Sequências integradas de alfabetização: exemplos prontos de leitura, escrita e reflexão sobre o sistema

Capítulo 17

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que são sequências integradas de alfabetização

Sequências integradas de alfabetização são conjuntos de aulas organizadas (com início, meio e fechamento) em que leitura, escrita, reflexão sobre o sistema de escrita (grafema-fonema e padrões) e ampliação de vocabulário acontecem de forma articulada em torno de um texto base. Em vez de trabalhar “uma habilidade por vez”, a turma lê para compreender, conversa para construir sentido, escreve com um propósito real e, a partir do que apareceu no texto e nas produções, faz um foco curto e objetivo em relações entre letras e sons e em escolhas de palavras.

Uma sequência integrada bem planejada costuma ter: (1) um texto base adequado, (2) objetivos claros e observáveis, (3) etapas diárias com rotinas previsíveis, (4) perguntas de compreensão, (5) uma escrita com propósito e destinatário, (6) um momento breve e explícito de foco grafema-fonema/padrões, e (7) um registro simples de progresso para orientar os próximos passos.

Como usar as sequências prontas (passo a passo)

1) Antes de começar (10–15 min de planejamento)

  • Escolha a sequência conforme o nível predominante da turma e o tempo disponível (3 a 5 dias).
  • Prepare materiais simples: cópias do texto (ou cartaz), tiras de palavras, cartões de letras/sílabas, caderno/folhas, lápis, quadro.
  • Defina o produto final da escrita (bilhete, lista, reescrita, legenda, mini-livro) e o destinatário (outra turma, família, mural).
  • Separe um registro de progresso (tabela de observação, checklist, amostra de escrita) para usar todos os dias por 3–5 minutos.

2) Estrutura diária sugerida (40–60 min)

  • Leitura do texto base (professor e/ou compartilhada) + conversa de compreensão.
  • Vocabulário em contexto: 2–4 palavras do texto, com exemplos e uso oral.
  • Foco no sistema (8–12 min): um alvo por dia (som-letra, família silábica, padrão, segmentação).
  • Escrita com propósito (15–25 min): planejamento oral, escrita, revisão inicial guiada.
  • Registro rápido (3–5 min): anotar evidências e próximos passos.

Sequência 1 (5 dias): Parlenda para ler, brincar com sons e produzir um cartaz ilustrado

Texto base (parlenda curta)

Hoje é domingo, pé de cachimbo, cachimbo é de barro, bate no jarro, jarro é de ouro, bate no touro, touro é valente, bate na gente.

Objetivos

  • Compreender o sentido global e a estrutura repetitiva da parlenda.
  • Ampliar vocabulário do texto (ex.: cachimbo, barro, jarro, valente).
  • Identificar e produzir rimas e repetições.
  • Focar na relação grafema-fonema em CH (som /ʃ/) e em R (r forte em “barro/jarro”).
  • Produzir um cartaz com a parlenda (reescrita coletiva) e ilustrações/legendas.

Materiais simples

  • Texto em cartaz ou projetado; tiras com versos; cartões com palavras-chave (cachimbo, barro, jarro, ouro, touro, valente, gente).
  • Marcadores para destacar letras/sons; folhas A4 para ilustrações; cola.

Etapas diárias

Dia 1 — Primeira leitura + compreensão global

  • Leitura pelo professor (2 vezes): uma para fruição, outra apontando o texto.
  • Perguntas de compreensão:
    • O que acontece de um verso para o outro?
    • Quais palavras se repetem? Por quê?
    • Que imagens você formou na cabeça ao ouvir?
  • Vocabulário: explique 2 palavras com exemplos orais (ex.: “barro” em “vaso de barro”).
  • Escrita com propósito: cada aluno desenha uma cena e dita ao professor uma frase curta para virar legenda (professor escreve em tira).
  • Registro: anote quem acompanha com o dedo, quem antecipa palavras repetidas, quem participa oralmente.

Dia 2 — Leitura compartilhada + rimas

  • Leitura coral (turma junto) e depois em grupos (cada grupo lê um trecho).
  • Perguntas:
    • Quais pares rimam? (domingo/cachimbo; barro/jarro; ouro/touro; valente/gente)
    • O que muda e o que se mantém em cada linha?
  • Foco no sistema (rima e final de palavra): destaque as terminações (-imbo, -arro, -ouro, -ente). Peça para localizar no texto e circular.
  • Escrita com propósito: em duplas, montar tiras embaralhadas dos versos na ordem correta (colagem em folha).
  • Registro: marque quem identifica rimas sem apoio e quem precisa de modelo.

Dia 3 — Foco grafema-fonema: CH (/ʃ/) em palavras do texto

  • Caça-palavras no texto: localizar “cachimbo”.
  • Mini-lição: CH costuma representar o som /ʃ/ (como em “chuva”). Liste 3–5 exemplos orais e peça que a turma sugira outros.
  • Atividade rápida: separar cartões em duas colunas: começa com CH / não começa com CH (use palavras conhecidas da turma).
  • Escrita com propósito: produzir um “mini-dicionário ilustrado do CH” (1 palavra + desenho + frase oral ditada/escrita conforme nível).
  • Registro: observe quem associa som /ʃ/ ao CH e quem confunde com X.

Dia 4 — Foco em R forte (RR) e revisão de palavras

  • Leitura: releitura com atenção às palavras “barro/jarro”.
  • Mini-lição: em muitas palavras, RR marca um som de R forte no meio (barro, jarro). Compare com “caro” (se pertinente) apenas como contraste oral e visual.
  • Atividade: completar lacunas em frases curtas com barro / jarro (com banco de palavras).
  • Escrita com propósito: reescrita coletiva da parlenda para um cartaz final (professor como escriba), com a turma revisando: “Está faltando alguma palavra? A ordem está certa? Onde vai o RR?”
  • Registro: anote quem localiza RR no texto e quem precisa de pista.

Dia 5 — Fechamento: apresentação do cartaz + leitura para um público

  • Ensaio de leitura (coral e por pequenos grupos).
  • Produto final: montar o cartaz com a parlenda e as ilustrações/legendas.
  • Perguntas de retomada:
    • Quais rimas você consegue dizer sem olhar?
    • Que palavras do texto têm CH? Quais têm RR?
  • Registro: cole uma amostra (foto do cartaz + 1 legenda de cada aluno) e marque o alvo atingido (rima, CH, RR, participação na leitura).

Variações por nível

  • Pré-silábico/silábico inicial: trabalhar mais com tiras de versos e correspondência oral (apontar onde está “cachimbo”), escrita por ditado ao professor e escolha de palavras em banco.
  • Silábico-alfabético: pedir que escrevam 1–2 palavras-chave (cachimbo, barro) com apoio de cartões e revisem CH/RR.
  • Alfabético: propor reescrita individual de um verso com ilustração e revisão guiada (rimas e ortografia de CH/RR).

Sequência 2 (4 dias): Bilhete funcional a partir de um aviso curto (leitura, vocabulário e escrita com destinatário)

Texto base (aviso)

AVISO: Amanhã teremos feira de troca de livros na sala. Traga um livro em bom estado e uma sacola.

Objetivos

  • Identificar informações explícitas em um texto funcional (o quê, quando, onde, o que levar).
  • Aprender vocabulário de uso escolar (aviso, feira, troca, bom estado, sacola).
  • Focar em segmentação de palavras e no padrão NH (amanhã).
  • Escrever um bilhete para a família com as informações essenciais.

Materiais simples

  • Cartaz do aviso; marcadores; modelo de bilhete em folha; envelopes (opcional).
  • Cartões com perguntas-chave: “Quando?”, “O que?”, “Onde?”, “O que levar?”

Etapas diárias

Dia 1 — Leitura do aviso + localizar informações

  • Leitura compartilhada: professor lê e aponta; turma repete trechos.
  • Perguntas de compreensão:
    • Quando vai acontecer?
    • O que é a feira de troca?
    • O que precisamos levar?
  • Vocabulário: “bom estado” (exemplos do que é e do que não é).
  • Escrita com propósito: completar um quadro (coletivo) com as informações para depois virar bilhete.
  • Registro: quem localiza “amanhã” e “sacola” no texto sem ajuda?

Dia 2 — Foco no sistema: NH em “amanhã” + consciência de sílabas

  • Caça ao NH: circular “amanhã”.
  • Mini-lição: NH representa um som nasal (como em “ninho”).
  • Atividade: bater palmas para as sílabas de “a-ma-nhã” e comparar com “a-ma-na” (oralmente) para perceber a diferença do som final.
  • Escrita com propósito: lista de 3 palavras com NH (com apoio visual): amanhã, ninho, banho (ou outras conhecidas).
  • Registro: marque quem escreve NH de forma estável e quem omite H.

Dia 3 — Produção do bilhete (rascunho) + revisão guiada

  • Planejamento oral: o bilhete precisa ter saudação, informação e pedido.
  • Escrita: cada aluno escreve o bilhete (ou dita ao professor, conforme nível).
  • Revisão em 3 pontos (no quadro):
    • Tem “amanhã” (quando)?
    • Tem “troca de livros” (o quê)?
    • Tem “livro” e “sacola” (o que levar)?
  • Registro: cole/guarde o rascunho e anote 1 meta curta por aluno (ex.: separar palavras; registrar NH).

Dia 4 — Versão final + leitura para checagem

  • Reescrita final em folha limpa (com base na revisão).
  • Leitura de checagem: aluno lê para um colega, que confere se as 4 informações estão presentes.
  • Registro: checklist do bilhete (informações essenciais + segmentação + NH).

Variações por nível

  • Mais apoio: oferecer bilhete semi-pronto com lacunas (Amanhã teremos ____ de ____.) e banco de palavras.
  • Intermediário: escrever bilhete completo com um modelo no quadro.
  • Avançado: acrescentar uma frase de justificativa (ex.: “Assim podemos conhecer novas histórias.”) e revisar pontuação básica.

Sequência 3 (5 dias): Pequeno conto para inferir, ampliar vocabulário e reescrever um final

Texto base (conto curto original)

O guarda-chuva vermelho
Na saída da escola, Lia viu um guarda-chuva vermelho esquecido no banco. Começou a chover. Lia pensou: “De quem será?” Ela levou o guarda-chuva até a secretaria e deixou um recado. No dia seguinte, alguém bateu na porta com um sorriso.

Objetivos

  • Compreender personagens, cenário e sequência de acontecimentos.
  • Fazer inferências simples (quem pode ser “alguém”? por quê?).
  • Trabalhar vocabulário (secretaria, recado, esquecido, saída).
  • Focar no sistema: GU em “guarda-chuva” e o som /ʃ/ em “chuva” (CH), conectando ao texto.
  • Escrever uma continuação (final) com coerência e revisão inicial.

Materiais simples

  • Texto em cartaz; cartões com palavras do texto; quadro de personagens/ações; folhas para “final do conto”.

Etapas diárias

Dia 1 — Leitura e mapa do texto (quem/onde/o que aconteceu)

  • Leitura pelo professor e releitura com pausas.
  • Perguntas:
    • Onde Lia estava? O que ela encontrou?
    • O que ela fez com o guarda-chuva? Por quê?
  • Vocabulário: “secretaria” e “recado” com exemplos do cotidiano escolar.
  • Escrita com propósito: completar um quadro coletivo: Personagem / Lugar / Problema / Ação.
  • Registro: quem reconta com começo-meio (oral) sem se perder?

Dia 2 — Inferência e pistas do texto

  • Releitura destacando pistas: “começou a chover”, “deixou um recado”, “alguém bateu na porta com um sorriso”.
  • Perguntas:
    • Quem pode ser “alguém”? Quais pistas ajudam?
    • Por que a pessoa sorriu?
  • Atividade: listar 2 hipóteses e uma justificativa oral para cada (professor registra no quadro).
  • Escrita com propósito: cada aluno escolhe uma hipótese e escreve 1 frase de previsão (ou dita ao professor).
  • Registro: anote quem usa pistas do texto para justificar.

Dia 3 — Foco no sistema: GU em “guarda-chuva” + CH em “chuva”

  • Localização: circular “guarda-chuva” e “chover/chuva”.
  • Mini-lição:
    • GU aparece em “guarda” e mantém o som de /g/ antes de “a/o/u”.
    • CH em “chuva” representa /ʃ/.
  • Atividade: montar palavras com cartões (GUARDA / CHUVA) e separar em partes (guar-da / chu-va).
  • Escrita com propósito: escrever 2 frases usando “guarda-chuva” e “chuva” (com apoio de banco de palavras para quem precisar).
  • Registro: observe estabilidade de GU/CH e segmentação.

Dia 4 — Escrita do final do conto (rascunho)

  • Planejamento (oral): o final precisa responder “quem era” e “o que aconteceu com o guarda-chuva”.
  • Rascunho: 4–6 linhas (ou 2–3 frases, conforme nível).
  • Revisão guiada:
    • Seu final combina com o começo?
    • Você usou pelo menos 2 palavras do texto base (secretaria, recado, guarda-chuva, chuva)?
    • As palavras estão separadas?
  • Registro: guarde o rascunho e marque 1 ponto de revisão por aluno.

Dia 5 — Versão final + leitura de autor

  • Reescrita final com base na revisão.
  • Leitura de autor: alguns alunos leem seus finais; a turma identifica semelhanças/diferenças e quais pistas do texto foram usadas.
  • Registro: checklist do texto final (coerência, uso de vocabulário-alvo, GU/CH, segmentação).

Variações por nível

  • Mais apoio: oferecer um “roteiro de final” com frases iniciadoras (No dia seguinte, ... Era o(a) ... Ele(a) disse ...).
  • Intermediário: exigir 1 fala com travessão (modelo no quadro) e 1 conectivo (então, depois).
  • Avançado: propor dois finais (um feliz e um surpreendente) e comparar escolhas de palavras.

Modelos prontos de registro de progresso (para usar em qualquer sequência)

Checklist rápido (1 minuto por aluno ao longo da semana)

AlunoAcompanha leitura apontandoResponde compreensão (explícito)Faz inferência simplesAlvo grafema-fonema do diaSegmenta palavras na escritaPróxima meta
__________
__________

Registro por evidência (cole no caderno do professor)

  • Evidência de leitura: foto do cartaz/tira marcada pelo aluno, ou anotação de uma frase lida com autonomia.
  • Evidência de escrita: rascunho + versão final (ou ditado ao professor), com 1 observação: “já registra NH”, “ainda junta palavras”.
  • Evidência do foco no sistema: miniatividade (cartões classificados, palavras montadas) guardada em envelope por aluno.

Banco de materiais simples para execução imediata

  • Tiras de texto: versos/frases recortadas para ordenar.
  • Banco de palavras: cartões com palavras do texto base e palavras-alvo do foco grafema-fonema.
  • Quadros de apoio: “Quem? Onde? O que aconteceu? Como terminou?”; “Quando? O quê? Onde? O que levar?”
  • Marcadores de cor: uma cor para rimas/terminações, outra para o alvo do dia (CH, NH, GU etc.).
  • Envelope do aluno: guardar produções da sequência (facilita comparar progresso).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática melhor caracteriza uma sequência integrada de alfabetização?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Sequências integradas articulam leitura, compreensão, vocabulário, escrita com propósito e um foco curto no sistema de escrita, sempre a partir de um texto base e com registro simples de progresso para orientar os próximos passos.

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