Território e regras de convivência: pertencimento, conflitos e cooperação no espaço vivido

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Território no cotidiano: espaço com regras, usos e sentidos

Território é um espaço apropriado por pessoas ou grupos, onde existem regras (combinadas ou impostas), formas de controle e um sentimento de pertencimento. No dia a dia, isso aparece quando alguém diz: “a quadra é nossa no recreio”, “essa praça é do bairro”, “a sala tem regras”, “a fila tem ordem”.

Para trabalhar território no Fundamental, é importante observar que ele não é apenas “um lugar no mapa”: é um espaço vivido, com disputas (conflitos), acordos (cooperação) e responsabilidades (cuidar do bem comum).

Elementos do território (para identificar com a turma)

  • Quem usa? (turmas, moradores, comerciantes, visitantes)
  • Para quê? (brincar, descansar, circular, vender, estudar)
  • Quais regras existem? (horários, limites, silêncio, limpeza, segurança)
  • Quem decide? (direção, grêmio, assembleia, prefeitura, comunidade)
  • Como se controla? (placas, combinados, fiscalização, mediação)
  • Que conflitos aparecem? (disputa de espaço, barulho, lixo, exclusão)
  • Que cooperações são possíveis? (mutirão, revezamento, cuidado coletivo)

Pertencimento: quando o espaço “é nosso”

Pertencimento é sentir que um espaço faz parte da nossa vida e que temos direitos (usar, participar) e deveres (cuidar, respeitar). Na escola, pertencimento aparece quando a turma organiza a sala, cuida dos materiais e participa de decisões. No bairro, aparece quando moradores defendem a praça, cobram iluminação e combinam horários de uso.

Atividade rápida: “Termômetro do pertencimento”

Objetivo: perceber como o cuidado muda quando sentimos que o espaço é nosso.

  • Peça para a turma listar dois espaços: um em que se sente pertencente (ex.: sala, pátio, rua da casa) e outro em que não se sente (ex.: um local desconhecido).
  • Em duplas, responder: Como eu ajo em cada um? O que eu cuido? O que eu respeito?
  • Socializar e registrar no quadro palavras-chave: cuidado, respeito, participação, responsabilidade.

Conflitos no território: quando interesses se chocam

Conflitos acontecem quando diferentes pessoas querem usar o mesmo espaço de formas diferentes, ou quando regras não são claras ou não são respeitadas. O objetivo pedagógico não é “acabar com o conflito”, e sim aprender a identificar o problema, ouvir pontos de vista e negociar soluções justas.

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Situações-problema (escola e bairro) para discussão

  • Uso da quadra: duas turmas querem jogar ao mesmo tempo; um grupo sempre “domina” o espaço.
  • Barulho: durante atividades, uma turma faz muito barulho no corredor e atrapalha outras salas.
  • Lixo: após o recreio, o pátio fica sujo; ninguém assume a responsabilidade.
  • Ocupação de praças: crianças querem brincar, adultos querem caminhar, jovens querem jogar bola; há reclamações de sujeira e som alto.
  • Fila e cantina: pessoas “furam” a fila; surgem brigas e sensação de injustiça.

Roteiro de análise de conflito (para usar em qualquer caso)

PerguntaO que a turma deve buscar
O que aconteceu?Fatos observáveis, sem acusações
Quem está envolvido?Grupos e pessoas afetadas (inclusive quem “não aparece”)
Quais são os interesses?O que cada grupo precisa/quer
Quais regras existem?Regras formais e combinados informais
O que está injusto?Desigualdade de acesso, risco, desrespeito
Que soluções são possíveis?Alternativas viáveis e combinadas
Quem faz o quê?Responsabilidades e prazos

Cooperação: quando o território vira bem comum

Cooperação é agir junto para que o espaço funcione para todos. Ela aparece em atitudes simples (revezar a quadra, manter o pátio limpo, respeitar horários) e em ações coletivas (assembleias, mutirões, campanhas). Quando a turma entende que o espaço é um bem comum, as regras deixam de ser apenas “proibições” e passam a ser acordos para garantir direitos.

Exemplos de cooperação que podem virar combinados

  • Revezamento de uso (quadra, brinquedos, materiais).
  • Horários para atividades barulhentas e silenciosas.
  • Rodízio de responsabilidades (monitoria de fila, cuidado com materiais, organização do espaço).
  • Mutirão de limpeza e organização com registro do antes/depois (sem exposição de pessoas).
  • Mediação por colegas: dupla de “ajudantes de convivência” com orientação do professor.

Passo a passo: assembleia de convivência para negociar regras do território

Objetivo: criar regras claras e justas para um espaço (quadra, pátio, sala, corredor, praça próxima), com participação e responsabilidade.

1) Preparação (antes da assembleia)

  • Escolha do território: definir qual espaço será discutido (ex.: quadra no recreio).
  • Observação guiada: por 2–3 dias, registrar situações: quando há conflito, quem usa, em que horários, o que funciona.
  • Coleta de vozes: caixa de bilhetes anônimos com duas perguntas: O que está difícil? e O que poderia melhorar?
  • Combinado de fala: combinar regras da assembleia (levantar a mão, não interromper, respeitar).

2) Abertura (10–15 min)

  • Apresentar o objetivo: melhorar o uso do espaço para todos.
  • Ler 3–5 bilhetes (sem identificar autores) e listar no quadro os temas repetidos.

3) Escuta de pontos de vista (15–25 min)

  • Dividir a turma em grupos, cada um representando um ponto de vista (ex.: quem joga bola, quem prefere brincadeiras sem bola, quem precisa passar pelo espaço, quem cuida da limpeza).
  • Cada grupo responde em um cartaz: O que precisamos? O que nos incomoda? O que podemos fazer?
  • Socializar com tempo igual para cada grupo.

4) Negociação e construção de regras (20–30 min)

  • Transformar necessidades em regras claras, usando linguagem positiva e prática.
  • Checar se a regra é: compreensível, justa, possível de cumprir e verificável.

Modelo de escrita de regra (útil para a turma):

Quando (situação), nós vamos (ação combinada), para (finalidade/bem comum). Se não acontecer, (consequência educativa combinada).

5) Definição de responsabilidades e acompanhamento (10–15 min)

  • Definir quem ajuda a lembrar os combinados (rodízio de monitores, professor, equipe).
  • Definir como acompanhar: checklist semanal, votação rápida “funcionou/não funcionou”, registro de ocorrências sem exposição.
  • Marcar uma revisão dos combinados (ex.: em 2 semanas).

Produção de cartazes de convivência (com foco em cidadania)

Cartazes funcionam melhor quando são curtos, visuais e ligados a situações reais. Eles devem comunicar direitos e deveres, não apenas proibições.

Passo a passo para criar cartazes eficazes

  • 1) Seleção de 3–6 combinados (os mais importantes e frequentes).
  • 2) Reescrita em linguagem acessível (frases curtas, verbos de ação).
  • 3) Inclusão do “porquê” (bem comum): “para todos brincarem”, “para manter o espaço limpo”.
  • 4) Ilustrações feitas pela turma (desenhos de situações corretas).
  • 5) Localização estratégica (perto da quadra, lixeira, entrada do pátio).
  • 6) Revisão periódica (cartaz não é “para sempre”: pode mudar se a turma ajustar regras).

Exemplos de combinados (adaptáveis)

  • Quadra: “No recreio, cada turma usa a quadra por 10 minutos, em revezamento, para todos terem chance.”
  • Barulho: “No corredor, falamos baixo durante as aulas, para não atrapalhar outras turmas.”
  • Lixo: “Depois do lanche, cada um joga seu lixo na lixeira e recolhe o que cair, para manter o pátio limpo.”
  • Praça: “Som em volume baixo e lixo no saco, para a praça ser agradável para crianças, adultos e idosos.”

Análise de diferentes pontos de vista: aprendendo a decidir com justiça

Trabalhar território também é aprender que as pessoas têm experiências diferentes no mesmo espaço. A turma pode exercitar cidadania ao comparar argumentos e pensar em soluções que não excluam ninguém.

Dinâmica: “O mesmo lugar, quatro olhares”

Material: uma foto do pátio/quadra/praça (ou um desenho feito pela turma) e fichas de personagens.

  • Distribuir personagens (ex.: estudante que quer jogar bola; estudante que tem medo de bola; funcionária da limpeza; morador que quer descansar; criança pequena; pessoa idosa; pessoa com mobilidade reduzida).
  • Cada grupo responde: O que esse personagem precisa? O que o incomoda? Que regra ajudaria?
  • Comparar propostas e buscar uma regra que reduza riscos, garanta acesso e divida o espaço com respeito.

Critérios simples de justiça (para orientar decisões)

  • Acesso: mais pessoas conseguem usar o espaço?
  • Segurança: diminui acidentes e brigas?
  • Respeito: evita humilhação, xingamentos e exclusão?
  • Responsabilidade: define quem cuida e como reparar quando algo dá errado?
  • Bem comum: melhora o espaço para todos, não só para um grupo?

Registro pedagógico: como acompanhar mudanças no território vivido

Para tornar o aprendizado visível, vale registrar antes e depois dos combinados, sem expor alunos.

Ferramentas de registro (simples e rápidas)

  • Mapa de calor do conflito: desenho do espaço (quadra/pátio) e marcações onde ocorrem problemas.
  • Semáforo da convivência: verde (funcionou), amarelo (precisa ajustar), vermelho (não funcionou) para cada combinado.
  • Diário do território: uma vez por semana, 5 linhas: “o que melhorou”, “o que continua difícil”, “o que vamos tentar”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao organizar uma assembleia de convivência para negociar regras de uso da quadra no recreio, qual prática ajuda a construir combinados mais justos e voltados ao bem comum?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Regras mais justas surgem quando há escuta de diferentes interesses e negociação. Transformar necessidades em combinados claros e checar se são compreensíveis, justos, possíveis e verificáveis ajuda a garantir acesso, respeito e bem comum.

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