Propriedades emergentes: ponto de fusão/ebulição, solubilidade e condutividade

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Propriedades emergentes: a ideia central

As propriedades macroscópicas (ponto de fusão/ebulição, solubilidade e condutividade) emergem de como as partículas estão organizadas e de quão “difícil” é separá-las ou mover cargas através do material. Uma forma prática de pensar é sempre responder a duas perguntas:

  • O que precisa ser vencido para mudar o estado físico ou dissolver? (interações entre partículas ou uma rede inteira)
  • Existem portadores de carga móveis? (íons livres, elétrons deslocalizados, ou nenhum)

1) Ponto de fusão e ponto de ebulição: regra geral de “o que está sendo quebrado”

Regra conceitual 1 — Mudanças de fase não quebram ligações dentro das partículas, mas separam partículas

Ao fundir ou ferver, normalmente você não rompe ligações internas (como dentro de uma molécula); você enfraquece/vence as interações que mantêm as partículas próximas. A exceção prática é quando o “material” não é feito de partículas discretas, mas de uma rede contínua (como certos sólidos de rede), em que separar implica romper a própria estrutura extensa.

Regra conceitual 2 — Identifique se o sólido é “partículas” ou “rede”

  • Sólidos de partículas: unidades discretas (moléculas neutras, átomos, ou íons organizados). Ao fundir, as unidades continuam existindo, mas ficam móveis.
  • Sólidos de rede: uma estrutura extensa em que a unidade se repete formando uma malha contínua. Para fundir, é preciso desorganizar uma grande fração da rede, exigindo muita energia.

Passo a passo prático — Como estimar se PF/PE será baixo, médio ou alto

  1. Classifique o tipo de substância: molecular (moléculas neutras), iônica (cátions/ânions), metálica (átomos metálicos), ou rede covalente (malha extensa).
  2. Pergunte “o que mantém unido?”
    • Molecular: interações entre moléculas.
    • Iônica: atração eletrostática na rede.
    • Metálica: coesão por elétrons deslocalizados.
    • Rede covalente: ligações na própria rede.
  3. Estime a intensidade global usando pistas estruturais:
    • Massa e polarizabilidade maiores tendem a aumentar PF/PE em substâncias moleculares.
    • Forma: moléculas mais “compactas” empacotam melhor e tendem a ter PF maior; moléculas mais ramificadas empacotam pior e tendem a ter PF menor (mesma fórmula pode mudar PF bastante).
    • Capacidade de interagir fortemente: presença de grupos que aumentam atração entre partículas eleva PF/PE.
    • Carga e tamanho dos íons: íons com cargas maiores e raios menores tendem a formar redes mais coesas, elevando PF.
  4. Decida a ordem de grandeza:
    • Baixo: substâncias moleculares pequenas e pouco interativas (muitas são gases ou líquidos à temperatura ambiente).
    • Intermediário: substâncias moleculares maiores/mais interativas; alguns sólidos moleculares.
    • Alto: iônicos, metálicos e redes covalentes (especialmente redes covalentes).

Tabela-resumo de decisão — PF/PE (tendência)

Tipo de materialO que precisa ser vencido para fundir/ferverTendência de PF/PEPistas rápidas
Molecular (moléculas neutras)Interações entre moléculasBaixa a médiaMassa ↑, empacotamento ↑, grupos que aumentam atração ↑
Iônico (rede de íons)Atração eletrostática na redeAltaCarga iônica ↑ e raio iônico ↓ → PF ↑
MetálicoCoesão metálicaMédia a altaVaria muito com o metal e a estrutura
Rede covalenteDesorganizar uma malha extensaMuito altaGeralmente sólidos muito duros e refratários

2) Solubilidade: “semelhante dissolve semelhante” com um checklist

Regra conceitual 3 — Dissolver é trocar interações

Uma substância dissolve quando o sistema consegue substituir interações soluto–soluto e solvente–solvente por interações soluto–solvente suficientemente favoráveis. Por isso, a regra prática é:

  • Solutos polares/iónicos tendem a dissolver em solventes polares.
  • Solutos apolares tendem a dissolver em solventes apolares.

Regra conceitual 4 — Solventes polares estabilizam cargas (solvatação)

Quando o soluto é iônico, dissolver exige separar íons que estavam próximos na rede. Isso só acontece bem se o solvente conseguir solvatar (envolver e estabilizar) cátions e ânions. Em solventes polares, as moléculas orientam suas regiões parcialmente carregadas ao redor dos íons, reduzindo a energia do sistema.

Passo a passo prático — Prever solubilidade (qualitativo)

  1. Identifique o soluto: é iônico? molecular polar? molecular apolar?
  2. Identifique o solvente: é polar (ex.: água, álcoois) ou apolar (ex.: hidrocarbonetos)?
  3. Aplique “semelhante dissolve semelhante”:
    • Iônico/polar + solvente polar → tende a dissolver.
    • Apolar + solvente apolar → tende a dissolver.
    • Iônico em solvente apolar → tende a não dissolver.
    • Apolar em solvente polar → tende a baixa solubilidade.
  4. Refine com dois ajustes comuns:
    • Tamanho do soluto apolar: quanto maior a parte apolar, menor a solubilidade em solvente polar.
    • Presença de “regiões polares” em moléculas: grupos polares podem aumentar solubilidade em solventes polares, mas o efeito pode ser superado por uma grande “cauda” apolar.

Tabela-resumo de decisão — Solubilidade

SolutoSolventeResultado esperadoJustificativa estrutural
IônicoPolarFrequentemente solúvelSolvatação estabiliza íons separados
IônicoApolarPouco solúvel/insolúvelSem estabilização de cargas
Molecular polarPolarSolúvel a moderadoInterações soluto–solvente compatíveis
Molecular apolarApolarSolúvelInterações semelhantes predominam
Molecular apolarPolarBaixa solubilidadeTroca de interações é desfavorável

3) Condutividade elétrica: depende de portadores de carga móveis

Regra conceitual 5 — Conduzir exige carga + mobilidade

Para um material conduzir corrente elétrica, ele precisa ter cargas (elétrons ou íons) e essas cargas precisam estar livres para se mover. A estrutura determina se a carga fica presa (não conduz) ou móvel (conduz).

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Passo a passo prático — Classificar condutividade em diferentes estados

  1. O material é metálico? Se sim, tende a conduzir no estado sólido e líquido (elétrons deslocalizados móveis).
  2. O material é iônico?
    • Sólido: tende a não conduzir (íons presos na rede).
    • Fundido ou em solução aquosa: tende a conduzir (íons móveis).
  3. O material é molecular covalente? Em geral, não conduz (não há íons livres nem elétrons móveis). Exceções envolvem estruturas especiais ou ionização em solução, mas como regra inicial: baixa condutividade.

Tabela-resumo de decisão — Condutividade

Tipo de substânciaSólidoFundidoEm solução (se dissolver)Motivo
IônicaNão conduzConduzConduzÍons só ficam móveis quando não estão presos na rede
MetálicaConduzConduzElétrons deslocalizados móveis
Molecular covalenteNão conduzNão conduz (geralmente)Não conduz (geralmente)Ausência de portadores de carga móveis

Estudos de caso (curtos) com justificativa completa

Caso 1 — Por que o sal de cozinha tem PF alto e conduz só quando dissolvido ou fundido?

Observação: sólido com PF alto; não conduz como sólido; conduz em solução aquosa.

  • Estrutura relevante: rede de íons alternados.
  • PF alto: para fundir, é preciso desorganizar uma rede extensa de atrações eletrostáticas.
  • Condutividade no sólido: não: íons estão fixos em posições; não há mobilidade de carga.
  • Condutividade em solução: sim: o solvente polar solvata e separa os íons, que passam a se mover e transportar carga.

Caso 2 — Água e óleo: por que não se misturam?

Observação: baixa miscibilidade entre um líquido polar e outro apolar.

  • Estrutura relevante: um líquido é polar; o outro é apolar.
  • Regra aplicada: semelhante dissolve semelhante.
  • Justificativa: misturar exigiria substituir interações favoráveis do líquido polar por interações menos favoráveis com moléculas apolares; o sistema tende a separar fases para manter interações mais estáveis.

Caso 3 — Açúcar em água: dissolve, mas não conduz

Observação: alta solubilidade em água; solução não conduz bem.

  • Estrutura relevante: moléculas neutras com regiões polares suficientes para interagir com solvente polar.
  • Solubilidade: interações soluto–solvente são favoráveis, então dissolve.
  • Condutividade: apesar de dissolver, as partículas permanecem como moléculas neutras; não surgem íons móveis em quantidade significativa, então a condução é baixa.

Caso 4 — Metal sólido conduz, mas um sólido molecular típico não

Observação: um fio metálico conduz facilmente; muitos sólidos moleculares não.

  • Estrutura relevante: no metal há elétrons móveis; no sólido molecular há partículas neutras sem portadores de carga livres.
  • Resultado: metal conduz no sólido; sólido molecular é isolante ou mau condutor.

Quadro de decisão integrado (PF/PE, solubilidade e condutividade)

PerguntaSe a resposta for “sim”Previsão principal
É uma rede iônica?Íons organizados em redePF alto; não conduz sólido; conduz fundido/em solução; tende a dissolver em solvente polar
É um metal?Elétrons móveis no sólidoBoa condutividade no sólido; PF/PE variáveis (muitas vezes médios a altos); solubilidade em solventes comuns geralmente baixa
É uma substância molecular?Unidades discretas neutrasPF/PE geralmente menores; solubilidade segue polaridade; condutividade geralmente baixa
É uma rede covalente?Malha extensaPF muito alto; geralmente insolúvel; condutividade geralmente baixa (regra inicial)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Um sólido iônico apresenta ponto de fusão alto e, quando está no estado sólido, não conduz eletricidade. Qual explicação integra corretamente esses dois comportamentos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em sólidos iônicos, fundir exige desorganizar uma rede de atrações eletrostáticas, o que demanda muita energia (PF alto). Já a condução elétrica requer portadores de carga móveis; no sólido, os íons estão fixos na rede e não se movem.

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