (queda, engasgo, confusão aguda, dor intensa)?

Orientações éticas, consentimento e tomada de decisão compartilhada

Autonomia e preferências

O plano integrado deve partir do que o paciente valoriza (ex.: “voltar a comer por via oral”, “tomar banho sozinho”, “andar até o portão”), mesmo quando a equipe considere outras prioridades. Quando houver conflito entre preferência e segurança, a equipe deve explicitar riscos e alternativas, documentar a conversa e buscar a opção menos restritiva possível.

Consentimento informado na prática interdisciplinar

  • Explique o que será feito, por que, benefícios esperados e riscos (inclusive de não tratar).
  • Verifique compreensão com retorno do paciente (“pode me dizer com suas palavras?”).
  • Ofereça escolhas viáveis (horário, ordem das atividades, pausas, presença do cuidador).
  • Documente consentimento, recusas e preferências, e comunique à equipe para consistência.

Capacidade de decisão e participação do representante

Quando houver dúvida sobre capacidade de decisão, alinhe com medicina/psicologia e utilize estratégias para maximizar participação (ambiente calmo, linguagem simples, recursos visuais). Se houver representante legal/cuidador principal, inclua-o na discussão sem substituir automaticamente a voz do paciente. Registre quem participou e quais decisões foram tomadas.

Confidencialidade e compartilhamento mínimo necessário

Compartilhe com a equipe apenas informações relevantes para o cuidado e segurança. Evite expor detalhes pessoais sem relação com o plano terapêutico. Em discussões com família, confirme previamente o que o paciente autoriza compartilhar, sempre que possível.

Comunicação respeitosa e não estigmatizante

Use linguagem centrada na pessoa (ex.: “pessoa com…”), descreva comportamentos observáveis em vez de rótulos (“recusa treino quando há dor” em vez de “não colaborativo”) e reconheça fatores emocionais e sociais como parte do cuidado, não como “falta de vontade”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual mensagem exemplifica uma comunicação clínica padronizada eficaz para a equipe na reabilitação neurológica?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A comunicação eficaz deve ser breve, específica, orientada à função e acionável, incluindo nível de assistência, riscos, recomendações imediatas e metas observáveis. A opção 2 traz informações que mudam condutas e alinham a equipe.

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