Sinais de desnutrição e de risco nutricional: o que observar e como agir com segurança

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é desnutrição e o que é risco nutricional

Desnutrição é quando o corpo não recebe (ou não consegue aproveitar) energia e nutrientes suficientes para manter funções básicas, crescimento (na criança) e manutenção de músculos e reservas (no idoso). Pode acontecer mesmo comendo “alguma coisa” todos os dias, especialmente se a alimentação estiver pouco variada, em pequenas quantidades, ou se houver doença, dor, infecções, problemas de mastigação/deglutição, uso de muitos medicamentos ou baixa absorção.

Risco nutricional é o conjunto de sinais e situações que indicam que a pessoa pode evoluir para desnutrição ou já está em início de perda de reservas. É o momento ideal para agir com segurança em casa e, quando necessário, buscar avaliação profissional antes que apareçam complicações (quedas, infecções repetidas, piora de cicatrização, atraso de crescimento).

Sinais práticos para monitorar em casa (crianças e idosos)

1) Perda de peso involuntária e “roupas mais largas”

  • O que observar: balança mostrando queda sem intenção; cintos precisando apertar mais; roupas folgadas; anéis mais soltos; bochechas “murchas”.
  • Por que importa: perda de peso pode significar perda de músculo e reservas, aumentando fraqueza e risco de adoecer.

2) Fraqueza, quedas, cansaço e menor disposição

  • O que observar: levantar da cadeira com dificuldade; andar mais devagar; tropeços; quedas; sono excessivo; recusa de brincar (criança) ou de sair do quarto (idoso).
  • Por que importa: pode indicar perda de massa muscular, ingestão insuficiente ou piora de doença de base.

3) Alterações de pele, cabelo, unhas e cicatrização

  • O que observar: pele mais seca; descamação; feridas que demoram a fechar; hematomas frequentes; cabelo mais quebradiço; unhas fracas.
  • Por que importa: o corpo prioriza órgãos vitais e “economiza” na manutenção de pele e tecidos quando faltam nutrientes.

4) Apatia, irritabilidade e mudanças de humor

  • O que observar: criança mais chorosa/irritada; idoso mais apático, confuso ou sem interesse; piora de atenção.
  • Por que importa: baixa ingestão pode afetar energia, sono e tolerância ao estresse; também pode ser sinal de doença, dor ou depressão (especialmente no idoso).

5) Baixo ganho de peso infantil e regressão de marcos

  • O que observar: criança que “para de ganhar” peso/altura por semanas/meses; roupas e sapatos que não “apertam” com o tempo; regressão (ex.: parou de falar palavras que já falava, perdeu interesse em brincar, ficou menos ativa); atraso para sustentar a cabeça, sentar, engatinhar, andar, conforme a idade.
  • Por que importa: na infância, crescimento é um “sinal vital”. Falhas persistentes podem indicar ingestão insuficiente, doença, dificuldades alimentares ou problemas de absorção.

Roteiro simples de acompanhamento (10 minutos por dia)

Use um caderno ou planilha. O objetivo é identificar tendência (piora ou melhora), não “perfeição”.

Passo 1 — Peso e medidas (quando aplicável)

  • Idosos: pesar 1x por semana, no mesmo dia/horário, com roupas semelhantes. Se houver risco alto (queda recente, doença recente, pouco apetite), pesar 2x/semana por 2–3 semanas.
  • Crianças: pesar com orientação do pediatra. Em geral, não é necessário pesar diariamente. Se houver preocupação, registrar peso 1x/semana (ou conforme recomendação). Medidas como altura/comprimento e circunferência podem ser feitas em consultas.
  • Registro: anote data, peso e observações (ex.: “resfriado”, “diarreia”, “mudança de rotina”).

Passo 2 — Ingestão diária (o que entrou)

  • Como registrar: marque as refeições do dia e faça uma estimativa simples: comeu bem / comeu metade / beliscou / recusou.
  • Inclua: lanches, leite/fórmulas quando usados, sopas, vitaminas, suplementos (se já prescritos), e “extras” (biscoitos, doces), porque eles podem substituir refeições.
  • Exemplo de anotação: “Almoço: 1/2 prato; Jantar: recusou; Lanches: iogurte + banana; Observação: dor de dente”.

Passo 3 — Aceitação alimentar e sinais durante a refeição

  • O que observar: demora excessiva para comer; cansaço no meio da refeição; engasgos/tosse; queixas de dor; necessidade de “empurrar” com água; recusa de texturas.
  • Como registrar: sem dificuldade, cansa, tosse, dor, recusa textura.

Passo 4 — Hidratação (sem repetir rotinas já vistas)

  • O que registrar: número aproximado de copos/porções ao dia e sinais de baixa ingestão (ex.: urina muito escura, pouca urina, boca seca).
  • Exemplo: “Água: 4 copos; chá: 1; urina escura à tarde”.

Passo 5 — Evacuações

  • O que observar: constipação (muitos dias sem evacuar), fezes muito ressecadas, diarreia, presença de sangue, dor ao evacuar.
  • Por que importa: intestino desregulado pode reduzir apetite, piorar absorção e aumentar risco de desidratação.

Modelo de tabela simples (para imprimir)

DiaPeso (semanal)Refeições (bem/metade/recusou)Hidratação (aprox.)EvacuaçãoObservações
SegCafé: metade; Almoço: bem; Jantar: metade5 coposSim (normal)Cansaço à tarde
TerCafé: recusou; Almoço: metade; Jantar: recusou3 coposNãoGarganta dolorida

Como agir com segurança em casa (condutas iniciais)

As ações abaixo são úteis quando há sinais leves a moderados e a pessoa está estável. Se houver sinais de gravidade (ver seção de critérios), priorize atendimento.

1) Aumentar densidade nutricional sem aumentar muito o volume

Quando a pessoa come pouco, a estratégia é “mais nutrientes em menos colheradas”.

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  • Em refeições salgadas: adicionar azeite, pasta de abacate, creme de ricota, queijos, ovos bem cozidos e amassados, carnes bem desfiadas, leguminosas amassadas, conforme tolerância e segurança de textura.
  • Em preparações cremosas: enriquecer com leite em pó, iogurte, pasta de amendoim (quando apropriado e seguro), aveia fina, purês com azeite.
  • Em lanches: trocar “beliscos” pobres em nutrientes por opções mais completas (ex.: iogurte + fruta amassada; sanduíche macio com recheio proteico; vitamina com fruta e fonte proteica).

Passo a passo prático (enriquecimento em 3 etapas):

  1. Escolha 1 refeição do dia que a pessoa aceita melhor (muitas vezes café da manhã ou lanche).
  2. Adicione 1 reforço por vez (ex.: 1 colher de sopa de leite em pó no mingau; 1 fio de azeite no purê; 1 ovo no arroz).
  3. Observe por 48–72 horas aceitação e intestino. Se tolerar bem, repita em outra refeição.

2) Fracionar refeições (mais oportunidades, menos pressão)

  • Como fazer: manter 3 refeições principais e inserir 2–3 lanches menores, em horários previsíveis.
  • Meta prática: se a pessoa recusa um prato grande, oferecer porções pequenas e repetir mais tarde, sem “forçar”.
  • Exemplo de organização: café da manhã → lanche → almoço → lanche → jantar → ceia pequena (quando necessário).

3) Revisar fatores que derrubam a ingestão (checklist rápido)

  • Dor: dor de dente, aftas, garganta, refluxo, constipação.
  • Doença recente: viroses, infecções, febre.
  • Medicamentos: alguns reduzem apetite, alteram paladar ou causam náuseas (não suspenda por conta própria; registre e leve ao profissional).
  • Ambiente: distrações, pressa, porções grandes que desanimam, horários irregulares.

4) Ajustar a hidratação de forma prática (sem exageros)

  • Objetivo: evitar que baixa ingestão de líquidos piore cansaço, constipação e falta de apetite.
  • Como agir: oferecer líquidos em pequenas porções ao longo do dia; incluir opções aceitas (água, leite, sopas, frutas ricas em água, conforme o caso).
  • Cuidados: se houver restrição de líquidos por orientação médica (ex.: alguns problemas cardíacos/renais), siga a recomendação e registre sinais para discutir com a equipe.

5) Quando a pessoa “não consegue comer”: plano de 24–48 horas

Se a ingestão caiu muito, use um plano curto para estabilizar enquanto organiza avaliação, se necessário.

  • Priorize alimentos mais aceitos e nutritivos, em pequenas porções frequentes.
  • Inclua uma fonte proteica em pelo menos 2–3 momentos do dia (ex.: leite/iogurte, ovos, leguminosas, carnes bem preparadas, conforme tolerância).
  • Evite longos períodos em jejum durante o dia.
  • Registre tudo no roteiro (ingestão, hidratação, evacuação, sintomas).

Critérios para procurar atendimento profissional (e quando é urgente)

Procure avaliação profissional em breve (dias) se houver:

  • Perda de peso percebida nas roupas ou na balança, especialmente se continuar por 2–4 semanas.
  • Ingestão reduzida por mais de 1 semana (comendo “metade ou menos” do habitual na maioria dos dias).
  • Cansaço e fraqueza que limitam atividades, ou quedas recentes.
  • Feridas que não cicatrizam, infecções repetidas, piora de pele.
  • Constipação importante ou diarreia recorrente, com impacto no apetite.
  • Em crianças: baixo ganho de peso/estagnação percebida, regressão de marcos, apatia persistente.

Procure atendimento com urgência (mesmo dia) se houver:

  • Recusa quase total de alimentos e líquidos por 24 horas (criança pequena) ou 48 horas (idoso), especialmente com prostração.
  • Sinais de desidratação importante associados a baixa ingestão (sonolência intensa, tontura ao levantar, pouca urina, confusão).
  • Vômitos persistentes, diarreia intensa, ou sangue nas fezes/vômitos.
  • Alteração do nível de consciência, confusão aguda no idoso, ou criança muito sonolenta/“molinha”.
  • Queda com dor, incapacidade de apoiar, ou suspeita de fratura.
  • Dificuldade para engolir com tosse frequente, engasgos repetidos, ou “voz molhada” após beber/comer.

Como levar informações úteis para a consulta

Para uma avaliação mais rápida e precisa, leve:

  • Registros do roteiro (7–14 dias, se possível).
  • Lista de medicamentos e horários.
  • Descrição objetiva do que mudou: “antes comia X, agora come Y”, “caiu 2 vezes no mês”, “roupas ficaram largas”.
  • Em crianças: anotações sobre marcos e comportamento (sono, brincadeiras, escola/creche).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um quadro de risco nutricional, qual atitude ajuda a aumentar a ingestão de nutrientes sem exigir que a pessoa coma um prato grande?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando a pessoa come pouco, a conduta inicial segura é oferecer mais nutrientes em menos volume (enriquecendo preparações) e criar mais oportunidades com refeições fracionadas, observando aceitação e sinais.

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Ajustes para condições comuns: constipação, diarreia, refluxo e intolerâncias alimentares

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