O que muda quando o app vai para o “mundo real”
Depois que o app Ionic está funcionando no dispositivo e você já consegue gerar builds, o foco passa a ser previsibilidade e rastreabilidade: saber exatamente qual versão está instalada, o que mudou em cada release, como validar antes de publicar e como manter o app saudável ao longo do tempo. Este capítulo organiza um checklist prático para publicação e manutenção contínua, sem depender de uma loja específica.
Versionamento semântico (SemVer) aplicado a apps Ionic
Versionamento semântico é uma convenção para nomear versões no formato MAJOR.MINOR.PATCH, por exemplo 2.3.1. A ideia é comunicar impacto das mudanças:
- MAJOR: mudanças incompatíveis (quebra de API, fluxo alterado, remoção de funcionalidade).
- MINOR: novas funcionalidades compatíveis (adiciona sem quebrar).
- PATCH: correções e ajustes pequenos (bugfix, melhorias internas).
Como decidir o número da versão
- Corrigiu um bug de login sem mudar telas/fluxos? PATCH.
- Adicionou uma nova tela de “Favoritos” sem alterar o resto? MINOR.
- Mudou o formato de dados local e versões antigas não conseguem migrar? MAJOR.
Versão “visível” e versão “técnica”
Em publicações, normalmente existem dois identificadores:
- Versão visível (ex.:
1.4.0): aparece para usuários e suporte. - Build number (ex.:
10400ou57): incrementa a cada envio/compilação para diferenciar builds com a mesma versão visível.
Boa prática: cada build enviado deve ter um build number único e crescente, mesmo que a versão visível não mude.
Passo a passo: política simples de versionamento para o time
- Defina um padrão:
MAJOR.MINOR.PATCH+ build number incremental. - Crie regras de incremento:
- Release com nova feature: incrementa MINOR e zera PATCH.
- Hotfix: incrementa PATCH.
- Quebra compatibilidade: incrementa MAJOR e zera MINOR/PATCH.
- Exija que todo PR/merge para a branch de release atualize a versão e as notas.
- Amarre o build number ao pipeline (CI) para evitar colisões.
Notas de versão (Release Notes): úteis para usuário e para suporte
Notas de versão são um resumo do que mudou. Elas reduzem tickets de suporte, ajudam QA a validar e servem como histórico para o time.
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Baixar o aplicativo
Formato recomendado (curto e objetivo)
- Novidades: funcionalidades novas.
- Melhorias: performance, UX, ajustes de fluxo.
- Correções: bugs corrigidos.
- Importante: mudanças que exigem atenção (ex.: “é necessário fazer login novamente”).
Exemplo de notas de versão
1.6.0 (build 82) - 2026-01-25 Novidades - Tela de histórico de pedidos com filtros por período Melhorias - Otimização no carregamento inicial Correções - Corrigido erro ao anexar foto em conexões lentas Importante - Usuários podem precisar aceitar novamente a política de privacidadePasso a passo: mantendo um CHANGELOG
- Crie um arquivo
CHANGELOG.mdno repositório. - Adote um padrão por versão (ex.: “Added/Changed/Fixed”).
- Atualize o changelog junto com cada mudança relevante (não só no dia do release).
- No dia do release, revise e gere uma versão “resumida” para a loja.
Validação final antes de publicar (checklist em dispositivos reais)
Em apps híbridos, o comportamento pode variar por dispositivo, versão do sistema, permissões e condições de rede. A validação final deve ser feita em dispositivos reais (não apenas em emulador/simulador).
Checklist prático de validação
- Instalação e primeira abertura: app abre sem travar, sem telas em branco.
- Permissões: solicita somente quando necessário; negação não quebra o app.
- Fluxos críticos: login, cadastro, compra/ação principal, logout.
- Conectividade: modo avião, rede lenta, troca Wi‑Fi/4G/5G.
- Estado do app: minimizar/voltar, rotação (se aplicável), retomada após horas.
- Armazenamento: dados persistidos corretamente após fechar e reabrir.
- Notificações/integrações (se existirem): recebimento e abertura.
- Consumo de bateria: evitar loops, timers agressivos e geolocalização contínua sem necessidade.
- Logs: sem vazamento de dados sensíveis em console.
Passo a passo: roteiro de testes rápido (30–60 min)
- Instale o build “candidato a release” em 2–3 dispositivos diferentes (tamanhos e versões de SO distintos).
- Execute o fluxo principal completo com rede boa e depois com rede ruim.
- Negue permissões e confirme que o app oferece alternativa (mensagem e caminho de recuperação).
- Feche o app durante uma operação (ex.: envio) e reabra para verificar consistência.
- Verifique se telas importantes não têm conteúdo cortado e se botões estão acessíveis.
Fluxo geral de submissão para lojas (visão agnóstica)
Embora cada loja tenha detalhes próprios, o fluxo costuma seguir o mesmo padrão:
- Preparar build de release: compilação final, assinatura e metadados de versão.
- Revisar requisitos legais: política de privacidade, termos, coleta de dados.
- Preencher metadados: descrição, categoria, classificação etária, contato de suporte.
- Enviar binário: upload do pacote e seleção do canal (teste interno/fechado/aberto/produção).
- Revisão: análise automática e/ou humana.
- Publicação: liberação gradual ou total.
- Monitoramento: acompanhar crashes, avaliações e métricas.
Requisitos comuns (independente da loja)
- Política de privacidade: URL acessível e texto claro sobre dados coletados, finalidade e retenção.
- Justificativa de permissões: pedir apenas o necessário e explicar o motivo no contexto (ex.: câmera para anexar foto).
- Dados sensíveis: cuidado com localização, contatos, fotos, identificadores; coletar somente se indispensável.
- Conta de suporte: e-mail/site para contato e resolução de problemas.
- Conteúdo e compliance: evitar práticas enganosas, rastreamento indevido e coleta sem consentimento.
Passo a passo: preparando a documentação mínima
- Crie uma página pública de Política de Privacidade (mesmo para apps simples).
- Liste permissões usadas e escreva uma justificativa curta para cada uma.
- Defina um canal de suporte (e-mail e/ou formulário).
- Prepare textos: descrição curta, descrição longa e “o que há de novo”.
- Garanta que o app tenha uma seção “Sobre” com versão e contato (facilita suporte).
Permissões e privacidade: boas práticas no app
Permissões são um dos principais motivos de reprovação e também de desinstalação. A regra é: mínimo necessário, no momento certo e com explicação.
Boas práticas
- Solicite permissão sob demanda: só quando o usuário aciona a funcionalidade.
- Explique antes do prompt do sistema: uma tela/modal curta dizendo “por quê”.
- Ofereça alternativa: se negar, permitir continuar usando o app com limitações.
- Evite permissões amplas quando uma mais restrita resolve.
- Não registre dados sensíveis em logs (tokens, e-mails, localização precisa).
Manutenção: logs controlados, falhas e observabilidade
Manter um app em produção exige visibilidade do que acontece no dispositivo do usuário. O objetivo é capturar informações suficientes para corrigir problemas, sem expor dados sensíveis.
Logs controlados por ambiente
Uma prática comum é ter níveis de log e desativar logs verbosos em produção.
// logger.service.ts (exemplo simples) export type LogLevel = 'debug' | 'info' | 'warn' | 'error'; export class LoggerService { constructor(private level: LogLevel = 'info') {} private canLog(target: LogLevel) { const order: Record<LogLevel, number> = { debug: 0, info: 1, warn: 2, error: 3 }; return order[target] >= order[this.level]; } debug(...args: any[]) { if (this.canLog('debug')) console.debug(...args); } info(...args: any[]) { if (this.canLog('info')) console.info(...args); } warn(...args: any[]) { if (this.canLog('warn')) console.warn(...args); } error(...args: any[]) { if (this.canLog('error')) console.error(...args); } }Em produção, prefira warn/error e registre apenas o necessário para diagnóstico.
Tratamento de falhas: falhar bem
- Mensagens úteis: “Não foi possível carregar. Verifique sua conexão e tente novamente.”
- Repetição segura: botões de “Tentar novamente” e reexecução idempotente quando possível.
- Fallback de UI: skeleton/placeholder e estados vazios bem definidos.
- Captura global de erros: centralizar erros inesperados para análise.
Passo a passo: checklist de robustez
- Revise pontos de falha: chamadas de rede, parsing, permissões, armazenamento.
- Garanta que cada fluxo crítico tenha estado de carregamento, sucesso e erro.
- Padronize mensagens e códigos internos de erro (ajuda suporte e triagem).
- Adicione um identificador de correlação por sessão (sem dados pessoais) para rastrear incidentes.
Evolução do app: estratégia de releases e compatibilidade
Cadência e canais
Para reduzir risco, use uma estratégia de liberação por etapas:
- Canal interno: time e QA.
- Canal de teste: grupo pequeno de usuários.
- Produção gradual: porcentagem crescente, monitorando crashes e feedback.
Migrações e mudanças de dados
Quando o app evolui, dados locais e formatos podem mudar. Planeje migrações:
- Versione o schema local (ex.:
storageSchemaVersion). - Ao iniciar, se a versão mudou, execute migração incremental.
- Se a migração falhar, tenha plano de recuperação (ex.: limpar cache, manter dados essenciais).
Passo a passo: release com baixo risco
- Congele mudanças para o release (evite “última hora”).
- Gere build candidato e rode checklist em dispositivos reais.
- Atualize versão + notas de versão.
- Publique primeiro em canal de teste e monitore.
- Libere gradualmente para produção e acompanhe métricas.
Organização para futuras funcionalidades (manutenibilidade)
Manutenção não é só corrigir bugs: é preparar o projeto para crescer sem virar um “monólito” difícil de alterar.
Práticas finais de organização
- Documente decisões: um arquivo curto de decisões técnicas (ex.:
docs/decisions). - Padronize branches e tags: tags para releases (ex.:
v1.6.0). - Checklist de PR: inclui atualização de versão/notas quando aplicável.
- Feature flags: habilitar/desabilitar funcionalidades sem novo release (quando fizer sentido).
- Separação por domínio: manter módulos/serviços por feature para facilitar evolução.
Tabela: checklist final antes de enviar um release
| Categoria | Verificar | Exemplo |
|---|---|---|
| Versão | SemVer e build number atualizados | 1.6.0 + build 82 |
| Notas | Release notes revisadas | Novidades/Melhorias/Correções |
| Privacidade | Política publicada e link válido | URL acessível no navegador |
| Permissões | Somente necessárias e justificadas | Câmera apenas ao anexar foto |
| Qualidade | Fluxos críticos testados em dispositivos reais | Login, compra, logout |
| Resiliência | Erros tratados e mensagens claras | Retry em falha de rede |
| Logs | Sem dados sensíveis e nível adequado | Produção com warn/error |
| Monitoramento | Plano de acompanhamento pós-release | Crashes, avaliações, suporte |