Território no cotidiano: espaço com regras, usos e sentidos
Território é um espaço apropriado por pessoas ou grupos, onde existem regras (combinadas ou impostas), formas de controle e um sentimento de pertencimento. No dia a dia, isso aparece quando alguém diz: “a quadra é nossa no recreio”, “essa praça é do bairro”, “a sala tem regras”, “a fila tem ordem”.
Para trabalhar território no Fundamental, é importante observar que ele não é apenas “um lugar no mapa”: é um espaço vivido, com disputas (conflitos), acordos (cooperação) e responsabilidades (cuidar do bem comum).
Elementos do território (para identificar com a turma)
- Quem usa? (turmas, moradores, comerciantes, visitantes)
- Para quê? (brincar, descansar, circular, vender, estudar)
- Quais regras existem? (horários, limites, silêncio, limpeza, segurança)
- Quem decide? (direção, grêmio, assembleia, prefeitura, comunidade)
- Como se controla? (placas, combinados, fiscalização, mediação)
- Que conflitos aparecem? (disputa de espaço, barulho, lixo, exclusão)
- Que cooperações são possíveis? (mutirão, revezamento, cuidado coletivo)
Pertencimento: quando o espaço “é nosso”
Pertencimento é sentir que um espaço faz parte da nossa vida e que temos direitos (usar, participar) e deveres (cuidar, respeitar). Na escola, pertencimento aparece quando a turma organiza a sala, cuida dos materiais e participa de decisões. No bairro, aparece quando moradores defendem a praça, cobram iluminação e combinam horários de uso.
Atividade rápida: “Termômetro do pertencimento”
Objetivo: perceber como o cuidado muda quando sentimos que o espaço é nosso.
- Peça para a turma listar dois espaços: um em que se sente pertencente (ex.: sala, pátio, rua da casa) e outro em que não se sente (ex.: um local desconhecido).
- Em duplas, responder: Como eu ajo em cada um? O que eu cuido? O que eu respeito?
- Socializar e registrar no quadro palavras-chave: cuidado, respeito, participação, responsabilidade.
Conflitos no território: quando interesses se chocam
Conflitos acontecem quando diferentes pessoas querem usar o mesmo espaço de formas diferentes, ou quando regras não são claras ou não são respeitadas. O objetivo pedagógico não é “acabar com o conflito”, e sim aprender a identificar o problema, ouvir pontos de vista e negociar soluções justas.
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Situações-problema (escola e bairro) para discussão
- Uso da quadra: duas turmas querem jogar ao mesmo tempo; um grupo sempre “domina” o espaço.
- Barulho: durante atividades, uma turma faz muito barulho no corredor e atrapalha outras salas.
- Lixo: após o recreio, o pátio fica sujo; ninguém assume a responsabilidade.
- Ocupação de praças: crianças querem brincar, adultos querem caminhar, jovens querem jogar bola; há reclamações de sujeira e som alto.
- Fila e cantina: pessoas “furam” a fila; surgem brigas e sensação de injustiça.
Roteiro de análise de conflito (para usar em qualquer caso)
| Pergunta | O que a turma deve buscar |
|---|---|
| O que aconteceu? | Fatos observáveis, sem acusações |
| Quem está envolvido? | Grupos e pessoas afetadas (inclusive quem “não aparece”) |
| Quais são os interesses? | O que cada grupo precisa/quer |
| Quais regras existem? | Regras formais e combinados informais |
| O que está injusto? | Desigualdade de acesso, risco, desrespeito |
| Que soluções são possíveis? | Alternativas viáveis e combinadas |
| Quem faz o quê? | Responsabilidades e prazos |
Cooperação: quando o território vira bem comum
Cooperação é agir junto para que o espaço funcione para todos. Ela aparece em atitudes simples (revezar a quadra, manter o pátio limpo, respeitar horários) e em ações coletivas (assembleias, mutirões, campanhas). Quando a turma entende que o espaço é um bem comum, as regras deixam de ser apenas “proibições” e passam a ser acordos para garantir direitos.
Exemplos de cooperação que podem virar combinados
- Revezamento de uso (quadra, brinquedos, materiais).
- Horários para atividades barulhentas e silenciosas.
- Rodízio de responsabilidades (monitoria de fila, cuidado com materiais, organização do espaço).
- Mutirão de limpeza e organização com registro do antes/depois (sem exposição de pessoas).
- Mediação por colegas: dupla de “ajudantes de convivência” com orientação do professor.
Passo a passo: assembleia de convivência para negociar regras do território
Objetivo: criar regras claras e justas para um espaço (quadra, pátio, sala, corredor, praça próxima), com participação e responsabilidade.
1) Preparação (antes da assembleia)
- Escolha do território: definir qual espaço será discutido (ex.: quadra no recreio).
- Observação guiada: por 2–3 dias, registrar situações: quando há conflito, quem usa, em que horários, o que funciona.
- Coleta de vozes: caixa de bilhetes anônimos com duas perguntas: O que está difícil? e O que poderia melhorar?
- Combinado de fala: combinar regras da assembleia (levantar a mão, não interromper, respeitar).
2) Abertura (10–15 min)
- Apresentar o objetivo: melhorar o uso do espaço para todos.
- Ler 3–5 bilhetes (sem identificar autores) e listar no quadro os temas repetidos.
3) Escuta de pontos de vista (15–25 min)
- Dividir a turma em grupos, cada um representando um ponto de vista (ex.: quem joga bola, quem prefere brincadeiras sem bola, quem precisa passar pelo espaço, quem cuida da limpeza).
- Cada grupo responde em um cartaz: O que precisamos? O que nos incomoda? O que podemos fazer?
- Socializar com tempo igual para cada grupo.
4) Negociação e construção de regras (20–30 min)
- Transformar necessidades em regras claras, usando linguagem positiva e prática.
- Checar se a regra é: compreensível, justa, possível de cumprir e verificável.
Modelo de escrita de regra (útil para a turma):
Quando (situação), nós vamos (ação combinada), para (finalidade/bem comum). Se não acontecer, (consequência educativa combinada).5) Definição de responsabilidades e acompanhamento (10–15 min)
- Definir quem ajuda a lembrar os combinados (rodízio de monitores, professor, equipe).
- Definir como acompanhar: checklist semanal, votação rápida “funcionou/não funcionou”, registro de ocorrências sem exposição.
- Marcar uma revisão dos combinados (ex.: em 2 semanas).
Produção de cartazes de convivência (com foco em cidadania)
Cartazes funcionam melhor quando são curtos, visuais e ligados a situações reais. Eles devem comunicar direitos e deveres, não apenas proibições.
Passo a passo para criar cartazes eficazes
- 1) Seleção de 3–6 combinados (os mais importantes e frequentes).
- 2) Reescrita em linguagem acessível (frases curtas, verbos de ação).
- 3) Inclusão do “porquê” (bem comum): “para todos brincarem”, “para manter o espaço limpo”.
- 4) Ilustrações feitas pela turma (desenhos de situações corretas).
- 5) Localização estratégica (perto da quadra, lixeira, entrada do pátio).
- 6) Revisão periódica (cartaz não é “para sempre”: pode mudar se a turma ajustar regras).
Exemplos de combinados (adaptáveis)
- Quadra: “No recreio, cada turma usa a quadra por 10 minutos, em revezamento, para todos terem chance.”
- Barulho: “No corredor, falamos baixo durante as aulas, para não atrapalhar outras turmas.”
- Lixo: “Depois do lanche, cada um joga seu lixo na lixeira e recolhe o que cair, para manter o pátio limpo.”
- Praça: “Som em volume baixo e lixo no saco, para a praça ser agradável para crianças, adultos e idosos.”
Análise de diferentes pontos de vista: aprendendo a decidir com justiça
Trabalhar território também é aprender que as pessoas têm experiências diferentes no mesmo espaço. A turma pode exercitar cidadania ao comparar argumentos e pensar em soluções que não excluam ninguém.
Dinâmica: “O mesmo lugar, quatro olhares”
Material: uma foto do pátio/quadra/praça (ou um desenho feito pela turma) e fichas de personagens.
- Distribuir personagens (ex.: estudante que quer jogar bola; estudante que tem medo de bola; funcionária da limpeza; morador que quer descansar; criança pequena; pessoa idosa; pessoa com mobilidade reduzida).
- Cada grupo responde: O que esse personagem precisa? O que o incomoda? Que regra ajudaria?
- Comparar propostas e buscar uma regra que reduza riscos, garanta acesso e divida o espaço com respeito.
Critérios simples de justiça (para orientar decisões)
- Acesso: mais pessoas conseguem usar o espaço?
- Segurança: diminui acidentes e brigas?
- Respeito: evita humilhação, xingamentos e exclusão?
- Responsabilidade: define quem cuida e como reparar quando algo dá errado?
- Bem comum: melhora o espaço para todos, não só para um grupo?
Registro pedagógico: como acompanhar mudanças no território vivido
Para tornar o aprendizado visível, vale registrar antes e depois dos combinados, sem expor alunos.
Ferramentas de registro (simples e rápidas)
- Mapa de calor do conflito: desenho do espaço (quadra/pátio) e marcações onde ocorrem problemas.
- Semáforo da convivência: verde (funcionou), amarelo (precisa ajustar), vermelho (não funcionou) para cada combinado.
- Diário do território: uma vez por semana, 5 linhas: “o que melhorou”, “o que continua difícil”, “o que vamos tentar”.